NOME DE POBRE NO BRASIL

quarta-feira, 31 de julho de 2013

PADRE VIEIRA E O REI SALOMÃO: UM ERRO GENIAL

O famoso orador luso-brasileiro Antonio Vieira (1608-1697), descrevendo o baldaquim do rei Salomão (século X a.C.), cujo nome quer dizer Pacífico, do mesmo étimo de Shalom, paz, chama-o carroça e diz que os pés reais se apoiavam sobre uma representação da caridade, para mostrar que também esta virtude está submetida aos reis. Ele deve ter lido uma tradução equivocada.
Os originais do trecho citado, o Cântico dos Cânticos, tanto em Hebraico, como em Grego e em Latim, informam que “as filhas de Jerusalém enfeitaram com amor o revestimento do tálamo”. Antigos estudiosos da Bíblia evitavam traduzir o Latim charitas por amor. Preferiam caridade. Mas nas epístolas de São Paulo (10-67) o Latim charitas é traduzido amor: “Ainda que eu falasse todas as línguas do mundo, sem amor eu nada seria”.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

SEMPRE É BOM VOLTAR A FLÁVIO LOUREIRO CHAVES

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/noticia/2012/12/flavio-loureiro-chaves-o-tempo-e-o-vento-foi-mal-avaliado-3982785.html

domingo, 28 de julho de 2013

HINO AO PAPA, EM LATIM, AO SOM DE UM CORAL EXTRAORDINÁRIO

Hino Nacional do Vaticano, o mesmo que postei há pouco, desta vez cantado em Latim por um coral extraordinário. Que bem faz a nossos ouvidos, sobretudo no encerramento da visita do Papa Francisco ao Brasil! http://www.youtube.com/watch?v=mDV48bsquew

HINO AO PAPA: "DOCE AMOR FRATERNO" (EM PORTUGUÊS)

http://www.youtube.com/watch?v=7vBWjw0A6PI

ATÉ DE REPENTE, PAPA!

"Há braços" para o Papa! Ele foi embora! Ficou uma semana conosco! Deixou muitas saudades! Ele trouxe uma boa pauta. Todos os dias os jornais tinham boas notícias a seu respeito. Muito obrigado pelos bons momentos que nos proporcionou! Boa viagem, Santidade! Vai com Deus!E volte sempre que puder!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O PAPA FALA BEM E NÃO CHATEIA NINGUÉM

Os padres letrados José de Anchieta e Manoel da Nóbrega eram jesuítas e aprenderam o Tupi-guarani para falar com os índios. O Papa Francisco, que também é jesuíta, aprendeu Português para falar com os brasileiros. Entre tantas lições, o Papa mostrou que não é preciso baixar o nível para se aproximar do povo. Basta escolher as palavras adequadas ao contexto. Por exemplo, preferiu o popular botar, em vez de pôr, colocar. Em seu primeiro discurso, disse: “Cristo bota fé nos jovens, e os jovens botam fé em Cristo”. Na quinta-feira, falando a mais de um milhão de pessoas na praia de Copacabana, recomendou: “Bote fé, bote esperança, bote amor”. O Sumo Pontífice, que é poliglota, vem usando muitas gírias em suas falas, entrevistas e homilias na Jornada Mundial da Juventude. Seu bom humor também já era esperado. No mês passado, comentando as semelhanças entre o Português e o Espanhol, disse de brincadeira: “o Português é um Espanhol mal falado”. Suas falas no Brasil foram marcadas por expressões populares. Quando visitava a favela de Varginha, em Manguinhos, nos arredores do Rio, disse: “Vocês sempre dão um jeito de compartilhar a comida. Como diz o ditado, sempre se pode 'colocar mais água no feijão'". E perguntou ao povo: "Se pode colocar mais água no feijão?”. Aplaudido, completou: “Sempre! E vocês fazem isto com amor, mostrando que a verdadeira riqueza não está nas coisas, mas no coração”. Disse também: “Queria bater em cada porta, dizer bom dia, beber um copo de água fresca, beber um cafezinho. Mas não um copo de cachaça!". O Papa escolheu por metáfora “um copo de cachaça”, a bebida mais popular do Brasil. Todavia não foi apenas pelas palavras e expressões que ele cativou o povo brasileiro. Sem conteúdo, as gírias e expressões seriam apenas enfeites de suas falas, que entretanto comoveram a muitos pela sinceridade do olhar, como quando disse: “Aprendi que para ter acesso ao povo brasileiro, é preciso ingressar pelo portal do seu imenso coração; por isso, permitam-me que nesta hora eu possa bater delicadamente a esta porta. Peço licença para entrar e transcorrer esta semana com vocês”. Outro momento que mexeu muito com as pessoas foi quando declarou: “Não tenho ouro, nem prata, mas trago o que de mais precioso me foi dado: Jesus Cristo!“. Neste momento, aqueles que aguardavam a visita do Papa apenas para fazer negócios, como Eike Batista, cuja fortuna passou de 46 bilhões para “apenas” 300 milhões em poucos dias, deixaram o recinto, segundo o tradicional humor dos cariocas, que também inventaram súbitos milagres do Papa: não foi assaltado na Linha Vermelha, mesmo com a janela do carro aberta; fez o povo aplaudir um argentino; mesmo engarrafado no Rio, ninguém tentou vender-lhe nada; andou de saia em Copacabana à noite e não levou nenhuma cantada. Esse Papa é uma boa pessoa. E o convívio com uma boa pessoa sempre nos faz bem! (xx) º Da Academia Brasileira de Filologia, escritor e professor, doutor em Letras pela USP (xx).

FRIO NO RIO: O PAPA, MANUEL BANDEIRA E O SAPO CURURU

Nosso cancioneiro tem "Sapo Cururu", cantiga, de roda. Sapo cururu, Na beira do rio Quando o sapo canta, ó maninha É porque tem frio A mulher do sapo Deve estar lá dentro Fazendo rendinha, ó maninha Pro seu casamento. E "Os Sapos", belo poema de Manuel Bandeira. Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra. Em ronco que aterra, Berra o sapo-boi: - "Meu pai foi à guerra!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". O sapo-tanoeiro, Parnasiano aguado, Diz: - "Meu cancioneiro É bem martelado. Vede como primo Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos. O meu verso é bom Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio. Vai por cinquenta anos Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A fôrmas a forma. Clame a saparia Em críticas céticas: Não há mais poesia, Mas há artes poéticas..." Urra o sapo-boi: - "Meu pai foi rei!"- "Foi!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!". Brada em um assomo O sapo-tanoeiro: - A grande arte é como Lavor de joalheiro. Ou bem de estatuário. Tudo quanto é belo, Tudo quanto é vário, Canta no martelo". Outros, sapos-pipas (Um mal em si cabe), Falam pelas tripas, - "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!". Longe dessa grita, Lá onde mais densa A noite infinita Veste a sombra imensa; Lá, fugido ao mundo, Sem glória, sem fé, No perau profundo E solitário, é Que soluças tu, Transido de frio, Sapo-cururu Da beira do rio...

quinta-feira, 25 de julho de 2013

PAPA FRANCISCO AOS POUCOS TRAZ DE VOLTA O LATIM

Sei que é polêmica a sutil volta ao Latim na liturgia católica. Na década de 60, o Concílio Vaticano II adotou o vernáculo (a missa passou a ser rezada na língua de cada país onde era celebrada), jogando fora um patrimônio cultural e artístico de dois mil anos! O Direito, por exemplo, não abre mão de expressões latinas. Sabe que sem elas empobrecerá juízos, argumentações, defesas, acusações etc. Também a fauna, a flora, a medicina e muitos outros saberes jamais dispensaram o Latim e o mantiveram em nome da precisão. Por que a Igreja quase excluiu o Latim? Digo quase porque as encíclicas e muitos outros documentos decisivos continuam a ser escritos em Latim. A intenção de abandonar o Latim em nome da simplicidade foi boa, mas os resultados foram no mínimo controversos. Não estão aí as missas solenes, o cancioneiro religioso tão bonito com orações em Latim? Muitos cantores populares trouxeram o Latim para suas músicas, como fizeram Madonna, Sara Brightman, Andrea Bocelli, Luciano Pavarotti e tutti quanti. E a Igreja também está voltando ao Latim! É bem-vinda esta volta. O Latim não é apenas preciso, é uma língua bonita e repleta de sutis e fascinantes complexidades! Sacerdotes que fazem grosseiros erros de Português, quando falam e quando escrevem, precisarão estudar Latim. E também Português! Aliás, uma das coisas a corrigir é isso: na pressa de disputar com pastores das seitas paralelas ao cristianismo, a Igreja entregou seu rebanho a padres desqualificados. A pedofilia de alguns deles escandaliza. E a ignorância, como sempre, não causa escândalo algum? Também os padres precisam estudar. A volta ao Latim será um bom recomeço!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

ETIMOLOGIAS DE ALCUNHA, MÚMIA, PIOLHO, TÔNICO ETC.

Alcunha: do Árabe al-kúnya, sobrenome. O dentista e principal líder da Inconfidência Mineira Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792) é mais conhecido por sua alcunha, Tiradentes. Às vezes, a alcunha se confunde com o apelido. A semelhança entre tônico e Tonico, apelido de Antônio Carlos Gomes (1836-1896), ensejou uma brincadeira com uma propaganda de um tônico para os cabelos no Brasil do século XIX. Como o compositor brasileiro e maestro usasse cabelos compridos, que eram moda na época, jovens alteraram o cartaz, mudando a propaganda: de “tônico para os cabelos” para “Tonico, apara os cabelos”.
Distante: do Latim distante, declinação de distans, do mesmo étimo de distare, pela construção dis e stare, não estar. A distância machuca as pessoas amadas e em nosso cancioneiro são célebres os versos de Quem Sabe, compostos pelo advogado, espírita e político brasileiro Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834-1895) e musicados por Carlos Gomes, quando, morando no Rio, sentia saudade da namorada que deixara em Campinas (SP), sua terra natal: “Tão longe de mim distante?/ Onde irá, onde irá teu pensamento/ Tão longe de mim distante?/ Onde irá, onde irá teu pensamento/ Quisera, saber agora/ Quisera, saber agora/ Se esqueceste, se esqueceste, se esqueceste o juramento. Quem sabe se és constante/ Se ainda é meu teu pensamento/ Minh’alma toda devora/ Dá a saudade, dá a saudade agro tormento./ Tão longe de mim distante?/ Onde irá, onde irá teu pensamento/ Quisera, saber agora/ Quisera, saber agora/ Se esqueceste, se esqueceste, se esqueceste o juramento”. Múmia: do Latim mumia, cera, palavra vinda do Persa mum pelo Árabe mumya, que designa no Português o cadáver embalsamado. A múmia mais célebre do antigo Egito é a do faraó Tutancâmon (1354-1346 a.C.). Por muito tempo se acreditou que ele tinha sido morto por um de seus conselheiros, que se casou com a viúva, mas em 2010 pesquisadores egípcios, alemães e italianos descobriram que sofria da doença de (Alban) Kohler (1874-1947), radiologista alemão que descobriu uma desordem rara nos ossos do pé da criança, que impede a irrigação sanguínea. O faraó sofria desta doença e pegou malária. Quer dizer, o conselheiro era inocente, o assassino tinha sido um mosquito. Noite: do Latim nocte, declinação de nox, tempo entre 18h00 e 6h00. Aparece no título da primeira ópera de Carlos Gomes, A Noite do Castelo. Nascido a 11 de Julho de 1836, mas já estudando na Itália, ao ouvir, aos 20 anos, que um menino apregoava a venda do romance do escritor brasileiro José de Alencar (1829-1877) O Guarani, gritando pelas ruas “Il Guarany, Il Guarany, storia interessante del selvaggi del Brasile” (“O Guarani, O Guarani, história interessante dos selvagens do Brasil”), comprou o folheto e compôs a mais famosa de suas óperas. A estreia em Milão levou o compositor italiano Giuseppe Verdi (1813-1901) a dizer: “Questo giovane comincia dove finisco io” (“Este jovem começa onde eu termino)”. Piolho: do Latim pediculus, peduculus no Latim vulgar, designando inseto malófago, isto é, que come cabelos. Mallós, em Grego, é mecha de cabelo, e phagos o étimo de comer, presente em antropófago, aquele que come carne humana, pois o Grego ánthropos designa homem, como em antropologia, estudo do homem. Os piolhos atacaram personalidades como Cleópatra VII (69-30 a.C.), a mais famosa das rainhas egípcias com este nome, a quem fizeram perder os cabelos, antes que ela perdesse a cabeça por seus amantes. Tônico: do Grego tonikós, que aumenta a energia, revigora. É do mesmo étimo de tónos, tensão, força. A própria palavra serve de exemplo, pois a primeira sílaba é tônica, isto é, forte. E o nome de um dos mais famosos almanaques brasileiros, o Biotônico Fontoura, resultou de junção de um xarope ainda hoje vendido nas farmácias, que vinha acompanhado da história de Jeca Tatu, personagem imortal do escritor brasileiro José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), para quem o personagem preguiçoso era o símbolo do caboclo brasileiro, pobre e atrasado porque o meio não era hostil.

NA RÚSSIA, TODOS OS CARROS TÊM CÂMERAS...E O QUE SE VÊ?

http://www.youtube.com/embed/5RAaW_1FzYg?autoplay=1&modestbranding=1&rel=0&showinfo=0

VELHOS E NOVOS MUNDOS SOB AS PALAVRAS

1. A Jornada Mundial da Juventude celebra uma idade situada entre a infância e a velhice, as duas pontas da vida, cujas fronteiras variam muito, mas preservam o essencial: a saúde, a beleza e a alegria próprias dessa idade. A origem da palavra juventude é o Latim Juventus. Do mesmo étimo é Júnior, o que é mais jovem, o filho mais novo, mas que depois passou a designar aquele que tem o mesmo nome do pai, tornando-se sinônimo de filho nos sobrenomes, uma atribuição exclusivamente masculina. Existe José da Silva Filho ou Júnior, mas não há Maria da Silva Filha. E júnior não tem feminino. (O feminino de júnior não é sandy....) Na Grécia antiga a deusa da juventude era Hebe. Em Roma, Juventus. Ambas as deusas cantavam e dançavam ao som da lira. Quer dizer, a música e o movimento são característicos dos jovens desde a Antiguidade. Lira, instrumento musical com cordas semelhantes aos sulcos traçados pelo arado ao lavrar a terra. Por isso, quem delira, por metáfora, é quem sai desses traçados da vida. Há muitos mundos sob as palavras. Essas ideias ficaram preservadas nas palavras porque as sociedades antigas foram mais rurais do que urbanas. Ao contrário de hoje, quando a maior parte das pessoas mora em cidades, o povo morava na roça. Paganus, em Latim, quer dizer rural, rústico, rude, simples. Por isso erudito é o ex-rude, aquele cuja cultura vai além da cultura da terra e do corpo, que cultiva também o espírito.
2. O pavão tem a cauda enfeitada com os cem olhos de Argos Panópticos, o deus que tudo via e que fechava apenas a metade deles para dormir, cuja cabeça foi cortada por Mercúrio para poder libertar Io, amante de Zeus, que a transformara em vaca, com o fim de esconder da esposa Hera esse amor ilícito. Hera ficou com pena dele, recolheu seus olhos e os pôs na cauda do pavão para perpetuar sua beleza.
3. Todas as sociedades, mesmo as mais modernas, já foram pagãs, isto é, rurais. E as palavras revelam ou ocultam esses passados. Os deuses Juventus e Júpiter estão na origem de palavras como juventude, jovem, jovial etc.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

PAPA ENGARRAFADO! SÓ NO BRASIL! SÓ NO RIO!

As autoridades brasileiras estão se culpando umas às outras, mas a verdade é que alguém errou ao conduzir o papa do aeroporto ao centro do Rio. Em vez de trafegar pelas ruas liberadas exclusivamente para Sua Santidade passar, os guias tomaram um desvio e jogaram o automóvel do Papa no meio da multidão. Felizmente tudo terminou bem e o caminho correto foi retomado sem incidentes.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

A INFLAÇÃO ESTÁ DE VOLTA

O que devemos fazer em caso de perigo? O mínimo é avisar aos outros: de uma ponte quebrada numa curva, de um trecho engarrafado, de uma árvore que a tempestade jogou no meio da rua. Etc. Não é assim que fazemos na vida? Pois o único que evita falar em inflação é o governo. Torra bilhões de dólares na compra de dólares para evitar a alta do dólar, uma providência que só serve para queimar dinheiro à toa, pois o dólar já rompeu a barreira dos R$ 2 há muito tempo. Quando o real foi lançado, o dólar estava abaixo de R$ 1. Mas onde é que você nota que o governo tenta nos enganar? Não sou economista, apenas me incluo entre aqueles que abominam os economistas do “a favor” para eles dizerem tantas bobagens na mídia: nos programas de televisão, no rádio, em revistas, jornais, blogues etc. É só procurar que lá no fundo, escondidinho, encontraremos um dinheiro do governo subsidiando as colunas...Com a internet, está a cada dia mais difícil enganar o distinto público. Ainda mais se o projeto é enganar o seleto público leitor que entende o que lê, composto por 26% dos que leem, segundo amostra nacional do IBGE. Todos podem comprovar que a inflação voltou. O modo mais simples é ir ao supermercado. Mas há outros modos de fazer isso. Exemplo: examine seus custos de ir ao cinema com a família. Os ingressos hoje são “combo”, um neologismo vindo do Inglês, designando combinações de custos. Pois bem! Para ir ao cinema no Rio, o combo – inclui ingresso, pipoca, refrigerante, caramelo ou outra guloseima qualquer – pode chegar a R$ 142 para uma pessoa. Inacreditável, não é? Pois me permitam explicar-lhes. Durante o meu primeiro ano no Rio (2003), eu tomava um táxi na Av. Lúcio Costa e ia ao cinema, no Barrashopping. O táxi custava algo em torno de R$ 30 ida e volta. Se fosse ao Dowtown, era R$ 20. O ingresso custava um dígito. O mais caro era R$ 9. Gastava R$ 5 com a pipoca, o refrigerante e o caramelo. Total: R$ 44, no primeiro caso. E eu achava muito caro! Se repetir isso hoje, gastarei R$ 108 para ir ao cinema, sozinho. Se quiser ir a um cinema chique, que antes não havia, mas agora há, pagarei no Village Mall, ao lado do Barrashopping, R$ 56 de ingresso; R$ 16 de pipoca (R$ 6 pelo milho e R$ 10 de azeite trufado espalhado sobre os grãos estourados). Mas se eu estiver com fome e quiser fazer um lanche, em vez de comer pipoca, e, sendo domingo, tomar um gole de vinho, o custo total é o seguinte: 1) táxi: R$ 60; 2) ingresso: R$ 56; 3) lanche e meia garrafa de vinho: 133; (4) água: R$ 6. Total: R$ 255. Bem, agora tenho carro, não tomo mais táxi (mas há um custo...), passei dos 60 anos (pago 50% do ingresso) e o custo cai para R$ 166. Se não fizer o lanche nem tomar o vinho, gastarei R$ 50, pois comerei pipoca e tomarei um refrigerante. O cinema que eu frequento vende cinco toneladas de milho por mês. Daqui a pouco entraremos em silêncio, mas sairemos relinchando. (xx) º Da Academia Brasileira de Filologia, escritor e professor, doutor em Letras pela USP (xx).

quinta-feira, 18 de julho de 2013

ETIMOLOGIAS DE BIBLIOTECA, TUTTI QUANTI, GREVE, SABOTAGEM

Biblioteca: do Grego biblíon, livro, e theke, cuidado e também caixa, depósito, formou-se bibliotheke, passando ao Latim biblioteca e daí ao Francês bibliothèque e ao Português biblioteca, designando o lugar onde são guardados livros e documentos e o próprio acervo, atualmente também armazenado de forma digital, possibilitando a consulta em livros e documentos impressos, mas também em arquivos eletrônicos. A maior biblioteca do mundo é a do Congresso dos Estados Unidos, com 1348 quilômetros de estantes, fundada em 1800, que hoje conta com 155 milhões de itens. Transferida da Filadélfia para Washington, era de uso exclusivo dos congressistas, mas desde 1897 está aberta ao público. No Brasil, a maior é a Biblioteca Nacional, também a maior da América Latina e a sétima do mundo. Foi trazida de Portugal pelo então príncipe regente dom João VI (1767-1826) em três viagens realizadas entre 1810 e 1811, pois tinha sido esquecida no embarque apressado. Propriedade de Portugal, ela foi comprada pelo Brasil em 29 de agosto de 1825 por 2 milhões de libras esterlinas. Doce: do Latim dulce, também nome de pessoa, designando guloseima, do Latim gulosus, isto é, que vive colocando comida pela gula, garganta. Especialmente o público infantojuvenil e adolescente adora comer doces e guloseimas, como o tutti-frutti, todas as frutas, basicamente banana, laranja, abacaxi e morango. Na Europa, leva figo, ameixa e damasco. Todavia, o sabor foi criado pelo norte-americano Roy Motherhead em homenagem à sua filha Charlotte, cujo apelido era Toodie, que soava túdi, daí o neologismo misturando Inglês e Italiano. E tutti quanti: do Italiano tutti quanti, todos quantos, expressão alternativa para etc., do Latim et cetera, e outros. A presença da língua e da cultura italianas no Brasil tem um viés bem diferente de outras manifestações suas em outras nações, pois desde o século XIX os imigrantes italianos para cá vieram, aqui se fixaram e desde então, com seus descendentes, matizaram a cor dos brasileiros, seus usos e costumes, sua culinária, sua religiosidade etc. O Italiano está presente também nos cardápios dos restaurantes.
Greve: do Francês grève, palavra que originalmente, vinda do Latim grava, designava cascalho, areia grossa. Tomou o sentido de interromper as atividades porque operários franceses, para protestar contra as condições de trabalho, faziam suas reuniões e assembleias num terreno coberto de cascalho, em frente ao Palácio da Municipalidade, em Paris, a Place de Grève, atualmente Place de L’Hôtel-de-Ville. Quando os patrões param, diz-se que houve locaute, do Inglês lock out, fechar, trancar as portas (das fábricas) com cadeados. Mas os movimentos de interrupção do trabalho podem ter outros nomes, como movimento paredista e sabotagem. Paredista: de parede, do Latim vulgar parete, a partir do Latim clássico pariete, declinação de paries. Os operários, para conseguir que outros aderissem à greve, faziam uma parede de gente impedindo que outros entrassem nas fábricas. Ou então organizavam piquete, do Francês piquet, estaca onde eram amarrados os cavalos dos soldados, prontos para o ataque. Por isso, piquete veio a designar grupo em desfile ou guarda de honra, destacamento militar, mas também grupo de operários que cercam os outros, impedindo-os de trabalhar e levando-os a parar também.
Sabotagem: do Francês sabotage, de sabot, tamanco. Tomou o sentido de impedir alguma coisa porque os trabalhadores franceses, para impedir o trabalho de outros e fazer com que aderissem à greve,ou para prejudicar os patrões, jogavam seus tamancos nas engrenagens das máquinas, levando-as a parar. A fábrica virava uma bagunça, palavra cuja origem ainda nos é desconhecida, mas que ganhou o sentido de baderna por causa de Maria Baderna (1828-?), bailarina e cantora italiana que se refugiou no Brasil na primeira metade do século XIX, e misturava canções populares no seu repertório, levando uns a protestar, sapateando ou batendo bengalas no chão. E outros a proclamar aos gritos seus apoios, gerando confusão.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O QUE VOCÊ FOI FAZER NO MATO, MARIA CHIQUINHA?

http://letras.mus.br/sandy-e-junior-musicas/149622/
Hoje, 17 de Julho, a folhinha do calendário nos lembra que devemos proteger as florestas. A própria FOLHINHA remete às folhas das árvores que integram a FLORESTA. E das três maiores florestas urbanas do Brasil, duas estão no Rio de Janeiro: a da Tijuca e da Pedra Branca. A outra é a da CANTAREIRA, que fica em São Paulo,e tem este nome porque fornecia muita água limpa e fresca a ser guardada em CÂNTAROS, palavra do mesmo étimo do inseto CANTÁRIDA, porque essas vasilhas tinham asas. Os antigos comiam esse inseto misturado com mandrágora, aos quais creditavam propriedades afrodisíacas. FLORESTA veio do Latim "forestis", variante de "silva", selva. Ganhou o som e a letra "L" no meio por seus notórios vínculos com FLOR. Virou então FLORESTA e não FORESTA. Silva tornou-se um dos sobrenomes mais populares do Brasil porque depois da Abolição os escravos receberam o sobrenome de seus patrões. As famílias chamadas Silva tinham muitos escravos, até então conhecidos apenas por prenomes ou apelidos. Ocorreu algo semelhante como o sobrenome "dos santos" porque esses escravos trabalhavam para os padres, que eram chamados de santos. Na antiga Roma, berço do Latim, a língua-mãe do Português, a "silva", selva, ficava longe de casa, designando o mato, e a "forestis", floresta, ficava fora, como a etimologia da palavra indica, pois é a mesma de fórum, do Latim "forum", a parte da casa que ficava entre a construção e o muro, que depois mudou de significado para designar o local onde eram resolvidos os conflitos, o que não fosse resolvido ali era desaforo (des-a-foro). A floresta era a vegetação que ficava perto de casa, aonde se ia para passear, descansar, pensar etc. Quando Roma invadiu a Germânia, atual Alemanha, trouxe de lá a palavra "Bosk", que adaptou para "boscus", como variante de "forestis". O Português tornou sinônimos SELVA e FLORESTA. E no século VI passou a usar também MATA, do Latim tardio "matta", terreno com arbustos, plantas menores, juncos (onde vive o MATuto), que depois teve seu sentido alargado, tornando-se sinônimo de SELVA e de FLORESTA. Assim, dizemos FLORESTA AMAZÔNICA, mais do que SELVA AMAZÔNICA, MATA ATLÂNTICA e FLORESTA DA TIJUCA, e jamais SELVA DA TIJUCA, porque a da Tijuca está perto de nós, retomando assim o antigo significado latino. As florestas brasileiras compõem o maior bioma do mundo. Aliás, de toda a biodiversidade do mundo, um terço está no Brasil.(XX)

