NOME DE POBRE NO BRASIL

domingo, 24 de março de 2013

DELICIOSA CRÔNICA SOBRE UM CORNO, DE ANNA MARIA RIBEIRO

INCIDENTE POLICIAL MILITAR Anna Maria Ribeiro Faz tempo um ex-delegado de polícia, meu amigo, contou-me este incidente como verdade verdadeira por ele vivida. Rolava o ano de 1969, auge da repressão. Um senhor entra numa delegacia da Zona Sul e autoritário exige ser atendido pelo Delegado o que é dificultado por um mal humorado escrivão. O irritado tom de voz do senhor chega aos ouvidos do Comissário que aparece aos gritos: Tá pensando que isto aqui é casa da mãe Joana?! O apopléctico senhor parece que vai dar uma de “sabe com quem está falando”, mas se contém. Puxa o Comissário para um aparte e apresenta-se em segredo: é o General XX, famoso por suas ações contra-terrorismo. Cheio de mesuras o Comissário apressa-se em conduzi-lo ao Delegado. Um mutismo inexplicável ataca o General na presença do Delegado que imagina que o General ali está para solicitar a colaboração da polícia no estouro de um aparelho o que o faz perder-se num discurso laudatório às gloriosas forças armadas na defesa da ordem e dos poderes constituídos: .. estes terroristas têm mais é que ser exterminados sem dó nem... O General interrompe e pede a saída do Comissário. É indispensável o maior sigiloso. O Delegado ordena a saída do humilhado Comissário e aguarda a honrosa demanda que lhe fará o General. Este depois de muito pigarrear e hesitar termina por declarar que ali está para solicitar um flagrante de adultério: sua segunda mulher, muito jovem, o está traindo com um garotão. O Delegado disfarça o divertimento que lhe causa a ridícula situação e contrito apresenta suas condolências pontuadas com “é lamentável, lamentável...” Sigilo haverá, é claro, mas as formalidades legais terão que ser cumpridas: é necessária a presença do escrivão e do comissário além de um investigador e da sua própria. Mas fique o General tranqüilo. Ele cuidará para que nada transpire dentro ou fora da Delegacia. O General informa que irá participar da diligência e que embora a presença dos demais seja exigida deverão todos manter os olhos baixos em respeito a ele e àquela que apesar de tudo ainda é sua mulher. O Delegado com tudo concorda. Agendados dia e hora de acordo com as informações fornecidas pelo General, este deixa a Delegacia onde minutos depois explodem gargalhadas em todas as dependências. Não querendo mostrar favorecimento o Delegado promove um sorteio para indicar qual dos investigadores terá o privilégio de participar do flagrante. O escrivão, sempre relegado a uma menor importância, está exultante. No dia e hora aprazados encontram-se todos na calçada, frente a um hotel em Copacabana. O Delegado conduz a diligência como sendo uma operação de altíssimo risco. O Comissário entra sozinho, encarregado da negociação necessária à obtenção da chave do quarto. Conseguida esta, volta à calçada. O Delegado determina que os membros da diligência (incluindo o General) entrem no hotel a intervalos regulares para não chamar atenção. Deverão se encontrar na porta do quarto do pecaminoso casal. Risos dos funcionários de hotel acompanham a entrada do General evidenciando que o Comissário compartilhou com eles a história. Exigindo sigilo, é claro! Murmurando em frente ao quarto o Delegado, ordena severo: olhos baixos de preferência fechados! A presença de vocês é apenas para que se cumpra a formalidade. Ninguém olha! O escrivão escandalizado tenta se insurgir. Se não olhar como é que vai lavrar o termo? O Delegado rebate: lavra-se de memória, cretino! É tudo sempre igual: nudus cum nuda in eodem lectum*! Orgulhoso pela citação latina ele volta-se buscando o aplauso do General que furibundo diz apenas: Cale-se, idiota! Humilhado o Delegado repassa a fúria a seus subordinados como se a frase no singular fosse um lapso do General: Calem-se, idiotas! A um sinal do Delegado, o Comissário gira a chave e entram todos de supetão no quarto onde o adultério está sendo consumado a pleno vapor. Bastam alguns segundos para que a jovem senhora reaja: ela põe-se em pé na cama exibindo sua esplendorosa nudez e aos gritos dirige impropérios ao General usando palavras que aqui eu não ousaria transcrever, mas que são furiosamente anotadas pelo escrivão que se não podia ver, podia ouvir. O Delegado solene e respeitoso, olhando de banda, adianta-se tentando cobrir a nudez da jovem com um lençol. Esta se debate aplicando-lhe uma saraivada de tapas certeiros. Empenhado em defender-se e de costas para o grupo que permanece de olhos baixos ele não vê que o General acaba de puxar de uma enorme pistola apontando-a para o atlético rapaz que até aquele momento parecia estar se divertindo muito. Este apavorado percebe que sua vida está por um fio e rápido apossa-se do avantajado corpo do Delegado, fazendo-o sentar-se em seu colo, usando-o como um escudo. O Delegado em pânico se dá conta de que acaba de se transformar num alvo certeiro para o tresloucado General. E mandando para o espaço o respeito à patente, o Delegado urra para a equipe: SEGURA O CORNO! SEGURA O CORNO! * Nu com nua na cama – a modalidade mais grave de adultério segundo a legislação da época.