NOME DE POBRE NO BRASIL

sábado, 6 de agosto de 2016

UM DOS MAIS BELOS HINOS CATÓLICOS

Na voz da cantora australiana erudita Mirusia Louwerse, https://www.youtube.com/watch?v=4tIsTmUOODo&list=PLE-G10B5_IrqUl8zwSiZeXrs3gFUX21UN 31 anos.
https://www.youtube.com/watch… Panis angelicus Fit panis hominum; Dat panis coelicus Figuris terminum O res mirabilis! Manducat Dominum Pauper, pauper, Servus et humilis. Pauper, pauper, Servus et humilis. Panis angelicus Fit panis hominum; Dat panis coelicus Figuris terminum O res mirabilis! Manducat Dominum Pauper, pauper, Servus et humilis. Pauper, pauper, Servus, servus et humilis. André Rieu - Panis Angelicus André Rieu, Mirusia & the Johann Strauss Orchestra performing "Panis Angelicus" Live in the Amsterdam Arena. For concert dates visit: http://www.andrerieu.co...

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A VIAGEM DA PALAVRA "ASSASSINO"

Na passagem do século XII para o XIII, havia entre os moradores do Norte do Irã uma seita liderada por um ancião conhecido apenas como Velho da Montanha. Doidões, eles praticavam as maiores atrocidades, matando para roubar, especialmente Cruzados e peregrinos a caminho de Jerusalém. Esses malfeitores ficaram conhecidos como "haxxixin", vocábulo do Árabe, entretanto pronunciado "hassassin"" no Persa. O Velho da Montanha e seus seguidores foram mortos por Gengis Khan, cujo nome em língua falada na Mongólia era "Temujin", ferreiro (designando originalmente o fabricante de ferraduras, espadas, facas e utensílios do cotidiano). A palavra "haxxixin", depois "hassassin", pelos terrores causados pela tribo hostil, deu "assassino" em Português; "assassino" em Italiano; "asesino" em Espanhol; "assassin" em Francês. O Inglês, porém, não adotou o étimo de "haxxixin". Ficou com" killer", matador, daí se falar em "serial killer", matador em série, isto é, que mata muitos, do mesmo étimo de "kill", matar, uma palavra vinda do Armênio "kelem", que foi escrito "cwellere" no Inglês antigo. A matriz dessas palavras foi a raiz indo-europeia para designar o ato de matar, que era "gwellen", com G, com o significado de furar, penetrar, trespassar com objeto pontiagudo. Mas no Inglês o significado pode ser bom:" to kill oneself", fazer um grande esforço. E "Dressed to Kill", vestida para matar, é título de um filme de Brian de Palma.

domingo, 31 de julho de 2016

RELEMBRANDO WILSON MARTINS, SUSPENSO EM O GLOBO

http://observatoriodacritica.com.br/arquivos/polemicas/necrologios/5.Treplica%20de%20Deonisio%20da%20Silva%20publicada%20no%20Observatorio%20da%20Imprensa%20em%2027-04.pdf Tréplica de Deonísio da Silva a Flora Süssekind Observatório da Imprensa 27/04/2010 Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=587JDB 001# Acesso em 29 abr. 2010. WILSON MARTINS (1921-2010) Crítico é atacado depois de morto Por Deonísio da Silva Quando o escritor Josué Montello morreu, fui procurado para falar (mal) dele. Em entrevista a Geneton Moraes Neto, no Jornal do Brasil, e em artigos assinados noEstado de S. Paulo, eu tinha feito várias ressalvas, não apenas à sua obra, mas à sua atuação como personalidade literária que era. Josué Montello respondera-me em grandes jornais, eu dera a tréplica no Verve, pequeno jornal editado por uma equipe presidida por Ricardo Oiticica, em Niterói (RJ). Há quase trinta anos mantenho coluna semanal no Primeira Página, pequeno jornal de São Carlos (SP). Acredito muito nos pequenos jornais. Eles completam as falhas geológicas dos grandes. E a imprensa do período, ainda mais agora com os mecanismos de busca, jamais será a de um jornal apenas, como já foi no passado. Ao me negar a falar de Josué Montello depois que ele morreu, comentei a advertência que, na Odisséia, Ulisses faz à Ericléia, que se alegra com o massacre dos pretendentes, popularizada pela seguinte expressão do latim vulgar: "De mortuis nil nisi bene" (Dos mortos nada, a não ser o bem). Escrevera aqueles artigos e dera aquelas declarações a Geneton Moraes Neto quando eu tinha 35 anos! Hoje, aos 61, diria tudo o que disse de modo diferente. O outono nos ensina a moderação, mas fazer o quê? Pedro Nava definiu a experiência como um automóvel com os faróis virados para trás. Quer dizer, de pouco serve, pois o percurso já foi feito. Sem espaços Flora Süssekind, professora altamente qualificada, não deve desconhecer a recomendação que da literatura migrou para a vida cotidiana, mas perpetrou várias indelicadezas e equívocos no caderno "Prosa&Verso" de O Globo (24/4/2010). Não apenas com o que disse, mas com o que costuma silenciar, pois ela deve conhecer a qualidade de livros e autores que omite em suas pesquisas. Como disse Eduardo Portella, "o silêncio é aquilo que se diz naquilo que se cala". O pior de tudo é que jamais discordou de Wilson Martins quando ele era vivo. Em cima de seu caixão, com o profissional morto, ela, não só desanca sua obra, como ainda fala mal de quem falou bem do crítico, aí incluídos referências da crítica literária, como é o caso de Alcir Pécora e Miguel Sanches Neto, comentaristas de inegável qualidade. Qual foi o erro dos dois? Discordar dela? Destaco trecho do que escrevi na coluna de Augusto Nunes na Veja on-line, no dia seguinte ao falecimento do crítico: "Wilson Martins dizia: `não comento autores, comento livros´. Fez a história da literatura brasileira de 1500 a 2009, acompanhando os lançamentos e garimpando neles o que achava relevante. Antonio Candido data sua história de nossas letras na segunda metade do século XVIII e vem até 1930. E nas universidades só ele é citado. Há décadas. Wilson Martins integra a multidão de esquecidos para que poucos possam aparecer louvados pelos mesmos de sempre". A militância política dos professores não pode ser exercida em sala de aula. Ali há programas, ementas, objetivos e bibliografias bem definidos a cumprir. Sejam pagos por escolas públicas ou privadas, os mestres estão submetidos a hierarquias baseadas em relações de saber, não de poder, e precisam ministrar aos alunos um ensino de qualidade. Aqueles que substituem ações docentes por proselitismo estão traindo os alunos. Não é esta a única razão do notório fracasso escolar, mas é uma força considerável no rebaixamento da qualidade de ensino. O artigo de Flora Süssekind logo estará sendo citado e multiplicado em universidades para ajudar a deformar nossos cursos de Letras. A mídia vem sistematicamente negando espaço a quem faz literatura de qualidade, aí incluída a crítica, naturalmente, e por isso enseja a consagração de mediocridades. Colunas suspensas Há algo muito mais grave do que ensinar que não houve ou não há literatura brasileira. É fazer de conta que obras e autores do gosto do mestre sejam impostos aos alunos como únicas referências literárias. Naturalmente, o mestre tem seu gosto, que é também uma categoria estética, mas quem experimenta o prato é o cliente, não o garçom. E neste caso, críticos e professores são garçons. Por melhor crítico que tenha sido Armando Nogueira, quem fez a jogada foi Pelé, foi Garrincha, foi Romário, foi Maradona, não ele. Ele não jogava, ele comentava. Exagerando um pouco, Sartre disse que "os críticos são guardiães de cemitérios". E ademais já não somos poucos os que achamos que é urgente uma revisão em nosso cânone literário, que consagra tantas mediocridades. Os editores de cadernos literários usam sempre como recurso de argumentação que não há espaço para comentar mais livros ou outros livros, revelar outros autores, sair da geléia geral em que a maioria deles está há muitos anos. Por que, então, dedicar duas páginas inteiras para um solilóquio desses contra Wilson Martins? Não teria sido melhor abrir o mesmo espaço para uma saudável controvérsia? Wilson Martins e Affonso Romano de Sant´Anna tiveram suas colunas suspensas em O Globo em agosto de 2005. Comentando o afastamento dos dois, escreveu Alberto Dines neste Observatório (8/8/2005): "A maior empresa de comunicação do país, uma das maiores do mundo, não tem os caraminguás para manter uma instituição que dá à combalida cultura carioca o suporte erudito para o seu renascimento. De diferentes gerações (um é poeta e professor mineiro; o outro ensaísta e professor curitibano) ARS e WM são dois expoentes da cultura brasileira que O Globo oferecia ao seu público no mesmo dia e mesmo caderno". Pois é. Olhem só para quem ocupou o lugar deles. Os leitores façam as suas comparações!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

