NOME DE POBRE NO BRASIL

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"BRAZUCA", "PARALÍMPICO", POR QUÊ?

No momento em que este escritor e professor escreve seu habitual artigo para nosso Observatório, a imprensa e a mídia brasileira vacilam entre “brasuca” (certo) e “brazuca” (errado), e entre “paraolimpíada” e “paraolímpico” (certos) e “paralimpíada” e “paralímpicos” (errados). Mas por quê? Fixemos um quadro de referência, não muito remoto, por desnecessário para os fins deste artigo, mas indispensável porque se trata de recaída em problemas que poderíamos ter evitado. Para designar a controversa reserva de vagas nas universidades, a serem preenchidas por critérios diferentes do habitual vestibular, o mais correto seria quota, mas vem predominando a variante cota. Por quê? Não sabemos por quê. Por que o simples, que é mais claro, se o complicado também serve? Poucos dizem o porquê. Porque prezamos a confusão, a ambiguidade, o terreno às vezes movediço, às vezes pantanoso, da verborragia, de que o juridiquês é uma, mas não a única evidência. Sem contar o desconhecimento de normas singelas da língua culta. “A nível de” Na semana passada a presidente Dilma tropeçou na língua ao usar “porque” na pergunta, quando repreendeu duas de suas ministras. Não tem importância. Na próxima vez não errará. Ela, que deve ter lido Engels, haverá de lembrar-se de uma das máximas do pensador alemão: “A ciência é a eliminação progressiva do erro”. Vai ser difícil, pois pode ser influenciada pelo antecessor, cujo objetivo é a eliminação progressiva da verdade. Nem bem o STF começou a julgar e punir o mensalão, ele deu entrevista ao prestigioso jornal New York Times para assegurar que o mensalão não existiu. O jornalista Augusto Nunes, que já foi revisor, quando a imprensa tratava com mais cuidado a língua portuguesa, não perdoou o deslize: “Nesta quinta-feira [30/8], a presidente Dilma Rousseff foi novamente internada no Sanatório Geral por não saber como e quando usar porque ou por que, como atesta o bilhete endereçado às ministras Izabella Teixeira e Ideli Salvatti.” O jornalista Celso Arnaldo destacou que ela errara também o nome de uma das ministras, que não é “Isabela”, mas “Izabella”. Errar é humano. Aceitar correções também é humano. Perseverar no erro é que é diabólico. Todavia vivemos num tempo em que um ministro do STF acha que é preciso fazer desagravo a um dos ministros do governo Lula porque as denúncias que pesavam sobre ele não puderam ser comprovadas no mensalão, cujo nome também foi mudado para Ação Penal 470, com o fim de aliviar a barra daqueles que foram pegos com a boca na botija, assaltando o erário ou os cofres públicos. Às vezes aparece também “erário público”, uma redundância descabida. Se a moda pegar, haverá montanhas de desagravos país afora, a começar pelos cidadãos que, viajando direitinho pelas estradas, são interceptados pelo guarda que quer saber se está tudo em ordem com carro, motorista, passageiros, carga etc. O guarda está cumprindo seu dever, é preciso fiscalizar. Voltando a cota, por que cota e não quota? Quota, do Latim clássico quot (quantos) ou de quota, feminino de quotus, evita ambiguidades. Cota sugere várias: pode ser o lado oposto ao gume nos objetos cortantes (canivete, faca etc.); pode ser um local fortificado; pode ser roupa, manta, proteção para o joelho; pode ser gibão; pode ser sobrepeliz. É verdade que o contexto dirime as dúvidas, mas por que complicar? O modismo pegou e agora se escrevermos quota, corremos o risco de sermos corrigidos por algum Manual de Redação, que vai mudar para cota. Uma das mais sólidas leis da moda é a seguinte: se algo está em moda, está também saindo de moda, palavra que nos chegou do Francês mode, adaptação do Latim modus, quando o próprio Latim, para designar a mesma coisa, usava mos, costume. Logo cota vai escafeder-se, como fez “a nível de”, que não significava nada, pois tudo passa, e, mais que a moda, os modismos passam. Acordo vigente Agora é a vez de “brazuca” e “paralímpico”, notórias submissões à turma daqueles que ameaçaram dar um pontapé no traseiro de um ministro que, segundo eles, andava a passos de tartaruga com obras que o governo brasileiro deveria providenciar com mais rapidez para eles ganharem dinheiro aqui também, como já fizeram em outros países. Terminada a Copa, os estádios que sejam explodidos, ainda que tenham custado o equivalente a muitos hospitais e escolas. Pois a turma não se conforma com “brasuca” e “paraolímpico”, assim indexados no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. O nome da ferramenta diz tudo: Vocabulário Ortográfico. É preciso escrever direito. O médico precisa escrever corretamente o nome do remédio que receitou ao doente, do contrário a enfermeira responsável por aplicar a injeção, em vez de curá-lo, poderá agravar a situação do enfermo ou até matá-lo. Mas, não. Eles preferem e estão impondo como certos os dois erros. E vêm obtendo relativo sucesso nesse assalto à Língua Portuguesa. Por que os errados “brazuca”, “paralímpico” e “paralimpíada”, em vez dos corretos brasuca, paraolímpico e paraolimpíada, assim tombados no VOLP, como é mais conhecido o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia Brasileira de Letras? Brasuca veio de Brasil. Paraolimpíada e paraolímpico têm como étimo comum a palavra olimpíada, do Grego olympiás, como eram chamados os jogos realizados de quatro em quatro anos na cidade de Olympía, na Grécia antiga. E o são ainda hoje em todo o mundo. O nome da cidade foi adotado como homenagem por Policena, mãe de Alexandre, oGrande, que, sem cassar-lhe uma só letra, trocou Policena por Olímpia. Paraolimpíco radica-se em compostos gregos: pará, ao lado de, junto a, e o Latim olympicus, olímpico, cuja origem remota é naturalmente o étimo grego. Entretanto, contrariando a lógica, as leis da língua, o bom senso e principalmente os costumes, que são os melhores intérpretes das leis, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) determinou substituição de “paraolímpico” por “paralímpico”, mutilando, com a omissão de muitos, a língua portuguesa, que não é deles, é patrimônio público do Brasil. Por absurdo que pareça, a alegação é que a palavra “paraolímpíco” é propriedade do Comitê Olímpico Internacional (COI). Propriedade? De quem? Até aqui achávamos que a língua portuguesa falada e escrita no Brasil era nossa; falada e escrita em Portugal era de nossos irmãos portugueses; falada e escrita nas nações africanas de língua portuguesa era de nossos irmãos da África. Se todas as nações lusófonas se uniram para fazer o consenso do Acordo Ortográfico, já em vigor, por que vamos ceder em tais violações da ortografia? Quem é o COI para determinar como devemos escrever as palavras? As autoridades não vão se pronunciar? Autoridade legítima Este escritor e professor está perplexo com tais omissões. E sabe que também estão inconformados milhares de brasileiros, entre os quais os ouvintes da crônica Sem Papas na Língua, que apresenta na Bandnews fluminense, todas as quintas-feiras, às 10h, em companhia do jornalista Ricardo Boechat, e os leitores da página de Etimologia, que faz há vinte anos, semanalmente, na revista Caras. Sei disso porque recebi inúmeros pedidos de socorro, inclusive nas redes sociais. Se nossas autoridades quiserem, dado o poder imperial que muitas delas têm, não sairá um real dos cofres públicos se os mutiladores do idioma insistirem com esses desjeitosos “brazuca” e “paralímpico”. O meio mais rápido de corrigi-los é reter as verbas até que seja restaurada a autoridade legítima que temos sobre a nossa língua. *** [Deonísio da Silva escritor e professor, tem 34 livros publicados. É autor dos romances históricos Avante, soldados: para trás (10ª edição), já traduzido para outras línguas, e Lotte & Zweig (2ª edição), ambos publicados pela Editora Leya. É vice-reitor da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro]