NOME DE POBRE NO BRASIL

terça-feira, 25 de setembro de 2012

RAIMUNDO LÚLIO: O LIVRO DAS BESTAS

Raimundo Lúlio (Lull, em catalão) casou, teve dois filhos, mas abandonou tudo para persuadir os governantes civis e religiosos a praticar e defender a coisa pública. Nasceu na ilha de Maiorca, em 1232, e faleceu em 1316, aos 84 anos. Não é dos mais conhecidos entre nós, mas vale a pena voltar a ele para entender o Brasil atual. Ele criou um personagem chamado Félix, um andarilho que se “maravilha” com “as maravilhas do mundo”, figura referencial de narrativas que aparecem ora sob um título, ora sob outro, pois nem sempre as edições são integrais e passam a ser conhecidas pelo título com que circula um fragmento. No Livro das Bestas, Félix vai a um lugar onde animais selvagens estão escolhendo o rei deles. A estratégia do autor é criticar usos e costumes epocais pela mistura de pessoas e bichos como personagens, em que esses últimos são interpretados pelo comportamento dos primeiros, como nas fábulas. De quebra o leitor é informado da “microfísica do poder” da sociedade feudal, da absoluta prevalência das paixões humanas na política e da eterna luta entre o Bem e o Mal, em que o segundo quase sempre vence o primeiro. Paz no reino Logo no primeiro capítulo a eleição é embargada porque a Raposa se dá conta de que o Urso, o Leopardo e a Onça, fortes candidatos e esperançosos de serem eleitos, levantam uma questão de ordem para que seja decidido qual é o animal mais digno de ser rei. Ela fica desconfiada. Lúlio era clérigo e dá um tempero interessante à narrativa, ao referir a escolha de um bispo que estava demorando muito a concretizar-se. Um cônego que almejava o cargo episcopal, presente à votação, pede a palavra para dizer o seguinte: “Se o Leão se torna rei, e o Urso, a Onça e o Leopardo se opõem è eleição, depois serão para sempre malquistos pelo rei. Se, porém, o Cavalo tornar-se rei, e o Leão lhe fizer alguma ofensa, como poderá o Cavalo vingar-se, se não é tão forte como o Leão?” Eleito rei o Leão, este tem dificuldade de compor o ministério, a esse tempo conhecido por Conselho do Reino. A Raposa, depois de várias articulações, consegue ser nomeada chefe do gabinete civil, isto é, porteira da Câmara Real. O cargo era muito cobiçado porque competia ao titular cuidar da agenda do rei, cobrar os devedores de impostos, podendo para isso citar e penhorar os bens dos devedores. Certa vez o Leopardo viaja e o Leão comete adultério com a Leoparda. A Onça, em defesa do rei, trava briga feroz com o Leopardo. A Serpente pergunta ao Galo quem vai vencer a briga. O Galo responde: “Fez-se o combate para que a verdade confunda e destrua a falsidade. Deus é a verdade. Todo aquele que sustenta a falsidade luta contra Deus e contra a verdade.” O Leopardo mata a Onça e antes a obriga a dizer, diante de todos, que o rei Leão era falso e traidor. Tomado de vergonha e embaraçado, mas cheio de ódio, o Leão aproveita que o Leopardo está cansado da briga e liquida com o atrevido crítico de seu reinado. Depois deste momento decisivo, a paz volta ao reino graças a algumas mudanças no Conselho de Ministros. Texto iluminado O desfecho é impressionante: o Leão dá um urro fortíssimo para que não apenas o Coelho e o Pavão, que estavam com medo de denunciar as fraudes da Raposa, mas também a Raposa – enfim, todos os bichos – entendam que o medo de falar a verdade deveria ser substituído pelo medo de mentir. A seguir, o Leão mata a Raposa. E expulsa do reino o Coelho e o Pavão, que tinham medo dela e por isso não diziam tudo o que sabiam, e traz para ministros o Elefante, o Javali e outros bichos. A narrativa de Lúlio tem o título de Livro das Bestas, mas bem quem poderia chamar-se Livro dos Metidos a Bestas. É um texto que ilumina como poucos esse momento decisivo pelo qual passa o Brasil, com sua luta pelo poder nas eleições municipais, o julgamento do mensalão e outros temas referenciais desta conturbada passagem histórica, que a mídia repercute sem cessar a todo instante. *** [Deonísio da Silva escritor e professor, tem 34 livros publicados. É autor dos romances históricos Avante, soldados: para trás (10ª edição), já traduzido para outras línguas, e Lotte & Zweig (2ª edição), ambos publicados pela Editora Leya. É vice-reitor da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro]