NOME DE POBRE NO BRASIL

domingo, 12 de fevereiro de 2017

GREVE DAS MULHERES DE ATENAS E VITÓRIA

As esposas dos policiais do Espírito Santo, estas novas “mulheres de Atenas”, cansadas de outra guerra, mostraram ser boas alunas de Lisístrata, uma personagem do grego Aristófanes. Na peça, ela lidera uma greve de sexo em 411 a.C., com o propósito de pôr fim às hostilidades que estavam arruinando a Grécia ontem. Hoje, outras guerras devastam o Brasil. Lisístrata significa em grego “desorganizadora do exército”, papel que não foi cumprido por nossas Lisístratas…
Há muitas outras diferenças que separam as antigas gregas das capixabas nesses mais de 2.400 anos. As divergências começam pela greve, que não foi das espírito-santenses e não foi de sexo. As gregas fizeram a greve delas, mas as brasileiras obrigaram os maridos a fazer outra greve, proibida pela Constituição. Assim procedendo, transformaram seus cônjuges em amotinados. Nós precisamos dar às coisas os nomes que as coisas têm e pelos quais são conhecidas. Greve é uma coisa, motim é outra.
As capixabas não fizeram greve, palavra vinda do Francês grève, nome de uma praça forrada de areia às margens do rio Siena, em Paris, onde trabalhadores se reuniam para reivindicar seus direitos, interrompendo o trabalho. As mulheres dos policiais amotinados foram designadas abundantemente na mídia por “mulheres”, nem “esposas”, nem “senhoras”. Esta sutileza diz muito dos lugares atribuídos à mulher na sociedade brasileira. E às vezes os conceitos e os preconceitos vêm tão escondidos que requerem uma leitura da estrutura profunda onde se homiziaram. A palavra mulher veio do Latim mulier para o Português e tornou-se hegemônica sobre seus sinônimos para designar o feminino de homem, mas há complexas variações no uso dos sinônimos quando a mulher é referida em outros contextos. Lembremos que a matriz latina de mulier para designar o mundo feminino é substituída quando a mulher recorre a médicos ou médicas ginecologistas para um exame ginecológico ou para fazer uma ginecoplastia. Daí o étimo é o Grego gynaikós, equivalente a “mulier” e “femina” no Latim. Desde sempre as mulheres têm desempenhado papel importante em momentos decisivos de nossa História. No real, de que são exemplos Ana Quitéria, Bárbara Heliodora, Chica da Silva e Anita Garibaldi, entre muitas outras. E no imaginário com obras artísticas e literárias famosas, como as três personagens emblemáticas de Jorge Amado, títulos de grandes romances: Gabriela Cravo e Canela, Teresa Batista Cansada de Guerra e Tieta do Agreste. Mas, como, segundo Hegel, a História só se repete como farsa, desta vez as senhoras do Espírito Santo, esposas de militares, representaram uma farsa e deram ao mundo mais um exemplo do jeitinho brasileiro: seus esposos as contrataram e terceirizaram a greve! Com tal procedimento, disfarçaram o motim, que tem punições muito mais rigorosas do que a greve.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O POVO QUER PÃO E CIRCO

O senado brasileiro já foi palco de momentos gloriosos e embates de alto nível, semelhantes às decisões tomadas pelo senado romano nos seus primeiros tempos, instituição que serviu de modelo a senados de todo o mundo. Mas talvez hoje se pareça mais com o senado romano do tempo do poeta satírico Juvenal. Quando Juvenal escreveu esta frase, os senadores da Roma antiga discutiam longamente assuntos impróprios para o lugar, como o melhor modo de preparar um peixe. A outrora honrada classe política e audazes comandantes militares davam ao povo o que ele queria: comida e divertimento. Era como se hoje fossem distribuídos alimentos em frente aos tribunais e entradas gratuitas em todos os estádios.
Em Roma, o trigo era oferecido no Forum e os espetáculos eram apresentados gratuitamente em anfiteatros, dos quais o mais famoso foi o Coliseu, cujas ruínas perduram até hoje, atestando a competência de Roma também nas grandes edificações. Foi também em contexto semelhante que o general Pompeu dissera que “navegar é preciso, viver não é preciso”, convocando os comandados a zarpar, mesmo sob ameaça de tempestade, porque navios carregados de trigo tinham que chegar a Roma antes que o povo se revoltasse. Os autores das duas frases são historicamente muito próximos um do outro. Pompeu vivera no século I a.C., e Juvenal no século I de nossa era. Não tinha sido sempre assim. Caminhando no campo de batalha, depois de sua célebre vitória sobre os romanos, o rei Pirro notara que todos os soldados derrotados, mortos ou feridos, tinham sido atingidos pela frente, nenhum em fuga. E ficara muito preocupado. Já com mais dificuldades, pois os romanos iam aprendendo a enfrentar seus elefantes, Pirro voltou a vencer Roma na segunda batalha, mas propôs paz aos vencidos, servindo-se para isso de um embaixador chamado Cineas. Este dirigiu-se ao senado romano e estranhou que tantos decidissem o que Pirro, seu chefe, decidira sozinho. A proposta não foi aceita, e Cineas, maravilhado com a oratória dos senadores, disse a seu chefe no regresso: o senado romano é uma assembleia de reis. No tempo de Juvenal, não era mais. E por isso ele escreveu a frase que se tornaria famosa. Panem et circenses - pão e espetáculos, no original -, passou à História como pão e circo.

domingo, 22 de janeiro de 2017

FRASES FAMOSAS QUE NINGUÉM DISSE

“O Brasil está beira do abismo”, reconheceu o marechal Castello Branco, primeiro presidente do ciclo militar pós-1964. “O Brasil deu um passo à frente”, acrescentou seu sucessor, o marechal Costa e Silva. “Ninguém segura este país”, completou o ocupante do terceiro mandato autoritário, o general Emílio Garrastazu Médici, entronizado depois da Junta Militar que ficara no interstício entre o segundo e o terceiro. Verdadeiras ou lendárias, estas frases teriam sido proferidas, então, num curto período histórico, por três presidentes da República. Ilustradas em tom de deboche, estavam numa edição de O Pasquim, censurada e apreendida nas bancas. Todavia a primeira frase, “O Brasil está à beira do abismo”,  é mais antiga e vem sendo pronunciada desde os tempos imperiais. Foi registrada na peça de teatro O Diabo no Corpo, de Coelho Neto, apresentada pela  primeira vez em 1899, no Theatro Lucinda, no Rio, mas publicada em livro apenas em 1905. Não raro são frases ditas por políticos, mas arrumadas e editadas por jornalistas, quando não de autoria de intelectuais que as escreveram para serem pronunciadas por autoridades, como  diz Carlos Drummond de Andrade no poema O Sequestro de Guilhermino César, em que fala de “repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,/ autores de discursos que jamais pronunciaríamos,/ pois os concebíamos para outros pronunciarem / no majestático palanque do Poder”. Há muitos exemplos de frases atribuídas a personalidades que entretanto jamais as pronunciaram. Lembremos três delas. “Elementar, meu caro Watson”, o célebre fecho com que o detetive Sherlock Holmes dá a entender  a seu amigo Watson que tudo estava claro desde o início. Ela não é encontrada em nenhum livro do autor. “O Brasil não é um país sério” foi atribuída ao general Charles De Gaulle. Ele nunca a pronunciou. E para homenagear o jornalista Augusto Nunes, que sabe tudo sobre Jânio Quadros, lembremos por último “Fi-lo porque qui-lo”, imputada ao presidente,  que entretanto jamais a pronunciou. Se a  proferisse, diria “fi-lo porque o quis”. Outras foram ditas e escritas, mas não do modo como se tornaram conhecidas. Eis duas delas. “Nesta terra, em se plantando, tudo dá” é creditada ao escrivão Pero Vaz de Caminha na certidão de nascimento do País, a sua famosa Carta do Achamento do Brasil. Sim, esta terra foi achada, não descoberta. A frase está lá, mas foi escrita de outro modo: “Querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. “Sangue, suor e lágrimas”. Esta é atribuída ao Winston Churchill em seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns, em 1940. Mas Churchill ofereceu, não três, mas  quatro coisas: “Sangue, trabalho, lágrimas e suor”. Esqueceram o trabalho! Para escrevê-la, o então primeiro-ministro inspirou-se num discurso de Giuseppe Garibaldi, pronunciado em 1849: “Não ofereço nenhum pagamento, nem postos, nem provisões. Ofereço fome, sede, marchas forçadas, batalhas e morte”. O brasileiro é frajola e adora uma frase. Frajola, do Quimbundo fwala dyola, significa isso mesmo: por falar bonito, a pessoa é vista como elegante e faceira: fwala é falar; dyola é claro, puro. Frajola designou originalmente aquele que fala com clareza uma língua que a maioria não conhece. Atualmente designa indivíduo vestido com elegância exagerada. E assim fica o dito pelo não dito, uma outra frase famosa, aliás. http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/de-onde-vem-as-palavras-o-brasil-esta-sempre-a-beira-do-abismo/

sábado, 21 de janeiro de 2017

TEORI(A) DA CONSPIRAÇÃO E O CASAL ZWEIG

Bertrand Russell recomendava que em caso de dúvida ou suspeita procuremos os fatos. Por enquanto temos: 1. Um ministro do STF ia descansar alguns dias na casa de verão de um amigo, um rico empresário. Há ricos honestos e pobres desonestos. E vice-versa. Nada disso é suspeito. 2. Conquanto tenha passado em concurso público para juiz, Teori Zavascki recusou a nomeação e foi trabalhar para o Banco Central, de onde foi guindado ao TRF pelo quinto constitucional, que dá aos governantes o recurso de nomear sem concurso. Nada disso é suspeito. 3. Foi indicado ao STF pela então presidente da República, Dilma Rousseff, como Joaquim Barbosa o foi pelo presidente Lula, Gilmar Mendes pelo presidente FHC, outros pelos presidente Collor oiu pelo presidente Sarney. Nada disso é suspeito. Conclusão de romancista, repito, de romancista, e de contista, cujo ofício é inventar, fazer ficção, cujo étimo é o mesmo de mentir: cada um construa sua teori(a) da conspiração. Mas acho paradoxal que tão poucos desconfiem do suposto duplo suicídio do casal Zweig quando foram comprovadas 23 (vinte três) contradições, das quais destaco: Por que o governo Getúlio Vargas proibiu a autópsia dos corpos? Por que não foi aberto inquérito? O que foi fazer em Petrópolis (RJ) o inimigo dos judeus e pró-nazista Filinto Müller, que foi recebido por Getúlio Vargas no dia da morte do casal? Ah, daí são coincidências?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ALEGRIA E DOR NOS CALENDÁRIOS

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda.
A maioria dos calendários apresenta os dias em vermelho para os feriados, e preto ou azul para os dias úteis. Calendários explicitam algumas coisas, mas ocultam outras tantas. A etimologia pode indicar o verdadeiro significado. Calendário veio do latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para o pagamento de impostos e outras contas. O nosso calendário é gregoriano, assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que em 1582 ajustou uma diferença do calendário juliano, do qual foram suprimidos dez dias, para fixar corretamente a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Assim, o dia seguinte a 4 de outubro foi 15 de outubro. Há calendários mais antigos, como o hebraico e o chinês. Mas hoje todos aceitam o padrão gregoriano de contar o tempo. A folhinha, como é popularmente conhecida, guarda a memória das folhas das árvores em que as sibilas, mulheres adivinhas, escreviam as profecias do ano que começava. Estas profecias há muito tempo são outras: fases da Lua, eclipses, previsão de chuvas, dias em que vão cair os feriados móveis, dias de jejum e de abstinência, efemérides etc. Os dias úteis, marcados na cor escura para diferenciá-los dos feriados civis e dias santificados, ainda fixam como castigo o significado do trabalho, segundo a primeira condenação bíblica que expulsou nossos primeiros pais da esfera das coisas sagradas, condenando o homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto e a mulher a sofrer nos partos. Nesta metáfora, Adão e Eva, expulsos do paraíso e condenados ao trabalho, foram os primeiros imigrantes e refugiados do mundo. Trabalho veio do Latim tripalium, um instrumento de tortura de três paus, como indica o étimo, no qual a vítima era supliciada, como ainda o é em muitos empregos. A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda-feira para cumprir mais uma daquelas perpétuas parcelas semanais da mítica e antiga condenação. As palavras que designam as cores do calendário também têm uma etimologia curiosa. Vermelho veio do latim vermiculus, minúsculo verme que fornecia o pigmento para tingir a roupa da gente fina e nobre: chefes religiosos, chefes políticos, chefes militares, às vezes englobados numa pessoa só. Seu outro nome era púrpura, molusco de difícil captura. Na antiguidade, a caça e a pesca do porphiros, seu nome grego, e da purpura, seu nome latino, eram proibidas para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor. Os cardeais da Santa Sé, príncipes herdeiros da monarquia mais antiga do mundo, vestem vermelho ou púrpura, esta última a cor preferida das altas insígnias da realeza e da magistratura. De resto, tapetes vermelhos são estendidos, literal ou metaforicamente, para personalidades a honrar. O calendário das nações lusófonas como o Brasil tem uma singularidade única: os dias da semana não homenageiam deuses pagãos desde o século VI, quando o bispo de Braga aboliu as referências ao Sol, à Lua, a Vênus e a outras divindades, que continuam homenageadas em outras línguas, de que são exemplos o Sol e a Lua no inglês Sunday e Monday. Com exceção de sábado, do hebraico xabbat, dia do descanso, pelo Latim sabbatum, nossas semanas começam sempre com o domingo, dia de feria, que pode ser festa ou feira, e segue de segunda a sexta, lembrando que todos são dias de festejar, comprar e vender. Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas ainda é cedo para sabermos quem teve importância no ano passado ou terá importância no ano que começou. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert, “quem cria os grandes homens é a posteridade”. A posteridade cria os pequenos também. Ou apequena os grandes e engrandece os pequenos. Deonísio da Silva é escritor http://oglobo.globo.com/opiniao/alegria-dor-nos-calendarios-20801124

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MEMORIAL JK PODE ESTAR COM O CORPO ERRADO

O que a seguir vou narrar lembra o SAMBA DO CRIOULO DOIDO, letra do jornalista Sérgio Porto, nosso inesquecível Stanislaw Ponte Preta: "Foi em Diamantina/ Onde nasceu JK/ Que a Princesa Leopoldina/ Arresolveu se casá/ Mas Chica da Silva/ Tinha outros pretendentes/ E obrigou a princesa/ A se casar com Tiradentes".
Leio que pode ser o corpo de Geraldo Ribeiro, o motorista de JK, morto com o presidente no acidente de automóvel, que está no Memorial JK. Os dois caixões eram iguais e pode ter havido a troca. Assim, o corpo do jazigo 410-b, na quadra 12, no Cemitério São João Batista, no Rio, pode ser o de JK e não o de seu motorista. O corpo de Juscelino Kubitschek foi enterrado com honras de chefe de estado, em Brasília, primeiramente no Campo da Boa Esperança, num túmulo próximo ao de Bernardo Sayão, um dos pioneiros de Brasília, de onde foi exumado em 12 de setembro de 1981, sem a presença de nenhum familiar. Os restos mortais do presidente - que, repito, podem ser os de seu motorista! - foram, então, levados ao Memorial JK. Em 15 de janeiro de 2017, fui ao Cemitério São João Batista. Procurei o jazigo 410-b na Quadra 12, tal como confirmado nos registros, agora digitalizados. O jazigo sumiu. Durante quase 2h um ex-coveiro, agora funcionário, me ajudou a procurar. Geraldo Ribeiro e JK, onde estão vocês? Brincando de esconde-esconde? Quem está em Brasília, quem no Rio? (xx)

sábado, 14 de janeiro de 2017

O AGRONEGÓCIO NÃO ENTENDEU O ENREDO DA IMPERATRIZ

Não tem pé nem cabeça a polêmica de alguns líderes do Agronegócio e da Agropecuária com a Imperatriz Leopoldinense. No ano do centenário do escritor Antônio Callado (para mim, seu romance referencial é Quarup, cujo mito é citado no samba-enredo), nosso olhar sobre o índio, a floresta, o agronegócio e a agropecuária há de ser mais largo. Nele cabem visões diversas, plurais, não a visão maniqueísta de que uns querem destruir o que outros construíram. Não é nada disso. Contra ou favor, leia-se e ouça-se o samba-enredo, que, aliás, é muito bonito.
O CLAMOR DA FLORESTA Samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense no Caranaval de 2017 Autores: Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna Intérprete: Arthur Franco Para mais informações, ver: http://www.rio-carnival.net/carnaval/escola-de-samba/imperatriz.php BRILHOU… A COROA NA LUZ DO LUAR! NOS TRONCOS A ETERNIDADE… A REZA E A MAGIA DO PAJÉ! NA ALDEIA COM FLAUTAS E MARACÁS KUARUP É FESTA, LOUVOR EM RITUAIS NA FLORESTA… HARMONIA, A VIDA A BROTAR SINFONIA DE CORES E CANTOS NO AR O PARAÍSO FEZ AQUI O SEU LUGAR JARDIM SAGRADO O CARAÍBA DESCOBRIU SANGRA O CORAÇÃO DO MEU BRASIL O BELO MONSTRO ROUBA AS TERRAS DOS SEUS FILHOS DEVORA AS MATAS E SECA OS RIOS TANTA RIQUEZA QUE A COBIÇA DESTRUIU SOU O FILHO ESQUECIDO DO MUNDO MINHA COR É VERMELHA DE DOR O MEU CANTO É BRAVO E FORTE MAS É HINO DE PAZ E AMOR SOU GUERREIRO IMORTAL DERRADEIRO DESTE CHÃO O SENHOR VERDADEIRO SEMENTE EU SOU A PRIMEIRA DA PURA ALMA BRASILEIRA JAMAIS SE CURVAR, LUTAR E APRENDER ESCUTA MENINO, RAONI ENSINOU LIBERDADE É O NOSSO DESTINO MEMÓRIA SAGRADA, RAZÃO DE VIVER ANDAR ONDE NINGÚEM ANDOU CHEGAR AONDE NINGUÉM CHEGOU LEMBRAR A CORAGEM E O AMOR DOS IRMÃOS E OUTROS HERÓIS GUARDIÕES AVENTURAS DE FÉ E PAIXÃO O SONHO DE INTEGRAR UMA NAÇÃO KARARAÔ… KARARAÔ… O ÍNDIO LUTA PELA SUA TERRA DA IMPERATRIZ VEM O SEU GRITO DE GUERRA! SALVE O VERDE DO XINGU… A ESPERANÇA A SEMENTE DO AMANHÃ… HERANÇA O CLAMOR DA NATUREZA A NOSSA VOZ VAI ECOAR… PRESERVAR!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

POLÍCIA FEDERAL ENSINA LATIM

"Cui bono?", em Latim, (bom para quem?) é a variante de "Cui prodest?" (quem ganha? ). Foram proferidas por Cícero, mas ele citava um outro político chamado Lúcio Cássio Longino Ravilla, que as dissera num processo contra três virgens vestais acusadas de ter rompido o voto de castidade. Do sexo à política foi um pulinho.
Quebrar votos de castidade não espanta mais ninguém faz tempo, o que espanta são os crimes financeiros, cada vez mais ousados. Desta vez, os suspeitos de ganhar com os financiamentos da Caixa (foram pra Caixa eles também) são o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (já preso) e agora o ex-ministro Geddel Vieira Lima.
Os delegados da PF e membros do MP que dão nome às operações sibilam estas expressões pensando nos advogados regiamente pagos pelos criminosos. Quer dizer, estão ganhando bem? Então, mãos à obra: estudem um pouco de Latim, de Mitologia greco-romana, enfim de cultura clássica, muitas vezes matérias optativas no currículo dos cursos de Direito que fizeram.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

SEQUESTRO DE GUILHERMINO CÉSAR, Ao completar setent' anos

Achei tão bonita, ética e sincera a crônica de Adriana Sydor, minha amiga de infância desde antes de ontem, por artes de um amigo de décadas, o Fabio Campana, que resolvi desencavar este poema de Drummond que poucos conhecem. Vai para você, Adriana querida:
"Assim roubaremos Guilhermino César ao País do Rio Grande/ e o transportaremos ao País da Memória,/ país de cafés-sentados e redações não eletrônicas de jornais,/ de repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,/ autores de discursos que jamais pronunciaríamos,/ pois os concebíamos para outros pronunciarem/ no majestático palanque do Poder,/ enquanto refocilávamos em orgias/ com a ninfa de coxas de espuma e seios-orquídea/ chamada Literatura/ nosso maior amor e perdição". (Quando nosso querido professor Guilhermino César, orientador de minha dissertação de mestrado na UFGRS, fez 70 anos, em 1978, Drummond fez-lhe um poema que agora está na p. 1292 de sua Poesia Completa, publicada pela Editora Nova Aguilar, em 2003).

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ESTAMOS EM 2017. MAS POR QUÊ?

O tempo já foi contado de diversas maneiras. Atualmente não seguimos o calendário chinês, egípcio, hebraico, romano ou juliano. Seguimos o calendário gregoriano, assim chamado porque foi baixado pelo papa Gregório XIII, em 1582. O primeiro calendário a servir de base para o de hoje foi fixado por Rômulo, o primeiro rei de Roma, no ano 753 a.C. Em 45. A.C., ele foi substituído pelo calendário juliano, fixado por Júlio César, então no cargo de Pontífice Máximo.
Era uma de suas atribuições intercalar os meses para ajustar o complicado calendário romano. Júlio César chamou o astrônomo grego Sosígenes e, com a ajuda dele, fixou o calendário que passou a chamar-se juliano. Para que o ajuste fosse correto, o ano anterior, 46 a.C., teve 443 dias. O calendário juliano voltou a ser alterado por Otávio Augusto. Ele mudou o nome dos meses quintilis, o 5º mês, e sextilis, o 6º mês, a contar de março, para Julho e Agosto, para homenagear Júlio César com Julho, de Julius, e a si mesmo com Agosto, de Augustus. Os meses seguintes não mudaram de nome. Continuaram sendo setembro, outubro, novembro e decembro, o sétimo, o oitavo, o nono e o décimo mês respectivamente, como indicam os étimos september, october, november e december, que tinham estes nomes antes do acréscimo de janeiro e fevereiro. Como o ano começava em março, julho era o quinto mês. E agosto o sexto, daí se chamarem originalmente quintilis e sextilis. No ano de 1253 A.U.C. (iniciais da expressão Ab Urb Condita, da fundação da cidade), a Igreja tinha grande poder no império romano, pois o cristianismo já tinha sido declarado religião oficial pelo imperador Constantino I ainda no século IV. Naquele ano, correspondente ao ano 500 no calendário atual, trabalhava na Cúria Romana um monge grego chamado Dyonisius Exiguus (470-544), nascido na Cítia Menor, hoje Romênia, reconhecido como de altos saberes em história, matemática e astronomia. O papa João I (470-526) determinou que Dyonísio, o Baixinho ou o Pequeno, seu nome em Português, organizasse um calendário cristão. Seu projeto era deixar de seguir o calendário pagão e fixar corretamente a data da Páscoa e outras festas religiosas, como o Natal. Dyonísio assim o fez, criando a expressão Anno Domini (No ano do Senhor) como referência do tempo passado. E para indicar o que acontecera antes do ano 1, acrescentou a abreviação a.C. (antes de Cristo). Assim, a data da fundação de Roma passou a ser designada, não mais como 753 A.U.C. , mas 753 a.C., e aquele ano, 1253 A.U.C. passava a ser o ano 500, contados a partir do nascimento de Jesus no ano 1. Primeiro, a Igreja aboliu os modos usados até então, que consideravam preferencial, mas não exclusivamente, o ano 1 como a data de fundação de Roma, designada por números seguidos da expressão A.U.C., formada pelas iniciais da expressão latina Ab Urbe Condita (desde que foi fundada a cidade). A cidade era Roma. A própria palavra calendário veio do Latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para liquidar os impostos e outras contas. O ajuste que transformou nosso calendário em gregoriano deve-se ao fato de que o ano não tem um número exato de dias. Tem 365 dias, 5 horas 48 minutos e 46 segundos. Em 1582, a diferença de 11 minutos e 14 segundos a cada ano, já resultava em dez dias, deslocando a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Foi quando o papa Gregório XIII pôs ordem na bagunça e determinou que a quinta-feira, dia 04 de outubro de 1582, fosse seguida da sexta-feira, dia 15 de outubro, suprimindo dez dias do calendário então em vigor! O curioso é que no dia da semana ele não mexeu. Dia 15 foi sexta-feira! Se fôssemos corrigir o calendário proposto por Dyonísio, o Baixinho, estaríamos hoje no ano 2021, pois Jesus nasceu entre os anos 2 a.C. e 8 a.C., e não no ano 1. Ao fixar a data do nascimento de Jesus, Dyonísio, o Baixinho, confundiu o ano da morte de Herodes, o Grande, e a data do recenseamento ordenado por Augusto. Confundiu ou não deu importância a esses eventos, não se sabe. Mas estas imperfeições só foram descobertas no século XIX. Por isso, não se mexeu mais no calendário. O que dificultou os cálculos de Dyonísio foi que o zero, já conhecido pelos hindus, não tinha chegado ainda ao Ocidente. Até então e por muitos séculos ainda vigorariam os números romanos. Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas nunca sabemos quem teve importância em 2016 ou terá importância em 2017. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert, “quem cria os grandes homens é a posteridade”. Os pequenos também. (xx)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

OS REIS MAGOS: QUE REIS SÃO ELES?

