Antes que um piano, já comido de cupins, sirva de lenha para o fogão e tenha suas peças metálicas vendidas ao ferro-velho, delicadas mãos de moça bem-educada dedilharão nele músicas clássicas referenciais da bucólica vida levada ali.
“Da grandeza de meu tetravô materno só guardei as vassouras; das fazendas só as fotografias... E agora escrevi este livro”, diz a autora neste romance arrebatador e imaginoso, mas fincado numa fazenda cuja memória brota dos escombros.
Os escravos, “inimigos inconciliáveis do dono”, são personagens solares deste notável romance, que consegue conciliar documento e ficção numa prosa de fascinantes recursos criadores.
As escolhas de Luiza Lobo lembram as da escritora americana Dorothy Marie Johnson, cujo conto, adaptado para o cinema, resultou em O homem que matou o facínora, o inesquecível filme de John Ford.
A escritora sabe lidar com maestria invejável, trazendo para seu romance o escravo que tinha sido rei ou príncipe em sua terra e agora, inconformado com a má sorte, transforma-se em profeta raivoso para, no terreiro, báculo nas mãos, anunciar o fim dos barões do café: “Os barões e fazendeiros e os filhos de seus filhos vão sofrer tanto quanto nós sofremos no cativeiro!”.
Esta maldição será, mais que dita, entoada ao longo do romance como bordão, enquanto a vida passa pela fazenda e pelo romance ao som da fúria dos acasos, que irrompem aqui e ali como que para mostrar fragilidades escondidas.
Os leitores têm diante dos olhos um romance vigoroso, que conta a história da velha ordem a partir de um mirante encantador: a de quem vive na memória, hoje, um mundo que desapareceu, mas cujas raízes profundíssimas ainda moldam a vida de todos os brasileiros.
“O passado não abre a sua porta e não quer entender a nossa pena”, diz Cecília Meirelles no Romanceiro da Inconfidência. Mas para pessoas com a sensibilidade dela e de Luiza Lobo, abre, sim, e faz com que, por meio delas, venhamos sentir como ainda pulsa ali o coração do Brasil.
DEONÍSIO DA SILVA (xx)
NOME DE POBRE NO BRASIL
terça-feira, 5 de julho de 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
RESPOSTA AOS AIATOLÁS DO IDIOMA (NA VEJA ON-LINE)
Os aiatolás do idioma insistem na vigarice lucrativa e levam mais um troco do escritor Deonísio da Silva
A Ação Educativa, irmandade que congrega a turma que acha que falar errado está certo, divulgou uma Nota Pública em que agradece “o apoio da comunidade científica e dos especialistas no ensino da língua” ao livro “Por uma vida melhor”, também conhecido como “Nós pega o peixe”. Ainda grogues com a vigorosa reação dos brasileiros sensatos, os aiatolás do idioma resolveram fazer de conta que ganharam a briga para não perder o acesso aos cofres do MEC, que publica essas lucrativas vigarices com o patrocínio involuntário dos que pagam impostos. Vejam a nota que viola o artigo 171 do Código Penal. E leiam em seguida outro merecidíssimo corretivo aplicado pelo escritor e professor Deonísio da Silva. Assim será até que a turma que deseduca aprenda que o dever de um professor é ensinar. (AN)
NOTA PÚBLICA
Alguns dias depois do início da polêmica em torno de uma frase retirada da obra “Por uma vida melhor”, o debate ganha argumentos mais qualificados na imprensa. Autores como Marcos Bagno (UnB), Sírio Possenti (Unicamp), Carlos Alberto Faraco (UFPR), Magda Soares Becker (UFMG) e tantos outros vieram a público se posicionar sobre a polêmica, que classificaram como “falsa” e “vazia”.
Com exceção de alguns que insistem em insinuar que o livro “ensina errado”, parece ter ficado claro à opinião pública que o objetivo da obra é ensinar a norma culta, sim, mas a partir da consideração de variantes populares do idioma que o adulto traz consigo ao chegar à escola. Em outras palavras, o livro mostra a frase “Nós pega” para, em seguida, ensinar a forma “Nós pegamos”. Infelizmente, ao pinçar apenas a primeira parte, a notícia publicada em um blog de política do IG e reproduzida por outros veículos não trazia elementos de contextualização a seus leitores.
Lamentamos a postura de alguns parlamentares que se apropriaram da discussão de maneira superficial e usam o episódio para atacar opositores e criar novas falsas polêmicas. Como corretamente publicou a Folha de S. Paulo (18/5), o livro segue as normas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), vigentes desde 1997.
Sabemos que o debate público é fundamental para promover a qualidade e equidade na educação, e reafirmamos nossa disposição em participar de toda discussão nesses termos.
RESPOSTA DE DEONÍSIO DA SILVA
1) No ensino fundamental e médio há a disciplina Linguística? Não! Os professores são pagos para ensinar Português!
2) Vamos conceder, apenas para argumentar, que o livro em questão ensine Linguística. Por que o MEC deveria comprar cerca de 500 000 exemplares desse título para distribuir em todas as escolas do ensino fundamental e médio? Linguística é matéria dos Cursos de Letras!
3) Muitos dos professores que defendem esses crimes de lesa-língua estão apavorados com a reação da sociedade. Para defender o que defendem, ganham bolsas de CNPQ, do CNPQ do B, de outras financiadoras de projetos etc. Enfim, para tudo há dinheiro público, nossa carga tributária é inversamente proporcional às posições do Brasil nas classificações de educação e cultura: os tributos estão lá em cima, os serviços prestados, lá embaixo!
4) Esses professores são dispensados de trabalhos nas universidades, onde deveriam dar mais aulas, justamente para “pesquisar” isso! Se só fazem isso, ganham muito mais do que valem! Se depois de tantos anos chegaram ao português de analfabetos, o que fizeram esses anos todos? Pesquisa? Bem, decerto não é à toa que até Stálin meteu-se com Linguística e ensino de russo! Sim, o Stálin é autor de um livro de Linguistica! Por que ignoram na bibliografia o colega? Medo? De quê? O Céline é fascista, eu abomino o fascismo, qualquer fascismo, mas a-do-ro os romances dele!
5) Há uma questão de fundo na qual, ao que saiba, ninguém tocou. Ou, se tocou, não li os artigos. Eles querem falar mal de Fernando Henrique Cardoso, que escreve melhor do que eles. Uma vez, FHC escorregou num “propiamente” e eles caíram de pau, mas Lula pode tudo, é um 007 que tem licença para matar a pauladas a língua portuguesa, a lógica, a coerência, a coesão, o estilo, o bom gosto etc, onde quer que os encontre! E quando o apedeuta fala, para muitos deles, como a célebre doutora, tudo se ilumina!
6) Por que defendem uma língua que não usam? Ascenderam socialmente com a língua que defendem? Não! Por que negam o mesmo direito aos outros? Machado – preto, pobre, epiléptico, gago etc – venceu todos os preconceitos, menos o de quem ainda não leu o gênio! Um dia desses o Moacir Japiassu demonstrou que um deles confundiu OC I, 1093, indicando a Obra Completa (de Machado de Assis), com um texto de Osório Cochat, e estranhou a falta de intimidade do professor com Machado de Assis e sua inabilidade ou pressa em consultar bibliografias.
7) É raro um professor vir a público para reforçar a norma culta. É mais frequente que venha para espinafrar quem defenda os bons costumes na língua e para justificar que cada um deve escrever como lhe apraz, seja canela ou sassafrás. Mas não praticaram as transgressões gramaticais que tanto defendem para obter seus títulos e serem aprovados em provas e entrevistas que os qualificaram para ensinar em escolas e universidades, do contrário teriam sido reprovados.
8 ) Há uma sede do público por aprender língua portuguesa. Não é por acaso que grandes jornais e grandes empresas procuram ter em seus quadros referências solares da técnica e da arte de escrever. Profissionais como Sérgio Nogueira no sistema Globo; Pasquale Cipro Neto, na Folha de S.Paulo; Cláudio Moreno, no jornal Zero Hora; Dad Squarisi, no Correio Braziliense. Português é difícil? Dad Squarisi nasceu no Líbano e hoje ensina os brasileiros a escrever: sua coluna “Dicas de Português” é publicada em 15 jornais.
Enfim, se há quem se esmere tanto em cuidar, isso é sintoma de que escolas e universidades estão falhando em outra técnica e em outra arte: a de ensinar. É por isso também que muitos jovens inteligentes abandonam os professores no meio do caminho e desistem dos cursos que faziam e vão trabalhar ou aprender em outro lugar, pois têm mais o que fazer do que ouvir besteiras!
A Ação Educativa, irmandade que congrega a turma que acha que falar errado está certo, divulgou uma Nota Pública em que agradece “o apoio da comunidade científica e dos especialistas no ensino da língua” ao livro “Por uma vida melhor”, também conhecido como “Nós pega o peixe”. Ainda grogues com a vigorosa reação dos brasileiros sensatos, os aiatolás do idioma resolveram fazer de conta que ganharam a briga para não perder o acesso aos cofres do MEC, que publica essas lucrativas vigarices com o patrocínio involuntário dos que pagam impostos. Vejam a nota que viola o artigo 171 do Código Penal. E leiam em seguida outro merecidíssimo corretivo aplicado pelo escritor e professor Deonísio da Silva. Assim será até que a turma que deseduca aprenda que o dever de um professor é ensinar. (AN)
NOTA PÚBLICA
Alguns dias depois do início da polêmica em torno de uma frase retirada da obra “Por uma vida melhor”, o debate ganha argumentos mais qualificados na imprensa. Autores como Marcos Bagno (UnB), Sírio Possenti (Unicamp), Carlos Alberto Faraco (UFPR), Magda Soares Becker (UFMG) e tantos outros vieram a público se posicionar sobre a polêmica, que classificaram como “falsa” e “vazia”.
Com exceção de alguns que insistem em insinuar que o livro “ensina errado”, parece ter ficado claro à opinião pública que o objetivo da obra é ensinar a norma culta, sim, mas a partir da consideração de variantes populares do idioma que o adulto traz consigo ao chegar à escola. Em outras palavras, o livro mostra a frase “Nós pega” para, em seguida, ensinar a forma “Nós pegamos”. Infelizmente, ao pinçar apenas a primeira parte, a notícia publicada em um blog de política do IG e reproduzida por outros veículos não trazia elementos de contextualização a seus leitores.
Lamentamos a postura de alguns parlamentares que se apropriaram da discussão de maneira superficial e usam o episódio para atacar opositores e criar novas falsas polêmicas. Como corretamente publicou a Folha de S. Paulo (18/5), o livro segue as normas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), vigentes desde 1997.
Sabemos que o debate público é fundamental para promover a qualidade e equidade na educação, e reafirmamos nossa disposição em participar de toda discussão nesses termos.
RESPOSTA DE DEONÍSIO DA SILVA
1) No ensino fundamental e médio há a disciplina Linguística? Não! Os professores são pagos para ensinar Português!
2) Vamos conceder, apenas para argumentar, que o livro em questão ensine Linguística. Por que o MEC deveria comprar cerca de 500 000 exemplares desse título para distribuir em todas as escolas do ensino fundamental e médio? Linguística é matéria dos Cursos de Letras!
3) Muitos dos professores que defendem esses crimes de lesa-língua estão apavorados com a reação da sociedade. Para defender o que defendem, ganham bolsas de CNPQ, do CNPQ do B, de outras financiadoras de projetos etc. Enfim, para tudo há dinheiro público, nossa carga tributária é inversamente proporcional às posições do Brasil nas classificações de educação e cultura: os tributos estão lá em cima, os serviços prestados, lá embaixo!
4) Esses professores são dispensados de trabalhos nas universidades, onde deveriam dar mais aulas, justamente para “pesquisar” isso! Se só fazem isso, ganham muito mais do que valem! Se depois de tantos anos chegaram ao português de analfabetos, o que fizeram esses anos todos? Pesquisa? Bem, decerto não é à toa que até Stálin meteu-se com Linguística e ensino de russo! Sim, o Stálin é autor de um livro de Linguistica! Por que ignoram na bibliografia o colega? Medo? De quê? O Céline é fascista, eu abomino o fascismo, qualquer fascismo, mas a-do-ro os romances dele!
5) Há uma questão de fundo na qual, ao que saiba, ninguém tocou. Ou, se tocou, não li os artigos. Eles querem falar mal de Fernando Henrique Cardoso, que escreve melhor do que eles. Uma vez, FHC escorregou num “propiamente” e eles caíram de pau, mas Lula pode tudo, é um 007 que tem licença para matar a pauladas a língua portuguesa, a lógica, a coerência, a coesão, o estilo, o bom gosto etc, onde quer que os encontre! E quando o apedeuta fala, para muitos deles, como a célebre doutora, tudo se ilumina!
6) Por que defendem uma língua que não usam? Ascenderam socialmente com a língua que defendem? Não! Por que negam o mesmo direito aos outros? Machado – preto, pobre, epiléptico, gago etc – venceu todos os preconceitos, menos o de quem ainda não leu o gênio! Um dia desses o Moacir Japiassu demonstrou que um deles confundiu OC I, 1093, indicando a Obra Completa (de Machado de Assis), com um texto de Osório Cochat, e estranhou a falta de intimidade do professor com Machado de Assis e sua inabilidade ou pressa em consultar bibliografias.
7) É raro um professor vir a público para reforçar a norma culta. É mais frequente que venha para espinafrar quem defenda os bons costumes na língua e para justificar que cada um deve escrever como lhe apraz, seja canela ou sassafrás. Mas não praticaram as transgressões gramaticais que tanto defendem para obter seus títulos e serem aprovados em provas e entrevistas que os qualificaram para ensinar em escolas e universidades, do contrário teriam sido reprovados.
8 ) Há uma sede do público por aprender língua portuguesa. Não é por acaso que grandes jornais e grandes empresas procuram ter em seus quadros referências solares da técnica e da arte de escrever. Profissionais como Sérgio Nogueira no sistema Globo; Pasquale Cipro Neto, na Folha de S.Paulo; Cláudio Moreno, no jornal Zero Hora; Dad Squarisi, no Correio Braziliense. Português é difícil? Dad Squarisi nasceu no Líbano e hoje ensina os brasileiros a escrever: sua coluna “Dicas de Português” é publicada em 15 jornais.
Enfim, se há quem se esmere tanto em cuidar, isso é sintoma de que escolas e universidades estão falhando em outra técnica e em outra arte: a de ensinar. É por isso também que muitos jovens inteligentes abandonam os professores no meio do caminho e desistem dos cursos que faziam e vão trabalhar ou aprender em outro lugar, pois têm mais o que fazer do que ouvir besteiras!
O ENSINO DE PORTUGUÊS NA BERLINDA
De Edmar Bacha (67 anos), ex-presidente do BNDES, um dos pais do Plano Real e criador da expressão "Belíndia" para designar a sociedade brasileira, grande economista que hoje curte a bucólica Fazenda do Pinhal, onde começou o município de São Carlos (SP), que tem um PhD para 250 habitantes, deixando Genebra em segundo lugar no mundo nesse quesito, citado na coluna de Ancelmo Gois (O Globo, 16/5):
"Agora que o MEC achou solução para nossa incapacidade de alfabetizar os brasileiros, ao apontar o errado como certo, tem gaiato sugerindo a Guido Mantega baixar uma MP para revogar a lei da oferta e da procura para baixar a inflação sem afetar o crescimento. Com todo o respeito..."
Perguntinha básica para o MEC, mais uma vez centro dessa polêmica que revela o rebaixamento de seus quadros, em sua maioria ali chegados por indicação partidária, e não por mérito: se os alunos podem continuar a falar e a escrever "os livro", "nós vai" etc., o que é que eles e os professores estão fazendo na escola?
O Globo repercutiu a polêmica na segunda-feira (16/5) em primeira página, informando que 485.000 alunos receberam o livro que está no centro de mais um debate que revela coisas ainda mais sombrias, como a tiragem do volume. Isto é, com o dinheiro do contribuinte foram pagas comissões que escolheram mal uma bibliografia estratégica, como a de Língua Portuguesa, com a qual se ensinam todas as outras disciplinas, e levaram a questão ao Jornal Nacional e a toda a mídia.
Deveríamos todos ter sido alunos dessa professora, autora do livro Por uma vida melhor, que integra uma coleção chamada "Viver, Aprender", e foi adotado pelo Ministério da Educação? Ou temos que respeitar quem pensa diferentemente dela, ao lado de professores como Sérgio Nogueira, Cláudio Moreno e Evanildo Bechara, entre outros?
Sólida formação humanista
Contendo o espanto, e talvez a desesperança do alto de seus 83 anos, Bechara, autor de dicionário e gramática, nomeado autoridade suprema do Acordo Ortográfico pela Academia Brasileira de Letras, que ainda apresenta programas de Língua Portuguesa em rádios e escreve colunas em jornais, disse:
"O aluno não vai para a escola para aprender ‘nós pega o peixe’. Isso ele já diz de casa, já é aquilo que nós chamamos de língua familiar, a língua do contexto doméstico. O grande problema é uma confusão que se faz, e que o livro também faz, entre a tarefa de um cientista, de um linguista e a tarefa de um professor de português."
E acrescentou:
"No meu tempo de aluno, nós tínhamos apenas dois livros: durante quatro, cinco anos, tínhamos a mesma antologia e a mesma gramática. Mas, embora os professores não tivessem tirado o proveito das universidades, eles levavam para a escola uma cultura geral muito boa. E era essa cultura geral do professor de matemática, de física, de química, de português, o grande atrativo para o aluno. Mas o professor que se limita ao programa estabelecido pelo livro didático é um professor que é conduzido, é um professor que não tem conhecimento suficiente para sair dos trilhos oferecidos pelo livro didático."
A polêmica, e principalmente as intervenções do professor Bechara, fizeram brotar neste colunista um pedaço de memorial, que já deu as caras em meu romance Teresa D’Ávila, cuja primeira parte se passa num seminário, onde o estudo era levado muito, mas muito a sério, como na maioria das escolas de então, principalmente as públicas.
Depois de sucessivas reformas, o ensino fundamental e médio apresenta um quadro complicado. Onde foi que erramos tanto e como é possível consertar o estrago? Avanços houve, ninguém pode negá-los, mas há desarrumações por todos os lados e em todas as séries.
E como era antes? Os saudosistas dizem que a escola era melhor. Era, mas não em todas as áreas. Muitos alunos terminavam o curso científico – que era opção ao clássico, depois do ginásio – sem nunca terem visto um laboratório. Em compensação, ninguém chegava ali sem uma sólida formação humanista.
Linha de passe
É verdade que havia também alguns exageros. Nas provas de Geografia, era exigido dos alunos que decorassem os nomes dos afluentes do rio Amazonas pela margem direita e pela margem esquerda. Várias pessoas ainda hoje sabem isso de cor, mas ignoram para que serve tal conhecimento. E já houve a saudável controvérsia se o maior rio do mundo é o Amazonas, o Nilo ou o Mississipi. Daqui a pouco corremos o risco de saber que é algum rio da China...
Um dia, esses antigos alunos foram meninas ou meninos que quebraram a cabeça para saber o que era pororoca (quando o Amazonas se encontrava com o mar, acho que ainda se encontra, mas não nos interessa mais...) e para responder se os rios Javari, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu chegavam ao rio mais caudaloso do mundo pela esquerda ou pela direita. Içá, Japuru, Negro, Trombetas, Paru e Jari chegavam pelo outro lado, mas qual era a margem correta?
Mais fácil era saber a seleção brasileira, com jogadores do Botafogo e do Santos mesclados de alguns poucos de outros times. Por que não levavam logo a linha do Botafogo, que jamais fez feio na seleção, como no bicampeonato de 1962, com Garrincha, Didi, Vavá, Amarildo e Zagalo? Menino ainda, tive que ouvir de outro botafoguense o seguinte: "Teria sido melhor levar o ataque do Botafogo todo, com o Quarentinha, o Vavá está velho, haveria maior entrosamento, mas, sabe como é, era preciso contentar o Vasco". "E o Santos, o Palmeiras e o Bangu", acrescentava outro, "ou você acha que convocaram o Zózimo por quê?" Zózimo era um dos melhores zagueiros do mundo, mas somente dele exigíamos explicação.
Iracema piauiense
Saber disso não nos impedia de decorar trechos inteiros de Camões, começados por "As armas e os barões assinalados/ Que da ocidental praia lusitana/ Por mares nunca dantes navegados..." Cada estrofe tinha oito versos e o objeto direto da oração principal estava no primeiro verso da primeira estrofe, enquanto o sujeito o aguardava no penúltimo da segunda estrofe, disfarçado ao lado de um gerúndio: "(cantando) espalharei por toda parte".
Tínhamos certas técnicas. Espetar o sujeito e sair à cata dos objetos diretos, indiretos, adjuntos nominais, adjuntos adverbiais etc. Tinham valor aqueles exercícios? Tinham. Aprendíamos lógica, sintaxe, complexos plurais e gêneros, história antiga, astronomia, geografia. E aprendíamos a estudar. Aprendíamos que o melhor método era a relação bunda-cadeira-hora, sem a qual nada se aprende.
Em Geografia, tropeçava Castro Alves, poeta de nossa preferência, que fazia famosos rios atravessarem o Saara e situava Angola bem no meio do deserto! Mas escrevia bonito e fizera mais pela Abolição do que todos os que sabiam geografia! "Andrada! Arranca este pendão dos ares!/ Colombo! Fecha a porta de teus mares!" E havia ainda Machado de Assis: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis". Até aqui, fácil, mas depois vinha o vocabulário. Gatuno, sabíamos o que era, mas peralta, pelintra, aluá, seguidilha e regaço, o que eram? Machado não era o mais difícil. Vinha Gonçalves Dias, cujos versos, de tão belos, tinham ido parar no Hino Nacional: "Nossos bosques têm mais vida", "nossa vida no teu seio mais amores". Wilson, de todos nós o mais lido, explicava: "No teu solo eles botaram depois".
Depois era a vez de José de Alencar: "Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira." E ainda tivemos que ouvir no recreio, em irrepreensível lógica, que, como o romance se passava no Ceará e Iracema nascera "além daquela serra, que ainda azula no horizonte", e depois do horizonte vinha outro estado da federação, Iracema nascera no Piauí. Portanto, "a virgem dos lábios de mel" era piauiense!
Nem literatura nem mulher
E ainda nem tínhamos ouvido falar de Euclides da Cunha. Para nos humilhar, um dos padres-professores leria um trecho de artigo de jornal – e ele sublinhava "de jornal!" como coisa menor, já que o melhor daquele autor estava nos livros. "Publicado em 1904!", ele acrescentava, "quando os leitores ao menos sabiam sinônimos!" Depois dessas advertências repletas de exclamações, vinha o trecho:
"Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo direito expresso em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito de roubo... Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária, sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que a patrocinava o maior dos teólogos, S. Tomás de Aquino."
Concluía: "Esta é a primeira das questões dos deveres para casa, vamos à segunda..." O jeito era dividir a tarefa em grupos: quem ficaria com os sinônimos de alentada, dissertação, consuetudinárias, antinomia, alarmado. E Borgonha, onde ficava Borgonha? Quem tinha sido Tomás de Aquino?
E ainda não tínhamos chegado ao Armagedon de Os Sertões, quando até os primeiros da classe se achariam analfabetos completos diante do estilo e das palavras do autor que tinha sido morto pelo amante da própria mulher. Um dos nossos foi ainda mais catastrófico: "Já pensou se ele sobrevivesse? Morreu aos 43 anos e já escrevia assim! Aos sessenta, usaria todo o dicionário e mais um pouco. Bom, dele só sei que nasceu em Cantagalo e morreu no Rio."
Coitado daquele colega. Não gostava de literatura nem de mulher. E não pôde esperar o voto do STF consagrando o que ele mais praticava, a homoafetividade que naqueles tempos tinha sua designação resumida ao nome de um animalzinho muito querido, o Bambi, que ainda não saltitava nas savanas do Discovery, apenas nos quadrinhos de Walt Disney.
"A vergonha de ser honesto"
Mas escapou de ouvir em rede nacional que não é preciso estudar nada, muito menos Língua Portuguesa, sem a qual não aprendemos nenhuma outra matéria, pois todas são ensinadas em português.
Paulo Rónai, judeu-húngaro, que se perdeu de amores pelo Brasil e pela língua portuguesa, esmerou-se em estudar e ensinar latim depois que descobriu ser o português filho do latim. E deixou-nos essa preciosidade que é o livro Não perca o seu latim, explicando, não apenas com dezenas, mas com centenas de provérbios, ditados, máximas, lemas, divisas, inscrições, epitáfios, locuções etc., como o latim está presente, não apenas nos livros de português, mas na vida brasileira. O lema do município de São Paulo, por exemplo, é Duco, non ducor (Conduzo, não sou conduzido).
É oportuno lembrar também que pacta sunt servanda (os contratos devem ser cumpridos). Que o contribuinte contrata professores para cuidar do ensino, não para rebaixá-lo desse modo. E se para o MEC vale tudo, até o português errado, então para que atormentar os alunos com tantos exames? Enem, Enade, vestibulares, concursos para funcionários e professores etc. foram instituídos para quê? Para humilhar os jovens, sobretudo os mais pobres, cujos pais não podem pagar por boas escolas, e cujas respostas e redações, depois de corrigidas, servem de pasto às maledicências que depois são disseminadas na internet?
O tempora! O mores! (Oh! tempos! Oh! costumes!), exclamava Cícero, pai dos oradores em todo mundo, um século antes de Cristo.
Pois é. Os tempos e os costumes brasileiros nos levaram a esses descalabros, mas convém olhar todo o panorama. A polêmica, conquanto incendiária, dá conta de apenas um aspecto de nosso fracasso educacional. Muitos outros temas e problemas continuam encobertos e é por isso que é estratégico dar um jeito de controlar a mídia, do contrário vamos acabar sabendo de tudo! E ficaremos ainda mais espantados!
Concluamos com Rui Barbosa:
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
"Agora que o MEC achou solução para nossa incapacidade de alfabetizar os brasileiros, ao apontar o errado como certo, tem gaiato sugerindo a Guido Mantega baixar uma MP para revogar a lei da oferta e da procura para baixar a inflação sem afetar o crescimento. Com todo o respeito..."
Perguntinha básica para o MEC, mais uma vez centro dessa polêmica que revela o rebaixamento de seus quadros, em sua maioria ali chegados por indicação partidária, e não por mérito: se os alunos podem continuar a falar e a escrever "os livro", "nós vai" etc., o que é que eles e os professores estão fazendo na escola?
O Globo repercutiu a polêmica na segunda-feira (16/5) em primeira página, informando que 485.000 alunos receberam o livro que está no centro de mais um debate que revela coisas ainda mais sombrias, como a tiragem do volume. Isto é, com o dinheiro do contribuinte foram pagas comissões que escolheram mal uma bibliografia estratégica, como a de Língua Portuguesa, com a qual se ensinam todas as outras disciplinas, e levaram a questão ao Jornal Nacional e a toda a mídia.
Deveríamos todos ter sido alunos dessa professora, autora do livro Por uma vida melhor, que integra uma coleção chamada "Viver, Aprender", e foi adotado pelo Ministério da Educação? Ou temos que respeitar quem pensa diferentemente dela, ao lado de professores como Sérgio Nogueira, Cláudio Moreno e Evanildo Bechara, entre outros?
Sólida formação humanista
Contendo o espanto, e talvez a desesperança do alto de seus 83 anos, Bechara, autor de dicionário e gramática, nomeado autoridade suprema do Acordo Ortográfico pela Academia Brasileira de Letras, que ainda apresenta programas de Língua Portuguesa em rádios e escreve colunas em jornais, disse:
"O aluno não vai para a escola para aprender ‘nós pega o peixe’. Isso ele já diz de casa, já é aquilo que nós chamamos de língua familiar, a língua do contexto doméstico. O grande problema é uma confusão que se faz, e que o livro também faz, entre a tarefa de um cientista, de um linguista e a tarefa de um professor de português."
E acrescentou:
"No meu tempo de aluno, nós tínhamos apenas dois livros: durante quatro, cinco anos, tínhamos a mesma antologia e a mesma gramática. Mas, embora os professores não tivessem tirado o proveito das universidades, eles levavam para a escola uma cultura geral muito boa. E era essa cultura geral do professor de matemática, de física, de química, de português, o grande atrativo para o aluno. Mas o professor que se limita ao programa estabelecido pelo livro didático é um professor que é conduzido, é um professor que não tem conhecimento suficiente para sair dos trilhos oferecidos pelo livro didático."
A polêmica, e principalmente as intervenções do professor Bechara, fizeram brotar neste colunista um pedaço de memorial, que já deu as caras em meu romance Teresa D’Ávila, cuja primeira parte se passa num seminário, onde o estudo era levado muito, mas muito a sério, como na maioria das escolas de então, principalmente as públicas.
Depois de sucessivas reformas, o ensino fundamental e médio apresenta um quadro complicado. Onde foi que erramos tanto e como é possível consertar o estrago? Avanços houve, ninguém pode negá-los, mas há desarrumações por todos os lados e em todas as séries.
E como era antes? Os saudosistas dizem que a escola era melhor. Era, mas não em todas as áreas. Muitos alunos terminavam o curso científico – que era opção ao clássico, depois do ginásio – sem nunca terem visto um laboratório. Em compensação, ninguém chegava ali sem uma sólida formação humanista.
Linha de passe
É verdade que havia também alguns exageros. Nas provas de Geografia, era exigido dos alunos que decorassem os nomes dos afluentes do rio Amazonas pela margem direita e pela margem esquerda. Várias pessoas ainda hoje sabem isso de cor, mas ignoram para que serve tal conhecimento. E já houve a saudável controvérsia se o maior rio do mundo é o Amazonas, o Nilo ou o Mississipi. Daqui a pouco corremos o risco de saber que é algum rio da China...
Um dia, esses antigos alunos foram meninas ou meninos que quebraram a cabeça para saber o que era pororoca (quando o Amazonas se encontrava com o mar, acho que ainda se encontra, mas não nos interessa mais...) e para responder se os rios Javari, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu chegavam ao rio mais caudaloso do mundo pela esquerda ou pela direita. Içá, Japuru, Negro, Trombetas, Paru e Jari chegavam pelo outro lado, mas qual era a margem correta?
Mais fácil era saber a seleção brasileira, com jogadores do Botafogo e do Santos mesclados de alguns poucos de outros times. Por que não levavam logo a linha do Botafogo, que jamais fez feio na seleção, como no bicampeonato de 1962, com Garrincha, Didi, Vavá, Amarildo e Zagalo? Menino ainda, tive que ouvir de outro botafoguense o seguinte: "Teria sido melhor levar o ataque do Botafogo todo, com o Quarentinha, o Vavá está velho, haveria maior entrosamento, mas, sabe como é, era preciso contentar o Vasco". "E o Santos, o Palmeiras e o Bangu", acrescentava outro, "ou você acha que convocaram o Zózimo por quê?" Zózimo era um dos melhores zagueiros do mundo, mas somente dele exigíamos explicação.
Iracema piauiense
Saber disso não nos impedia de decorar trechos inteiros de Camões, começados por "As armas e os barões assinalados/ Que da ocidental praia lusitana/ Por mares nunca dantes navegados..." Cada estrofe tinha oito versos e o objeto direto da oração principal estava no primeiro verso da primeira estrofe, enquanto o sujeito o aguardava no penúltimo da segunda estrofe, disfarçado ao lado de um gerúndio: "(cantando) espalharei por toda parte".
Tínhamos certas técnicas. Espetar o sujeito e sair à cata dos objetos diretos, indiretos, adjuntos nominais, adjuntos adverbiais etc. Tinham valor aqueles exercícios? Tinham. Aprendíamos lógica, sintaxe, complexos plurais e gêneros, história antiga, astronomia, geografia. E aprendíamos a estudar. Aprendíamos que o melhor método era a relação bunda-cadeira-hora, sem a qual nada se aprende.
Em Geografia, tropeçava Castro Alves, poeta de nossa preferência, que fazia famosos rios atravessarem o Saara e situava Angola bem no meio do deserto! Mas escrevia bonito e fizera mais pela Abolição do que todos os que sabiam geografia! "Andrada! Arranca este pendão dos ares!/ Colombo! Fecha a porta de teus mares!" E havia ainda Machado de Assis: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis". Até aqui, fácil, mas depois vinha o vocabulário. Gatuno, sabíamos o que era, mas peralta, pelintra, aluá, seguidilha e regaço, o que eram? Machado não era o mais difícil. Vinha Gonçalves Dias, cujos versos, de tão belos, tinham ido parar no Hino Nacional: "Nossos bosques têm mais vida", "nossa vida no teu seio mais amores". Wilson, de todos nós o mais lido, explicava: "No teu solo eles botaram depois".
Depois era a vez de José de Alencar: "Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira." E ainda tivemos que ouvir no recreio, em irrepreensível lógica, que, como o romance se passava no Ceará e Iracema nascera "além daquela serra, que ainda azula no horizonte", e depois do horizonte vinha outro estado da federação, Iracema nascera no Piauí. Portanto, "a virgem dos lábios de mel" era piauiense!
Nem literatura nem mulher
E ainda nem tínhamos ouvido falar de Euclides da Cunha. Para nos humilhar, um dos padres-professores leria um trecho de artigo de jornal – e ele sublinhava "de jornal!" como coisa menor, já que o melhor daquele autor estava nos livros. "Publicado em 1904!", ele acrescentava, "quando os leitores ao menos sabiam sinônimos!" Depois dessas advertências repletas de exclamações, vinha o trecho:
"Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo direito expresso em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito de roubo... Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária, sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que a patrocinava o maior dos teólogos, S. Tomás de Aquino."
Concluía: "Esta é a primeira das questões dos deveres para casa, vamos à segunda..." O jeito era dividir a tarefa em grupos: quem ficaria com os sinônimos de alentada, dissertação, consuetudinárias, antinomia, alarmado. E Borgonha, onde ficava Borgonha? Quem tinha sido Tomás de Aquino?
E ainda não tínhamos chegado ao Armagedon de Os Sertões, quando até os primeiros da classe se achariam analfabetos completos diante do estilo e das palavras do autor que tinha sido morto pelo amante da própria mulher. Um dos nossos foi ainda mais catastrófico: "Já pensou se ele sobrevivesse? Morreu aos 43 anos e já escrevia assim! Aos sessenta, usaria todo o dicionário e mais um pouco. Bom, dele só sei que nasceu em Cantagalo e morreu no Rio."
Coitado daquele colega. Não gostava de literatura nem de mulher. E não pôde esperar o voto do STF consagrando o que ele mais praticava, a homoafetividade que naqueles tempos tinha sua designação resumida ao nome de um animalzinho muito querido, o Bambi, que ainda não saltitava nas savanas do Discovery, apenas nos quadrinhos de Walt Disney.
"A vergonha de ser honesto"
Mas escapou de ouvir em rede nacional que não é preciso estudar nada, muito menos Língua Portuguesa, sem a qual não aprendemos nenhuma outra matéria, pois todas são ensinadas em português.
Paulo Rónai, judeu-húngaro, que se perdeu de amores pelo Brasil e pela língua portuguesa, esmerou-se em estudar e ensinar latim depois que descobriu ser o português filho do latim. E deixou-nos essa preciosidade que é o livro Não perca o seu latim, explicando, não apenas com dezenas, mas com centenas de provérbios, ditados, máximas, lemas, divisas, inscrições, epitáfios, locuções etc., como o latim está presente, não apenas nos livros de português, mas na vida brasileira. O lema do município de São Paulo, por exemplo, é Duco, non ducor (Conduzo, não sou conduzido).
É oportuno lembrar também que pacta sunt servanda (os contratos devem ser cumpridos). Que o contribuinte contrata professores para cuidar do ensino, não para rebaixá-lo desse modo. E se para o MEC vale tudo, até o português errado, então para que atormentar os alunos com tantos exames? Enem, Enade, vestibulares, concursos para funcionários e professores etc. foram instituídos para quê? Para humilhar os jovens, sobretudo os mais pobres, cujos pais não podem pagar por boas escolas, e cujas respostas e redações, depois de corrigidas, servem de pasto às maledicências que depois são disseminadas na internet?
O tempora! O mores! (Oh! tempos! Oh! costumes!), exclamava Cícero, pai dos oradores em todo mundo, um século antes de Cristo.
Pois é. Os tempos e os costumes brasileiros nos levaram a esses descalabros, mas convém olhar todo o panorama. A polêmica, conquanto incendiária, dá conta de apenas um aspecto de nosso fracasso educacional. Muitos outros temas e problemas continuam encobertos e é por isso que é estratégico dar um jeito de controlar a mídia, do contrário vamos acabar sabendo de tudo! E ficaremos ainda mais espantados!
Concluamos com Rui Barbosa:
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
sexta-feira, 22 de abril de 2011
CONFUSO, DUPLICIDADE, ESQUIZOFRÊNICO, FATALIDADE ETC
Etimologia
Deonísio da Silva, na revista CARAS
Confuso, do latim confusus, formado a partir de cum, com, e fundire, fundir, é o mínimo que se pode dizer do autor do massacre de 12 adolescentes em escola carioca. Para especialistas, o rapaz era esquizofrênico, adjetivo formado de esquizofrenia, do francês schizophrénie.
por Deonísio da Silva*
Aleúte: de origem obscura, provavelmente do inglês aleut, adjetivo gentílico para designar o habitante ou nativo das ilhas Aleutas, situadas no noroeste da América do Norte, e de certas partes do Estado do Alasca. Esses povos falam duas línguas aleútes, aparentadas com o esquimó. A palavra pode ter chegado ali depois de levada para o russo de algum dialeto da Ásia. Do russo chegou ao inglês, disseminando-se do latim do império americano para diversas outras línguas, inclusive para o português. Há poucas palavras do aleúte na língua portuguesa. Uma delas é parca.
Confuso: do latim confusus, confuso, misturado, palavra formada a partir de cum, com, e fundire, fundir. A confusão mental extrema pode levar a atos criminosos como o que praticou Wellington Menezes de Oliveira (1987-2011), autor do massacre que resultou na execução à queima-roupa de 12 adolescentes na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, no último dia 7. Filho biológico de mulher esquizofrênica, ele sofria de esquizofrenia severa, doença mental que muito preocupava sua mãe adotiva, que lhe providenciou tratamento até deixá-lo órfão. Depois ninguém mais cuidou dele, nem ele pôde cuidar de si mesmo, perdendo-se num labirinto de confusões mentais que o levaram a misturar elementos religiosos para justificar o injustificável: a execução de inocentes para vingança dos maus-tratos recebidos na mesma escola, que ele frequentara quando tinha a idade das vítimas.
Duplicidade: do latim duplicitate, declinação de duplicitas, designando aquilo que é duplo, que oferece duas faces ou dupla personalidade, ligada à esquizofrenia, doença de personalidade múltipla. A banda The Who lançou em 1973 seu sexto álbum, Quadrophenia, modificando o termo esquizofrenia, designando uma ópera musical com este nome. Nela, o protagonista sofre de personalidade quádrupla, cada uma delas associada a um integrante da banda. Há quatro músicas-tema: Helpless Dancer, Doctor Jimmy, Bell Boy e Love Reign O'er Me, que voltam na penúltima faixa do disco, em peça intitulada The Rock.
Esquizofrênico: de esquizofrenia, do francês schizophrénie e do inglês schizophrenia, palavras radicadas nos étimos do verbo grego skhízo, separar, e do substantivo phrenés, mente. Designa manifestações psicóticas e distúrbios mentais como delírios e alucinações. O termo foi cunhado pelo psiquiatra suíço Eugen Bleurer (1857-1939), que deu o primeiro emprego de psiquiatra residente ao também suíço Carl Jung (1875-1961), fundador da psicologia analítica. Até então a doença era tida como demência precoce.
Fatalidade: do latim fatalitate, declinação de fatalitas, necessidade do fatum, destino. As fates romanas, também designadas parcas, adaptadas das Moiras gregas, eram três: Nona, Décima e Morta, equivalentes às gregas Cloto, Láquesis e Átropos. Elas, hoje, na versão helênica, designam remédios prescritos pela homeopatia. Nona tecia o fio da vida; Décima determinava sua extensão e caminho a percorrer; e Morta cortava esse fio. O termo fatalidade, designando desgraça, tragédia ou simplesmente o fim abrupto de alguma coisa, nasceu de certas metáforas ligadas a essas deusas, cujas decisões eram irrecorríveis e nem mesmo Zeus, na Grécia, ou Júpiter, em Roma, podiam revê-las. Os antigos romanos adotavam o calendário solar para os anos e o lunar para os meses. Assim, a gravidez das mulheres não era de nove meses, mas de nove luas. Nona tecia o fio da vida no útero materno até a nona lua; Décima cortava o cordão umbilical, determinando o começo da vida terrena da pessoa, na décima lua; e Morta cuidava da outra ponta da vida, que poderia acabar a qualquer momento. Nasceu aí a significação de fatalidade.
Parca: do aleúte parka, casaco de pele, com capuz, cujo comprimento alcança o meio da coxa ou o joelho, usado nas regiões polares e em outras muito frias. Passou ao inglês parka, de onde migrou para o português para designar casaco semelhante, em geral de tecido impermeável, às vezes forrado de lã, e usado por militares e esportistas. Nos anos 1960, a juventude inglesa popularizou esse tipo de vestuário, em cor verde-militar, com o escudo da Força Aérea Inglesa. No filme Quadrophenia, dirigido pela banda de roque The Who, os rapazes usam esse tipo de vestuário para se protegerem do frio e também para recordarem a coragem, o valor e o heroísmo de seus pais, pilotos combatentes na II Guerra Mundial. Entre os militares brasileiros, esse tipo de abrigo é conhecido por jaqueta.
Deonísio da Silva, na revista CARAS
Confuso, do latim confusus, formado a partir de cum, com, e fundire, fundir, é o mínimo que se pode dizer do autor do massacre de 12 adolescentes em escola carioca. Para especialistas, o rapaz era esquizofrênico, adjetivo formado de esquizofrenia, do francês schizophrénie.
por Deonísio da Silva*
Aleúte: de origem obscura, provavelmente do inglês aleut, adjetivo gentílico para designar o habitante ou nativo das ilhas Aleutas, situadas no noroeste da América do Norte, e de certas partes do Estado do Alasca. Esses povos falam duas línguas aleútes, aparentadas com o esquimó. A palavra pode ter chegado ali depois de levada para o russo de algum dialeto da Ásia. Do russo chegou ao inglês, disseminando-se do latim do império americano para diversas outras línguas, inclusive para o português. Há poucas palavras do aleúte na língua portuguesa. Uma delas é parca.
Confuso: do latim confusus, confuso, misturado, palavra formada a partir de cum, com, e fundire, fundir. A confusão mental extrema pode levar a atos criminosos como o que praticou Wellington Menezes de Oliveira (1987-2011), autor do massacre que resultou na execução à queima-roupa de 12 adolescentes na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, no último dia 7. Filho biológico de mulher esquizofrênica, ele sofria de esquizofrenia severa, doença mental que muito preocupava sua mãe adotiva, que lhe providenciou tratamento até deixá-lo órfão. Depois ninguém mais cuidou dele, nem ele pôde cuidar de si mesmo, perdendo-se num labirinto de confusões mentais que o levaram a misturar elementos religiosos para justificar o injustificável: a execução de inocentes para vingança dos maus-tratos recebidos na mesma escola, que ele frequentara quando tinha a idade das vítimas.
Duplicidade: do latim duplicitate, declinação de duplicitas, designando aquilo que é duplo, que oferece duas faces ou dupla personalidade, ligada à esquizofrenia, doença de personalidade múltipla. A banda The Who lançou em 1973 seu sexto álbum, Quadrophenia, modificando o termo esquizofrenia, designando uma ópera musical com este nome. Nela, o protagonista sofre de personalidade quádrupla, cada uma delas associada a um integrante da banda. Há quatro músicas-tema: Helpless Dancer, Doctor Jimmy, Bell Boy e Love Reign O'er Me, que voltam na penúltima faixa do disco, em peça intitulada The Rock.
Esquizofrênico: de esquizofrenia, do francês schizophrénie e do inglês schizophrenia, palavras radicadas nos étimos do verbo grego skhízo, separar, e do substantivo phrenés, mente. Designa manifestações psicóticas e distúrbios mentais como delírios e alucinações. O termo foi cunhado pelo psiquiatra suíço Eugen Bleurer (1857-1939), que deu o primeiro emprego de psiquiatra residente ao também suíço Carl Jung (1875-1961), fundador da psicologia analítica. Até então a doença era tida como demência precoce.
Fatalidade: do latim fatalitate, declinação de fatalitas, necessidade do fatum, destino. As fates romanas, também designadas parcas, adaptadas das Moiras gregas, eram três: Nona, Décima e Morta, equivalentes às gregas Cloto, Láquesis e Átropos. Elas, hoje, na versão helênica, designam remédios prescritos pela homeopatia. Nona tecia o fio da vida; Décima determinava sua extensão e caminho a percorrer; e Morta cortava esse fio. O termo fatalidade, designando desgraça, tragédia ou simplesmente o fim abrupto de alguma coisa, nasceu de certas metáforas ligadas a essas deusas, cujas decisões eram irrecorríveis e nem mesmo Zeus, na Grécia, ou Júpiter, em Roma, podiam revê-las. Os antigos romanos adotavam o calendário solar para os anos e o lunar para os meses. Assim, a gravidez das mulheres não era de nove meses, mas de nove luas. Nona tecia o fio da vida no útero materno até a nona lua; Décima cortava o cordão umbilical, determinando o começo da vida terrena da pessoa, na décima lua; e Morta cuidava da outra ponta da vida, que poderia acabar a qualquer momento. Nasceu aí a significação de fatalidade.
Parca: do aleúte parka, casaco de pele, com capuz, cujo comprimento alcança o meio da coxa ou o joelho, usado nas regiões polares e em outras muito frias. Passou ao inglês parka, de onde migrou para o português para designar casaco semelhante, em geral de tecido impermeável, às vezes forrado de lã, e usado por militares e esportistas. Nos anos 1960, a juventude inglesa popularizou esse tipo de vestuário, em cor verde-militar, com o escudo da Força Aérea Inglesa. No filme Quadrophenia, dirigido pela banda de roque The Who, os rapazes usam esse tipo de vestuário para se protegerem do frio e também para recordarem a coragem, o valor e o heroísmo de seus pais, pilotos combatentes na II Guerra Mundial. Entre os militares brasileiros, esse tipo de abrigo é conhecido por jaqueta.
NOMES DE CARRO,
Deonísio da Silva, no Jornal do Brasil, 20 de abril de 2011
Provavelmente os celtas não achariam confortável o automóvel com que a General Motors e a Chevrolet os homenageiam. Os celtas eram fortes e altos e, se lhes fosse dado escolher o meio de transporte, hoje, entre um Celta e um Bora, escolheriam o segundo.
Os celtas, de cepa indo-germânica, migraram do centro-sul da Europa, em ondas sucessivas, para a Bretanha, a Espanha e a Itália, povoando ainda a região dos Bálcãs e da Ásia Menor.
O Bora, mais amplo, com mais conforto, levaria o seu dono celta para onde o viajante quisesse. A Volkswagen escolheu esse nome para um de seus carros porque bora designa um vento que sopra no sul do Mar Adriático. Talvez os engenheiros quisessem vincular o carro ao famoso vento porque, a bordo dele, veloz e livre como o vento, o ocupante pode ir aonde bem quiser.
Os irreverentes cantores da banda Mamonas Assassinas, tragicamente falecidos em desastre aéreo, em 1996, proclamaram em conhecida canção: “Minha Brasília amarela/ Tá de portas abertas/ Pra mode a gente se amar/ Pelados em Santos”. O carro com que a Volkswagen tinha homenageado a capital do Brasil já não era mais fabricado.
Os irmãos Karl Rath e Gustav Otto começaram a fabricar motores de avião na Primeira Guerra Mundial. E, ao lançarem o primeiro automóvel, em 1928, mantiveram o símbolo, duas hélices, uma preta, outra azul, em fundo branco, no veículo terrestre conhecido como BMW, iniciais das palavras alemãs Bayerische Motoren Werk (Fábrica de Motores da Bavária).
Abrasileirar nomes é nosso velho costume. Quando Getulio Vargas nacionalizou a Alfa Romeo, os caminhões passaram a ostentar em letras garrafais as iniciais FNM, de Fábrica Nacional de Motores. E o caminhão passou a ser conhecido como fenemê.
Aconteceu algo semelhante com o DKW. As letras maiúsculas são as iniciais de Dampf-Kraft-Wagen, carro de força a vapor: A empresa alemã, fundada por um engenheiro dinamarquês, começou fabricando pequenos motores a vapor. Passou depois aos motores a gasolina com ciclo de dois tempos, mantendo a denominação DKW. O vapor dos primeiros motores simplesmente evaporou-se no tempo. E hoje quem tem um automóvel DKW guarda-o como joia rara.
A General Motors ainda hoje mantém a gravata-borboleta em seus veículos. O vapor dos primeiros motores simplesmente evaporou-se no tempo. E hoje quem tem um automóvel DKW guarda-o como joia rara. O motorista se esfalfava de macacão ao volante do caminhão, mas era mantida a imaginação do designer, que o imaginou usando terno e gravata-borboleta.
A Citroën, empresa francesa fundada por André Citroën, resolveu homenagear o filho do empreendedor, identificando seus automóveis com os deux chevron, a patente de cabo que o moço tinha no braço quando morreu em combate na Primeira Guerra Mundial. São duas letras V invertidas. É uma versão lendária esta, mas há outra mais prosaica: seria o símbolo da engrenagem helicoidal, dupla, criada por Monsieur Citroën.
E mecânico sem macacão, existe? O alemão que ouve pela primeira vez a palavra macacão demora a entender que se trata de uma Latzhose, própria para os trabalhos de jardinagem, e por isso chamada também jardineira. Como a cor azul fosse predominante nesse tipo de uniforme, os alemães usaram a variante Blaumann, homem (Mann) azul (blau). Os alemães marcam o substantivo com a inicial maiúscula.
Um alemão que conhecia pouco a língua portuguesa e estava de carona com um brasileiro, ficou aparvalhado quando, de pneu furado, com o carro em que estava já no acostamento, ouviu do motorista que ele iria tirar o macaco do porta-malas para substituir aquela roda pelo estepe. Confessou depois que ficou imaginando como podiam ter a companhia de um macaco e como o animal viajara silencioso, preso ali atrás, e que ainda seria utilizado na tarefa. Mas era apenas um Wagenheber, erguedor mecânico de carro.
Macaco é mais simples, mesmo. E o brasileiro adora uma síntese. (xx)
Provavelmente os celtas não achariam confortável o automóvel com que a General Motors e a Chevrolet os homenageiam. Os celtas eram fortes e altos e, se lhes fosse dado escolher o meio de transporte, hoje, entre um Celta e um Bora, escolheriam o segundo.
Os celtas, de cepa indo-germânica, migraram do centro-sul da Europa, em ondas sucessivas, para a Bretanha, a Espanha e a Itália, povoando ainda a região dos Bálcãs e da Ásia Menor.
O Bora, mais amplo, com mais conforto, levaria o seu dono celta para onde o viajante quisesse. A Volkswagen escolheu esse nome para um de seus carros porque bora designa um vento que sopra no sul do Mar Adriático. Talvez os engenheiros quisessem vincular o carro ao famoso vento porque, a bordo dele, veloz e livre como o vento, o ocupante pode ir aonde bem quiser.
Os irreverentes cantores da banda Mamonas Assassinas, tragicamente falecidos em desastre aéreo, em 1996, proclamaram em conhecida canção: “Minha Brasília amarela/ Tá de portas abertas/ Pra mode a gente se amar/ Pelados em Santos”. O carro com que a Volkswagen tinha homenageado a capital do Brasil já não era mais fabricado.
Os irmãos Karl Rath e Gustav Otto começaram a fabricar motores de avião na Primeira Guerra Mundial. E, ao lançarem o primeiro automóvel, em 1928, mantiveram o símbolo, duas hélices, uma preta, outra azul, em fundo branco, no veículo terrestre conhecido como BMW, iniciais das palavras alemãs Bayerische Motoren Werk (Fábrica de Motores da Bavária).
Abrasileirar nomes é nosso velho costume. Quando Getulio Vargas nacionalizou a Alfa Romeo, os caminhões passaram a ostentar em letras garrafais as iniciais FNM, de Fábrica Nacional de Motores. E o caminhão passou a ser conhecido como fenemê.
Aconteceu algo semelhante com o DKW. As letras maiúsculas são as iniciais de Dampf-Kraft-Wagen, carro de força a vapor: A empresa alemã, fundada por um engenheiro dinamarquês, começou fabricando pequenos motores a vapor. Passou depois aos motores a gasolina com ciclo de dois tempos, mantendo a denominação DKW. O vapor dos primeiros motores simplesmente evaporou-se no tempo. E hoje quem tem um automóvel DKW guarda-o como joia rara.
A General Motors ainda hoje mantém a gravata-borboleta em seus veículos. O vapor dos primeiros motores simplesmente evaporou-se no tempo. E hoje quem tem um automóvel DKW guarda-o como joia rara. O motorista se esfalfava de macacão ao volante do caminhão, mas era mantida a imaginação do designer, que o imaginou usando terno e gravata-borboleta.
A Citroën, empresa francesa fundada por André Citroën, resolveu homenagear o filho do empreendedor, identificando seus automóveis com os deux chevron, a patente de cabo que o moço tinha no braço quando morreu em combate na Primeira Guerra Mundial. São duas letras V invertidas. É uma versão lendária esta, mas há outra mais prosaica: seria o símbolo da engrenagem helicoidal, dupla, criada por Monsieur Citroën.
E mecânico sem macacão, existe? O alemão que ouve pela primeira vez a palavra macacão demora a entender que se trata de uma Latzhose, própria para os trabalhos de jardinagem, e por isso chamada também jardineira. Como a cor azul fosse predominante nesse tipo de uniforme, os alemães usaram a variante Blaumann, homem (Mann) azul (blau). Os alemães marcam o substantivo com a inicial maiúscula.
Um alemão que conhecia pouco a língua portuguesa e estava de carona com um brasileiro, ficou aparvalhado quando, de pneu furado, com o carro em que estava já no acostamento, ouviu do motorista que ele iria tirar o macaco do porta-malas para substituir aquela roda pelo estepe. Confessou depois que ficou imaginando como podiam ter a companhia de um macaco e como o animal viajara silencioso, preso ali atrás, e que ainda seria utilizado na tarefa. Mas era apenas um Wagenheber, erguedor mecânico de carro.
Macaco é mais simples, mesmo. E o brasileiro adora uma síntese. (xx)
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
O LEGADO DE MOACYR SCLIAR
Moacyr Scliar, médico e escritor de larga presença na mídia, faleceu à 1h da madrugada do último domingo! As edições dominicais dos jornais em que ele escrevia, Zero Hora e Folha de S. Paulo, estavam nas bancas desde o dia anterior. Isso não impediu que as edições eletrônicas dos dois e diversos portais de outros periódicos se ocupassem do legado do escritor, que, aos 73 anos, deixou 74 livros, entre contos, crônicas, romances e ensaios.
Vários de seus livros estão publicados em diversos países e o escritor, detentor de vários prêmios literários, entre os quais o Prêmio Internacional Casa de las Américas (1989), era membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Sua eleição para a Casa de Machado de Assis, onde foi saudado pelo também gaúcho Carlos Nejar, pode ter sido também uma prestação de contas da ABL ao público leitor e à sociedade brasileira, em especial ao Rio Grande do Sul, uma vez que recusara por três vezes a entrada a Mario Quintana.
Desde janeiro, quando, após uma cirurgia para extirpação de pólipos no intestino, ele sofrera um acidente vascular, seu estado de saúde vinha sendo motivo de muita preocupação. Foram quase dois meses de muita apreensão.
Ana de Hollanda, ministra da Cultura, e a presidente Dilma Rousseff emitiram notas lamentando a morte do escritor. Foi um domingo trágico para nossas letras. Na mesma manhã partiu, aos 81 anos, o crítico e professor universitário paraense Benedito Nunes, que recebera da ABL no ano passado o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Era professor emérito da Universidade Federal do Pará e tinha sido agraciado em 1998 com o Prêmio Multicultural Estadão, importantíssimo por resultar de ampla consulta aos leitores de todo o Brasil.
Moacyr Scliar era escritor de meu terrum, o Brasil meridional, e com ele convivi quando eu morava no Rio Grande do Sul, na década de setenta. Depois, naturalmente, passei a vê-lo com menos frequência.
