NOME DE POBRE NO BRASIL

terça-feira, 19 de março de 2013

UMA LÁGRIMA POR TI, QUE SABES DE ONDE ELA VEM

Lágrima: do latim lacrima, lágrima, choro. No latim, era mais usado o plural lacrimae. Assim como o riso, a lágrima é própria dos homens, mas como nem toda lágrima provém de sentimentos sinceros, o povo criou a expressão “lágrimas de crocodilo”, pois esse réptil, ao apertar certas glândulas, semelha chorar quando suas poderosas mandíbulas devoram a presa. Outra expressão muito conhecida, que dá título a um conto de Machado de Assis, é Lágrimas de Xerxes, nome pelo qual os romanos conheciam Kshatra I, rei da Pérsia. Quando o mar destruiu a ponte pela qual passaria com suas tropas, mandou açoitar as águas com trezentas chicotadas, degolou os construtores e “prendeu” o mar a grossas correntes, amarrando nelas trezentos barcos sobre os quais fez uma ponte flutuante. Mas ao passar em revista os soldados, começou a chorar: “Quantos de vós haverão de regressar?”. Machado, aludindo aos episódios, diz: “Xerxes! Lágrimas de Xerxes eram impossíveis; tal planta não dava em tal rochedo. (...) E creram finalmente que o duro Xerxes houvesse chorado”. A lágrima era tradicional recurso pedagógico. Aprender era sofrer. A infame tradição da palmatória foi a principal marca da violência escolar por alguns séculos. Lá¬grimas estão presentes no menor versículo da Bíblia, em João 11, 35: “e Jesus chorou”. Ele derramou lágrimas pela morte de Láza¬ro, a quem em seguida fez com que ressurgisse dos mortos. O dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues inventou a expressão lágrimas de esguicho para exagerar o choro. Houve um tempo em que era chique chorar. Mar-manjos soluçavam nos teatros e a etiqueta previa um lencinho no bolso do paletó para ser sacado à hora da delicada comoção. Nos teatros, os dramaturgos, contrariando a vo¬cação etimológica do nome do ofício, não escreviam dramas, mas lamentáveis drama¬lhões que tinham o fim principal de provo¬car o choro. Sintonizada com eles, a plateia esforçava-se para chorar segundo as regras da etiqueta vigente. Quem não chorasse era olhado com desconfiança pelos próximos. E no inferno romano havia uma localidade denominada Campo das Lágrimas, onde fi¬cavam os fratricidas, os ladrões, os incestu¬osos, os que provocaram guerras civis e os traidores, da pátria ou dos consortes, como os adúlteros. Ultrapassados esses lugares de punição, vinham os Campos Elíseos, onde gozavam a vida eterna os poetas, os inventores, os sacerdotes e outras pessoas de bem. Ao fundo, corria o Rio do Esque¬cimento, onde inumeráveis almas defuntas formavam-se para outras encarnações.