Os ossos dos três reis magos foram descobertos por Santa Helena, que os levou para Constantinopla, na atual Turquia, no século IV. Ela era mãe do imperador Constantino, o Grande, e já descobrira também a manjedoura em que o Menino Jesus foi posto ao nascer, cujas tábuas estão hoje na Catedral de Santa Maria Maior, em Roma, e a cruz e o local em que Jesus tinha sido crucificado. Em Belém, onde ele nasceu, foi erguida a Igreja da Natividade, e em Jerusalém, onde ele morreu, a Igreja do Santo Sepulcro. Nos séculos seguintes, tendo sido declarada religião oficial do Império Romano, o cristianismo e os cristãos passaram de perseguidos a muito poderosos. Apossaram-se dos aparelhos de Estado e construíram catedrais, mosteiros, igrejas, capelas e diversos prédios. A troca de relíquias sagradas foi intensa desde então e serviu para arrecadar imensas quantias. Assim, os restos mortais dos reis magos tinham ido parar em Milão, na Itália, quando o imperador Frederico Barba Roxa os levou para Colônia, na Alemanha, em 1164, onde desde então são venerados e visitados com frequência por turistas do mundo inteiro. São Beda, monge inglês e doutor da Igreja que viveu entre os séculos VII e VIII, foi o primeiro a sistematizar a lenda dos reis magos. Ele diz quais seus nomes, de onde vinham, que idade tinham e o que levaram ao Menino Jesus. Assim, os cristãos ficaram sabendo que Merquior tinha setenta anos, vinha da Caldeia e levou ouro. Gaspar, de vinte anos, vinha de uma região montanhosa do Mar Cáspio e levou incenso. Baltasar, de quarenta anos, viera da Pérsia e levou mirra. Outro doutor da Igreja que se ocupou dos magos foi São João Crisóstomo, que viveu entre os séculos IV e V. Ele diz que os magos, depois de terem sido batizados por São Tomé, ajudaram muito na evangelização e morreram na Turquia, todos já em idade muito avançada.
Estes famosos reis do presépio resultam da interpretação de um pequeno trecho do Evangelho de São Mateus, mas ele não diz que eram três, nem que eram reis, nem que tinham nomes. Diz apenas: “Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: “onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?. Vimos sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. O rei Herodes e toda a Jerusalém ficaram perturbados com esta notícia”. A seguir, Mateus diz que os magos, informados por Herodes, chegaram ao destino e visitaram Jesus: “Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram”. Como se vê, Mateus não fala em gruta, o cenário preferencial do presépio. Presépio veio do Latim praesepium, estábulo. Isto explica a presença da manjedoura e dos animais. Estas foram as bases da lenda, palavra oriunda do latim medieval legenda, vocábulo empregado para designar o que estava sendo lido e o modo como eram proferidas as narrativas heroicas, as novelas de cavalaria e a vida de personalidades referenciais das religiões. Poucos ouvintes sabiam ler. As histórias eram lidas em voz alta para que analfabetos pudessem compreendê-las. Pessoas do povo memorizavam lendas inteiras ou fragmentos delas e assim as narrativas mesclavam muitas versões faladas àquela que tinha sido escrita e recitada. Estas últimas eram repetidas e traduzidas, com variações de estilo, de conteúdo e de personagens. Todavia lendas não são tiradas do nada, são construídas com elementos históricos e imaginários. Na Idade Média, o número de reis magos chegou a duzentos. Na Europa ainda hoje são vendidas miniaturas de antigos presépios com mais de uma centena de personagens, entre os quais muitos reis. Como os magos levaram três presentes ao Menino Jesus (ouro, incenso e mirra), seu número foi fixado em três. Mas por que reis magos? Mágos, em Grego, não designava reis. Identificava sacerdotes que praticavam a astronomia e a astrologia. Eles estavam investidos de poder, tanto religioso como político, mas não eram reis! O Evangelho de Mateus que serviu de base às traduções foi escrito originalmente em Grego, resultante de uma série de apontamentos feitos por Mateus em Aramaico. Quem levou os três reis magos para o presépio foi São Francisco de Assis, que inventou este tipo de instalação no século XIII. Com o tempo, os reis magos ganharam até nomes: Gaspar, Merquior e Baltasar, cada um deles com uma das três cores básicas da raça humana (branca, amarela, negra)! Lenda não é mentira. É um modo de contar. Mateus diz que, avisados em sonhos, os magos voltaram por outro caminho e não informaram a Herodes que o rei dos judeus tinha nascido. Furioso, ele ordenou a matança dos inocentes, representada em tantas imagens, com o fim de eliminar todas as crianças nascidas nos últimos dois anos e assim executar o Menino Jesus, que já estava no Egito, para onde tinha sido levado pelos pais, uma vez que um anjo avisou São José. São José, aliás, não diz uma única palavra em toda a Bíblia. Ele não fala, ele faz, sempre faz o que é necessário fazer como pai adotivo do menino para protegê-lo. Todo Natal, os reis magos são lembrados no presépio, adorando o Menino Jesus, o rei recém-nascido. Os reis verdadeiros, de existência comprovada, estão ausentes. Ficaram só os reis imaginários. A bonita lenda cristã triunfou sobre a História sem abalar a fé dos cristãos! Quem pouco tem a ver com o Natal é Papai Noel...Mas esta é outra história, outra lenda. (xx)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

NATAL, MEMÓRIA, CHARITAS E LIBIDO

No primeiro Natal de que me lembro,  eu tinha pouco mais de quatro anos, nosso pai me levou ver o presépio e eu achei que o Menino Jesus tinha dente de ouro. Deveria ser algum reflexo de luz na boca da imagem. No café da manhã de 25/12 de 1952, nossa mãe partiu uma grande bolacha em forma de cabrito, deu um pedaço a cada um e.... sobrou cabrito...
Naquele Natal, eu ganhei um caminhãozinho azul. Pedi ao pai para cortar o brinquedo ao meio e ele fez isso com uma serrinha. Nosso pai era muito habilidoso com trabalhos manuais. Ele ficou triste, pois tinha acabado de comprar o presente, mas quis me atender. Pedi para ele pôr um arame que ligasse os dois pedaços e saí brincando feliz com o caminhãozinho pelo assoalho da casa, fazendo com a boca o barulho do motor. Foi um dia muito feliz. Com o tempo aprendi que a felicidade não é indispensável...Indispensável é o amor, que os antigos gregos designam por "charitas" e que São Jerônimo e seus ajudantes traduziram para o Latim da Vulgata por "caridade", diferenciando-a de ágape e de libido, ainda que o étimo deste último persista no Alemão "LIEBEN" e seus compostos, sem o sentido de libido e libidinoso consolidados no Português.

domingo, 18 de dezembro de 2016

OLHO NO OLHO, O CORPO FALA E DIZ MAIS

Um pinta ou implanta cabelos. Outro ajeita a gravata bem abaixo ou bem acima do cinto ao pé do ventre,  contrariando todas as regras da etiqueta. E não faltam também outras que, mesmo sem repetir o vestido e os sapatos, têm cabeleireiros e maquiadores que seriam reprovados ainda na preparação das múmias do Egito antigo! Todos devemos muito a fotógrafos e cinegrafistas. Uma coisa é ler a frase proferida pelo parlamentar que não domina sequer a língua falada, sua ferramenta de trabalho por excelência, ou ouvi-la de terceiros. Mas outra, bem diferente, é ver a cara dos brutos proferindo a infâmia. E que delícia contemplá-los naquelas vestes e pompas! Mas ainda mais forte é ver e ouvir o cara de pau olhando meio de lado para a câmera e atestando o contrário, não apenas do que diz, mas do que sente e pensa.
O corpo fala, mede, fixa a altura, a profundidade, a largura, o tamanho e é capaz de evidenciar verdades ocultas e realçar ainda mais as mentiras profissionais. A língua portuguesa mostra isso em numerosas palavras e expressões. A polegada, medida fixada em dois centímetros e meio pelo rei inglês Eduardo I, no século XVI, ainda hoje mede a tela de celulares, smartphones, tablets e televisores em que contemplamos a face mais sinistra daqueles que elegemos. O que vimos em tantos deles para os elevar a tão altos cargos, sem que possamos imputar a má escolha a ninguém mais, só mesmo aos eleitores, isto é, a nós mesmos, que votamos protegidos no último reduto da liberdade, a sacrossanta urna? Dois dedos de prosa podem servir para descomplicar a questão emaranhada. O dedo-duro, simbolizado no gesto do alcagueta esticando o indicador, espanta-nos à simples menção, mesmo tanto tempo depois de governos impostos contra a democracia, quando se mostrou ferramenta de exercício do poder. Nos tempos atuais, o gesto migrou da mão para a língua no bater de línguas nos dentes nas delações premiadas, sem as quais provavelmente jamais o distinto público saberia de coisa alguma. Só sabe porque os arrependidos ou flagrados com a boca na botija resolveram falar para salvar a própria pele. Estes políticos que traíram o público serão julgados olho por olho, dente por dente ou vão cumprir as sentenças apenas com o adereço da tornozeleira eletrônica? A coisa pode também não nos cheirar bem, por faltar vergonha na cara de quem proferiu, expressou ou escreveu a infâmia da semana passada. A democracia, à semelhança da baiana, tem ‘graça como ninguém’ e ‘requebra bem’, itens que as réguas não medem, para evitar equívocos. Afinal, por duas polegadas a mais, já passaram a baiana pra trás. E sempre restará a questão vista de outro modo: Marta Rocha tinha duas polegadas a mais ou a americana Miriam Stevenson tinha duas polegadas a menos? Naquela oportunidade, quem decidiu, usou outras medidas ou usou as medidas de outro modo, como hoje fazem tantos poderes da República, esta nossa frágil plantinha, nascida de um golpe de Estado liderado por um marechal monarquista amigo do imperador mais republicano que tivemos, a quem o amigo depôs e despachou para o exílio no meio da noite, pois se aguardasse a manhã, o povo talvez o entronizasse de volta. E com que medida os novos aliados medirão os antigos? Afinal, eles são sempre os mesmos, não são? Eles sempre se entenderam. Não se entenderão apenas desta vez? O que mudou para eles mudarem tanto, se é que vão mudar? (de minha coluna na Veja on-line, em 18.12.2016)

domingo, 11 de dezembro de 2016

POR QUE O 13 É O NÚMERO DO AZAR?

O medo tem um nome complicado: triscaidecafobia. As explicações são muitas, mas pouco claras. Judas (século I) completou o número 13 na Última Ceia, pois Jesus (século I) estava ali com os 12 discípulos. Os dois morreram logo após aquele jantar: Jesus, crucificado; Judas, enforcado. O navegante português Pedro Álvares Cabral (1467 ou 1468-1520) veio descobrir o Brasil com 13 naus, mas voltou só com seis, porque sete naufragaram. A superstição deve ser mais antiga: o Código de Hamurábi (1792-1750 -1730-1685 a.C.) pula o número 13, saltando do 12 ao 14 em sua lista de prescrições. Na cabala judaica, são 13 os espíritos malignos. Satanás é justamente o 13º.

DURA LEX, SED LEX: NO CABELO, SÓ GUMEX

“Os dois não podem estar certos”, disse o escrivão ao sufi, designação de soberano persa que atuava também como juiz supremo e dera razão a cada um dos litigantes. Replicou o sufi: “O senhor também tem razão”. “Sufi” no Árabe é lã, provável alusão à capa do magistrado, equivalente à toga usada sobre a túnica pelos cidadãos da Roma antiga em ocasiões solenes e hoje vestimenta privativa de juízes e ministros de tribunais superiores como o STF. Toga, que passou ao Português com a mesma grafia do Latim, é do mesmo étimo de coisas que servem para cobrir, como telha, tugúrio, teto, de detetive, originalmente o policial encarregado de procurar o transgressor ou o ladrão onde ele se escondera, em geral no teto de residências ou prédios.
A etimologia tem destes encantos e curiosidades. Certas palavras não significam mais o que no berço significaram. Diferentemente do que fizeram nos primórdios do direito romano, os juízes não precisam mais espetar uma vara no chão, cuja ponta superior possa ser avistada de longe pela turba, identificando o tipo de litígio que atendem (se cível, se criminal, se questões familiares, se outras disputas), nem pendurar suas sentenças em varas erguidas na horizontal ou na transversal para delas os interessados tomarem conhecimento. Assim nasceu também a comarca, que em Latim significa “com marca”, isto é, identifica a área de atuação dos juizados. A propósito, juiz designou originalmente aquele que dizia ou escrevia a justiça, o direito, que não é torto nem tortuoso sequer na etimologia: direito é do mesmo étimo de direto. Mas sentença é do mesmo étimo do verbo sentir. Cada cabeça produz uma sentença diferente, uma vez que cada juiz sente diferentemente um mesmo problema. O Supremo, como é conhecido o STF, é palavra que aparece em muitos outros contextos. O mais conhecido é o da culinária: supremo de frango, supremo de chocolate, supremo de abacaxi, embora não exista supremo de pizza! Supremo designa o que é ou está superior a tudo ou a todos. Alguns advogados, adeptos do juridiquês, já se referiram ao Supremo, em desjeitosas petições, como “alcândor conselho”, esquecendo-se de que o étimo árabe desta palavra dá conta de que alcândor é poleiro de papagaios. Mas o fizeram sem ironia, apesar da insuportável enxúndia das intervenções de alguns ministros. Não são poucos os que identificam uma fogueira de vaidades no STF. A vaidade parece inerente a certos cargos. Múmias de mais de três mil anos conservaram para a posteridade o costume de homens arrumarem as madeixas com glostora ou gumex quando estes fixadores eram conhecidos por outros nomes. A votação de 6 x 3 foi acachapante para os que venceram, e gloriosa para os que perderam. A palavra acachapante veio justamente do modo com o guazapo, espécie de coelho em Espanhol, se estende sobre o chão antes de receber a cajadada do caçador. E gloria, de que se formou glorioso/a, veio do Latim, que por sua vez se radica em dois verbos gregos: klýo e kléo, que significam respectivamente entender e celebrar. Que os ministros perdedores recebam deste modesto escritor e professor os mais sinceros cumprimentos. Seus colegas vencedores mostraram que glostora e gumex são menos maleáveis do que a dura lex. PS. Dura lex quer dizer "A lei é dura, mas é a lei". (Publicado originalmente na VEJA ON-LINE, na coluna de Augusto Nunes).

O POEMA "INSTANTES" NÃO É DE BORGES

"Que outros se orgulhem do que escreveram, eu me orgulho do que li". Estas frases são de Jorge Luís Borges. Mas na internet fazem o seguinte: trocam autores, atribuem a conhecidos escritores obras que eles não escreveram etc. E assim aparecem textos de qualidade sofrível e outros até bem escritos, cuja autoria nem sempre é possível de ser rastreada. Enfim, o luxo e lixo convivem. Na semana passada, todo dia era anunciada uma entrevista de Sérgio Moro. Curiosamente um destes informes chegou a meu e-mail acompanhado, por acaso, da carta de despedida do Prêmio Nobel García Márquez, falecido em 2014, aos 87 anos. GGM nunca escreveu a tal carta, e ninguém sabe, ao que eu saiba, que é seu autor. Sabe-se até que Fidel Castro fazia revisão de originais de García Márquez, aliás... Mas 'INSTANTES' não é de Borges!
Quem me perguntou foi Mariângela Luna, minha amiga há décadas, acho que ela estudava ainda no Pequeno Polegar quando a conheci, tanto tempo faz, protegida, como sempre, por Bete Calligaris, esposa do Jorginho, Jorge Brennand Jr. Mari, como a chamamos, dedica atenção especial a autores & livros, partilha preciosas dias de leitura e está sempre atenta à Galáxia Gutenberg. Muito citado, este poema é atribuído a Jorge Luís Borges, a Nadine Stair e a outros mais. Seu verdadeiro autor talvez seja o americano Don Herold, falecido em 1966, aos 77 anos, e autor de quase vinte livros. Diz num dos trechos: “Se eu pudesse novamente viver a minha vida,/ na próxima trataria de cometer mais erros./ Não tentaria ser tão perfeito,/ relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido". O poema é ruinzinho, me desculpem aí aqueles que gostam dos versos, impossível serem de Borges, cujos escritos são marcados por sofisticadas reflexões filosóficas. Numa das estrofes é dito inclusive que se o poeta vivesse outra vez, tomaria menos banho. Borges faleceu em 1986, aos 86 anos. Tudo o que ele escreveu, está publicado, a menos que sua viúva, Maria Kodama, hoje com 79 anos, nos informe algo inédito, pois é ela quem ficou com tudo o que era de Borges. E por que "Instantes", cujo titulo em inglês é outro, foi atribuído a Borges? Por uma sucessão de erros, quem citava ia repetindo o anterior e assim por diante.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O JUIZ SÉRGIO MORO FAZ PALESTRA EM HEIDELBERG

https://www.facebook.com/deonisio.dasilva/posts/1270399962982321?notif_t=like¬if_id=1481286451738215 O juiz Sérgio Moro aguarda o embarque. Parece apreensivo. "O tempora, o mores!" (que tempos, que costumes!). Juízes, procuradores e promotores de Justiça estão apreensivos, como estão apreensivas também as pessoas de bem. Estamos à beira de acontecimentos decisivos. Que vergonha para quem subscreve a "carta" à Universidade de Heidelberg (55 Prêmios Nobel estudaram ou ensinaram ali, e 10% dos alunos vêm de 130 países) reprovando o convite que a prestigiosa universidade alemã fez a Sergio Moro! Não discuto as ideias nela expostas. Acho repugnante, neste contexto, brasileiros falarem mal de um brasileiro do qual discordam, enviando documento para uma universidade que o distingue com um convite tão honroso. Quem o convidou não está dizendo de antemão que com ele concorda ou dele discorda, está convidando o magistrado, que é também professor universitário, dois ofícios obtidos por concurso público, para uma palestra, seguida de debate.
Lembremos o caso Carlos Chagas, que perdeu o Prêmio Nobel - naquele ano não foi concedido a ninguém - porque, depois de atribuído e antes de ser divulgado e concedido, aconteceu algo inusitado: brasileiros caluniaram o cientista nos bastidores, sem que ele pudesse se defender. Há algum tempo está na moda o seguinte: universidades brasileiras adestradas e algemadas só convidam para palestras quem concorda com os dirigentes eventuais, esquecendo-se de que estes são provisórios e alguns dos ex-reitores, pasmem, estão nas listas de delações da Odebrecht. Ah, então agora entendemos o que alguns fizeram no verão passado... Sem o trabalho dos procuradores da Lava-jato quando saberíamos disso?

domingo, 4 de dezembro de 2016

A TOQUE DE CAIXA, COM A PULGA ATRÁS DA ORELHA

Muitas frases célebres foram invocadas na semana passada, como estas com que Augusto Nunes encerrou uma de suas intervenções, aqui na Veja on-line. “A Constituição avisa que todo o poder emana do povo. Cumpre ao Parlamento fazer o que o povo quer”. É que o senador Renan Calheiros, ora presidente do Senado, esqueceu-se do Art. 1º da Constituição: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” Ele e os 14 senadores que o seguiram, não fosse a oposição de outros colegas, teriam validado um projeto sinistro. Com a espada de Dâmocles sobre a cabeça — no dia seguinte, ele seria declarado réu no STF — e com a pulga atrás da orelha, Renan e os 14 sequazes projetaram fazer o contrário do que o povo quer, endossando a sabotagem urdida antes na Câmara naquele mesmo dia. Eles tentaram, a toque de caixa, acabar com o trabalho heróico que promotores de Justiça e juízes, respaldados pelo povo nas ruas, vêm fazendo para combater a septicemia da roubalheira, palavra até elegante para designar o apodrecimento do sangue que circula pelas instituições brasileiras.
Mas de onde vêm estas frases e expressões? Vejamos: 1. A toque de caixa Os árabes conquistaram Portugal nos anos 700. Ali permaneceram por sete séculos. Os exércitos mouros tinham uma estratégia militar que os diferenciava das forças portuguesas: quase não usavam mensageiros nas batalhas. As ordens eram dadas pelo rufar de tambores, chamados caixas. A expressão daquele costume tornou-se conhecida de geração em geração como “a toque de caixa”. Depois que os árabes saíram, os portugueses passaram a usar também o toque de caixa para expulsar vagabundos e arruaceiros das tabernas, isto é, batiam os tambores e, sem discussão alguma, colocavam todos para fora do recinto. Desde então, diz-se de qualquer coisa feita às pressas que foi “a toque de caixa”. 2. Com a pulga atrás da orelha Durante séculos houve grande infestação de pulgas em todo o mundo. Inseto pequeno, mas irritante, sua picada doía, coçava, incomodava muito e transmitia doenças. Se a pulga picasse atrás da orelha, pior ainda. Era um de seus lugares preferidos, por esconder-se entre os cabelos, e uma picada ali fazia correr mais facilmente o sangue. O incômodo e o mal-estar causados pela pulga atrás da orelha foram comparados a toda preocupação que nos assola o espírito. 3. Espada de Dâmocles Entre os séculos IV e III a.C., reinou em Siracusa, atual Sicília, na Itália, o tirano Dionísio. Cansado da inveja que Dâmocles tinha de seu poder, o rei ofereceu-lhe um banquete para que o invejoso pudesse comer e beber à vontade , cercado de belas cortesãs. Mas, presa ao teto por apenas um fio de rabo de cavalo, a espada de Dionísio pairava sobre a cabeça de Dâmocles. O invejoso olhou para cima e abandonou o recinto, sem degustar os prazeres ensejados pelo poder interino. O episódio lendário tem sido lembrado desde Cícero, célebre político e orador da Roma antiga, para designar os perigos e as ameaças inerentes a quem detém o poder. Ele mesmo morreu assassinado, tendo o vencedor, o general Marco Antônio, pendurado as mãos e a cabeça do vencido no Fórum Romano.

domingo, 27 de novembro de 2016

O POUCO QUE SEI DE FIDEL CASTRO

Sei que este post vai receber comentários controversos. Conheci Fidel Castro em Havana, em fevereiro de 1985, quando vários brasileiros fomos recebidos por ele. Observei que era tímido, falava e escrevia bem, lia muito, era muito bem informado, tinha voz fina e prestava muita atenção às perguntas. (Que ele falava bem em público, todos sabiam, mas em privado é diferente). Lembro que um haitiano e eu conversávamos com ele nesta recepção por poucos minutos, e o haitiano lhe explicava detalhes de vodu. E ele ouvia e fazia perguntas com muita atenção. O escritor Oswaldo França Jr e eu trouxemos um vídeo de Fidel, a ser entregue para o então presidente eleito Tancredo Neves. Contei esta história muito tempo depois em coluna que eu mantinha na revista ÉPOCA. E depois, também no Jornal do Brasil. O que havia no vídeo? Nunca soube! A fita nos foi entregue em Havana, de madrugada, no quarto do hotel que França e eu dividíamos. Com uma recomendação: só podia ser entregue nas mãos de Tancredo. E assim foi feito. No Brasil, é difícil você ser bem entendido em questões controversas. O clima é sempre de Fla x Flu, contra ou a favor, sem as indispensáveis nuanças. Por ora, lembremos a primeira frase de Fidel Castro ao receber o Papa João Paulo II em Havana: "Santidade, esta noite, muitas crianças dormirão na rua. Nenhuma delas é cubana". Nenhum estadista brasileiro pôde dizer isso a nenhum papa, a ninguém! E o Brasil é o maior país católico do mundo. Em eventos públicos, às vezes me perguntam, quando este assunto vem à tona, se Cuba é uma democracia e se Fidel Castro era um democrata. Respondo que Cuba vive numa ditadura e que Fidel Castro era um ditador. Parece que é só isso que interessa, pois ninguém pergunta mais nada. Bem, eu vivo numa democracia, aqui no Brasil. E na semana passada me foi recomendado que não fosse à janela, nem à varanda, e ficasse em casa porque a Polícia estava procurando uns fugitivos que poderiam estar no condomínio. Portanto, há democracias e há ditaduras, muitas das quais têm complexas sutilezas. A ditadura cubana não é igual à da Coreia do Norte. E a democracia brasileira não se semelha às democracias europeias, nem sequer à chilena ou à uruguaia.

LADRÃO QUE ROUBA LADRÃO TEM CEM ANOS DE PERDÃO

Estas frases, que se tornaram um provérbio muito popular, foram ditas pela primeira vez como desculpa pelo pirata e corsário inglês Francis Drake. Depois de alegar que roubava outros ladrões, ele recebeu o honroso título de Sir, concedido pela rainha Elisabeth I, também conhecida por Isabel, a Rainha Virgem. A rainha deu uma desculpa diferente: ele roubava de ladrões e trazia os bens para a Inglaterra. Francis Drake morreu de disenteria aos 56 anos. A larápios contumazes nem sempre o maior de todos os males que lhes advêm é a morte. Às vezes, há outras humilhações, incluindo viver como presidiários ou mesmo morrer literalmente entre excrementos. Não è à toa que a situação de estar mal é definida por expressão chula, indicando as fezes como local onde a pessoa está: “Fulando está na mer..”. O corpo do bandidão jaz nas proximidades de Portobelo, no Panamá, onde foi lançado ao mar dentro de um caixão de chumbo, portando armadura inteirinha de ouro e segurando uma longa espada, também de ouro. É o que diz a lenda. E o jornalismo segue a velha máxima recomendada no filme O homem que matou o facínora, de John Ford, com John Wayne: “se a lenda é mais interessante do que a realidade, imprima-se a lenda”. No mesmo século do inglês Francis Drake, o português Pedro Álvares Cabral roubou de modo diferente: fez o primeiro superfaturamento do Brasil. A pimenta, o cravo e a canela, tão logo chegados a Portugal, tiveram um aumento de 1.000%, tudo aprovado pelo rei Dom Manuel, o Venturoso, que autorizou a majoração com o fim de compensar a perda dos naufrágios. O episódio é narrado também pelo historiador Eduardo Bueno, que destoa de quase todos os seus colegas de ofício pela graça e pelo sabor de seu estilo, na escrita e na fala, como demonstra sua antológica entrevista dada a Augusto Nunes aqui nesta revista. Das 13 naus do Descobrimento, apenas seis voltaram a Portugal. O navegador chefe da frota tinha apenas 32 anos. O rei autorizou a bandalheira, mas ninguém mais ouviu falar de Cabral, a ponto de para a antiga nota de mil cruzeiros ter sido inventada uma efígie dele, uma vez que não havia um único registro dos traços de seu rosto. Os ladrões brasileiros, governantes ou governados, que desceram agora aos infernos, fizeram jus a essas outras viagens que ora fazem, rumo à cadeia. Mas talvez o pior castigo não seja ser preso e, sim, sentir-se ameaçado de prisão. Quem escolhe ladrões para auxiliar o governo deve prestar atenção ao que diz o Padre Vieira, logo na abertura de seu Sermão do Bom Ladrão: “Nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis. Isto é o que hei de pregar”.