LAVADORA E FORNO DE MICRO-ONDAS NÃO SÃO INTERNET...

No filme "Estamos todos bem", do Giuseppe Tornatore, o mesmo de "Cinema Paradiso", Marcello Mastroainni, um avô que vai visitar familiares que não vê há algum tempo, vê-se em apuros com uma criança manhosa e chorona. Os pais dela não estão em casa e ele tenta de tudo para acalmá-la. Como último recurso, como o televisor pifou, o velhinho liga a lavadora de roupas. A criança vê-se refletida no visor da máquina em meio ao redemoinho das roupas sendo sacudidas, e a babá eletrônica (televisor) é substituída pela lavadora. Foi desta cena que me lembrei ao ver esses dois cartuns.

terça-feira, 16 de julho de 2013

A ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS NÃO É DELE!

A Oração de São Francisco de Assis, tão bonita, pregando a paz, não é de São Francisco de Assis. É de autoria anônima: um católico a escreveu e a entregou ao padre da paróquia. Foi publicada pela primeira vez em 1912. Os jornais que mais a divulgaram foram o La Croix (francês) e o L´osservatorio romano (do Vaticano). Nos anos 20, um folheto com a imagem de São Francisco de Assis trazia no verso a oração, então já famosa, e a autoria foi atribuída ao santo. O poeta Manuel Bandeira fez uma versão diferente. Na revista Língua Portuguesa (nas bancas), Gabriel Perissé fez um belo trabalho comparando algumas traduções desta prece comovente por sua simplicidade e delicadeza nos generosos pedidos que faz ao Senhor.

sábado, 13 de julho de 2013

EDWARD SNOWDEN NÃO SABE DE NADA

Minha crônica deste fim de semana. A versão impressa sai no jornal Primeira Página.
Essas bisbilhotagens todas que estão acontecendo na internet me fazem viajar de volta à infância, quando todos sabiam de tudo da vida alheia. Não havia computadores nem celulares, mas ainda assim os vizinhos sabiam mais do que deviam. E os que não eram vizinhos, logo ficavam sabendo também, uma vez que todos contavam tudo para todo mundo, sempre de um modo diferente, pois quem conta um conto, aumenta um ponto.
A fofoca corria, ou melhor escorria, de boca em boca. A fofoca é uma das mais sólidas provas de solidariedade. A pessoa que faz fofoca, está preocupada com a vida alheia. Esta definição não é minha, é de Mário Quintana, e eu a ouvi muitas vezes antes de ela ser escrita, na casa de Nydia e Josué Guimarães, meus queridos amigos, infelizmente já falecidos os dois, pois tudo passa nesta vida, e passam também as pessoas que amamos. À definição do poeta acrescentei mais duas características da fofoca. O fuxico demonstra que a pessoa não é indiferente, é modesta, em vez de cuidar da própria vida, cuida da dos outros. E outro traço dos fofoqueiros é a delicadeza: em vez de falar na frente o que acham e sabem da pessoa de quem falam, o que poderia ser uma rudeza, falam pelas costas, sem causar constrangimento. Às vezes, aliás, a pessoa não fica sabendo quem foi quem falou o quê a seu respeito. Muito antes de 1984, o celebérrimo romance de George Orwell, em Siderópolis (SC) e em Jacinto Machado (SC) também, o Grande Irmão, uma entidade formada de centenas ou milhares de pequenos irmãos, sabia de tudo a respeito de todos. Edward Snowden, menino, preste atenção! Foi sempre assim! A diferença é que em Siderópolis e em Jacinto Machado todos sabiam de tudo sem computadores e sem telefones celulares. Passei toda a minha infância sem telefone fixo! Aliás, uma das instituições mais referenciais daqueles anos eram os Correios e Telégrafos. Más línguas diziam que dali jorravam muitas notícias. Às vezes muitas outras pessoas sabiam da novidade ainda antes do destinatário! Saiu uma pesquisa recente nos EUA, o país onde foram inventados a internet o telefone celular, o smartphone etc. Pois bem, eis as descobertas: 78% dos jovens entre 13 e 1 7 anos já têm seus próprios celulares. E 47% deles têm smartphones. Cada um deles manda cerca de 60 mensagens por dia. E 23% deles já têm e usam tablets também. Na internet roda um cartum que resume tudo: uma criança se queixa a Barack Obama: “meu pai disse que o senhor nos monitora pela internet”. E o presidente dos EUA replica: “Ele não é seu pai”. Surpreso, eu? Tudo igualzinho à minha infância profunda! Mudaram apenas os meios, os fins continuam os mesmos. Temos grande atração pela vida alheia. Aliás, muito parecida com a de todos nós, embora, claro, ninguém queira reconhecer esta verdade religiosa e psicanalítica. Havia uma exceção: só quem não contava nada era o padre. E ele é quem sabia mais do que todos os outros. (xx). º Da Academia Brasileira de Filologia, escritor e professor, doutor em Letras pela USP (xx).

CASAMENTO DO EDITOR PP & CH EM SÃO PAULO

No dia 11 deste Junho, casaram-se Pedro Paulo Braga de Sena Madureira, meu editor por 25 anos, e Carlos Henrique Lamothe Cotta, ambos meus queridos amigos de muitos anos, aos quais muito admiro e quero bem. Estavam na cerimônia e no almoço de celebração alguns de seus mais verdadeiros amigos,que sempre estiveram, sempre estão e sempre estarão ao lado deles, como as duas Lígias: a escritora Lygia Fagundes Telles e a editora Lígia Siciliano.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

UM ERRO DE PORTUGUÊS NO BEM-AMADO

Na caixinha com dez cedês de "O Bem-amado", a TV Globo informa: "O Bem Amado se renova a cada vez que você o assiste e ri com ele." Há dois erros de Português na frase! O correio é O Bem-amado, como era no título original (com hífen), e o verbo assistir, no sentido de ver, é transitivo indireto. O correto é: "A cada vez que você assiste a O Bem-amado, ele se renova e você ri com ele".

quinta-feira, 11 de julho de 2013

CARTUM SOBRE O BRASIL, EM INGLÊS, NOS EUA

Cartum de Patrick Chappatte, publicado nos EUA. A presidente Dilma Rousseff diz: "Isso nos faz parecer um país de Terceiro Mundo". E o assessor acrescenta: "Pior. Como a Europa!".

ETIMOLOGIAS DE ALCUNHA, MÚMIA, PIOLHO, TÔNICO, TONICO ETC

Alcunha: do Árabe al-kúnya, sobrenome. Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792) é mais conhecido por sua alcunha, Tiradentes. Às vezes, a alcunha se confunde com o apelido. A semelhança entre Tônico e Tonico, apelido de Carlos Gomes, ensejou uma brincadeira com uma propaganda de um tônico para os cabelos no Brasil do século XIX. Como o famoso maestro usasse cabelos compridos, como então era moda, jovens alteraram o cartaz, mudando a propaganda: de “tônico para os cabelos” para “Tonico, apara os cabelos”. Distante: do Latim distante, declinação de distans, do mesmo étimo de distare, pela construção dis e stare, não estar. A distância sempre machucou as pessoas amadas e no cancioneiro são célebres os versos de Quem sabe, compostos pelo advogado, espírita e político brasileiro Francisco Leite de Bittencourt Sampaio (1834-1895), musicados por Antônio Carlos Gomes (1836-1896), quando, morando no Rio, sentia saudades da namorada que deixara em Campinas, no interior de São Paulo, sua terra natal: ”Tão longe de mim distante?/ Onde irá, onde irá teu pensamento/ Tão longe de mim distante?/ Onde irá, onde irá teu pensamento/ Quisera, saber agora/ Quisera, saber agora/ Se esqueceste, se esqueceste Se esqueceste o juramento”. Quem sabe se és constante/ Se ainda é meu teu pensamento/ Minh'alma toda devora/ Dá a saudade dá a saudade agro tormento./Tão longe de mim distante?/ Onde irá, onde irá teu pensamento/ Quisera, saber agora/ Quisera, saber agora/ Se esqueceste, se esqueceste Se esqueceste o juramento”. Múmia: do Latim mumia, cera, palavra vinda do Persa mum pelo Árabe mumya, que veio a designar no Português o cadáver embalsamado. A múmia mais célebre do antigo Egito é a de Tutancâmon (1354-1346 a.C.). Por muito tempo acreditou-se que o faraó tinha sido morto por um de seus conselheiros, que se casou com a viúva, mas em 2010 pesquisadores egípcios, alemães e italianos descobriram que ele sofria da doença de (Alban) Kohler (1874-1947), radiologista alemão que descobriu uma desordem rara nos ossos do pé da criança, que impede a irrigação sanguínea. O faraó sofria desta doença e pegou malária. Quer dizer, o conselheiro era inocente, o assassino tinha sido um mosquito. Noite: do Latim nocte, declinação de nox, tempo decorrido entre 18h e 6h, variando de acordo com as regiões, mas entendido em geral como horário em que está escuro, depois do pôr do sol até ao amanhecer no dia seguinte. Aparece no título da primeira obra musical de Antônio Carlos Gomes, A Noite do Castelo. Nascido a 11 de Julho de 1836, mas já estudando na Itália, ao ouvir, aos vinte anos, que um menino apregoava a venda do romance de José de Alencar, O Guarani, gritando pelas ruas “Il Guarany, il Guarany, storia interessante del selvaggi del Brasile” (O Guarani, O Guarani, história interessante dos selvagens do Brasil) comprou o folheto e compôs a mais famosa de suas óperas, cujos acordes ainda hoje abrem a Voz do Brasil. O mote famoso inspirou o título do romance do escritor Rubem Fonseca (88), O Selvagem da Ópera. A estreia em Milão levou Giuseppe Verdi (1813-1901) a dizer: “Questo Giovane comincia dove finisco io” (este jovem começa onde eu termino)”.
Piolho: do Latim pediculus, peduculus no Latim vulgar, designando inseto malófago, isto é, que come cabelos. Mallós, em Grego, é mecha de cabelo, tufo de lã, e phagos é o étimo de comer, presente em antropófago, aquele que come carne humana, pois o Grego ánthropos designa homem como em antropologia, estudo do homem. Os piolhos atacaram célebres personalidades históricas, como Cleópatra VII (69-30 a.C.), a mais famosa das rainhas egípcias com este nome, a quem os piolhos fizeram perder os cabelos, antes que ela perdesse a cabeça por seus amantes. Com piolhos, careca, enorme nariz e queixo pontudo, foi imortalizada no cinema pela belíssima atriz inglesa Elizabeth Taylor (1932-2011). Tônico: do Grego tonikós, que aumenta a energia, dá força, revigora. É do mesmo étimo de tónos, tensão, força. A própria palavra serve de exemplo, pois a primeira sílaba é tônica, isto é, forte. E o nome de um dos mais famosos almanaques brasileiros, o Biotônico Fontoura, resultou de junção de um xarope ainda hoje vendido nas farmácias, que vinha acompanhado da história de Jeca Tatu, personagem imortal do escritor José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), para quem o personagem preguiçoso era o símbolo do caboclo brasileiro, pobre e atrasado porque o meio não era hostil.

