NOME DE POBRE NO BRASIL

domingo, 11 de junho de 2017

LARANJA A PREÇO DE BANANA E BRAGRE ENSABOADO

Como surgiu a expressão "laranja" designando quem faz as vezes do antigo testa de ferro? Cláudio Moreno e eu bem que tentamos, mas as hipóteses que dão sua gênese continuam ocultas nas brumas da criatividade popular. E olha que eu morei por mais de vinte anos em São Paulo, estado responsável por 50% da produção mundial de laranjas. Sem contar "aquele rapaz do Paraná", como disse do deputado Rocha Loures, ora preso, o presidente Michel Temer. Já os maiores exportadores de bagre são o Mato Grossos do Sul e o Paraná. Quanto ao ambiente mais propício aos cabeças de bagre, isto todo mundo sabe que é o Internacioal, sobretudo a diretoria. http://veja.abril.com.br/…/deonisio-da-silva-laranja-a-pre…/ O Ministério Público e a Polícia Federal vêm dando à luz grandes laranjas-de-umbigo, agora vendidas a preço de bananas-da-terra. As forças da lei continuam em trabalho de parto e logo veremos o bendito fruto de seu trabalho. Logo serão revelados outros caroços que estavam debaixo deste angu. Os laranjas que faziam o serviço sujo de bagres ensaboados estão apreensivos com o cerco da polícia. E agora vão pôr as coisas em nome de quem? Ninguém mais acredita nos contos do vigário, e os padres coadjutores e até certos párocos já estão vendo o sol nascer quadrado, uma vez que tem sido impossível tapar o sol com a peneira. Quem não faz ouvidos de mercador e nem tem olhos de cabra morta percebe que hoje o Brasil já é outro, bem diferente daquele da impunidade habitual. Os inconformados podem ficar com cara de quem comeu e não gostou, mas vão ter que engolir a nova realidade. Os brasileiros de bem, que estavam com os corruptos atravessados na garganta, cansaram de comer a gororoba que lhes vinha sendo servida. Ninguém mais os emprenhará pelos ouvidos nos comícios, prometendo mundos e fundos, para depois esquecer tudo como se tivesse comido queijo em excesso. Não se pode mais enganar os trouxas o tempo todo. Antes as promessas entravam por um ouvido e saíam pelo outro, mas agora não mais. Terá vindo para o Brasil, personificado em trajes civis, o agente laranja, antes restrito a uso militar na Guerra do Vietnã? Neste caso, seu olhar de vaca atolada indica a encrenca em que se meteu. O professor e escritor Cláudio Moreno, referência no estudo do léxico do Português, foi chamado a designar com precisão o laranja, pois que a palavra de repente trocou de gênero, e também o bagrinho, que já se demora demais em terra, mas rendeu-se, como este que assina esta coluna, aos mistérios da criatividade luso-brasileira. Descobrir o caso zero da expressão “laranja” está mais difícil do que identificar os cúmplices das transferências biliardárias para contas suíças, com o agravante de que no Português não se pode contar com delações premiadas. De onde veio este laranja, que já não busca nem revela a outra metade, a laranja do casal? Do Vietnã, em vez da Pérsia e da Índia, de onde foi trazida a laranja que os dicionários designam? É pouco provável. Apesar de tratar-se de pecado original, pois desde as capitanias hereditárias há propriedades e posses em nome de outrem, quem comeu a laranja não foram Adão e Eva, apesar de também neste caso a Serpente ter feito a intermediação. Nossos primeiros pais comeram uva, figo, maçã e até banana, como queria o herege brasileiro Pedro de Rates Henequim, levado à fogueira por ter ensinado que o Paraíso estava localizado no Brasil, o fruto proibido tinha sido a banana e no Céu se falava Português! Mas laranja, não! Enquanto isso, encurtam-se os prazos que vão revelar, não apenas os laranjas, mas os bagres ensaboados que eles encobriram por tanto tempo.

sábado, 10 de junho de 2017

FLORBELA ESPANCA: LINDA, POETA GENIAL, DE VIDA TRÁGICA

"Não tenhas medo, não! Tranquilamente,/ Como adormece a noite pelo outono,/ Fecha os olhos, simples, docemente,/ Como à tarde uma pomba que tem sono…". A esposa era estéril e autorizou o marido a ter filhos com a empregada. O menino chamou-se Apeles, mas foi a menina que se tornou uma das grandes poetas de Portugal. Ganhava a vida como professora de Português. E deixou-nos sonetos lindos, como este, trazido hoje pelo Joel Cardoso. Mas, depois de um aborto, entrou numa depressão muito séria e tentou o suicídio três vezes. Na 3a vez, aos 36 anos, depois de tomar muitos barbitúricos, Florbela Espanca morreu. E dizer que o inventor alemão do barbitúrico deu este nome à droga por estar apaixonado por uma garçonete do restaurante que frequentava.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O LATIM MORREU? MAS NUNCA SE FALOU TANTO DO DEFUNTO...

O nome do feriado de CORPUS CHRISTI é evidência da presença de palavras e expressões vindas para o Português do Latim Eclesiástico ou Latim da Igreja. Antes, porém, sofreram influências de quatro fontes: o Hebraico, o Grego, o Latim Clássico e o Latim Vulgar. Certas expressões deste Latim são de difícil ou impossível tradução, como ocorreu com o Latim Clássico quando veio para o Direito: Habeas Corpus, Habeas Data, Data Venia, Pacta sunt servanda, Pro tempore, Et Caetera (etc), Stricto Sensu, Lato Sensu, Ipsis Litteris, Quorum, Per capita, Statu quo, In memoriam, Carpe Diem, Curriculum Vitae, Apud, Ad hoc, Honoris Causa, Persona non grata, Sine die, Sine qua non, Sine die. E as expressões mescladas: Ano Sabático, Mea Culpa, Via Crucis, Madalena arrependida, Saecula Saeculorum, Ex Cathedra, Ora pro nobis, Fiat lux, Ai Jesus, Ai meu Jesus Cristinho, Virgem, Meu Deus etc. Há outros exemplos: a) ALELUIA: alegria, em Hebraico); palavra composta de "allelu" (louvar) + "Javeh" (Javé, Deus); b) PENTATEUCO, cinco livros: do Grego penta ( cinco) + téuchos (objetos fabricados), livros); são os cinco primeiros livros da Bíblia: - Gênesis (começo, nascimento), - Êxodo "ex", fora, do "odos", caminho, distância percorrida, do mesmo étimo do hodômetro que marca a distância percorrida nos automóveis); - Levítico (de Levi, o primeiro da tribo dos sacerdotes: o nome Levi vem do Hebraico "Levah", união: a mãe dá este nome ao filho na esperança de que a criança a una ainda mais ao seu marido, pai da criança); - Números: do Latim "numerus"; em Grego é "arithmós", que deu aritmética) e - Deuteronômio: do Grego "deutos", segundo, de acordo, com a "nomos", a ordem, a lei; c) PENTECOSTES, festa em que se celebra a descida do Espírito Santo no cenáculo, onde estavam escondidos os apóstolos, com medo; ele desce em forma de pombinha ; quer dizer cinco períodos= 50 dias depois da Páscoa; do Grego "pente", cinco + "kostes", período; d) PARÁCLITO, consolador, o que vem para ajudar; do Grego "para", ao lado, junto + "kalêin", ajudar, socorrer. e) EUCARISTIA, comunhão, hóstia; do Grego "eu," boa, bela + "cháris", graça, dom, coisa recebida; f) BISPO, a maior autoridade da Igreja (o Papa é bispo de Roma), embora arcebispo e cardeal estejam acima dele; do Grego "epíscopos", vigia, protetor; de "epi", sobre + "kopêin", proteger, guardar, vigiar; do mesmo étimo de epiderme (parte de cima da pele), epicentro (sobre o centro); g) EPISCOPADO, sede de um bispado: do mesmo étimo de bispo; h) DIOCESE, reunião de paróquias; do Grego "dioíkesis", de "dioí", através, por toda a, + "kesis", de "oikos", casa: administração da casa; governo de uma região ou província; i) PARÓQUIA: está para a diocese, como o bairro para o município; do Grego "para", ao lado, perto + "oikos", casa: casa vizinha; j) IGREJA, local de reuniões, de cultos. Do Grego "ekklesía", assembleia; k) ECLESIÁSTICO:mesmo étimo de igreja; l) JUBILEU, celebração de 50 anos, com perdão de dívidas; do Hebraico "yobel", corneta. m) ANO SABÁTICO (hebraico). n) CREDO (admiração), VIA CRUCIS (sofrimento), MEA CULPA (foi minha culpa), ADVOGADO DO DIABO, CAPÍTULO (no sentido de cabildo, conjunto de cônegos numa catedral), EX CATHEDRA (fala ex cathedra, fala com autoridade), o canto gregoriano do papa Gregório I (séc. VI) e o calendário gregoriano do papa Gregório XIII (séc. XVI), MATER DOLOROSA. o) Expressões do Latim eclesiástico que se tornaram interjeições: MEU DEUS, NOSSA SENHORA, AI JESUS, MEU JESUS MISERICÓRDIA, MISERICÓRDIA, POR CARIDADE, MARIA VIRGEM, JESUS MARIA JOSÉ, MEU JESUS CRISTINHO, SANTA MARIA, AVE MARIA, PER SAECULA SAECULORUM, ORA PRO NOBIS. .

DEFENESTRAR É DEMITIR, MAS JÁ FOI PIOR...

O verbo defenestrar virou sinônimo de demitir, depor etc. Mas já defenestraram literalmente ao correr da História, como fizeram com o presidente boliviano Gualberto Villarroel López , de 37 anos. Ele foi jogado pela janela (fenestra, em Latim; donde o verbo), arrastado pelas ruas, massacrado a pau e pedras pela multidão e finalmente apunhalado no dia 21 de julho de 1946. Na ocasião foram mortos também Luis Uria de la Oliva (secretário particular), Waldo Ballivián (chefe do gabinete militar) e Roberto Hinojosa (diretor do jornal Cumbre).

sexta-feira, 14 de abril de 2017

NEOLOGISMOS E ESTRANGEIRISMOS

NEOLOGISMOS E ESTRANGEIRISMOS Os dois às vezes são indispensáveis, mas há falantes que exageram. Zeca Baleiro debocha dos exagerados no samba Approach. https://www.youtube.com/watch?v=x7BVUxDw9H4
Venha provar meu brunch Saiba que eu tenho approach Na hora do lunch Eu ando de ferryboat... Eu tenho savoir-faire Meu temperamento é light Minha casa é hi-tech Toda hora rola um insight Já fui fã do Jethro Tull Hoje me amarro no Slash Minha vida agora é cool Meu passado é que foi trash... Venha provar meu brunch Saiba que eu tenho approach Na hora do lunch Eu ando de ferryboat...(2x) Fica ligado no link Que eu vou confessar my love Depois do décimo drink Só um bom e velho engov Eu tirei o meu green card E fui prá Miami Beach Posso não ser pop-star Mas já sou um noveau-riche... Venha provar meu brunch Saiba que eu tenho approach Na hora do lunch Eu ando de ferryboat...(2x) Eu tenho sex-appeal Saca só meu background Veloz como Damon Hill Tenaz como Fittipaldi Não dispenso um happy end Quero jogar no dream team De dia um macho man E de noite, drag queen... Venha provar meu brunch Saiba que eu tenho approach Na hora do lunch Eu ando de ferryboat...(7x)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

ACENAR, CUMPRIMENTAR, APERTAR A MÃO

Dar as mãos, apertá-las ou acenar para cumprimentar são gestos surgidos da necessidade de mostrar ao outro que você não tinha pedras nas mãos e não ia atacá-lo. Era um sinal de "pak" ou "pax", paz, que por sua vez designou originalmente uma pedra ou acidente geográfico marcando um limite. O outro te impõe limites e você também impõe teus limites. Se há conflito, as duas partes precisam fazer negócio, "nec otium", negar o ócio, deixar a preguiça de lado e trabalhar para a paz, invocando o intérprete (de "inter pretium", que explicava o "pretium ", o preço, cono fazia com as mercadorias), capaz de te entender e entender o outro, precisando, pois, conhecer ao menos duas línguas, com o fim de resolver a rivalidade (luta pela água de um mesmo "rivus").
Entendida a questão, chamava-se a "testis" (testemunha) um "tertius" (terceiro), que jurava com as mãos no "testis" (do mesmo étimo de testículo). Uma vez que nas legislações antigas somente homens poderiam testemunhar, e, como todos usassem vestes longas, as testemunhas faziam uma trouxinha dos órgãos, mostrando que eram homens e podiam jurar. Este ato perdurou imemorialmente num gesto obsceno, mostrando que você é rude, não é erudito ("ex rude", aquele que deixou de ser rude), mas viu o que aconteceu e tem culhões para testemunhar. Uma outra pessoa, então, estava autorizada a ser juiz, "jus dicere", dizer o direito, tal como tinha ouvido na audiência ("audientia") e tinha visto ("vistum", cujo plural é "vista", daí a expressão "pedir vistas: no processo) e exarava a sentença, do Latim "sententia", do mesmo étimo do verbo "sentire", sentir. Nenhuma sentença é objetiva. É o que o juiz sentiu, depois de ouvir e ler ("legere", ler) sem "ex-legere" (nada fora dos autos, o que está "inclusus", incluso, do contrário será "exclusus", excluído, como as provas ilícitas ( obidas por tortura etc.). Por isso, mesmo no STF, as sentenças podem ser por 6 x 5. E daí, como em tudo na vida, entra a "fortuna ", a sorte, ou a "pecunia", quem tem mais "pecus", gado, para pagar aquele que foi chamado, o a"advocatus", advogado.

O BEIJO DE JUDAS: ELE TRAIU OU FOI TRAÍDO?

Para Carlos Vereza, que estreia "Iscariotes" em Petrópolis (RJ), dia 21.04.2017, com uma outra versão da " traição" de Judas, retomando indícios do que escrevera o gaúcho Danilo Nunes na década de 1970 num livro pouco lido: Judas não traiu! Foi traído. Assim, o um beijo de traição famoso, aquele que Judas deu no Horto das Oliveiras, não seria de traição. Horto e não jardim, como em algumas traduções, pois não era de flores de ornamentação, era de cultivo de ingrediente à vida na Palestina daqueles anos: o óleo de oliva estava presente nas casas, não apenas para a comida, mas também para iluminar as residências. Beijo veio do latim basium. Outras líguas neolatinas, como o italiano e o espanhol, grafam baccio e beso, respetivamente. E uma curiosidade japonesa marca este vocábulo, uma vez que os nipônicos referem-se ao beijo como kissu, do inglês kiss. É controversa a passagem dos Evangelhos sobre o beijo de Judas como sinal de identificação para trair Jesus Cristo por 30 dinheiros: "aquele a quem eu der um beijo na face, é ele; prendei-o". Outros foram mais prosaicos ao falar de beijos, como Ramón Gómez de la Serna: "ás vezes o beijo não passa de um chiclete partilhado". Cruzes, que nojo! Já seu quase sinônimo, ósculo, veio do latim osculum, boquinha. Designa o beijo pela forma que tomam os lábios ao serem contraídos, tornando a boca mais arredondada. O beijo pode não ser casto, aliás, raramente o é, mas o ósculo é pudico porque exclui a língua e não faz sucção, livrando-nos por conseguinte de certos desconfortos do carinho público, quando casais indiscretos nos obrigam a ouvir ruídos de desentupidores de pia, acompanhados de trilhas sonoras que semelham o barulho de locomotivas prestes a partir. Mas como a temperança parece ser a grande medida das coisas amorosas, é bonito o beijo dos amados em praça pública... (Mais em: DE ONDE VÊM AS PALAVRAS, 17a edição)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

GREVE DAS MULHERES DE ATENAS E VITÓRIA

As esposas dos policiais do Espírito Santo, estas novas “mulheres de Atenas”, cansadas de outra guerra, mostraram ser boas alunas de Lisístrata, uma personagem do grego Aristófanes. Na peça, ela lidera uma greve de sexo em 411 a.C., com o propósito de pôr fim às hostilidades que estavam arruinando a Grécia ontem. Hoje, outras guerras devastam o Brasil. Lisístrata significa em grego “desorganizadora do exército”, papel que não foi cumprido por nossas Lisístratas…
Há muitas outras diferenças que separam as antigas gregas das capixabas nesses mais de 2.400 anos. As divergências começam pela greve, que não foi das espírito-santenses e não foi de sexo. As gregas fizeram a greve delas, mas as brasileiras obrigaram os maridos a fazer outra greve, proibida pela Constituição. Assim procedendo, transformaram seus cônjuges em amotinados. Nós precisamos dar às coisas os nomes que as coisas têm e pelos quais são conhecidas. Greve é uma coisa, motim é outra.
As capixabas não fizeram greve, palavra vinda do Francês grève, nome de uma praça forrada de areia às margens do rio Siena, em Paris, onde trabalhadores se reuniam para reivindicar seus direitos, interrompendo o trabalho. As mulheres dos policiais amotinados foram designadas abundantemente na mídia por “mulheres”, nem “esposas”, nem “senhoras”. Esta sutileza diz muito dos lugares atribuídos à mulher na sociedade brasileira. E às vezes os conceitos e os preconceitos vêm tão escondidos que requerem uma leitura da estrutura profunda onde se homiziaram. A palavra mulher veio do Latim mulier para o Português e tornou-se hegemônica sobre seus sinônimos para designar o feminino de homem, mas há complexas variações no uso dos sinônimos quando a mulher é referida em outros contextos. Lembremos que a matriz latina de mulier para designar o mundo feminino é substituída quando a mulher recorre a médicos ou médicas ginecologistas para um exame ginecológico ou para fazer uma ginecoplastia. Daí o étimo é o Grego gynaikós, equivalente a “mulier” e “femina” no Latim. Desde sempre as mulheres têm desempenhado papel importante em momentos decisivos de nossa História. No real, de que são exemplos Ana Quitéria, Bárbara Heliodora, Chica da Silva e Anita Garibaldi, entre muitas outras. E no imaginário com obras artísticas e literárias famosas, como as três personagens emblemáticas de Jorge Amado, títulos de grandes romances: Gabriela Cravo e Canela, Teresa Batista Cansada de Guerra e Tieta do Agreste. Mas, como, segundo Hegel, a História só se repete como farsa, desta vez as senhoras do Espírito Santo, esposas de militares, representaram uma farsa e deram ao mundo mais um exemplo do jeitinho brasileiro: seus esposos as contrataram e terceirizaram a greve! Com tal procedimento, disfarçaram o motim, que tem punições muito mais rigorosas do que a greve.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O POVO QUER PÃO E CIRCO

O senado brasileiro já foi palco de momentos gloriosos e embates de alto nível, semelhantes às decisões tomadas pelo senado romano nos seus primeiros tempos, instituição que serviu de modelo a senados de todo o mundo. Mas talvez hoje se pareça mais com o senado romano do tempo do poeta satírico Juvenal. Quando Juvenal escreveu esta frase, os senadores da Roma antiga discutiam longamente assuntos impróprios para o lugar, como o melhor modo de preparar um peixe. A outrora honrada classe política e audazes comandantes militares davam ao povo o que ele queria: comida e divertimento. Era como se hoje fossem distribuídos alimentos em frente aos tribunais e entradas gratuitas em todos os estádios.
Em Roma, o trigo era oferecido no Forum e os espetáculos eram apresentados gratuitamente em anfiteatros, dos quais o mais famoso foi o Coliseu, cujas ruínas perduram até hoje, atestando a competência de Roma também nas grandes edificações. Foi também em contexto semelhante que o general Pompeu dissera que “navegar é preciso, viver não é preciso”, convocando os comandados a zarpar, mesmo sob ameaça de tempestade, porque navios carregados de trigo tinham que chegar a Roma antes que o povo se revoltasse. Os autores das duas frases são historicamente muito próximos um do outro. Pompeu vivera no século I a.C., e Juvenal no século I de nossa era. Não tinha sido sempre assim. Caminhando no campo de batalha, depois de sua célebre vitória sobre os romanos, o rei Pirro notara que todos os soldados derrotados, mortos ou feridos, tinham sido atingidos pela frente, nenhum em fuga. E ficara muito preocupado. Já com mais dificuldades, pois os romanos iam aprendendo a enfrentar seus elefantes, Pirro voltou a vencer Roma na segunda batalha, mas propôs paz aos vencidos, servindo-se para isso de um embaixador chamado Cineas. Este dirigiu-se ao senado romano e estranhou que tantos decidissem o que Pirro, seu chefe, decidira sozinho. A proposta não foi aceita, e Cineas, maravilhado com a oratória dos senadores, disse a seu chefe no regresso: o senado romano é uma assembleia de reis. No tempo de Juvenal, não era mais. E por isso ele escreveu a frase que se tornaria famosa. Panem et circenses - pão e espetáculos, no original -, passou à História como pão e circo.

domingo, 22 de janeiro de 2017

FRASES FAMOSAS QUE NINGUÉM DISSE

“O Brasil está beira do abismo”, reconheceu o marechal Castello Branco, primeiro presidente do ciclo militar pós-1964. “O Brasil deu um passo à frente”, acrescentou seu sucessor, o marechal Costa e Silva. “Ninguém segura este país”, completou o ocupante do terceiro mandato autoritário, o general Emílio Garrastazu Médici, entronizado depois da Junta Militar que ficara no interstício entre o segundo e o terceiro. Verdadeiras ou lendárias, estas frases teriam sido proferidas, então, num curto período histórico, por três presidentes da República. Ilustradas em tom de deboche, estavam numa edição de O Pasquim, censurada e apreendida nas bancas. Todavia a primeira frase, “O Brasil está à beira do abismo”,  é mais antiga e vem sendo pronunciada desde os tempos imperiais. Foi registrada na peça de teatro O Diabo no Corpo, de Coelho Neto, apresentada pela  primeira vez em 1899, no Theatro Lucinda, no Rio, mas publicada em livro apenas em 1905. Não raro são frases ditas por políticos, mas arrumadas e editadas por jornalistas, quando não de autoria de intelectuais que as escreveram para serem pronunciadas por autoridades, como  diz Carlos Drummond de Andrade no poema O Sequestro de Guilhermino César, em que fala de “repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,/ autores de discursos que jamais pronunciaríamos,/ pois os concebíamos para outros pronunciarem / no majestático palanque do Poder”. Há muitos exemplos de frases atribuídas a personalidades que entretanto jamais as pronunciaram. Lembremos três delas. “Elementar, meu caro Watson”, o célebre fecho com que o detetive Sherlock Holmes dá a entender  a seu amigo Watson que tudo estava claro desde o início. Ela não é encontrada em nenhum livro do autor. “O Brasil não é um país sério” foi atribuída ao general Charles De Gaulle. Ele nunca a pronunciou. E para homenagear o jornalista Augusto Nunes, que sabe tudo sobre Jânio Quadros, lembremos por último “Fi-lo porque qui-lo”, imputada ao presidente,  que entretanto jamais a pronunciou. Se a  proferisse, diria “fi-lo porque o quis”. Outras foram ditas e escritas, mas não do modo como se tornaram conhecidas. Eis duas delas. “Nesta terra, em se plantando, tudo dá” é creditada ao escrivão Pero Vaz de Caminha na certidão de nascimento do País, a sua famosa Carta do Achamento do Brasil. Sim, esta terra foi achada, não descoberta. A frase está lá, mas foi escrita de outro modo: “Querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo”. “Sangue, suor e lágrimas”. Esta é atribuída ao Winston Churchill em seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns, em 1940. Mas Churchill ofereceu, não três, mas  quatro coisas: “Sangue, trabalho, lágrimas e suor”. Esqueceram o trabalho! Para escrevê-la, o então primeiro-ministro inspirou-se num discurso de Giuseppe Garibaldi, pronunciado em 1849: “Não ofereço nenhum pagamento, nem postos, nem provisões. Ofereço fome, sede, marchas forçadas, batalhas e morte”. O brasileiro é frajola e adora uma frase. Frajola, do Quimbundo fwala dyola, significa isso mesmo: por falar bonito, a pessoa é vista como elegante e faceira: fwala é falar; dyola é claro, puro. Frajola designou originalmente aquele que fala com clareza uma língua que a maioria não conhece. Atualmente designa indivíduo vestido com elegância exagerada. E assim fica o dito pelo não dito, uma outra frase famosa, aliás. http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/de-onde-vem-as-palavras-o-brasil-esta-sempre-a-beira-do-abismo/

sábado, 21 de janeiro de 2017

TEORI(A) DA CONSPIRAÇÃO E O CASAL ZWEIG

Bertrand Russell recomendava que em caso de dúvida ou suspeita procuremos os fatos. Por enquanto temos: 1. Um ministro do STF ia descansar alguns dias na casa de verão de um amigo, um rico empresário. Há ricos honestos e pobres desonestos. E vice-versa. Nada disso é suspeito. 2. Conquanto tenha passado em concurso público para juiz, Teori Zavascki recusou a nomeação e foi trabalhar para o Banco Central, de onde foi guindado ao TRF pelo quinto constitucional, que dá aos governantes o recurso de nomear sem concurso. Nada disso é suspeito. 3. Foi indicado ao STF pela então presidente da República, Dilma Rousseff, como Joaquim Barbosa o foi pelo presidente Lula, Gilmar Mendes pelo presidente FHC, outros pelos presidente Collor oiu pelo presidente Sarney. Nada disso é suspeito. Conclusão de romancista, repito, de romancista, e de contista, cujo ofício é inventar, fazer ficção, cujo étimo é o mesmo de mentir: cada um construa sua teori(a) da conspiração. Mas acho paradoxal que tão poucos desconfiem do suposto duplo suicídio do casal Zweig quando foram comprovadas 23 (vinte três) contradições, das quais destaco: Por que o governo Getúlio Vargas proibiu a autópsia dos corpos? Por que não foi aberto inquérito? O que foi fazer em Petrópolis (RJ) o inimigo dos judeus e pró-nazista Filinto Müller, que foi recebido por Getúlio Vargas no dia da morte do casal? Ah, daí são coincidências?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ALEGRIA E DOR NOS CALENDÁRIOS

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda.
A maioria dos calendários apresenta os dias em vermelho para os feriados, e preto ou azul para os dias úteis. Calendários explicitam algumas coisas, mas ocultam outras tantas. A etimologia pode indicar o verdadeiro significado. Calendário veio do latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para o pagamento de impostos e outras contas. O nosso calendário é gregoriano, assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que em 1582 ajustou uma diferença do calendário juliano, do qual foram suprimidos dez dias, para fixar corretamente a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Assim, o dia seguinte a 4 de outubro foi 15 de outubro. Há calendários mais antigos, como o hebraico e o chinês. Mas hoje todos aceitam o padrão gregoriano de contar o tempo. A folhinha, como é popularmente conhecida, guarda a memória das folhas das árvores em que as sibilas, mulheres adivinhas, escreviam as profecias do ano que começava. Estas profecias há muito tempo são outras: fases da Lua, eclipses, previsão de chuvas, dias em que vão cair os feriados móveis, dias de jejum e de abstinência, efemérides etc. Os dias úteis, marcados na cor escura para diferenciá-los dos feriados civis e dias santificados, ainda fixam como castigo o significado do trabalho, segundo a primeira condenação bíblica que expulsou nossos primeiros pais da esfera das coisas sagradas, condenando o homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto e a mulher a sofrer nos partos. Nesta metáfora, Adão e Eva, expulsos do paraíso e condenados ao trabalho, foram os primeiros imigrantes e refugiados do mundo. Trabalho veio do Latim tripalium, um instrumento de tortura de três paus, como indica o étimo, no qual a vítima era supliciada, como ainda o é em muitos empregos. A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda-feira para cumprir mais uma daquelas perpétuas parcelas semanais da mítica e antiga condenação. As palavras que designam as cores do calendário também têm uma etimologia curiosa. Vermelho veio do latim vermiculus, minúsculo verme que fornecia o pigmento para tingir a roupa da gente fina e nobre: chefes religiosos, chefes políticos, chefes militares, às vezes englobados numa pessoa só. Seu outro nome era púrpura, molusco de difícil captura. Na antiguidade, a caça e a pesca do porphiros, seu nome grego, e da purpura, seu nome latino, eram proibidas para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor. Os cardeais da Santa Sé, príncipes herdeiros da monarquia mais antiga do mundo, vestem vermelho ou púrpura, esta última a cor preferida das altas insígnias da realeza e da magistratura. De resto, tapetes vermelhos são estendidos, literal ou metaforicamente, para personalidades a honrar. O calendário das nações lusófonas como o Brasil tem uma singularidade única: os dias da semana não homenageiam deuses pagãos desde o século VI, quando o bispo de Braga aboliu as referências ao Sol, à Lua, a Vênus e a outras divindades, que continuam homenageadas em outras línguas, de que são exemplos o Sol e a Lua no inglês Sunday e Monday. Com exceção de sábado, do hebraico xabbat, dia do descanso, pelo Latim sabbatum, nossas semanas começam sempre com o domingo, dia de feria, que pode ser festa ou feira, e segue de segunda a sexta, lembrando que todos são dias de festejar, comprar e vender. Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas ainda é cedo para sabermos quem teve importância no ano passado ou terá importância no ano que começou. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert, “quem cria os grandes homens é a posteridade”. A posteridade cria os pequenos também. Ou apequena os grandes e engrandece os pequenos. Deonísio da Silva é escritor http://oglobo.globo.com/opiniao/alegria-dor-nos-calendarios-20801124

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MEMORIAL JK PODE ESTAR COM O CORPO ERRADO

O que a seguir vou narrar lembra o SAMBA DO CRIOULO DOIDO, letra do jornalista Sérgio Porto, nosso inesquecível Stanislaw Ponte Preta: "Foi em Diamantina/ Onde nasceu JK/ Que a Princesa Leopoldina/ Arresolveu se casá/ Mas Chica da Silva/ Tinha outros pretendentes/ E obrigou a princesa/ A se casar com Tiradentes".
Leio que pode ser o corpo de Geraldo Ribeiro, o motorista de JK, morto com o presidente no acidente de automóvel, que está no Memorial JK. Os dois caixões eram iguais e pode ter havido a troca. Assim, o corpo do jazigo 410-b, na quadra 12, no Cemitério São João Batista, no Rio, pode ser o de JK e não o de seu motorista. O corpo de Juscelino Kubitschek foi enterrado com honras de chefe de estado, em Brasília, primeiramente no Campo da Boa Esperança, num túmulo próximo ao de Bernardo Sayão, um dos pioneiros de Brasília, de onde foi exumado em 12 de setembro de 1981, sem a presença de nenhum familiar. Os restos mortais do presidente - que, repito, podem ser os de seu motorista! - foram, então, levados ao Memorial JK. Em 15 de janeiro de 2017, fui ao Cemitério São João Batista. Procurei o jazigo 410-b na Quadra 12, tal como confirmado nos registros, agora digitalizados. O jazigo sumiu. Durante quase 2h um ex-coveiro, agora funcionário, me ajudou a procurar. Geraldo Ribeiro e JK, onde estão vocês? Brincando de esconde-esconde? Quem está em Brasília, quem no Rio? (xx)

sábado, 14 de janeiro de 2017

O AGRONEGÓCIO NÃO ENTENDEU O ENREDO DA IMPERATRIZ

Não tem pé nem cabeça a polêmica de alguns líderes do Agronegócio e da Agropecuária com a Imperatriz Leopoldinense. No ano do centenário do escritor Antônio Callado (para mim, seu romance referencial é Quarup, cujo mito é citado no samba-enredo), nosso olhar sobre o índio, a floresta, o agronegócio e a agropecuária há de ser mais largo. Nele cabem visões diversas, plurais, não a visão maniqueísta de que uns querem destruir o que outros construíram. Não é nada disso. Contra ou favor, leia-se e ouça-se o samba-enredo, que, aliás, é muito bonito.
O CLAMOR DA FLORESTA Samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense no Caranaval de 2017 Autores: Moisés Santiago, Adriano Ganso, Jorge do Finge e Aldir Senna Intérprete: Arthur Franco Para mais informações, ver: http://www.rio-carnival.net/carnaval/escola-de-samba/imperatriz.php BRILHOU… A COROA NA LUZ DO LUAR! NOS TRONCOS A ETERNIDADE… A REZA E A MAGIA DO PAJÉ! NA ALDEIA COM FLAUTAS E MARACÁS KUARUP É FESTA, LOUVOR EM RITUAIS NA FLORESTA… HARMONIA, A VIDA A BROTAR SINFONIA DE CORES E CANTOS NO AR O PARAÍSO FEZ AQUI O SEU LUGAR JARDIM SAGRADO O CARAÍBA DESCOBRIU SANGRA O CORAÇÃO DO MEU BRASIL O BELO MONSTRO ROUBA AS TERRAS DOS SEUS FILHOS DEVORA AS MATAS E SECA OS RIOS TANTA RIQUEZA QUE A COBIÇA DESTRUIU SOU O FILHO ESQUECIDO DO MUNDO MINHA COR É VERMELHA DE DOR O MEU CANTO É BRAVO E FORTE MAS É HINO DE PAZ E AMOR SOU GUERREIRO IMORTAL DERRADEIRO DESTE CHÃO O SENHOR VERDADEIRO SEMENTE EU SOU A PRIMEIRA DA PURA ALMA BRASILEIRA JAMAIS SE CURVAR, LUTAR E APRENDER ESCUTA MENINO, RAONI ENSINOU LIBERDADE É O NOSSO DESTINO MEMÓRIA SAGRADA, RAZÃO DE VIVER ANDAR ONDE NINGÚEM ANDOU CHEGAR AONDE NINGUÉM CHEGOU LEMBRAR A CORAGEM E O AMOR DOS IRMÃOS E OUTROS HERÓIS GUARDIÕES AVENTURAS DE FÉ E PAIXÃO O SONHO DE INTEGRAR UMA NAÇÃO KARARAÔ… KARARAÔ… O ÍNDIO LUTA PELA SUA TERRA DA IMPERATRIZ VEM O SEU GRITO DE GUERRA! SALVE O VERDE DO XINGU… A ESPERANÇA A SEMENTE DO AMANHÃ… HERANÇA O CLAMOR DA NATUREZA A NOSSA VOZ VAI ECOAR… PRESERVAR!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

POLÍCIA FEDERAL ENSINA LATIM

"Cui bono?", em Latim, (bom para quem?) é a variante de "Cui prodest?" (quem ganha? ). Foram proferidas por Cícero, mas ele citava um outro político chamado Lúcio Cássio Longino Ravilla, que as dissera num processo contra três virgens vestais acusadas de ter rompido o voto de castidade. Do sexo à política foi um pulinho.
Quebrar votos de castidade não espanta mais ninguém faz tempo, o que espanta são os crimes financeiros, cada vez mais ousados. Desta vez, os suspeitos de ganhar com os financiamentos da Caixa (foram pra Caixa eles também) são o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (já preso) e agora o ex-ministro Geddel Vieira Lima.
Os delegados da PF e membros do MP que dão nome às operações sibilam estas expressões pensando nos advogados regiamente pagos pelos criminosos. Quer dizer, estão ganhando bem? Então, mãos à obra: estudem um pouco de Latim, de Mitologia greco-romana, enfim de cultura clássica, muitas vezes matérias optativas no currículo dos cursos de Direito que fizeram.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

SEQUESTRO DE GUILHERMINO CÉSAR, Ao completar setent' anos

Achei tão bonita, ética e sincera a crônica de Adriana Sydor, minha amiga de infância desde antes de ontem, por artes de um amigo de décadas, o Fabio Campana, que resolvi desencavar este poema de Drummond que poucos conhecem. Vai para você, Adriana querida:
"Assim roubaremos Guilhermino César ao País do Rio Grande/ e o transportaremos ao País da Memória,/ país de cafés-sentados e redações não eletrônicas de jornais,/ de repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem pecúnia,/ autores de discursos que jamais pronunciaríamos,/ pois os concebíamos para outros pronunciarem/ no majestático palanque do Poder,/ enquanto refocilávamos em orgias/ com a ninfa de coxas de espuma e seios-orquídea/ chamada Literatura/ nosso maior amor e perdição". (Quando nosso querido professor Guilhermino César, orientador de minha dissertação de mestrado na UFGRS, fez 70 anos, em 1978, Drummond fez-lhe um poema que agora está na p. 1292 de sua Poesia Completa, publicada pela Editora Nova Aguilar, em 2003).

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ESTAMOS EM 2017. MAS POR QUÊ?

O tempo já foi contado de diversas maneiras. Atualmente não seguimos o calendário chinês, egípcio, hebraico, romano ou juliano. Seguimos o calendário gregoriano, assim chamado porque foi baixado pelo papa Gregório XIII, em 1582. O primeiro calendário a servir de base para o de hoje foi fixado por Rômulo, o primeiro rei de Roma, no ano 753 a.C. Em 45. A.C., ele foi substituído pelo calendário juliano, fixado por Júlio César, então no cargo de Pontífice Máximo.
Era uma de suas atribuições intercalar os meses para ajustar o complicado calendário romano. Júlio César chamou o astrônomo grego Sosígenes e, com a ajuda dele, fixou o calendário que passou a chamar-se juliano. Para que o ajuste fosse correto, o ano anterior, 46 a.C., teve 443 dias. O calendário juliano voltou a ser alterado por Otávio Augusto. Ele mudou o nome dos meses quintilis, o 5º mês, e sextilis, o 6º mês, a contar de março, para Julho e Agosto, para homenagear Júlio César com Julho, de Julius, e a si mesmo com Agosto, de Augustus. Os meses seguintes não mudaram de nome. Continuaram sendo setembro, outubro, novembro e decembro, o sétimo, o oitavo, o nono e o décimo mês respectivamente, como indicam os étimos september, october, november e december, que tinham estes nomes antes do acréscimo de janeiro e fevereiro. Como o ano começava em março, julho era o quinto mês. E agosto o sexto, daí se chamarem originalmente quintilis e sextilis. No ano de 1253 A.U.C. (iniciais da expressão Ab Urb Condita, da fundação da cidade), a Igreja tinha grande poder no império romano, pois o cristianismo já tinha sido declarado religião oficial pelo imperador Constantino I ainda no século IV. Naquele ano, correspondente ao ano 500 no calendário atual, trabalhava na Cúria Romana um monge grego chamado Dyonisius Exiguus (470-544), nascido na Cítia Menor, hoje Romênia, reconhecido como de altos saberes em história, matemática e astronomia. O papa João I (470-526) determinou que Dyonísio, o Baixinho ou o Pequeno, seu nome em Português, organizasse um calendário cristão. Seu projeto era deixar de seguir o calendário pagão e fixar corretamente a data da Páscoa e outras festas religiosas, como o Natal. Dyonísio assim o fez, criando a expressão Anno Domini (No ano do Senhor) como referência do tempo passado. E para indicar o que acontecera antes do ano 1, acrescentou a abreviação a.C. (antes de Cristo). Assim, a data da fundação de Roma passou a ser designada, não mais como 753 A.U.C. , mas 753 a.C., e aquele ano, 1253 A.U.C. passava a ser o ano 500, contados a partir do nascimento de Jesus no ano 1. Primeiro, a Igreja aboliu os modos usados até então, que consideravam preferencial, mas não exclusivamente, o ano 1 como a data de fundação de Roma, designada por números seguidos da expressão A.U.C., formada pelas iniciais da expressão latina Ab Urbe Condita (desde que foi fundada a cidade). A cidade era Roma. A própria palavra calendário veio do Latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para liquidar os impostos e outras contas. O ajuste que transformou nosso calendário em gregoriano deve-se ao fato de que o ano não tem um número exato de dias. Tem 365 dias, 5 horas 48 minutos e 46 segundos. Em 1582, a diferença de 11 minutos e 14 segundos a cada ano, já resultava em dez dias, deslocando a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Foi quando o papa Gregório XIII pôs ordem na bagunça e determinou que a quinta-feira, dia 04 de outubro de 1582, fosse seguida da sexta-feira, dia 15 de outubro, suprimindo dez dias do calendário então em vigor! O curioso é que no dia da semana ele não mexeu. Dia 15 foi sexta-feira! Se fôssemos corrigir o calendário proposto por Dyonísio, o Baixinho, estaríamos hoje no ano 2021, pois Jesus nasceu entre os anos 2 a.C. e 8 a.C., e não no ano 1. Ao fixar a data do nascimento de Jesus, Dyonísio, o Baixinho, confundiu o ano da morte de Herodes, o Grande, e a data do recenseamento ordenado por Augusto. Confundiu ou não deu importância a esses eventos, não se sabe. Mas estas imperfeições só foram descobertas no século XIX. Por isso, não se mexeu mais no calendário. O que dificultou os cálculos de Dyonísio foi que o zero, já conhecido pelos hindus, não tinha chegado ainda ao Ocidente. Até então e por muitos séculos ainda vigorariam os números romanos. Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas nunca sabemos quem teve importância em 2016 ou terá importância em 2017. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert, “quem cria os grandes homens é a posteridade”. Os pequenos também. (xx)