NOME DE POBRE NO BRASIL

domingo, 10 de março de 2013

RUBEM FONSECA: A AXILA E O SOVACO

Antigamente, um locutor chamado Hélio Ribeiro, falecido em 2000, aos 65 anos, quando dirigia uma campanha política, recomendava em bordões de muito sucesso regras de boa educação, que difundia em seus programas de rádio (Jovem Pan, Tupi, Globo, Bandeirantes, Gazeta, Capital, Difusora). Instrutivo, ele ia traduzindo as letras de músicas francesas e inglesas, durante a execução, para que os ouvintes entendessem o que iam ouvir e talvez repetir. Uma dessas recomendações era “não diga sovaco, diga axilas”. Chulas ou chiques, as palavras se aproximam, como as pessoas. Reprovando o cheiro de sovaco (do latim subcavus, cavado por dentro), Fulano diz que a asa de Sicrano fede, sem se dar conta de que axila, do latim axilla, significa asa! Bem, José Magnolli, o nome verdadeiro de seu pseudônimo, em 1989 foi tentar a vida nos EUA, mas voltou se queixando, embora deixasse esposa e filhos morando em Nova York: “há muita má vontade com os profissionais brasileiros de áudio e vídeo naquele país”. Essas lembranças me vieram à mente a propósito dos novos livros de Rubem Fonseca. Um já seria de per si uma novidade. E dois de uma vez só? Foi o que fez a Nova Fronteira, ao lançar o pequeno romance José (167 páginas) e o livro de contos Axilas e Outras Histórias Indecorosas (209 páginas), em 2011. Ficção brasileira, diz de José a ficha de catalogação na fonte. Os resenhistas estão denominando novela, um gênero maior do que o conto e menor do que o romance. Na inglesa, as denominações parecem mais lógicas: novel para romance, short story para conto. Novela como romance predomina de resto nas neolatinas. O espanhol separa novela de cuento. Assim, Aura, um pequeno romance de Carlos Fuentes, é novela, mas não passa de um cuento. Não pensem os leitores que os gêneros sejam importantes apenas para as paradas gueis. Vivemos num mundo de classificações e elas são decorrência da obsessão de ordenar o caos, entrar e sair dos labirintos quando bem se queira e respeitar os limites alheios para que os nossos também sejam respeitados. De resto, esta é uma imposição que tem um fim altruísta, o convívio com o próximo. Dito isso, o sofisticado e ardiloso Rubem Fonseca leva peças de Shakespeare a seus leitores, sejam contos, sejam romances. Aos refinados serve as referências clássicas da literatura para que não o tomem por néscio quando desce ao grande público, lançando redes e arpões que pegam ou fisgam do miúdo ao mais graúdo dos peixes. Assim, logo na abertura de José, o narrador recorre a Alyosha, um personagem solar de Os Irmãos Karamázov que a ninguém deixa indiferente, para revelar sua noção de memória, uma vez que José, ao contrário do que alguns comentaristas vêm apontando, não é uma autobiografia disfarçada, mas o pedaço suculento de um memorial exuberante, entretanto interrompido antes dos trinta anos. Aguardemos os próximos capítulos, como nas telenovelas. O conceito de memória como recurso de educação – esta visão é de Alyosha e do narrador – vai atravessar todas as páginas. “E se apenas uma dessas memórias permanece em nosso coração, ela talvez venha a ser, um dia, o instrumento de nossa salvação”. Isto é, estamos perdidos em muitos sentidos, e a noção de labirinto se insinua em muitos parágrafos. Contrário a Dostoiévski, Joseph Brodsky, diz que “a memória trai a todos, é uma aliada do esquecimento, é uma aliada da morte”. Até agora não passamos das dez linhas da primeira página. E na seguinte, a abertura traz outros complexos contextos, ao evocar Proust: “a lembrança das coisas passadas não é necessariamente a lembrança das coisas como elas foram.” Dada a influência, avassaladora e inconsciente em grandes porções na prosa de Rubem Fonseca, cinéfilo obsessivo, como espectador e como roteirista, tivemos até agora como que apenas o letreiro do filme, os acordes iniciais da trilha sonora, a fotografia, os indicadores sumários do cenário do que se vai narrar. O livro termina com outra noção de memória e de biografia, esta de Isaac Bashesis Singer: “a história verdadeira da vida de uma pessoa jamais poderá ser escrita. Fica além do poder da literatura. A história plena de qualquer vida seria ao mesmo tempo absolutamente aborrecida e absolutamente inacreditável”. Santos da Igreja, alguns deles indexados mais tarde como célebres filósofos, como Anselmo, Agostinho e Tomás de Aquino, vituperaram a velocidade e louvaram a lentidão da boa ordem. Fruiremos os sabores sutis de RF, agora aos 87 anos (dia 11 de maio próximo, ele completará 88), se o lermos devagar, parando, pensando, sentindo o que nos diz com cada palavra. Acabo de ler essas duas obras-primas dispensando o tormento da pressa. E, como li os dois livros consultando outros (para meu mal ou meu bem, e azar de alguns talvez, não sou um leitor comum de RF, sobre ele escrevi três livros), termino este comentário fugaz com uma boutade do papa Gregório Magno, para me pôr no clima de Rubem Fonseca: o mundo é destruído pelos jovens e reconstruído pelos velhos, e, na reconstrução, convém sopitar o ardor dos novos e reacender o fogo dos velhos. De resto, José, Rubem Fonseca (talvez a vírgula e o itálico sejam excessivos, no contexto) e seus leitores tenham o Feitiço de Alcácer Quibir. E jamais serão “condenados a sofrer o martírio de viver entre os demônios”. As aflições do jovem Rubem eram umas, as do velho Rubem são outras. Jovem, ele destruiu para construir o que hoje remodela. Não nos enganemos, porém, com suas astúcias. Leo dormiens, mas quando acorda, volta a ser rei. E o gato a seu lado caça os ratos que roeram as redes com as quais quiseram aprisionar le roi des animaux. Um dia José vai nos contar a sua maior dor. E ela ratifica minha antiga tese: é o escritor mais entrevistado do mundo. Mas nos seus livros! Os jornalistas que se queixam de que ele não dá entrevistas, dizem isso porque não o leem, ou, se o fazem, não o leem direito, isto é, sem velocidade, dispensando o tormento da pressa nas redações e a obsessão por “dar primeiro”, como se fruísse melhor quem o fizesse antes de todos, com sofreguidão, na mesa, na cama e em outros lugares. Para as notícias, a pressa é tudo. Para a literatura, não! (xx)