SÉRGIO DA COSTA RAMOS RECEBE DEONÍSIO DA SILVA NA ACL

As Academias nasceram nos bosques de Atenas e as vozes dos sofistas ecoavam ao ar livre. Com a Renascença, elas se abrigaram sob colunas dóricas e veludos, para reunir as greis de artistas e escritores. E as academias foram ganhando uma certa pompa para hospedar o sacramento da Literatura. Imagine-se, Senhor Presidente, esta tribuna transformada num púlpito, nossa Academia de Letras numa basílica em dia de sagração episcopal. Nosso plenário acolhendo ardentes fiéis e a fragrância do incenso se evolando pelo ar - ao ponto do seu alado perfume transformar a ilustre Mesa num altar de missa solene. Sendo ao mesmo tempo laica e ecumênica, esta Academia vive uma noite em que não pode deixar de ser cerimoniosa, pela boa ventura de receber entre os seus pares um cardeal da Literatura catarinense, brasileira e universal. Vejo-o, numa ilusão de ótica, estendido ali na nave central, em vestes sacerdotais, bem no meio deste corredor, e na iminência de receber aqui e agora a ordenação devida pelos seus votos e feitos literários, hierarquia há muito reconhecida em outras catedrais – e hoje crismada na igreja de sua terra, que sobre ele asperge os seus óleos votivos. Já enxergo daqui o Deonísio hasteando em seu lábio de incréu um sorriso de mofa, e pensando: “Chi, o Sérgio está levando por demais a sério aquela brincadeira dos meus amigos de Floripa, velhos camaradas do Seminário Nossa Senhora de Fátima, de Tubarão, que se autobatizaram “Os Presbíteros”. E que, brincando, tratam-se de monsignore, eminenza e até de Camerlengo, por ocasião das eleições papais. Estão todos por aí, Deonísio, balançando os seus turíbulos... ----------- Era uma vez, Deonísio da Silva, um catarinense, filho de um trabalhador das minas de carvão, Silvestre, oriundi italiano de Siderópolis, sopé da grande serra. Autor de 34 livros, professor, etimólogo, membro da Academia Brasileira de Filologia, viveu boa parte de sua infância e juventude em casas paroquiais e seminários de Siderópolis e de Tubarão, até o limiar da ordenação, quando os demônios sartreanos do ser e do existir pediram abrigo em seu sótão. Para desgosto, talvez, do padre Herval Fontanella, que lhe ensinou o primeiro Latim e que o queria só sacerdote. Melhor doutor em Literatura e um escritor do mundo do que padre em Leiria, num certo sobrado criado por Eça de Queiroz... Se o quase sacerdote desenrolasse aqui toda a sua biografia acabaria lendo um longo breviário – que é tudo, menos sinônimo de “breve”. E se optasse por enumerar o rol de sua obra, então, acabaria lendo, com jeitão travesso, uma Bíblia iconoclástica, dividida em dois testamentos: No Velho Testamento, abriria o pergaminho do seu primeiro grande romance – “A Cidade dos Padres”, de 1986. Uma epifania literária, em que o autor revisita a história, ajustando o relógio para girar ao contrário, desde os tempos da “Revolução Redentora” do general Figueiredo , anos 60 a 80, até o Império sob a tirania fiscal do Marquês de Pombal, no século XVIII, – quem sabe uma boa explicação para as roubalheiras que hoje nos presidem e atormentam. Uma criativa anarquia, que reconstituiu, “avant-la-lettre”, este Brasil hoje identificado como um local “propício aos desmandos, à desorgarnização e à pilhagem do dinheiro público”. Melhor premonição para os acontecimentos do que hoje chamamos de “Lava Jato”, impossível. Do seu Novo Testamento, anos 90, emerge o grande sucesso que primeiro o levou para além do mapa do Brasil - o “Premio Casa de las Americas”, em 1992, num júri presidido pelo futuro Nobel José Saramago. “Avante Soldados, Para Trás” é uma diabrura literária em que o escritor alista-se nos “voluntários da Pátria” e, como um “soldado narrador”, vai à guerra do Paraguai. Do “front”, descreve o conflito com a licença da ironia e do bom humor, a partir da “Retirada da Laguna”, narrada como derrota épica. Porque o narrador está lá não para endossar a história oficial, mas para relativizá-la e descrer de todas as verdades absolutas. No fundo, um libelo contra a guerra e a favor do homem. Esse reconhecimento internacional levou o ex-quase padre Deonísio às fronteiras do Vaticano: numa banca de revistas da Piazza de Spaña ou da elegante vizinha, Via Condotti, em Roma, é possível comprar dois livros de Deonísio da Silva: “Avanti soldati, Dietro Front” - a edição italiana do premio assinado por Saramago - e o seu mais recente sucesso, “Lotte e Zweig”, em que narra, com estrutura de novela policial, a morte de Stefan Zweig e sua mulher, Charlotte, na Petrópolis de 1942, quando o escritor austríaco descobriu que o seu desencanto com o mundo incluía o “país do futuro”. O autor instiga o leitor, inaugurando um novo mistério: suicídio shakespeariano num pacto de amor ou duplo homicídio pelo braço longo do nazismo? Diz-se que tamanho condão criativo, de criar ficção sobre a história oficial, teria levado o povo de Roma, ainda outro dia, a confundir - em pleno domingo de benção na Piazza São Pedro - os dois paramentos que na manhã de sol brilhavam na moldura da grande janela . Ao longe, identificaram claramente só uma das duas figuras: - Aquele à esquerda, a la sinistra, é o padre Deonísio, scrittore brasiliano. O outro, de branco, acho que é aquele argentino contra quem a gente torceu na Copa América... Claro, nós, leitores, vamos logo esperar da inventiva do nosso caro escritor, uma versão picaresca e criativa da perda daquele pênalti pelo argentino Messi. Teria sido pouca reza do seu colega de janela, Francisco, mera culpa fadista de um tango de Gardel ou simples macumba da torcida brasileira? Tudo é possível em se tratando desse originalissimo realismo fantástico de Deonísio da Silva, em que a ficção surge como detetive da verdade e a imaginação como seu salvo-conduto, tudo sobre o magnífico alicerce de uma cultura consolidada, capaz de produzir densos romances na forma de roteiros cinematográficos, como nos já mencionados “A Cidade dos Padres” ,“Avante” e “Lotte & Zweig”. Além de outros tão instigantes quanto “Tereza D’Ávila”, em que o autor intromete-se entre as muralhas de Ávila e flagra a Santa em seu Convento, lutando contra as febres da matéria, a sanha punitiva dos inquisidores e a própria fé, que as vezes fraqueja. É bem diversificado o seu empório de criativa Literatura, seja na crônica ou no conto, em que também é mestre, e cuja maior prova é seu último livro do gênero, “A Placenta e o Caixão”. Ou o seu primeiro conto elogiado em resenha nacional, “Cenas Indecorosas”, notado por ninguém menos que o nosso líbano-biguaçuense Salim Miguel, em crítica literária para o “Jornal do Brasil”, no quase longínquo 1976. Tanto talento brilha também em ribaltas nas quais suas obras são adaptadas, no teatro ou no teleteatro, como em “Relatório Confidencial”, dirigido por Antunes Filho. Com tempo e oportunidade também para o cronista Deonísio e o etimologista de jornais e revistas de circulação nacional, ou para os seus livros de Literatura Infantil. Do escritor para crianças, aliás, brotou uma confissão: “Eu não sabia escrever para crianças, aprendi com minha filha Manuela”. Tamanho é o fascínio do autor pela figura feminina, que ele a cobre de cortesias e reverências na vida e na obra – desde a amante e combatente Mercedes de “Avante Soldados”, à tentada carmelita de Ávila do romance que primeiro se chamou “Pedras em febre”, depois simplesmente “Tereza”; até à infeliz secretária Lotte , mulher de Stefan Zweig, figura chave do romance sobre a saga do perseguido escritor austríaco. Ou à primeira mártir do Brasil, beata Albertina Berkenbrock, assassinada em defesa de sua virtude na Imaruí de 1931. Todas estão ou estarão na prosa do escritor, esse admirador das mulheres que não pode deixar de reconhecer uma verdade absoluta: pertence a elas um pedacinho da insígnia que esta Academia daqui a pouco pendurará em seu peito. Pertence a todas elas e à Manuela, a filha que, aos 13 anos, influenciou no desfecho de “Avante Soldados” e que hoje, adulta, instiga o pai a afinar o senso crítico, enquanto ajuda o país a justiçar seus malfeitores como Promotora de Justiça em São Paulo. Na verdade, ai dele se não admitir outra grande heroína em sua vida: aquela que possui o condão de lhe fazer coriscar a centelha criadora e o dínamo da pletórica produção: leitora, crítica e musa – musa, cuja etimologia, sabemos, nasce de música, canção. Harmonia que o aqui recepcionado faz questão de ouvir da mulher Michele, sempre que inicia a aventura de uma nova escrita. “Elas são – derrete-se o escritor – a melhor parte da natureza humana” e a própria Literatura nada mais é do que um empenho do homem em indenizar-se pelas imperfeições da sua natureza”. A vida de Deonísio é a Literatura, como escritor, doutor em Letras e professor do magistério superior. À essa arte imprimiu sua marca, reescrevendo a história pelo avesso e servindo apenas ao leitor e à Literatura - e à nenhum outro mandarim. Se é chegada a hora da sagração, senhor presidente, quando esta Casa recebe um hierarca da Literatura brasileira, é preciso dizer que Deonísio da Silva é um grande admirador da Literatura de Santa Catarina, desde os tempos de Siderópolis e de Tubarão. Faz questão de ser um admirador de muitos dos que daqui a pouco serão seus pares nesta Casa. Gosta de ser um simples, um autor que é sobretudo um leitor e que gosta de cultivar a Literatura da sua terra. Sabemos que “um autor só é bom se é bom leitor e melhor inventor”, na bem humorada definição de Alberto Manguell, que, na juventude, lia para Jorge Luis Borges - e era dele os seus olhos. A liturgia desta noite, senhor presidente, é dupla: as campainhas querem dizer que a recepção a Deonísio é também uma benção à Academia, posto que é a Literatura em pão e vinho que recebemos. Vivemos, senhor presidente, um grande momento deste sodalício quase centenário, um tempo de transformações e de eleições, ditados pela própria progressão da vida. Circunstância que realça a solenidade deste momento. “Os abençoados mortos”, pontificou Graça Aranha sobre a Academia Brasileira de Letras, “deram-lhe a mais preciosa das vidas, a vida eleitoral”. E resumiu: “São as mortes que dão vida às Academias. Boa recepção, pois, e longa vida aos que chegam, e reverência aos que construíram ao longo dos tempos esta catedral de cultura - como o saudoso escritor, contista de truz e cultor das melhores utopias, Francisco José Pereira, a quem sucede o recepcionado. A Literatura, aqui, senhor presidente, deve ser, mais do que nunca, um ato de fé e de reconhecimento. Houve época em que a própria Academia Francesa quebrou a tradição dessa preeminência literária, acolhendo eminentes figuras da vida pública, homenageando a sociedade pela academização de seus notáveis. Conta o escritor e imortal Carlos Heitor Cony que, certa vez, Joaquim Nabuco sugeriu ao Petit Trianon o nome do Barão de Rio Branco, então Ministro de Relações Exteriores e o homem mais importante do seu tempo. “Machado de Assis hesitou, alegando que o indicado nada escrevera até então. Nabuco argumentou: “Machado, o Rio Branco está escrevendo o mapa do Brasil”. E o Barão acabou acadêmico. Felizes, senhor presidente, somos nós: Deonísio da Silva tem obra, tem mérito e tem “sustança”, como diria um manezinho da Ilha catarina. Tem obra e está escrevendo o mapa de Santa Catarina na Literatura do Brasil. ==================================Muito obrigado

MATAR, MATA-BICHO, CHARADA, ASSASSINAR, HÓSTIA, CHARADA

Repercuto o belo trabalho de John Klaus Kanenberg, postado no blogue dele. MATAR, MATA-BICHO, ASSASSINAR, HÓSTIA, CHARADA,. O verbo MATAR tem muitos significados. Não era no Latim sinônimo de occidere, matar o homem, donde homicídio. Matar tinha originalmente o sentido de recompensar e agradecer. No Português mudou de significado, tornando-se sinônimo de assassinar, mas de todo modo, matar pode ser bom, correto, necessário? Sim! Pode ser (matar a sede), adivinhar, entender, compreender (matou a charada). Pode ser responder corretamente uma questão (matou a resposta), pode ser acabar com alguma coisa (a morte do filho acabou com ele, mas ele não morreu....), não trabalhar (matar o serviço), amortecer a bola no futebol (matar no peito), resolver uma questão (matar no peito), interromper algo (matar a jogada), seduzir (vestida para matar), impresssionar muito, arrasar (caiu matando), Ameaça amorosa (mãe para o filho: desce daí, senão te mato...). E mais: 1. Mata-bicho Designa dose de cachaça ou de qualquer outra bebida alcoólica tomada em jejum. Médicos medievais descobriram que derramando álcool sobre alguns bichos encontrados em cadáveres, os bichos morriam. Durante uma epidemia na Espanha, no século VIII, o médico Gustavo García, examinando um cadáver, descobriu um bicho que resistia a todos os líquidos, menos à aguardente. 2. E no Brasil e em Angola o desjejum, o café da manhã. E matar vem do Latim mactare, ato sagrado de sacerdotes pagãos consistindo em imolar a hostia, vítima oferecida em sacrífico, depois aplicada também ao pão ázimo, isto é, sem fermento. 3. Para matar no sentido de assassinar, o Latim usava occidere, e matar um ser humano era homicidium, parricidium, matricidium, suicidium etc. 4. Assassinar era o que faziam os consumidores de haxixe, do Árabe haxix, erva seca, seguidores do Velho da Montanha, chefe sírio de bandoleiros muçulmanos do século XIII, que, a seu mando, praticavam crimes. Em Árabe, haxohaxin, ashoashin – designa também o guardador de segredos: só ele sabiam onde guardavam os valiosos produtos de seus saques. 5. Charada, matar a charada e Malba Tahan (p. 102 de De onde vêm as palavras). Charrá, em languedoc, dialeto falado no Sul da França, é conversar.Matar a charada é passar o tempo e descobrir um significado oculto em palavras cruzadas, por exemplo, ou juntando sílabas de uma e outra palavra. (xx) Sem papas na língua – 28/Jul/2016 Coluna do prof. Deonísio da Silva na rádio BandNewsFM Fluminense, do dia 28/07/2016, falando sobre palavras como charada, esgrima, matar e assassinar. FATOSFOTOSEREGISTROS.WORDPRESS.COM

domingo, 24 de julho de 2016

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

Dedico este discurso a pessoas muito queridas e, por motivos diferentes, muito importantes em minha vida: • Soeli Maria Schreiber da Silva, com quem fui casado por mais de trinta anos, mãe de nossa filha • Manuela Schreiber e Sousa, casada com • Rodrigo Ribeiro de Sousa, um filho para mim, ambos aqui presentes, e • Michele Roberta da Rosa, minha companheira já há alguns anos. Senhor Presidente de nossa Academia, Salomão Ribas: não é à toa que muitos de nossos grandes autores cursaram Direito, como fez o senhor presidente e como fizeram tantos confrades desta Academia. Senhora Secretária Lélia Nunes: a mulher deu o terceiro passo na vida literária, ao passar de personagem e leitora, a autora, como evidenciam sua presença aqui e a de Leatrice Moelmann e Urda Klueger, entre outras. Até então narradores masculinos cometiam as maiores gafes quando adentravam por temas que ignoravam, fossem cólicas menstruais, gravidez ou estados de alma que só as mulheres sentem, e que só podem entender aqueles que seguem o conselho de Olavo Bilac: "Amai para entendê-las!”. E o poeta acrescentou: “Pois só quem ama pode ter ouvido/ Capaz de ouvir e e de entender estrelas". As mulheres que amamos, a começar por nossas mães, são nossas estrelas-guias! Vou me demorar um cadinho mais neste assunto, pois ele é o mais relevante, uma vez que nenhum de nós estaria aqui, não fosse uma mulher generosa que um dia fez com nosso pai uma coisa até então proibida. O próprio Criador reconheceu em Hebraico e em Grego o que São Jerônimo traduziu para o Latim vulgar:“Non est bonum esse hominem solum; faciam ei adjutorium simile sui”: Não é bom que o homem esteja só; façamos alguém semelhante a ele para ajudá-lo”. E recentemente a professora Francesca Stavrakopoulu, nascida num subúrbio de Londres, filha de mãe inglesa e pai grego, Doutora em Teologia pela Universidade de Oxford, encontrou evidências em suas pesquisas arqueológicas de que o próprio Jeová teve uma esposa chamada Axerá, escondida pelo patriarcalismo que tomou conta dos hebreus no cativeiro da Babilônia. Prezados confrades, autoridades, amigos, conhecidos, respeitável público. Hoje é dia de abandonar as “velhas tristezas que se vão embora/ no poente da Saudade amortalhadas! ...”, como disse Cruz e Sousa, certamente a figura solar das letras catarinenses, cumprindo o destino da literatura brasileira, que faz com que todos os que tenham talento emerjam um dia, uma vez que não há força que os abafe, pois não se tapam sóis com peneiras. Aliás, luzes poderosas não são tapadas com nada! Saúdo especialmente suas excelências, os leitores, os principais personagens na vida de todos os autores, pois que com obra, mas sem leitores, não existimos, ainda que nem sempre escritores e leitores sejam contemporâneos. Coube-nos a sorte de contar com leitores no breve intervalo entre o berço e o túmulo que é a vida, e isso é graça alcançada, sem a novena do Menino Jesus de Praga, graça de graça, mesmo, vinda dos misteriosos motivos que levam alguém a abrir um livro nosso e ler, estejamos vivos ou mortos. Este é o contexto para designar um imortal literário, alguém cuja obra tornou-se perene, imorrível como diria o ministro que moldou “imexível” quando precisou explicar plano econômico do governo Collor e justificar que sua cachorra era um ser humano como qualquer outro, temas imperdoados, entre outros, por dois confrades de muita verve, na fala como na escrita, e referências cardeais de nossas letras, Sérgio da Costa Ramos e Péricles Prade. Peço licença para não citar a todos, como é minha vontade, pois todos os meus confrades, alguns dos quais amigos de longo convívio, embora pouco frequente pela distância de nossas moradas, estão nesta casa por merecimento, fazendo jus ao que se convencionou denominar imortais, não por suas pessoas, mas por seus livros, pois imortais podem ser nossos escritos, jamais nossas pessoas. Como se sabe, é paradoxalmente alta a taxa de mortalidade entre os imortais. Devagarinho, convido-os a saber um pouco do que me traz aqui, dito por mim mesmo, isto é, pela mais inconfiável das versões. Aprendemos também com o que não é, para sabermos o que é, pois não disse Picasso que “a arte é uma mentira que revela uma verdade”? A literatura também. Desde priscas eras, escrever é fingir, como fingia o artífice, que poderia ser um oleiro, que fazia uma persona, isto é, uma máscara, seu significado primordial. Como se sabe, entre as credenciais dos aqui chegados está em relevo para muitos deles a arte de fingir, não no sentido moral que o verbo tomou, mas no significado de moldar e modelar, à semelhança do oleiro, para dizer algumas coisas sobre a condição humana, uma vez que não escrevemos para outros seres vivos que nos rodeiam, como animais, flores e plantas domésticas. É para pessoas que escrevemos. Por mais que um pássaro, um gato, um cachorro, uma vaca ou um muar se encantem diante de quadros, músicas, imagens ou textos, em que talvez sejam personagens, é para olhos, ouvidos e outros sentidos hu-ma-nos que escrevemos. Registro, porém, por inusitado, que outro dia vi e ouvi uma tropa de vacas que pararam de pastar para ouvir Beethoven, embora, é claro, fossem holandesas as vacas, e de Beethoven a música. Não sei se não sairiam correndo se fosse o violento Dvórak ou o insípido Michel Teló, digamos. Voltemos à vaca-fria, de outra espécie de vacas, expressão que designa o ato de voltarmos ao assunto principal. Originalmente o bicho foi um carneiro. Um advogado digredia muito sobre o assunto, talvez uma partilha de carneiros, e o juiz propôs “voltemos aos nossos carneiros”. Como em Portugal foi costume servir carne fria de vaca antes das refeições, às vezes, terminada a comida quente, voltava-se àquela carne, por muito saborosa. Era, então, agradável voltar à vaca-fria. E não as carneiros frios. E volto dizendo: nem sempre somos entendidos. Foi assim com Crispim Mira, o patrono da cadeira que ora poderei vir a ocupar, DEPOIS desta posse – nós não sabemos nada de nossas existências no futuro, não apenas do tempo que nos resta, nada sabemos do próximo minuto, pois tudo isto é mistério, e o próximo minuto poderá ser o ponto final da narrativa referencial que é a vida, tão fugaz e tão breve, como foi para Crispim Mira, que morreu assassinado na redação do jornal onde escrevia, em 1927, com apenas 46 anos, segundo nos informa, entre outros, o escritor catarinense Enéas Athanázio, autor de “Jornalista por ideal”, biografia do patrono da cadeira 5 desta Casa, cujo fundador foi o também jornalista e advogado Leopoldo de Dinis Martins Júnior, mais conhecido por Dinis Júnior. Teve vida mais longa o fundador da cadeira que homenageia Crispim Mira, pois, nascido em Florianópolis, Dinis Júnior morreu no Rio de Janeiro, em 1967, aos 80 anos. Penso que alguns dos presentes, se não conheceram o patrono, conheceram o fundador. Não tive esta sorte. Aliás, também Crispim Mira foi advogado. Embora sem curso superior, naqueles anos era possível exercer o Direito como “advogado provisionado”, figura hoje extinta. Faz algumas décadas que até os próprios cursos de Direito desconfiam do saber que ministram aos advogados que ali se formam e oferecem cursos adicionais para que eles possam ser aprovados nos exames da OAB, Ordem dos Advogados do Brasil. Teobaldo Costa Jamundá, o intelectual que veio a tornar-se o primeiro sucessor do fundador não era catarinense de nascimento, mas sabemos que gato que nasce no forno não é biscoito - e que por isso o professor Salésio Herdt, reitor da Unisul, aqui presente, não é alemão, é brasileiro - e que a utilizar-se o mesmo critério a escritora Clarice Lispector, de repente com tanta atenção para sua obra, ela que teve tão poucos leitores quando viva, não seria escritora brasileira, mas ucraniana. Jamais esquecerei certos episódios da vida de Clarice Lispector dos quais fui testemunha ocular e auricular. Estava sem dinheiro e pediu direitos autorais a seu editor, que era o mesmo meu, e ouviu em resposta que seus livros não vendiam nada, que ela deveria escrever sobre sexo. E ela escreveu tempos depois. O título é “A via-crúcis do corpo”. De todo modo, o editor lhe adiantou pequena quantia. De outra feita, em jantar na casa de Rubem Fonseca, cujos livros vendiam muito bem, ela recomendou que ele prestasse atenção no fenômeno, pois isso raramente era um bom sinal no Brasil. Fora do Estado desde os dezesseis anos, como todos sabem, eu conheci Teobaldo Costa Jamundá, em Florianópolis, quando fui agraciado com o Prêmio Virgílio Várzea de Literatura, juntamente com Maria Odete Olsen, então esposa de meu confrade Oldemar Olsen Jr, e fomos apresentados a ele por Maria Tereza de Queiroz Piacentini, que nesta época trabalhava com João Nicolau Caravalho, na Fundação Catarinense de Cultura, que ele presidia. Teobaldo Costa Jamundá nasceu no Recife e morreu em Blumenau, em 2004, aos 90 anos. Jornalista, poeta de versos sensíveis e bem cuidados, de olhar atento a usos e costumes catarinenses, dedicou muito de seu tempo à pesquisa do rico e complexo folclore de Santa Catarina, singular por muitos motivos, um dos quais é a sutileza com que se mesclaram aqui neste terrum as crenças populares indígenas, as de matriz luso-brasileira e as contribuições vindas de outros imigrantes europeus e africanos, sobretudo, na rica mistura de entidades que nos divertem, assustam ou abençoam, conforme as superstições e crenças de vários estamentos culturais que encontraram neste Estado um campo fértil para suas manifestações, algumas, aliás, hoje reprováveis, como é a Farra do Boi, que, à semelhança das Touradas, só dá certo para seus críticos quando a vítima não é o animal...Pois Teobaldo Costa Jamundá fixou-se nestes estudos, tão raros, infelizmente, mas tão pertinentes. O próximo ocupante e mais recente, cuja vaga hoje terei a honra de ocupar, se Deus quiser, como diz o povo para tudo o que está no futuro, ainda que o futuro pareça bem próximo, foi Francisco José Pereira, falecido há apenas quatro anos, em 2012, aos 79 anos. Seu berço e seu túmulo, eles os encontrou aqui, em Florianópolis, deixando-nos uma obra valiosíssima como jornalista, romancista, contista, ensaísta e editor, pois publicou livros de vários autores catarinenses na editora por ele fundada com o nome de Guapuruvu, dita também Garapuvu, a árvore-símbolo de Florianópolis. Destaca-se em sua obra um estudo que o aproxima muito de meu ofício de via vicinal, o da lexicologia, ou, como digo, o de botânico das palavras, que tanto serve ao principal, o de jardineiro, por permitir um acréscimo nem sempre dispensável, de saber exatamente qual foi no berço o significado da palavra, com o fim de invocar aquelas que expressem exatamente o que sentimos ou pensamos, ainda que às vezes em nosso tempo elas signifiquem o contrário do que expressaram no nascimento. Por exemplo, o Sumo Pontífice não constrói mais pontes sobre o rioTibre, nem as inaugura, nem as abençoa. A palavra passou a designar o Papa, sinônimo de pater, pai em Latim. Aliás, por celibatário, o Papa, cujo significado é pai não é pai de ninguém... Talvez muitas palavras sejam semelhantes àqueles que as proferem...E Francisco José Pereira deixou contos e romances de lado, deixou o jornalismo de lado em suas preferências e fez neste tempo um ensaio muito pertinente sobre o vocabulário de “Os Sertões”, a obra máxima do engenheiro militar e jornalista Euclides da Cunha. Até aqui falei dos meus confrades que já foram, pois a vida inclui a morte. Como se vê, a média de interesse pela eternidade, pela qual todos temos muita curiosidade, mas nenhuma pressa de conhecer, exceto os suicidas, poderia demorar-se um pouco mais e, no caso do patrono, muito mais! Todavia nenhum dos citados partiu por conta própria, ainda que infelizmente seja tão frequente entre artistas e escritores o suicídio, diga-se de passagem, e eu mesmo me interessei pelo tema no romance mais recente, “Lotte & Zweig”, com capa muito bela, de autoria da artista catarinense e minha querida amiga, Arlinda Volpato, casada com o advogado e empresário, Wilson Volpato, que foi quem primeiro me fez apreciar quão belos eram os versos de Castro Alves e outros poetas por ele declamados, como reconhecemos todos nós, os presbíteros – capitaneados pelo presidente de nossa confraria de ex-seminaristas, o também advogado e empresário José de Souza Patrício. Presbíteros é como nos chama Sérgio da Costa Ramos, com a verve tão deliciosa de suas crônicas. De resto, Celestino Sachet é quem nos pode dizer, pois sabe tudo de todos os colegas, no âmbito litérário, se e quais foram os escritores suicidas de Santa Catarina, e se os há, apesar deste mar, destas planícies e destas serras, para citar três antídotos contra o fim prematuro da existência pelas próprias mãos. Na dimensão universal, são muitos os escritores suicidas e só para ilustrar o quanto o tema é evitado, mas recorrente, lembro o caso de nosso vizinho, o uruguaio Horácio Quiroga, cujo pai se matou quando ele era criança, o padrasto suicidou-se diante dele, sua primeira esposa suicidou-se, ele se suicidou e se suicidaram também seus três filhos. De mim não falarei. Não tenho bons juízos a meu respeito. Na verdade, nem gosto de externá-los. Acho o terreno pantanoso das confidências um caminho perigoso, que às vezes é necessário ser trilhado, por necessidade, mas não por gosto, com interlocutores confiáveis e tolerantes, em hora propícia. Nós temos um sincero amor pela confissão e este tema legou-nos grandes obras. A confissão limpa nossa alma, a ponto de designar um sacramento, também conhecido por penitência e por reconciliação. Uns se confessam de pé, outros de joelhos, outros sentados, outros deitados, outros dançando ou balançando o corpo, o certo é que para a confissão a palavra é indispensável, seja ao sacerdote, seja a psicanalistas e psicólogos. Mesmo quando alguém quer confessar-se, nem sempre confessa tudo, pois algumas coisas “nem às paredes confesso”, sobretudo amores ilícitos, como diz o fado. Nosso amigo Evilásio Volpato – tu es sacerdos in aeternum, secundum ordinem Melquisedec (tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec), a frase que designa ofício, mais que vitalício, perpétuo, pois vai além da vida - é quem domina com talento este mister, para o qual é necessário o ato de espremer a própria alma, como diz, aliás, o próprio nome do ato que é requisito: ato de contrição. Melquisedec é uma figura referencial do Antigo Testamento e o sacerdócio não é uma invenção cristã. Eu quero dizer de mim apenas o seguinte: o que sou, o que tenho sido, o que vou ser, devo em parte a muitos de vocês aqui presentes. Devo à gente de Santa Catarina, a mão que ora balança o berço e o faz desde que nasci em Siderópolis, em 1948, aonde um dia aportou meu bisavô italiano Alessandro Daboit, gerando Silvestre, que gerou Leobertina, que casou com Cecílio, filho de gaúchos descendentes de lusos, que geraram 14 filhos, entre os quais um sou eu. Devo ter muitas semelhanças com meus irmãos. Somos sete meninos, eu sou o primeiro deles, mas asseguro que disponho de provas de que não sou lobisomem, e sete meninas. De mim pode ser dito o que a mãe de um talentoso pianista, Marcelo de Moraes Caetano, meu colega da Academia Brasileira de Filologia, no Rio, que, convidada a falar do filho e de como ele se interessara daquele modo pela música, disse apenas: “não sei de nada, até os 14 anos, ele foi normal!”. Eu fui normal até mais tarde. Até chegar aos 27 anos, que celebrei publicando em Curitiba meu primeiro livro e recebendo antes dos 29 anos, com o segundo livro, o prêmio de melhor obra publicada no ano anterior. E o primeiro já tinha sido adaptado para a televisão sem que eu soubesse até então, pois quem levou meu livro à TV Cultura disse que eu tinha me suicidado no Rio Grande do Sul, onde eu morava. Era verdade que eu estava agauchado, mas era mentira que eu me matara. E eu estou acostumado a tratar o suicídio como terror ou como graça desde os verdes anos. Um de meus tios se suicidou e anos depois quando eu lecionava no Paraná e um colega de docência também se matou, ouvi no rádio que EU me matara. Mas quem se matara se chamava Canísio, que confundiram com Deonísio. Se falei tanto de suicídio é porque, como se sabe, ex abundantia cordis os loquitur (a boca fala daquilo que há de sobra no coração), e este tema sempre me fascinou e me fascina. Aliás, suicídios são quase sempre homicídios, quando menos talvez por omissão de alguém do convívio do suicida, sendo, então, o suicídio no mínimo um assassinato coletivo, um linchamento. Como o advogado especialista em crimes não os deseja praticar, mas defender quem teve a infelicidade de cometê-los, ou, sendo promotor, denunciar, ou como o oncologista não quer um câncer para si mesmo, quer é tratar de quem sofre de câncer, eu quero entender o que leva alguém a tirar a própria vida. De meus 34 livros publicados, só um fixou-se num duplo suicídio, do escritor e de sua esposa, que para mim foi duplo assassinato, como sabe quem já leu o livro, aqui e na Itália, onde já foi publicado. Para concluir, muito obrigado a todos. A língua portuguesa é a única do mundo que declara ter obrigações com quem nos fez o bem. Não mereço tanta atenção, muitos dos escritores e outros artistas aqui presentes merecem mais atenção para suas obras, e que nos sirva de consolo o que disse Camões: “Porque essas honras vãs, esse ouro puro/ Verdadeiro valor não dão à gente:/ Melhor é, merecê-los sem os ter,/ Que possuí-los sem os merecer”. Tenho a ilusão de que sou menos pior escrevendo. Por isso, querendo saber mais, leiam meus livros. É a melhor homenagem e o melhor reconhecimento que alguém pode prestar a um escritor: ler o que ele escreveu. Como a pintores, contemplar os quadros que eles fizeram , a atores assistir ao filme ou à peça de teatro, a cantores ouvirem suas músicas e assim por diante. Obrigado, como nos ensina o berço da palavra, e lembrou recentemente o reitor honorário da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, designa que temos uma obrigação doravante com quem nos ouviu. O Inglês, o Alemão, o Italiano, o Espanhol e o Francês diriam thanks (do mesmo etimo de pensar: vou pensar em você), Denken (idem), grazie (dar alguma coisa), grácias (ibidem) e merci (do mesmo étimo de mercado e de mercadoria, e também de mercê). Mas o Português não é assim. Nossa língua fixa vínculos muito fortes entre quem recebeu alguma coisa e quem a deu, que passam a ter suas vidas entrelaçadas dali por diante, como se fizessem uma aliança, regida por regras de bom convívio, que exclui apenas pensar ou mercadejar com quem nos agraciou, às vezes não com palavras, mas com o silêncio, ouvindo-nos para que externássemos o que achamos ser do interesse de ouvintes e leitores. Quis ter misericórdia para com ouvintes e leitores, e não abusar da paciência deles. Mas de boas intenções o inferno está cheio, nos ensinou São Bernardo, reiterando que é preciso fazer e não apenas ter intenção de fazer. Declaro, pois, que cumpri na longa caminhada do berço em Siderópolis, onde estive deitado tanto tempo, sob a ameaça de vizinhas que profetizam como sibilas sinistras “este não se cria”, por vezes convencendo até minha mãe, o último requisito para chegar até aqui: fazer este discurso e não deitar-me na cadeira 5, mas apenas sentar-me, certo de que, precisamos trabalhar e não abandonar o ofício depois que chegamos às Academias, como fazem tantos. Que esta Academia não seja cemitério para ninguém e, sim, berçário de novos livros, de outras obras. Para tanto, ouço a voz de meu pai, alegre e contrário ao triste vaticínio da sibilias: “Este se cria, sim”. Tanto estava certo meu pobre pai em sua solitária esperança, como se sabe o último dos males da caixa de Pandora, que o filho se criou. Perguntemos, por fim, e por que a esperança foi concebida pelos antigos gregos e latinos como um mal? Porque a esperança pode nos enganar sobre o futuro. Que desta vez a esperança não nos engane e que aquilo que meus queridos confrades esperaram de mim ao me eleger para lugar tão honroso possa concretizar-se e que eu seja e faça aquilo que de mim esperaram e esperam. Muito obrigado a todos! (fim) Florianópolis, 21 de Julho de 2016

domingo, 26 de junho de 2016

NOME DE POBRE NO BRASIL

NOME DE POBRE NO BRASIL Certa vez recebi do saudoso Moacir Japiassu, nosso querido amigo Japi, grande jornalista e romancista altaneiro, cujas luzes literárias brilham no céu da pátria a todo instante, esse inventário fabuloso sobre os nomes que os pobres dão aos filhos. Aumento uns pontos, pois quem conta um conto... 1)Primeiras sílabas dos nomes do pai, da mãe ou dos avós. Exemplo Claudemarioneide. 2) O pai (a mãe está em casa, de resguardo, cumprindo a quarentena) olha o mapa-múndi e tasca nomes de capitais, mas tal como pronunciados diante do escrivão: Uoxinton Alves; Uelinton da Silva; Sidinei dos Santos; Liverpul Pereira etc. Mas, atenção: tem que ser do primeiro mundo. Nada de Bogotá, La Paz, Montevidéu. Brasília pode. 3) O show business: Máicon Jéquisson Chuarzenéguer Farias; Valdisnei, que é como o pai pronunciou Walt Disney diante do escrivão; Neide Gaga (era para ser Lady Gaga). 4) Sofrendo com a falta de recursos, o pobre dá nomes em abundância para um único filho, afinal é uma das poucas coisas que ele pode dar ao rebento, chamado também nascituro. Fica assim: Jénifer Géssica Maiúscula Antrópode Correia dos Santos. Tem que ser nome proparoxítono. 5) Pobre adora incluir consoantes estranhas. As preferidas parecem ser H e Y. Veja o caso do craque brasileiro agora revelado: Hyuri. Nem os russos ousaram tanto: pôr H antes de Y. 6) Homenagem a jogadores de futebol: Amarildo, Rivelino, às vezes juntos. Fica assim: Gylmar Amaryldo Ryvelyno Barbosa (tem que pôr y). 7) Marcas famosas: Simcar Levis, misturando o nome do escritor Sinclair Lewis, também conhecido como São Cler das Ilhas, e o carro Simca. E Simca Chambord Frigidér: neste caso, mesclando o carro e a geladeira. 8) Nomes gerados por confusões, como Odvan. A mãe queria perpetuar a música O Divã. Saiu isso, que foi como o pai pronunciou e o escrivão entendeu. Outro exemplo: "Como é o nome do menino?" "É pra ser Dino". E saiu registrado Pracedino. 9) Nomes de eventos: Udistoque (Woodstock) Ráley (o cometa de Halley) e Tisunami. 10) Nomes tirados das primeiras coisas que o pai leu ao abrir um livro: Sumário, Índice, Prefácio.