terça-feira, 9 de julho de 2013

PETIÇÃO PROLIXA, SENTENÇA INJUSTA: MALES DO JURIDIQUÊS

A maioria de nossos advogados não sabe escrever. Quem os denuncia são eles mesmos, nas petições que protocolam. De vez em quando a sociedade, irritada, ameaça tomar alguma atitude contra eles e em defesa do direito e do idioma. Em notável autocrítica, frequentemente o Judiciário e o Ministério Público manifestam insatisfação com o estilo dos advogados. Por força dessas críticas, já houve alguns progressos, mas ainda falta muito. Há tempos,, para simplificar a aplicação do Direito foi lançado, no Palácio da Justiça, em Porto Alegre (RS), o Projeto Petição 10, Sentença 10, que tem apoio do Judiciário e do Ministério Público. Entre outras providências, o projeto recomenda concisão em petições e sentenças, aconselhando seus autores a não usar mais do que dez páginas. Informa ainda que: 1. "A produção de 1 kg de papel consome 540 litros de água"; 2. "As plantações extensivas de eucalipto para produção de celulose esgotam os recursos hídricos, ressecando o solo e reduzindo drasticamente a biodiversidade"; 3. "O branqueamento do papel, no Brasil, é feito com o uso, entre outros produtos, de dióxido de cloro, que libera dioxinas, substâncias comprovadamente cancerígenas." Não é possível que para garantir a aplicação do Direito ainda se gaste tanto com impressoras, tinta e papel. E os funcionários certamente têm mais o que fazer do que cópias excessivas de calhamaços que, enxugados no estilo, dizem muito pouco a respeito dos temas que ocuparam os construtores das conhecidas Torres de Papel, cujo conteúdo é muito difícil de ser decifrado. Determinadas petições são entendidas apenas por quem as escreveu e, às vezes, nem por seus autores ou signatários. Floreios esquisitos, citações impertinentes Num ano, o Judiciário gastou no Rio Grande do Sul 100 milhões de folhas de papel para cumprir suas funções. Nos outros estados não deve ter sido muito diferente, uma vez que os gaúchos são muito cuidadosos com a escrita, pois começaram cedo a aprender. Primeiro com os jesuítas, que, ainda nos séculos 17 e 18, ergueram naquelas plagas o complexo urbano dos Sete Povos Missioneiros, antes mesmo de o Rio Grande do Sul existir política, social e juridicamente. E nos séculos seguintes tiveram Júlio de Castilhos e os imigrantes europeus, sobretudo os alemães, que cuidaram de ter escolas e jornais em todos os lugares em que se estabeleciam. Foram-se os tempos dos discípulos de Paulo Brossard, a quem Leonel Brizola, sem a cultura do desafeto, mas quase invencível num debate, qualificava de "Rui Barbosa em compota". O caso é que Paulo Brossard sabia e sabe escrever bem, como demonstra ainda hoje nos artigos esparsos que publica na mídia. E Leonel Brizola sabia falar. E pouco escreveu. Atualmente, os juízes, assoberbados com tantos processos, são obrigados a lidar com montanhas de detritos retóricos e figuras de linguagem de mau gosto, fora de lugar e de propósito, que não os ajudam a formar sua convicção. Afinal, "sentença" vem de "sentir" e, para sentir o que se passa entre os litigantes, é necessário que as petições sejam objetivas; do contrário, o juiz não sabe o que é que está sendo pleiteado. Toda Torre de Papel acaba numa Torre de Babel. Nem o juiz entende o que está sendo reivindicado, nem as partes, depois de tantos floreios e divagações, lembram o que solicitaram. Em resumo, faltam clareza, concisão e objetividade à maioria de nossos advogados. E esta insuficiência prejudica em primeiro lugar os seus clientes e em segundo lugar todo mundo. Pois quem paga tanto papel, tanta árvore derrubada para atendê-los? O distinto público, é claro. Qual é a principal vítima do juridiquês? O cidadão. Exercer o direito requer os trabalhos de um advogado que o represente. Quando o advogado é incompetente, o prejudicado não é o representante, é o representado. No Judiciário, são mínimas as chances de um cidadão ser atendido quando seu advogado não é objetivo e não reivindica claramente o essencial. Fica ainda pior quando, jejuno em direito e em língua portuguesa, para disfarçar tais insuficiências recorre a floreios esquisitos, citações longas, impertinentes, fora de contexto, desnecessárias, que fazem seus autores revirarem nos túmulos. Ensino e aprendizagem de alfabetizados Foram advogados grandes escritores brasileiros. Todavia, de umas décadas para cá, com o rebaixamento do ensino de língua portuguesa em quase todas as escolas de todos os níveis, temos advogados atuantes que, conquanto entendam da profissão que exercem, não a dominam com eficiência justamente porque as faculdades que cursaram não deram ao ato de escrever a importância que essa profissão requer. Se não sabem escrever, é claro que também não sabem ler nem interpretar as leis que, se não as leem, deveriam lê-las. Comportam-se como Tiriricas do Judiciário. Ainda que a Ordem dos Advogados do Brasil submeta os portadores de diploma de bacharel em Direito a exames adicionais, ainda há muito que fazer. Os profissionais de Letras precisam ajudar o Judiciário e o Ministério Público nessa tarefa de erradicar o juridiquês, que é o analfabetismo empolado do Direito. Talvez o Supremo Tribunal Federal pudesse fazer como a Suprema Corte dos EUA, que limitou o tamanho das petições entre 3.000 e 15.000 caracteres, isto é, entre duas e dez laudas, no máximo, que é exatamente a proposta agora feita pelos gaúchos. Seria um reforço no processo de ensino e de aprendizagem de alfabetizados que, lendo menos do que devem, aumentam suas insuficiências na hora de escrever.

CLÁUDIO MORENO, XUXA E EU NUM VÍDEO.

http://pinpix.com.br/Widgets.mvc/Visualiza/201307091134035404014

sábado, 6 de julho de 2013

ETIMOLOGIAS DE CRUZADO, GUERRA, TRANSPORTE, VINDIMA ETC.

