NOME DE POBRE NO BRASIL

sábado, 2 de março de 2013

NA MODORRA, À ESPERA DO NOVO PAPA

Com a Sé vacante, à espera do novo Papa, a Igreja governada pelo poderoso cardeal camerlengo, de kamarling, principal oficial dos reis francos nos tempos monárquicos, pensei em escrever sobre a modorra, esta malemolência que nos acomete algumas vezes, exigindo a siesta, um descanso à hora sexta, isto é, ao meio-dia, pois os romanos contavam as horas do dia a partir das seis da manhã. E os espanhóis, que têm muitos descendentes em São Carlos, pronunciavam siesta, que resolvia a modorra, de modorro, palavra que já existia na Hispania, da expressão fenícia i-spn-ea, terras da costa, quando os romanos lá chegaram, ainda antes de Cristo. São Carlos teve também, desde o século XIX, a presença maciça de imigrantes italianos. Mas quando eles aqui chegaram, cá já estavam descendentes de portugueses, como os Botelho, e daqueles que trabalhavam para eles, os escravos, trazidos da África para cá à força. Outras nacionalidades, principalmente europeias, mas não exclusivamente, se fazem representar em nossa cidade. As primeiras evidências estão nos rostos das pessoas, na cor e forma de olhos e cabelos, na língua que falam, nas roupas que usam, nos lugares onde moram, nas igrejas etc. Meu primeiro dia em São Carlos deu-se em abril de 1981, quando vim fazer o concurso para professor de Língua Portuguesa. O prefeito Maffei (italiano) foi logo substituído por Dagnone (italiano) de Melo (português). A UFSCar tinha sido capa da revista VEJA, e o Brasil inteiro ficou sabendo que havia aqui uma importante universidade federal. Talvez a matéria tenha sido deflagrada pelo novo reitor, o médico William Saad Hossne (árabe). Dr. Saad, como era e é mais conhecido, garantia o trato justo, impedindo que os professores, como antes ocorrera, fossem convidados a vir para São Carlos. Não, agora eles entravam por concursos públicos! Estava no Café Dona Júlia, fundado por Marino Pellegrini (olha os italianos aí!), quando Gerson de Toledo Piza (olha os espanhóis aí) me perguntou de que família eu era. Sou da numerosa família Silva, embora minha mãe seja Daboit, um sobrenome italiano. Outros Santos me fazem escrever neste jornal! Marcos Santos, o dono, e Marcos Escrivani, meu atual editor, um dos muitos oriundi desta cidade tão italiana! No rádio, temos Ney Santos, Alberto Santos. Quantos Santos em nossa mídia! A principal marca italiana de São Carlos na paisagem é a Catedral. Parece lembrar que nossos destinos se cruzam com os de Roma, ainda mais agora que enfim o prefeito é Paulo Altomani, outro filho dos oriundi. Que a nova administração saiba reconhecer a cultura múltipla e própria de São Carlos e não exclua ninguém! Temos referências nacionais e internacionais de cientistas, empresários, professores, músicos, escritores etc. Quem administra, deve administrar para todos! Ney Vilela foi uma boa escolha do novo prefeito, pois sempre esteve entre aqueles que defenderam esta visão de cultura. Agora é ora de praticá-la. (xx) • Escritor e professor, Doutor em Letras pela USP, autor de 34 livros.