Soube de sua importância desde meus verdes anos. Quem me apresentou a ele na Rua da Praia, como é conhecida a Rua dos Andradas, em Porto Alegre, foi Josué Guimarães, de quem eu era mais próximo. Foi em 1975. Ambos estavam na calçada, em frente à Livraria Globo, autografando os respectivos romances com os quais arrebataram, empatados em primeiro lugar, o primeiro Prêmio Érico Veríssimo. Josué Guimarães vencera com Os tambores silenciosos. E Moacyr Scliar, com O ciclo das águas. O romance fez com que entrasse para a lista dos autores das cem melhores obras de temática judaica em todo o mundo, ao lado de Franz Kafka, Isaac Babel, Saul Bellow, Isaac Bashev Singer, Elias Canetti e Elie Wiesel, entre outros. Cito esses para que se possa avaliar o valor dessa relação.
Moacyr Scliar deixou como principal legado de sua obra a fidelidade à temática do imigrante judeu, à qual deu expressão literária de cores muito peculiares.
Entre tantos destaques que sua caudalosa obra faz por merecer, cito também os romances O exército de um homem só, A estranha nação de Rafael Mendes, O centauro no jardim, A majestade do Xingu, os contos de O carnaval dos animais e de A balada do falso messias, e as ficções curtíssimas reunidas em Histórias que os jornais não contam, que ele, baseando-se em fatos verídicos, publicou originalmente na Folha de S. Paulo.
Num certo dia de abril de 1977, ele, a professora Regina Zilberman e eu viajamos a Brasília, sem que pudéssemos confidenciar o que íamos lá fazer: cada um receberia o Prêmio Brasília de Literatura, concedido pelo Mec e a Fundação Cultural do Distrito Federal. Para todos os efeitos, íamos a um congresso de escritores. Ele vencera como romancista, Regina como ensaísta e, como contista, este que lhes escreve aqui, tantos anos depois, lamentando muito a morte do companheiro de ofício, mestre de nossas letras, ético, gentil, solidário e justo.
Sua presença afável vai fazer muita falta, mas seus livros estão aí como seu principal legado. A obra literária é a verdadeira imortalidade do escritor. (xx)
Vários de seus livros estão publicados em diversos países e o escritor, detentor de vários prêmios literários, entre os quais o Prêmio Internacional Casa de las Américas (1989), era membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Sua eleição para a Casa de Machado de Assis, onde foi saudado pelo também gaúcho Carlos Nejar, pode ter sido também uma prestação de contas da ABL ao público leitor e à sociedade brasileira, em especial ao Rio Grande do Sul, uma vez que recusara por três vezes a entrada a Mario Quintana.
Desde janeiro, quando, após uma cirurgia para extirpação de pólipos no intestino, ele sofrera um acidente vascular, seu estado de saúde vinha sendo motivo de muita preocupação. Foram quase dois meses de muita apreensão.
Ana de Hollanda, ministra da Cultura, e a presidente Dilma Rousseff emitiram notas lamentando a morte do escritor. Foi um domingo trágico para nossas letras. Na mesma manhã partiu, aos 81 anos, o crítico e professor universitário paraense Benedito Nunes, que recebera da ABL no ano passado o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Era professor emérito da Universidade Federal do Pará e tinha sido agraciado em 1998 com o Prêmio Multicultural Estadão, importantíssimo por resultar de ampla consulta aos leitores de todo o Brasil.
Moacyr Scliar era escritor de meu terrum, o Brasil meridional, e com ele convivi quando eu morava no Rio Grande do Sul, na década de setenta. Depois, naturalmente, passei a vê-lo com menos frequência.
Soube de sua importância desde meus verdes anos. Quem me apresentou a ele na Rua da Praia, como é conhecida a Rua dos Andradas, em Porto Alegre, foi Josué Guimarães, de quem eu era mais próximo. Foi em 1975. Ambos estavam na calçada, em frente à Livraria Globo, autografando os respectivos romances com os quais arrebataram, empatados em primeiro lugar, o primeiro Prêmio Érico Veríssimo. Josué Guimarães vencera com Os tambores silenciosos. E Moacyr Scliar, com O ciclo das águas. O romance fez com que entrasse para a lista dos autores das cem melhores obras de temática judaica em todo o mundo, ao lado de Franz Kafka, Isaac Babel, Saul Bellow, Isaac Bashev Singer, Elias Canetti e Elie Wiesel, entre outros. Cito esses para que se possa avaliar o valor dessa relação.
Moacyr Scliar deixou como principal legado de sua obra a fidelidade à temática do imigrante judeu, à qual deu expressão literária de cores muito peculiares.
Entre tantos destaques que sua caudalosa obra faz por merecer, cito também os romances O exército de um homem só, A estranha nação de Rafael Mendes, O centauro no jardim, A majestade do Xingu, os contos de O carnaval dos animais e de A balada do falso messias, e as ficções curtíssimas reunidas em Histórias que os jornais não contam, que ele, baseando-se em fatos verídicos, publicou originalmente na Folha de S. Paulo.
Num certo dia de abril de 1977, ele, a professora Regina Zilberman e eu viajamos a Brasília, sem que pudéssemos confidenciar o que íamos lá fazer: cada um receberia o Prêmio Brasília de Literatura, concedido pelo Mec e a Fundação Cultural do Distrito Federal. Para todos os efeitos, íamos a um congresso de escritores. Ele vencera como romancista, Regina como ensaísta e, como contista, este que lhes escreve aqui, tantos anos depois, lamentando muito a morte do companheiro de ofício, mestre de nossas letras, ético, gentil, solidário e justo.
Sua presença afável vai fazer muita falta, mas seus livros estão aí como seu principal legado. A obra literária é a verdadeira imortalidade do escritor. (xx)
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
sábado, 22 de janeiro de 2011
BENITO E A INCONFIDÊNCIA
Por Deonísio da Silva em 18/1/2011
Jantávamos no Copacabana Palace, ano passado, quando a Universidade Estácio de Sá concedia o título de doutor honoris causa ao professor e estadista português José Manuel Durão Barroso. De repente chega Ziraldo, meio perdido, e me pede para arranjar-lhe um lugar. Deixo minha mesa e o acompanho até onde está o escritor e prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos. Fico lá algum tempo e quando volto a meu lugar ele já tinha sido ocupado.
João Barroso, primo do homenageado e diretor de Relações Institucionais, me arruma outra mesa, onde está o empresário Flávio Teruszkin, do grupo de mesmo nome, casado com a Miss Brasil de 1958, Adalgisa Colombo, que, no Miss Universo daquele mesmo ano, ficou em segundo lugar, depois de um empate com a colombiana Luz Marina Zuluaga. Adalgisa Colombo foi a miss que mais frequentou as capas das antigas revistas Cruzeiro e Manchete.
Meu editor deste Observatório que releve esta introdução. Nosso assunto é mídia e, por enquanto, ainda não entrei nele, a não ser de viés. Entro agora.
A conversa com o prefeito de Ouro Preto foi sobre o prefácio que ele fez a Bardos & Viúvas (Editora Casa de Minas, 462 páginas), romance de Benito Barreto ambientado na Inconfidência Mineira. Como sempre a mídia fez com esse autor, seus romances ganham uma notinha aqui, outra ali, uma citação alhures, mas nem sombra dos latifúndios concedidos a outros autores que nem de longe têm a importância, a relevância e a referência solar que a obra de Benito Barreto é para a literatura brasileira.
Conluio atroz
São mistérios da mídia. Já fizeram o mesmo com outros autores, seja qual for o gênero. Ganchos para noticiá-lo sempre houve muitos, desde o verdadeiro monumento que é Os Guaianãs para nossas letras, saga de uma inventada, heroica e arrebatadora guerrilha rural nos sertões de Minas e da Bahia, nas décadas de 60 e 70, composta de quatro romances: Plataforma vazia (1962), Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975).
No Brasil, quem mais se ocupou de reconhecer o talento de Benito Barreto foi José Hildebrando Dacanal, economista e professor de Literatura Brasileira na UFRGS, em Porto Alegre, hoje aposentado. Foi ele quem fez com que o editor Roque Jacoby, depois secretário da Cultura do Estado, no governo Germano Rigotto, lançasse os quatro romances reunidos naquele título. E, em fins do ano passado, a União Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro, deu-lhe o Prêmio João Felício dos Santos por Bardos & Viúvas, como o melhor romance histórico do ano. O galardão lhe foi entregue na Academia Brasileira de Letras.
Sempre polêmico, Dacanal diz num dos prefácios a Bardos & Viúvas que "os gaúchos falam demais sobre o seu passado" e "criaram um passado que nunca existiu", ao passo que "os mineiros talvez falem menos" e "esqueceram um passado que realmente existiu".
A maioria da mídia, num conluio surpreendente e atroz com a maioria de nossas escolas e universidades, vem ignorando Benito Barreto há algumas décadas.
Boca do povo
Sabem quem não dá a mínima para tais descasos? O autor! Em 2009, Os idos de Maio; em 2010, Bardos & Viúvas; em 2011 virá o terceiro romance desta Saga do Caminho Novo. Quando concluir esta segunda tetralogia, ele terá escrito oito romances que interpretaram o Brasil a partir de painéis grandiosos, avessos a qualquer minimalismo, desses que, hegemônicos, dominam nossos cadernos literários.
Quem está falhando? Todos nós. Escritor e professor, sou o primeiro publicano a bater no peito e dizer "mea culpa", sem esperança de que os fariseus se apresentem. Ou talvez não seja culpa de ninguém. Na mídia, nas escolas, nas universidades e até nas livrarias parece haver um combate involuntário contra o Brasil e contra os brasileiros. Com culpa ou sem culpa, o resultado é o mesmo: autores como Benito Barreto são ainda insuficientemente conhecidos por quem é pago para informar na mídia, pago para ensinar em escolas ou universidades, pago para mostrar nas livrarias o que há para ler para se conhecer, entender e amar o Brasil, como se faz em muitas outras nações.