CRUZADO: de cruz, do Latim crux, originalmente instrumento de tortura e morte que os romanos aprenderam dos cartagineses, no século III a.C,. por ocasião da I Guerra Púnica. A cruz tornou-se a partir do século I de nossa era o símbolo máximo da religião que viria a tornar-se oficial em todos os territórios conquistados por Roma, por decisão do imperador Constantino, o Grande (272-337), nascido em Nis, na ex-Iugoslávia, atual Sérvia. E o étimo está em cruzado e em muitas outras palavras, de que são exemplos crucificar, crucifixo, crucifixão (morte na cruz), na expressão “palavras cruzadas”, cruzar com alguém (encontrar-se), atravessar (cruzar a rua), cruzar os céus (voar), padrão de velocidade em viagens aéreas (voo cruzeiro) etc. Designa antiga moeda portuguesa, cunhada em ouro ou em prata para financiar as cruzadas (expedições à Terra Santa para reconquistar Jerusalém), retomada entre 16 de janeiro de 1989 e 15 de março de 1990 para substituir o cruzeiro. GUERRA: do Germânico werra, luta, discórdia, que substituiu o Latim bellum, cujo étimo continuou presente em palavras como rebelde e rebelião. Os romanos jamais adjetivaram suas guerras como santas, marcas porém de várias guerras, como a que incluiu em 4 de julho de 1187 a famosa Batalha de Hattin, quando os muçulmanos, liderados por Saladino (1138-1193), reconquistaram Jerusalém, vencendo os cruzados, assim chamados porque desenhavam, bordavam ou costuravam sobre as vestes uma cruz vermelha, branca ou verde. O chefe cristão derrotado era Guy de Lusignan (1150-1194), rei de Chipre, que se tornara também rei de Jerusalém ao casar-se com Sibila (1160-1190), rainha de Jerusalém. O chefe poupou seu prisioneiro, dizendo: “Reis verdadeiros não matam uns aos outros”. JEROSOLIMITA: do Grego hierosolymita, natural ou habitante da cidade sagrada de Jerusalém, que traz do Hebraico o étimo Yerushalaym, cujo significado é “legado da paz”, pela formação Yerusha (herança) e Shalom (paz). Outras etimologias a designam cidade situada entre duas colinas e cidade perfeita. Abraão, quando ali chegou, indo de Ur, na Caldeia, a chamou Yeru-Shalem, cidade de Shalem, o rei que a conquistara, onde encontrou o primeiro sacerdote, Melquisedec, a quem pediu que o abençoasse. Vivendo numa cidade disputada, principalmente em guerras religiosas, os jerosolimitas, também designados hierosolimitas, têm sofrido muito ao correr dos séculos. PASSE: de passar, do Latim vulgar passare, de passus, passo, distância de uma perna a outra no ato de caminhar. A expressão Passe Livre esteve na origem das recentes manifestações que levaram milhares de cidadãos às ruas no Brasil para protestar contra as evidentes deficiências de transporte público. Foram agregadas entretanto outras bandeiras aos protestos, como a luta contra a corrupção. TRANSPORTE: de transportar, do Latim transportare, levar para além (trans) da porta (porta da casa, do prédio etc.) com destino a outro lugar, mas ainda dentro da cidade ou da região, por terra, pela via strata, caminho calçado, estrada (que permanece no étimo de Strasse, estrada ou rua em Alemão) ou para outra região ou país, além (trans) do portus (porto). Mas transporte ao designar o ato de pessoas ou mercadorias serem levadas de um lugar a outro acabou por excluir o étimo portus, prevalecendo porta, pois que é de porta a porta: da porta da casa ao local de trabalho ou de lazer. VINDIMA: do Latim vindemia, colheita da uva, palavra formada de vinum, vinho, e demere, cortar. Os cachos de uva são cortados, postos numa cesta e levados para o local de esmagamento. O étimo latino da cultura do vinho está em todas as línguas neolatinas e no Alemão, porque foram os romanos que levaram a cultura do vinho aos germânicos. Cálice em alemão é Kelch, do Latim calix; vinho é Wein, mas veio de vinum; vinicultor é Winzer, do Latim vinitor; adega é Keller, do Latim cellarium, celeiro, onde o vinho era guardado junto a outros alimentos, depois armazenado em separado na cava, cave, substituída por apotheca, adega, do Grego apotheké, parte da casa onde eram guardados alimentos e provisões.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

BATE-CUS, PROPINAS E TAPAS NA BUNDA

Deonísio da Silva º Algumas palavras do futebol e da academia oferecem variantes curiosas no Português de Portugal. Aqui usamos arquibancada, mas lá é mais comum bancada apenas. “Cu”, um palavrão aqui, embora presente recuar, cueca etc, não o é em Portugal, onde em vez de “deu-lhe uns tapas nas nádegas ou na bunda” (palavrão em Portugal), é dito “deu-lhe uns bate-cus”. No Brasil, a pessoa cai de bunda ou de nádegas, mas em Portugal cai de bate-cu, assim definido no Dicionário da Língua Portuguesa (Porto Editora): “queda que resulta em bater com as nádegas no chão” e “pancada nas nádegas com a mão”. O futebol trouxe da linguagem acadêmica diversas palavras, de que são exemplos titular, adjunto, auxiliar, técnico etc. E adotou também suplente, mas com outro nome: reserva. Em compensação, gerou outras palavras e expressões para a vida acadêmica, como “fazer o meio de campo”, “jogar para o time”, “ficar na torcida”, “driblar a questão”, “suar a camisa” etc. Aliás, a expressão “defesa de tese” traz embutida a ideia de combate, de jogo, e pressupõe o ataque. Quem ataca, não está em campo, mas está no câmpus, variante do Latim campus, que a linguagem do futebol não importou, talvez porque tende ao popular, combatendo o viés erudito. Na universidade, quem ataca, não está no banco, está na banca. Banco e banca parecem equivalentes, mas não são. Banco, do frâncico bank, foi originalmente móvel fixado ao longo da parede da sala para as pessoas ali se sentarem, em grupo, não individualmente, como na cadeira, do Grego kathédra, pelo Latim cathedra, que nos deu catedral, onde está assentada a maior autoridade eclesiástica da região, o bispo, e também cátedra, a cadeira do professor, designando a matéria ou disciplina que ele ensina. Essa cadeira quase sempre era posta num lugar mais alto para que o lente (do Latim legente, aquele que lê) pudesse ser ouvido por todos, fosse o pupillus, menino, fosse a pupilla, menina, anda hoje presente na pupila, a menina dos olhos, porque ali a pessoa aparece refletida como uma pupa (boneca) pequenina.
A variante da cadeira era o púlpito, do Latim pulpitum, feito de pulpa (polpa), parte da madeira sem nós nem veias, por motivos estéticos e de durabilidade, e por ser um lugar para onde todos olhavam e de onde o padre, o professor ou o orador (quase a sempre a mesma pessoa, o padre letrado) olhava a todos. Banca, do italiano banca, também veio do frâncico bank, mas mudou de significado na Baixa Idade Média, quando se constituiu em assento em tribunais, judiciários, universitários etc, para o julgamento de réus e de candidatos a cargos públicos. Outras diferenças com nossos queridos irmãos portugueses é que em Portugal propina é taxa de matrícula. No Brasil é suborno, corrupção. No futebol e na propina, o Brasil é campeão mundial. Um dos motivos é que os brasileiros leem pouco e apenas 26% entendem o que leem. Já a corrupção, como se sabe, é católica e sempre leva um terço! º Da Academia Brasileira de Filologia, escritor e professor, doutor em Letras pela USP (xx).

terça-feira, 2 de julho de 2013