domingo, 19 de junho de 2016

TERMAS E FILÓSOFAS

Na coluna de Etimologia da CARAS que está a bancas.
Atacar: provavelmente do Italiano attaccare, a partir de staccare, remover, tirar algo do lugar, como um botão da farda ou uma orelha do inimigo, com troca de prefixo para o étimo tacca, do Gótico taikn, sinal feito em forma de “v”, com dois talhos convergentes sobre objeto de madeira ou de pedra, e mais tarde provavelmente sobre a própria pessoa, marcada como inimiga. Por isso, passou a designar ação ofensiva, passando depois, por comparação, a indicar injúrias que causassem danos semelhantes àqueles dos ataques físicos. O verbo ganhou com o tempo muitos outros significados: atacar a ração a ser devorada, atacar o prato de comida, atacar a pessoa ou objeto a ser agredidos (atacou o turista, atacou o carro, atacou o ônibus). É curioso que esteja perdendo o “a” inicial e voltando ao antigo étimo, às vezes com o significado de tocar: taca-lhe pau, tacou tomate no orador, tacou fogo no prédio e, por metáfora, tacou fogo no debate. Bordo: do Frâncico bord, barco, pelo Francês bord, cada lado do navio, cujo feminino, borda, significa beirada, dividido em bombordo, do Holandês bakboord, de bak, atrás, e boord, a partir do ponto de vista da cabine do piloto, que ficava na parte da frente do navio. Olhando-se de trás, o bombordo fica à esquerda, e o estibordo à direita. Diário de bordo é um tipo de gênero literário que guarda semelhança com livros semelhantes do comércio e da navegação. Caçarola: do Francês casserole, provavelmente de casse, recipiente, utensílio de cozinha semelhante à frigideira, conhecido também por panela, mas de forma circular, menos profundo do que a panela, usado para frigir, fritar. A semelhança no étimo do Latim frigere, ter frio, cujo particípio é frigatum ou frigidus, e frigere, grelhar, cujo particípio é frictum ou frixum, levou à aparente ambiguidade de frigideira ser utensílio para levar ao fogo, ao calor, e não à geladeira, ao frio. Diário: do Latim diarium, inicialmente registro de pagamentos e despesas feitos num dia, depois acrescidos de outras anotações em livro comercial e mais tarde caderno, transformado em livro, de fatos e acontecimentos relatados pelo autor de maneira cronológica, aos quais são acrescentados seus comentários, como impressões, opiniões e confissões. O livro deste gênero mais famoso do mundo é o Diário de Anne Frank, escrito entre junho de 1942 e agosto de 1944 pela adolescente judia Annelies Marie Frank (1929-1945), então com 13 anos, enquanto vivia num esconderijo com a família em Amsterdam, durante a invasão nazista. A autora morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, aos 15 anos. Traduzido para mais de 70 línguas, em 60 países, já vendeu 30 milhões de exemplares. A autoria foi posta em dúvida, mas, depois de diversas perícias em que foi o manuscrito foi comparado com a caligrafia da menina nos cadernos escolares, em 2007, restou definitivamente comprovado que foi ela mesma quem o escreveu. Filósofa: de filósofo, do Grego philósophos, amigo do saber, pela junção de phílos, amigo, e sophós, saber, pelo Latim philosophus. O criador da palavra foi o pensador e matemático grego Pitágoras (570-495 a.C.), mas quem a usou num texto pela primeira com tal sentido foi o pensador pré-socrático grego Heráclito (535-475 a.C.), que vivia em Éfeso, na atual Turquia: “Os homens que amam a sabedoria precisam saber muitas coisas”. Para expressar “os homens que amam a sabedoria”, ele usou a palavra “philósophos”. Cícero (106-43 a.C.), ao trazer a palavra para o Latim, explicou que Pitágoras considerou ambicioso demais chamar-se sophós, sábio, e por isso cunhou o vocábulo novo. Havia também filósofas na Grécia antiga. A última delas, a matemática, astrônoma e pensadora grega Hipátia (351-415), que vivia no Egito romano, morreu assassinada em Alexandria, acusada de bruxaria. Depois de arrastada nua pelas ruas da cidade, foi torturada e morta diante de um altar, dentro de uma igreja. Sobre o tema há um bonito quadro do pintor inglês Charles William Mitchell (1854-1903). Terma: do Grego thermós, quente, pelo Latim thermae, local, como balneários, usado pelos romanos para banhos públicos com água morna, uso que eles trouxeram dos caldeus. Tinham fins higiênicos e terapêuticos. Eram frequentados pelas mulheres de manhã, e à tarde pelos homens. Casas ricas tinham estes recursos também, de forma privada, e contavam com o apoditério, onde eram lavados e tratados os pés; o tepidário, para banhos mornos; o caldário, para banhos quentes; o frigidário, para banhos frios; o sudatório, para suar, local que mudou de nome no mundo atual para o Finlandês sauna.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

COLUNA DE SÉRGIO NOGUEIRA NO WWW.G1.GLOBO.COM: SEMPRE IMPERDÍVEL

http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/qual-o-plural-de-mico-leao-saiba-mais-sobre-palavras-compostas.html Qual o plural de mico-leão? Saiba mais sobre palavras compostas VOCÊ SABE... ...qual é a origem da palavra baderna? Há controvérsias. 1. O professor Deonísio da Silva, no seu livro De onde vêm as palavras, afirma que baderna vem “do latim baderna, que no francês deu baderne e no italiano baderna, todos os vocábulos com o significado de desordem, bagunça”. 2. No dicionário Michaelis, encontramos: “baderna sf (de Baderna, np)”. Isso significa que baderna é um substantivo feminino (sf) e deriva de Baderna, nome próprio (np). Esse nome próprio está explicado no dicionário Aurélio: “baderna [Do antropônimo Baderna, de uma dançarina que esteve no Rio em 1851.]” Segundo o mesmo dicionário Aurélio, a palavra baderna que vem do latim baderna ou do francês baderne é um tipo de botão usado na Marinharia. Pelo visto, é bastante forte a tese de que baderna (=bagunça, desordem) vem mesmo da dançarina Maria Baderna, que teria feito muito sucesso entre nós e levados seus fãs ao delírio. Devido às manifestações exageradas, eram chamados de badernistas: fãs de Maria Baderna e desordeiros. O fato de um nome próprio tornar-se comum não é impossível, muito menos “proibido”. Há outros exemplos, como é o caso da palavra carrasco (=executor de pena de morte, algoz, verdugo). Segundo o dicionário Aurélio e o professor Deonísio da Silva, carrasco deriva do antropônimo Carrasco, de Belchior Nunes Carrasco, célebre algoz que teria vivido em Lisboa no século XVII. É o que, na prática, já está acontecendo com a palavra “aurélio” quando é usada como sinônimo de “dicionário”. DICA Formação do plural – Parte 3 Plural das palavras COMPOSTAS 1) Quando o substantivo composto é constituído de palavras que se escrevem ligadamente, sem hífen, somente o último elemento vai para o plural: aguardentes, pontapés, vaivéns... 2) Quando a palavra composta, com HÍFEN, é constituída de substantivos que têm plural, o normal é os dois irem para o plural: abelhas-mestras, amigos-ursos, capitães-tenentes, capitães-aviadores, cartas-bilhetes, cirurgiões-dentistas, couves-flores, decretos-leis, micos-leões, pesos-galos, porcos-espinhos, sacis-pererês, tamanduás-bandeiras, tenentes-coronéis... 3) Quando a palavra composta, com HÍFEN, é constituída de substantivos e o segundo faz papel de adjetivo (especifica o primeiro), os dois elementos poderiam ir para o plural, mas a forma preferencial é só o primeiro ir para o plural: bombas-relógio, canetas-tinteiro, carros-bomba, decretos-lei, elementos-chave, homens-macaco, homens-rã, licenças-prêmio, livros-caixa, mangas-rosa, navios-escola, operários-padrão, papéis-moeda, peixes-boi, pombos-correio, salários-família, tatus-bola... A diferença é a seguinte: em TENENTE-CORONEL, o segundo substantivo NÃO faz papel de adjetivo (= tenente-coronel NÃO é um tipo de tenente). O plural é TENENTES-CORONÉIS; em OPERÁRIO-PADRÃO, o segundo substantivo faz o papel de adjetivo (= operário-padrão é um tipo de operário). O plural é OPERÁRIOS-PADRÃO. Observe que algumas palavras aceitam as duas formas de plural: DECRETOS-LEIS ou DECRETOS-LEI. Observe também que muitas palavras NÃO seguem a regra: CIDADES-SATÉLITES, MICOS-LEÕES, TAMANDUÁS-BANDEIRAS... A tendência atual é pôr os dois substantivos no plural. DESAFIO Que é antropônimo? a) nome de lugares; b) nome próprio de pessoa; c) nome igual. Resposta do DESAFIO: Letra (b) = antropo (=ser humano) + ônimo (=nome). O nome de lugares é topônimo, e nome igual é homônimo. DÚVIDAS 1ª) Leitor quer saber se a frase “Autor desmistificou o herói” está correta? Como a intenção era dizer que o herói deixou de ser um mito, o correto seria dizer “Autor desmitifica o herói”. Desmitificar vem de mito, e significa “desfazer o mito, acabar com o mito”. Desmistificar vem de mística, e significa “acabar com a mística, desfazer a farsa, o engano”. 2ª) Qual é a diferença entre DESTRATAR e DISTRATAR? a) DESTRATAR é “tratar mal”; b) DISTRATAR é “romper um contrato”.

LEITURA, ILUSTRAÇÃO E ANALFABETISMO

Humberto de Campos fundou a revista "A Maçã", que circulou no Rio de Janeiro, entre 1922 e 1929. Quem lia, só lia coisas ilustradas. Até os livros eram ilustrados. E se escrevia bem! Vejam o soneto de Nelson Tangerini, poeta e compositor. E vejam a ousadia da ilustração! Um século antes, convidado a fundar uma revista para circular no Brasil, Eça de Queiroz recomendou a Martinho Botelho que a publicação fosse ilustrada porque o analfabetismo era ainda muito grande, em Portugal como no Brasil. Consultei e pesquisei a coleção completa na Fazenda Pinhal, então da família de Modesto Carvalhosa e Helena Carvalhosa, pais de Sofia Carvalhosa, nos arredores de São Carlos (SP). Não sei se a coleção ainda está lá.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA: UMA COISA ENGRAÇADA ACONTECEU

Meus cabelos começaram a embranquecer no Outono da Existência, isto é, hoje. Ontem eram ainda mais claros. Já fazia dois anos que eu não bebia. Depois aguentei mais 18. Foram 20 anos sem beber quase nada. Na adolescência, bebia apenas o que sobrava de vinho das galhetas da missa, pois era coroinha, fazendo dupla com Eloi Semprebom. Ele me cochichava: " não derrama tudo no cálice do padre (Herval Fontanella), Deonísio: assim não sobra nada para nós ". E os fiéis pensavam que estávamos rezando baixinho com o padre, em Latim! Foi em Jacinto Machado (SC). Década de 50. Mas a foto foi tirada em Siderópolis (SC).

quinta-feira, 2 de junho de 2016

ALELUIA, ANO SABÁTICO, JUBILEU, PENTATEUCO etc: de onde vieram estas palavras e expressões?

https://www.youtube.com/watch?v=GXCkQqkdLr4&feature=youtu.be O nome do feriado de CORPUS CHRISTI é evidência da presença de palavras e expressões vindas para o Português do Latim Eclesiástico ou Latim da Igreja. Antes, porém, sofreram influências de quatro fontes: o Hebraico, o Grego, o Latim Clássico e o Latim Vulgar. São de difícil ou impossível tradução, como ocorreu com o Latim Clássico quando veio para o Direito: Habeas Corpus, Habeas Data, Data Venia, Pacta sunt servanda, Pro tempore, Et Caetera (etc), Stricto Sensu, Lato Sensu, Ipsis Litteris, Quorum, Per capita, Statu quo, In memoriam, Carpe Diem, Curriculum Vitae, Apud, Ad hoc, Honoris Causa, Persona non grata, Sine die, Sine qua non, Sine die. E as expressões: Ano Sabático, Mea Culpa, Via Crucis, Madalena arrependida, Saecula Saeculorum, Ex Cathedra, Ora pro nobis, Fiat lux, Ai Jesus, Ai meu Jesus Cristinho, Virgem, Meu Deus etc. Há outros exemplos: a) ALELUIA: alegria, em Hebraico); palavra composta de allelu (louvar) + Javeh (Javé, Deus); b) PENTATEUCO, cinco livros: do Grego penta ( cinco) + téuchos (objetos fabricados), livros); são os cinco primeiros livros da Bíblia: - Gênesis (começo, nascimento), - Êxodo ex, fora, do odos, caminho, distância percorrida, do mesmo étimo do hodômetro que marca a distância percorrida nos automóveis); - Levítico (de Levi, o primeiro da tribo dos sacerdotes: o nome Levi vem do Hebraico Levah, união: a mãe dá este nome ao filho na esperança de que a criança a uma ainda mais ao seu marido, pai da criança); - Números: do Latim numerus; em Grego é arithmós, que deu aritmética) e - Deuteronômio: do Grego deutos, segundo, de acordo, com a nomos, a ordem, a lei; c) PENTECOSTES, festa em que se celebra a descida do Espírito Santo no cenáculo, onde estavam escondidos os apóstolos, com medo; ele desce em forma de pombinha ; quer dizer cinco períodos= 50 dias depois da Páscoa; do Grego pente, cinco + kostes, período; d) PARÁCLITO, consolador, o que vem para ajudar; do Grego para, ao lado, junto + kalêin, ajudar, socorrer. e) EUCARISTIA, comunhão, hóstia; do Grego eu, boa, bela + cháris, graça, dom, coisa recebida; f) BISPO, a maior autoridade da Igreja (o Papa é bispo de Roma), embora arcebispo e cardeal estejam acima dele; do Grego epíscopos, vigia, protetor; de epi, sobre + kopêin, proteger, guardar, vigiar; do mesmo étimo de epiderme (parte de cima da pele), epicentro (sobre o centro); g) EPISCOPADO, sede de um bispado: do mesmo étimo de bispo; h) DIOCESE, reunião de paróquias; do Grego dioíkesis, de dioí, através, por toda a, + kesis, de oikos, casa: administração da casa; governo de uma região ou província; i) PARÓQUIA: está para a diocese, como o bairro para o município; do Grego para, ao lado, perto + oikos, casa: casa vizinha; j) IGREJA, local de reuniões, de cultos. Do Grego ekklesía, assembleia; k) ECLESIÁSTICO:mesmo étimo de igreja; l) JUBILEU, celebração de 50 anos, com perdão de dívidas; do Hebraico yobel, corneta. m) ANO SABÁTICO (hebraico). n) CREDO (admiração), VIA CRUCIS (sofrimento), MEA CULPA (foi minha culpa), ADVOGADO DO DIABO, CAPÍTULO (no sentido de cabildo, conjunto de cônegos numa catedral), EX CATHEDRA (fala ex cathedra, fala com autoridade), o canto gregoriano do papa Gregório I (séc. VI) e o calendário gregoriano do papa Gregório XIII (séc. XVI), MATER DOLOROSA. o) Expressões do Latim eclesiástico que se tornaram interjeições: MEU DEUS, NOSSA SENHORA, AI JESUS, MEU JESUS MISERICÓRDIA, MISERICÓRDIA, POR CARIDADE, MARIA VIRGEM, JESUS MARIA JOSÉ, MEU JESUS CRISTINHO, SANTA MARIA, AVE MARIA, PER SAECULA SAECULORUM, ORA PRO NOBIS. SEM PAPAS NA LÍNGUA da semana passada, com Maíra Gama Martins e Rodolfo Schneider: o Boechat faltou, mas o trio saiu-se à altura, como se verá - isto é, se ouvirá - aqui! Ou então: ver-se-á e ouvir-se-á, segundo as mesóclises em moda. Quem editou e postou foi Isis Bez Birolo, cantora e compositora, fã do programa e minha prima querida pelo lado dos Daboit de minha mãe. Deonísio da Silva, no SEM PAPAS NA LÍNGUA, com Maíra Gama e Pablo Ribeiro Programa exibido: 26/05/2016. YOUTUBE.

sexta-feira, 11 de março de 2016

ACERVO DE PROGRAMAS DE RÁDIO: BANDNEWS

http://toptenmp3.net/Deon%C3%ADsio-da-Silva-na-R%C3%A1dio-BandNews-FM-no-SEM-PAPAS-NA-L%C3%8DNGUA-com-Pollyanna-Br%C3%AAtas-e-Leno-Falk(447dksovcBc)

domingo, 20 de setembro de 2015

ESCREVER BEM É ESCREVER DIFÍCIL? Publicado no Jornal do Brasil, 28/7/02, lembrando uma entrevista que dei a Jô Soares.
“Alunos da UFSCar me pediram para rever, na companhia deles, entrevista que dei a Jô Soares. Queriam comentar, me perguntar coisas, saber dos bastidores. Sim, naquele dia Rita Cadillac, que dá shows em penitenciárias, para entreter a população ali confinada, desamarrou a blusa e mostrou os seios ao maquiador. Emerson Fittipaldi me falava de coisas tristes. ?Ah, você mora em São Carlos, perto de Araraquara? Caí de ultraleve ali perto. Eu e meu filho. A perna começou a sangrar, eu estava imobilizado, não demorou muito e os urubus sentiram o cheiro do sangue e começaram a voar bem baixinho, ao nosso redor. Pedi a meu filho que sacudisse os braços para espantá-los.? Dizia tudo isso em voz calma, fininha, a sua voz habitual. Rita Cadillac, não. Fez o maior fuzuê. E no final da entrevista ofereceu o bumbum para ser beijado por alguém da platéia, como cortesia. Jô disse que podia subir um só da platéia. Subiram cinco.
Eu estava ali para tratar do livro De onde vêm as palavras. O que as Letras faziam naquele meio? Jô, porém, é mestre em conciliar paradoxos, em parcerias impossíveis, em dosar seu programa, oferecendo temas sérios em linguagem bem-humorada. Naquele programa, conversamos sobre escrever bem. Disse em síntese o que tenho escrito sobre esse tema. Que os bacharéis precederam os economistas na arte de escrever mal, de nos enrolar, de nos encher a paciência, de abusar da boa vontade do leitor, condição prévia para dar atenção a quem escreve. Paradoxalmente, foi nos cursos de Direito que vicejaram alguns de nossos melhores prosadores e poetas. Uma visita ao Largo São Francisco, em São Paulo, onde está nossa mais antiga Faculdade de Direito, é também uma aula de literatura. As paredes lembram, orgulhosas, seus alunos de outrora, entre os quais Castro Alves, José de Alencar e, mais recentemente, Lygia Fagundes Telles. Fora dali, dois de nossos melhores escritores cursaram Direito. Rubem Fonseca, no Rio. Dalton Trevisan, em Curitiba. Os dois estão entre os melhores contistas do mundo. Mas escrevem em português e têm contra si o complexo diuturnamente martelado nos ouvidos e nos olhos dos brasileiros: são mestres na periferia do capitalismo, quem sabe. E ainda não morreram. Como se sabe, morrer é condição sine qua non para receberem a atenção que fazem por merecer. A extrema concisão é a marca dos dois. Rubem Fonseca escreve contos como quem faz roteiro de filmes de ação. Dalton é capaz de contar uma história inteira em três linhas: ?O amor é uma corruíra no jardim. De repente ela canta e muda toda a paisagem?. O que, aliás, não o livrou de alguns críticos atentos que jamais escreverão uma única linha desfavorável ao amigo, mas que gastaram boas horas de insólita tertúlia ponderando que a corruíra não canta, trina. ?Você errou, Dalton?, disse um dos mais rigorosos, não sem uma ponta de verve. ?Você precisa pesquisar mais para escrever sobre pássaros?, disse outro. Dalton concede a graça da convivência para poucos, escaldado com o provincianismo atroz de arrivistas que buscariam proximidade com ele apenas para tirar algum proveito imediato. E Rubem Fonseca impôs-se um silêncio obsequioso desde as primeiras calúnias de que foi vítima nos anos 70. Caso-síntese da perseguição a escritores, vítima da insânia de censores a serviço de um governo ditatorial, de vez em quando tem o desprazer de ser assunto de quem, não tendo luz própria, quer roubar um pouco de seu brilho. Esses ficcionistas jamais serão exemplo de correção textual em cursos de Direito. Lá os modelos ainda são outros e é raro que a verborragia não impere. O modelo? Rui Barbosa. Mas se em Rui havia o lampejo do gênio, que leva o leitor a perder boas páginas em trevas de leitura para de repente ter a satisfação de ver sua inteligência faiscar, o mesmo não se pode dizer de seus imitadores. É verdade que o famoso jurisconsulto exagerava. Faria bom par com o professor Astromar.”

segunda-feira, 25 de maio de 2015

ERA UMA VEZ NO SUDOESTE

http://www.bpp.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=360 Notícias
19/07/2013 Helena #2: Era uma vez no Sudoeste De minha vivência no Sudoeste do Paraná resultaram alguns livros de contos. Hoje podem ser lidos em Contos reunidos (2010). Algumas daquelas histórias se passam na cidade inventada de Sanga da Amizade, inspirada em minhas vivências no Sudoeste, especialmente em Francisco Beltrão. Inventei Sanga da Amizade — Manoel Carlos Karam e Dante Mendonça, que conheci como diretor e ator de Doce Primavera, respectivamente, no Teatro Paiol, em Curitiba, gostavam muito deste recurso narrativo — para que fosse o cenário de várias das histórias de meu livro de estreia, lançado por Walmor Marcelino, com o título de Estudo sobre a carne humana (1975), com prefácio de Sylvio Back, com quem eu trabalhava de roteirista de cinema — a obra, com outros contos novos, seria reeditada com o título Exposição de motivos (1976). Dois dos contos do pequeno Estudo sobre a carne humana foram adaptados para a televisão por Antunes Filho, recebendo o título de Relatório confidencial. Ilustração: André DucciEnredo kafkiano Eu já não vivia mais no Sudoeste do Paraná e sentia os rigores da Lei de Imprensa e da Lei de Segurança Nacional em Ijuí (RS), para onde me transferira e estreava como professor universitário. Ali, comecei a cumprir a pena de dois anos de prisão, convertida em sursis (liberdade condicional), por obra da eficiente defesa de meu advogado Geraldo C. S. Bond. Fui denunciado em Francisco Beltrão (PR) pelo Promotor de Justiça Substituto, Alberto Luiz Cassou, por pressão do major Jorge Baptista Ribeiro, comandante do 2º Grupamento de Fronteira, 2ª. Companhia de Infantaria, da 5ª. Região Militar, do III Exército, apoiado em recorte de um texto, publicado por engano, no lugar da crônica habitual que eu fazia semanalmente no jornal Tribuna do Sudoeste. Soube que quem levou o texto aos militares foi Natalino Faust, presidente da Associação de Pais e Professores. O comandante militar tomou providências no dia 8 de julho de 1974. No dia 9, o Promotor Substituto fez a denúncia. No dia seguinte, o juiz substituto, Darcy Gonçalves Bartapelli, a aceitou. No dia 19 de setembro, fiquei frente a frente com o Promotor, com meu advogado e com o juiz substituto e fui devidamente qualificado. No dia 27 de maio de 1975, meu advogado requereu que fosse feito meu interrogatório, diante do juiz Raul da Costa Pinto e do escrivão Clementino Petla. Eu já tinha a esse tempo — tudo corria muito rápido — prestado depoimento também na Polícia Federal, em Curitiba. Fui interrogado pelo General Alcindo Pereira Gonçalves, então Secretário de Segurança Pública. Saí dali e, instruído pelo General, fui ao DOPS buscar certidão negativa para integrar o processo de alocação de aulas no Ginásio Estadual Nova Concórdia. Durante todo o tempo, minha esposa, a professora Soeli Maria Schreiber da Silva, então com 21 anos, ficou ao meu lado e combinamos que não contaríamos nada às respectivas famílias. Nós tínhamos nos casado na Igreja das Mercês, em Curitiba, dois anos antes, quando ela estava com 19 anos e eu com 23. O mundo amigo e inimigo Não faltou quem prestasse bons serviços ao comandante militar, mas houve exceções. Os três diretores das escolas onde eu ensinava, Irmã Bárbara Zimmerman, do Colégio Estadual Mário de Andrade; Maria de Lourdes de A. da Silveira, da Escola Normal Estadual Regina Mundi; e Antenor Pezente, do Ginásio Estadual Nova Concórdia, todos deram atestados e declarações de que eu desempenhava com eficiência e assiduidade as funções de professor nos três estabelecimentos. Antenor Pezente acrescentou no atestado: “Declaro mais, que o seu relacionamento com a direção desse estabelecimento, com os colegas de Magistério e com os seus alunos é o melhor possível.” Também a Inspetora do Ensino Médio, Ivete K. Accioly R. da Costa, esposa de um dos homens mais justos que eu conheci, que era juiz em Francisco Beltrão (RS), atestou que eu era bom professor. Fui afastado dos dois estabelecimentos (menos do Ginásio Estadual Nova Concórdia) por pressões vindas de pessoas cujos nomes as diretoras, com o olhar espantado daqueles tempos, não ousavam declinar. Nem eu lhes perguntei. Porque sabia tanto quanto elas quais eram os integrantes da alcateia que então se formara. Esclareço que soube de tudo e com atraso, pois eu fazia em Ijuí (RS) o Curso de Letras, ministrado nas férias escolares do ensino médio. Às vezes estava em Curitiba, onde estudava Inglês no Centro Cultural Brasil-EUA, cujas diretoras, Laila Cury e Úrsula Neufeld, deram atestados de que eu estudava Inglês e que minhas médias finais eram 90 e 94, respectivamente, numa escala de 100. Memória revisitada Também não vou esquecer o nome de Maria Bond, Inspetora de Ensino, esposa de Geraldo C. S. Bond! O nome de quem nos defendeu, a gente nunca esquece. Não esquece também os nomes daqueles que acusaram e, principalmente, daqueles que se omitiram na luta. Mas talvez seja ainda cedo para tratar de temas tão complexos que envolvem a memória de vivos e mortos! Na defesa, meu advogado juntou uma declaração que hoje soa curiosa e passível de complexas interpretações. Antes de lecionar naqueles estabelecimentos educacionais, eu tinha formado comunidades eclesiais de base no sudoeste, em trabalhos mantidos pela Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural (Assessoar) e feito um curso de Teologia, intensivo, em 1970, que durou apenas um ano, em Curitiba. Nessa época, morei no Convento dos Padres Saletinos, no Jardim Social, em Curitiba. O documento dizia que na Assessoar eu integrava a diretoria, ao lado de Deni Lineu Schwartz, Euclides Scalco, Jorge Camilotti, José Emanuelli e Maria Salete Pereira. No dia 10 de novembro de 1975, o juiz Raul da Costa Pinto me condenou a três meses de prisão por aquele texto, que tantos dissabores me causou, que tantas lições me deu e que me afastou dos meus alunos e dos meus colegas-professores de dois colégios que eu muito admirava e aos quais prestava o melhor ensino que eu podia, com assiduidade e pontualidade, como reconhecido pelas autoridades, mesmo naquele contexto adverso. Mas o juiz converteu a pena em sursis (liberdade condicional), mediante algumas condições, entre as quais a de “não tornar a delinquir” (sim, leitores, houve um tempo no Brasil em que escrever era delinquir), “fixar residência e dela não se ausentar por mais de oito dias a não ser com autorização expressa deste Juízo” e “encaminhar a este Juízo exemplar dos escritos publicados durante o período de suspensão da pena, imediatamente após a sua publicação“. Dali por diante, durante alguns anos, escrevi com o pseudônimo de Kate Morel, por sugestão do jornalista Jefferson Barros. Guerra sem testemunhas Meu advogado em vão apelou ao Tribunal de Alçada, em Curitiba. O primeiro relator foi Jayme Munhoz Gonçalves, que negou provimento à apelação. O documento final da apelação 445/75, consolidando a negativa, é assinado no Acórdão 2566, pelos desembargadores João Cid Portugal (presidente), Schiavon Puppi (relator) e José Merger. Aqui concluo este doloroso relato. Eu o fiz porque os leitores merecem que sejam levantados pelo menos alguns dos sete véus que ainda cobrem aqueles trágicos eventos. Em alguns casos foi uma guerra sem testemunhas. É verdade que está tudo resumido e anotado em diários que coleciono desde meus verdes anos! Registro que me serviram de conforto memorável os apoios que recebi do médico Walter Alberto Pécoits, líder naquela região, vários anos antes, da única revolta social por terras em que os pobres venceram, e de sua esposa, dona Manuela, que viviam em Francisco Beltrão naqueles anos. Mais tarde René Dotti obteria da União memorável indenização porque seu cliente, Dr. Walter, perdera um olho durante as torturas que lhe foram infligidas. Há muito mais a contar, mas sempre que mexo nessas feridas ainda dói muito. Doeu de novo, agora! Deonísio da Silva é autor de 34 livros, entre eles O assassinato do presidente (1994) e Contos reunidos (2010). É professor universitário e vice-reitor de extensão da Universidade Estácio de Sá. Ilustração: André Ducci Todas as edições da revista Helena estão disponíveis online em: http://issuu.com/revistahelena

domingo, 24 de maio de 2015

ARQUIVO ABERTO Rio de Janeiro, 1974 No prédio da Light

ARQUIVO ABERTO Rio de Janeiro, 1974 No prédio da Light DEONÍSIO DA SILVA "Nada temos a temer, exceto as palavras". Este bordão, reiterado ao longo do romance como um aviso, me desconcertou ao folhear "O Caso Morel", primeiro livro de Rubem Fonseca que eu li. Era aluno do curso de letras num campus do Brasil meridional e recebi a tarefa de fazer um trabalho sobre o adultério mais comprovado do mundo. Mas desde que a americana Helen Caldwell inventara uma suposta ambiguidade em "Dom Casmurro", só se podia ler o romance de Machado de Assis com vocação para corno: diante de todas as evidências, nem sequer desconfiar. Ex-seminarista e gato de bibliotecas (não gosto da metáfora do rato), eu já tinha lido todo o Machado. Propus Rubem Fonseca, cuja obra o professor também desconhecia. E vieram o acaso e suas leis, entretanto desconhecidas, como dizem os surrealistas. Entusiasmado, o professor ordenou-me que enviasse o pequeno ensaio ao editor. Rubem Fonseca apreciou aquela heresia e me convidou para visitá-lo no Rio, dando-me o endereço: av. Presidente Vargas, 642. Ao chegar, nova surpresa. Ali era a sede da Light, templo resplandecente do capitalismo. O autor, o sumo sacerdote de uma religião que seus personagens combatiam, não se parecia em nada com eles. Mas sua extrema cordialidade me desarmou. Em poucos minutos fluía uma conversa de doidos mansos. Eu também o surpreendera. "Pensei que você tivesse uns 50 anos. Pela maturidade do que escreveu", ele me disse. O escritor tinha 49 anos; eu, 25. Era o dia 30 de julho de 1974. Quais duas rádios em serenos solilóquios, dávamos os respectivos prefixos, procurando a sintonia mútua. O aprendiz logo percebeu que o mestre era muito ardiloso, com uma sabedoria que só têm os grandes autores. Quem escolhe o autor é o leitor. E era isso que tinha acontecido. Ele nada sabia de mim, mas eu estava em desvantagem. Ele me perguntou se eu lera seus outros livros. "Não, nenhum, só este sobre o qual fiz o trabalho". Estreara havia onze anos, com "Os Prisioneiros" (1963), e tinha publicado também "A Coleira do Cão" (1965) e "Lúcia McCartney" (1967). "O Caso Morel" (1973) era seu primeiro romance. Quando autografou "A Coleira do Cão", escreveu abaixo de meu nome "crítico e ficcionista". Ponderei que não tinha publicado nenhum livro, era rigorosamente inédito. E ele: "Você é ficcionista, é crítico. Só que ainda não publicou". Por suas mãos, dali a dois anos, eu estreava com um livro de contos na mesma editora que o publicava. Às vezes, desarruma meus sentimentos a advertência que Clarice Lispector lhe fez num de nossos encontros, em 1974, depois tão frequentes: "Zé Rubem, você está ficando muito lido, isto não é um bom sinal, você preste atenção ao que eu estou dizendo". E ele, com humildade: "Eu dou muita atenção a tudo o que você me diz, Clarice". Vieram outras águas, que moveram outros moinhos. Contra a censura, recorreu ao Judiciário. O processo durou de 1976 a 1989. Venceu, mas por 2 x 1, no TRF do Rio. Por pouco, "Feliz Ano Novo" não continuou proibido. Meus trabalhos sobre a obra de Rubem Fonseca devem muito a professores que não a conheciam, como Guilhermino César, louvado num poema de Drummond. Formaram um aluno que trouxe milhares de leitores para a obra fonsequiana. Em autor de tantas complexas sutilezas, alguns livros têm mais qualidade do que outros, mas todos estão bem acima da média, sejam contos ou romances. Sartre disse: "Os críticos são guardiães de cemitérios". Talvez porque mortos não reclamem de nada. No Brasil, poucos dedicam-se a descobrir autores vivos. Esperam que cheguem a seus pés, se possível contritos, pedindo favores. O trato justo e a conversa clara são evitados. No mundo literário, predomina a confraria do elogio mútuo. A regra é apagar quem discrepa ou simplesmente desconcerta. A obra de Rubem Fonseca fez dele um autor imortal. Certo dia, um leitor distante dos centros de difusão literária descobriu seus livros por acaso, como alguns devem estar fazendo agora com outros autores.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

MÃO INGLESA E MÃO FRANCESA

Na mão francesa, os automóveis circulam pela direita e têm o volante e os pedais do freio e da embreagem no lado esquerdo, e a alavanca de troca de marchas à direita. Na mão inglesa, dá-se o contrário: dirige-se pela esquerda, os comandos estão no lado direito, e a alavanca fica à esquerda. Quem fez os primeiros caminhos foram os bichos. Muitas estradas foram construídas sobre seus rastros na costa de mares, lagos, lagoas e rios, nossos primeiros e naturais caminhos. Quando o homem domesticou os primeiros bichos – isto é, trouxe-os para conviver com ele, dentro ou perto da domus, casa – uma das preocupações foram os caminhos. Engenheiro que se tornou jornalista e escritor, Euclides da Cunha escreveu em “Os Sertões” um dos mais belos parágrafos sobre a relação entre o homem e o cavalo: “O sertanejo é antes de tudo um forte (...). Que lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, matas de espinhos ou barrancas de ribeirões, nada lhe impede de encalçar o garrote desgarrado, porque, por onde passa o boi, passa o cavaleiro com o seu cavalo.” O engenheiro descreveu uma cena em que boi, cavalo e cavaleiro dispensam a estrada, mas estradas e ruas, e o modo de circular por elas, sempre foram indicadores de civilização. Os antigos romanos construíram a “via”, de terra, depois “via strata”, isto é, calçada de pedras. Muitas delas ainda existem, inclusive a maior, de 3.000 km, ligando a Bélgica à Rússia. Quando se encontravam, cada qual escolhia o lado esquerdo, pois a maioria era de destros e assim podiam manejar melhor a espada. O cavalo, a espada e Napoleão estão na origem do costume de se andar à direita ou à esquerda. O imperador dos franceses era canhoto! E mudou de mão ruas e estradas. França e Inglaterra estavam, como sempre, em guerra. Os ingleses desenhavam um dedo indicador numa tabuleta, ou recortado em madeira, para indicar o sentido da rua. No mundo inteiro predominou a mão francesa, andar pelo lado direito. A Inglaterra é teimosa e continua à esquerda. (xx) • Escritor e professor aposentado da UFSCar, é autor de 34 livros, alguns publicados também em outros países. Trabalha nas universidades Estácio de Sá e Unisul.

domingo, 3 de maio de 2015

BICHOS QUE SE TORNARAM SOBRENOMES

http://www.jornalpp.com.br/…/95531-significados-de-nomes-e-… Os bichos não estão apenas ao redor da casa ou no pasto, estão também nos sobrenomes lusófonos, costume vinculado a crenças em totens, de que são exemplos Lobo, Tigre, Coelho, Carneiro, Raposo, Passarinho, Cordeiro, Bezerra, Cavalo, Vaca, Barata, Leão, Gato, Cão (Diogo Cão, navegador). Os antigos romanos tinham Fabius (de faba, legume) e Catulo (catus, gato). Os escandinavos deram origem a Bernardo (do Sueco baer, urso). Os índios brasileiros tinham Jaguar (onça), Piragibe (espinha de peixe), Poty (camarão). Também as árvores exemplificam a presença de totens em sobrenomes como Albuquerque e Carvalho (o étimo do Latim quercus, carvalho), Oliveira, Pinheiro, Nogueira etc. Exemplo curioso é o nome Raquel, ovelha em Hebraico, a palavra tornou-se nome próprio feminino, a comparação foi com a beleza, a delicadeza e a mansidão da ovelha. Camões, a referência solar da literatura portuguesa, fez um lindo soneto sobre a paixão de Jacó por Raquel, fechando os 14 versos com uma declaração de amor: “Mais servira, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida”. É que Labão, o sogro, quando Jacó lhe pediu Raquel em casamento, impôs como condição que o futuro genro trabalhasse sete anos em troca da filha. E o enganou ao final do período, entregando-lhe, não a bela Raquel, mas a feia Lia, que tinha “remela nos olhos” e cujo nome tem o significado de vaca selvagem e cansada. Jacó foi fiel à etimologia do próprio nome. Gêmeo de Esaú, mais tarde enganaria o irmão, com um prato de ervilhas. E, aconselhado pela mãe, Rebeca, cujo nome quer dizer animal atado com laço, vestiu-se de couro de cabrito para enganar o pai, Isaac, que, já cego, sabendo que Esaú tinha os braços cabeludos, quis conferir se era mesmo o primogênito que vinha buscar a bênção. Ele já andava desconfiado de Jacó, cujo nome quer dizer trapaceiro. Esaú quer dizer riso: sua mãe Sara riu quando o anjo disse que ela, aos 80 anos, engravidaria e daria luz àquele menino. (*) Escritor e professor aposentado da UFSCar, é autor de 34 livros, alguns publicados também em outros países. Trabalha nas universidades Estácio de Sá e Unisul.

sábado, 25 de abril de 2015

ETIMOLOGIA, COLUNA Nº 1.120, CARAS, 24 de abril de 2015

Arabesco: do Italiano arabésco, designando estilo de decoração das manifestações artísticas árabes, marcadas pelo entrecruzamento de linhas, ramagens e flores, sejam entalhados em pedra ou madeira, pintados, desenhados ou impressos, sem a figura humana, porque a arte islâmica não admite sua representação. Tornou-se também sinônimo de rascunho e rabisco. Canônico: do Grego kanonikós, pelo Latim canonicus, derivados, respectivamente, de kánon, originalmente haste de junco utilizada para medir, depois régua usada nas construções, consolidando-se como regra e modelo, significados mantidos no Latim canon, conjunto de coisas aceitas, como é o caso de cristãos santificados oficialmente e por isso ditos canonizados, isto é, postos no cânone. Como aconteceu com tantas outras palavras, cânone e canônico tiveram significado e sentido alterados por influência do cristianismo, de que são exemplos os quatro evangelhos canônicos – de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João -, escolhidos dentre os cerca de quarenta existentes, impostos a partir do século IV, pela aliança então criada entre o império romano e os bispos, as mais altas autoridades cristãs do período. Entardecer: de tarde, do Latim tarde, lentamente, do mesmo étimo de tardare, demorar, e de retardatus retardado, aquele que demorou a crescer ou a desenvolver-se, sobretudo mentalmente. Entardecer designa os momentos que antecedem o pôr do sol, por volta das 18h, a hora do ângelus, assim chamada porque os sinos tocam as ave-marias, badaladas que lembram o início da gravidez de Maria, resumida em começo de frase extraída do Evangelho de Lucas, contando o diálogo entre o arcanjo Gabriel e a adolescente Maria, no entardecer do dia 25 de março do ano I de nossa era, na Galileia: “Angelus Domini nuntiavit Mariae” (O anjo do Senhor anunciou a Maria). O jornalista, romancista e poeta paraibano José Nêumanne Pinto (63), cujo estilo, na prosa como na poesia, é marcado por extrema correção com a língua portuguesa, tratou de outro viés do entardecer no poema Às cinco da tarde: “Entre o toureiro e a praça/ Firmam um pacto / Os patos e os tontos./ Entre o toureiro e a areia/ Tocam os sinos/ O dobre dos santos./ Entre o touro e a praça/ Dançam os sãos /A dança dos doidos”. Sumo: com o significado de suco, vem do Grego zomós, pelo Latim sucus e daí ao Latim vulgar hispânico zumu, de onde chegou ao Português. Já com o significado de supremo, o mais elevado, procede o Latim summus, como em sumo sacerdote e sumo pontífice, duas expressões surgidas nas narrativas cristãs, alterando, no segundo caso, a designação pontifex maximus, o cargo mais elevado entre os sacerdotes romanos pagãos, designando aquele que ia à frente do colegiado religioso nos desfiles e cerimônias públicas, cabendo-lhe a fiscalização para que os ritos fossem realizados conforme prescritos. Também os judeus tinham seu sumo sacerdote, que se chamava Caifás (século I) e presidiu a sessão do sinédrio, o supremo tribunal religioso, cujos poderes eram imensos, que condenou Jesus (? 6 a.C. – 27) por blasfêmia e o entregou ao governador da Judeia, Pôncio Pilatos (século I), que o condenou à morte por sedição. Um: do Latim unus, designando apenas o numeral no primeiro milênio, e com sentido artístico a partir do segundo milênio. Os antigos romanos representavam os números numa forma que ainda hoje prevalece, mas restrita a algumas funções, como em século I, capitulo II, seção III etc., mas depois que os árabes trouxeram os algarismos hindus para o Ocidente, predominaram os números árabes ou arábicos, cuja representação foi feita originalmente na Índia a partir dos ângulos que continham e só depois foram estilizados na forma com a qual se consolidaram: 1, 2, 3 etc., respectivamente com um ângulo, dois ângulos, três ângulos. Quem trouxe os números hindus para os países árabes, de onde se espalharam por toda a Europa, foi o sábio persa Abu Jafar Moahmed Ibn Musa (século IX), natural de Al-Kharizm, localidade do Ubezquistão, que, ainda criança, emigrou para Bagdá, no atual Iraque, acompanhando os pais. Xingamento: de xingar, do Quimbundo xinga, blasfemar, insultar, ofender, designando agressão verbal, em que frequentemente os animais são igualmente ofendidos quando invocados para ilustrar o que se quer criticar: anta, toupeira e burro, dirigidos a quem é falto de inteligência; gambá, para o bêbado; gato e rato, para ladrões; cobra, especialmente cascavéis e jararacas, para pessoas malévolas.