O poeta, cronista e professor Affonso Romano de Sant´Anna surpreendeu-se, em sua visita ao Irã, quando um guia turístico ia contando a história do país referindo em todos os relatos algum trecho de escritores persas dos vários períodos da rica literatura daquele país. Lá, os escritores estavam na boca do povo, até mesmo dos guias turísticos.
Parece que vamos demorar um pouco mais, mas nosso dia chegará. Talvez. Que chegue o dia em que autores como Benito Barreto não sejam acepipes literários degustados por tão poucos.
Jantávamos no Copacabana Palace, ano passado, quando a Universidade Estácio de Sá concedia o título de doutor honoris causa ao professor e estadista português José Manuel Durão Barroso. De repente chega Ziraldo, meio perdido, e me pede para arranjar-lhe um lugar. Deixo minha mesa e o acompanho até onde está o escritor e prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos. Fico lá algum tempo e quando volto a meu lugar ele já tinha sido ocupado.
João Barroso, primo do homenageado e diretor de Relações Institucionais, me arruma outra mesa, onde está o empresário Flávio Teruszkin, do grupo de mesmo nome, casado com a Miss Brasil de 1958, Adalgisa Colombo, que, no Miss Universo daquele mesmo ano, ficou em segundo lugar, depois de um empate com a colombiana Luz Marina Zuluaga. Adalgisa Colombo foi a miss que mais frequentou as capas das antigas revistas Cruzeiro e Manchete.
Meu editor deste Observatório que releve esta introdução. Nosso assunto é mídia e, por enquanto, ainda não entrei nele, a não ser de viés. Entro agora.
A conversa com o prefeito de Ouro Preto foi sobre o prefácio que ele fez a Bardos & Viúvas (Editora Casa de Minas, 462 páginas), romance de Benito Barreto ambientado na Inconfidência Mineira. Como sempre a mídia fez com esse autor, seus romances ganham uma notinha aqui, outra ali, uma citação alhures, mas nem sombra dos latifúndios concedidos a outros autores que nem de longe têm a importância, a relevância e a referência solar que a obra de Benito Barreto é para a literatura brasileira.
Conluio atroz
São mistérios da mídia. Já fizeram o mesmo com outros autores, seja qual for o gênero. Ganchos para noticiá-lo sempre houve muitos, desde o verdadeiro monumento que é Os Guaianãs para nossas letras, saga de uma inventada, heroica e arrebatadora guerrilha rural nos sertões de Minas e da Bahia, nas décadas de 60 e 70, composta de quatro romances: Plataforma vazia (1962), Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975).
No Brasil, quem mais se ocupou de reconhecer o talento de Benito Barreto foi José Hildebrando Dacanal, economista e professor de Literatura Brasileira na UFRGS, em Porto Alegre, hoje aposentado. Foi ele quem fez com que o editor Roque Jacoby, depois secretário da Cultura do Estado, no governo Germano Rigotto, lançasse os quatro romances reunidos naquele título. E, em fins do ano passado, a União Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro, deu-lhe o Prêmio João Felício dos Santos por Bardos & Viúvas, como o melhor romance histórico do ano. O galardão lhe foi entregue na Academia Brasileira de Letras.
Sempre polêmico, Dacanal diz num dos prefácios a Bardos & Viúvas que "os gaúchos falam demais sobre o seu passado" e "criaram um passado que nunca existiu", ao passo que "os mineiros talvez falem menos" e "esqueceram um passado que realmente existiu".
A maioria da mídia, num conluio surpreendente e atroz com a maioria de nossas escolas e universidades, vem ignorando Benito Barreto há algumas décadas.
Boca do povo
Sabem quem não dá a mínima para tais descasos? O autor! Em 2009, Os idos de Maio; em 2010, Bardos & Viúvas; em 2011 virá o terceiro romance desta Saga do Caminho Novo. Quando concluir esta segunda tetralogia, ele terá escrito oito romances que interpretaram o Brasil a partir de painéis grandiosos, avessos a qualquer minimalismo, desses que, hegemônicos, dominam nossos cadernos literários.
Quem está falhando? Todos nós. Escritor e professor, sou o primeiro publicano a bater no peito e dizer "mea culpa", sem esperança de que os fariseus se apresentem. Ou talvez não seja culpa de ninguém. Na mídia, nas escolas, nas universidades e até nas livrarias parece haver um combate involuntário contra o Brasil e contra os brasileiros. Com culpa ou sem culpa, o resultado é o mesmo: autores como Benito Barreto são ainda insuficientemente conhecidos por quem é pago para informar na mídia, pago para ensinar em escolas ou universidades, pago para mostrar nas livrarias o que há para ler para se conhecer, entender e amar o Brasil, como se faz em muitas outras nações.
O poeta, cronista e professor Affonso Romano de Sant´Anna surpreendeu-se, em sua visita ao Irã, quando um guia turístico ia contando a história do país referindo em todos os relatos algum trecho de escritores persas dos vários períodos da rica literatura daquele país. Lá, os escritores estavam na boca do povo, até mesmo dos guias turísticos.
Parece que vamos demorar um pouco mais, mas nosso dia chegará. Talvez. Que chegue o dia em que autores como Benito Barreto não sejam acepipes literários degustados por tão poucos.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
A MEDIDA QUE NOS MEDIRÁ EM 2011
Faz mais de 2500 anos que o filósofo grego Pitágoras disse que “o homem é a medida de todas as coisas”.
O homem começou usando a si mesmo para medir a extensão daquilo que o rodeava. Polegada, dedo, palmo, mão, pé, braço, côvado, punhado etc.
Foram tão fortes essas medidas que ainda hoje, em plena era tecnológica e numa sociedade high tech, damos de cara com elas. O avião está a tantos pés de altura. A telinha da televisão e a do computador são medidas por polegadas.
No momento, escrevo esta coluna num notebook cuja tela é de 16,1 polegadas. É nela que vejo surgirem, luminosos, os dois dedos de prosa que mantenho com vocês toda semana. Para ligar a máquina, usei uma senha digital: passei meu dedo num sensor. E enquanto escrevo, o cursor, antigo escravo romano que seguia o dono pelas ruas da antiga Roma, segue as palavras, marcando espaços entre uma e outra e entre as linhas e parágrafos.
E que meço com os dedos estendidos? Da ponta do dedo mínimo à ponta do polegar são mais ou menos oito polegadas. Pelo sistema métrico, uma polegada mede 2,75 cm. Este é o comprimento de um palmo, medida que, multiplicada por sete, resulta nos conhecidos sete palmos, que designam também o buraco na terra para receber a última embalagem de nosso corpo, o caixão. A primeira foi a placenta. Por isso dei o título de A placenta e o caixão a meu mais recente livro de crônicas.
A propósito, são da cantora inglesa Britney Spears esses versos: “Mantenha nossos corações batendo/ Batendo ainda/ A sete palmos/ Um funeral por todos os amores que perdemos/ Vamos enterrar o ontem/ As coisas que eu nunca disse antes/ Sempre a sete palmos”.
Para medir, mudamos o gênero do braço, passando a braça. Fizemos isso porque em latim braço é bracchium, mas como não era masculino nem feminino, era neutro na língua-mãe, ao inventarmos a medida, usamos os dois braços, e o plural neutro de bracchium é bracchia. Nos dois casos, transformamos em som de “s” aquilo que tinha som de “k”. Mas nosso plural é feito com “s” e por isso começamos a dizer “braças” e não “braça”apenas, para o plural.
Do antigo Egito, onde os hebreus viveram como escravos, trouxeram a medida denominada côvado, que, para os egípcios resultava mais ou menos em 45 centímetros. O homem foi aumentando de estatura e hoje é possível que um côvado tenha como referência 52 centímetros. Côvado veio do latim cubitus, cotovelo, designando também o antebraço. Assim, a medida era resultante da extensão do cotovelo à ponta do dedo médio.
Ao determinar a Noé o tamanho da Arca, Deus utilizou o côvado como medida: “Farás uma arca de três andares, com 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura. Farás o teto um côvado mais alto”.
É uma lenda bíblica, provavelmente influenciada por outro dilúvio, o de Gilgamesh. Afinal, o cativeiro dos judeus na Babilônica durou quase meio século.
Todos nós embarcamos em 2011, preocupados em medir o próximo. Com a mesma medida, seremos medidos. (xx)
• Escritor, professor, Doutor em Letras pela USP, Deonísio da Silva é Pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio.
O homem começou usando a si mesmo para medir a extensão daquilo que o rodeava. Polegada, dedo, palmo, mão, pé, braço, côvado, punhado etc.
Foram tão fortes essas medidas que ainda hoje, em plena era tecnológica e numa sociedade high tech, damos de cara com elas. O avião está a tantos pés de altura. A telinha da televisão e a do computador são medidas por polegadas.
No momento, escrevo esta coluna num notebook cuja tela é de 16,1 polegadas. É nela que vejo surgirem, luminosos, os dois dedos de prosa que mantenho com vocês toda semana. Para ligar a máquina, usei uma senha digital: passei meu dedo num sensor. E enquanto escrevo, o cursor, antigo escravo romano que seguia o dono pelas ruas da antiga Roma, segue as palavras, marcando espaços entre uma e outra e entre as linhas e parágrafos.
E que meço com os dedos estendidos? Da ponta do dedo mínimo à ponta do polegar são mais ou menos oito polegadas. Pelo sistema métrico, uma polegada mede 2,75 cm. Este é o comprimento de um palmo, medida que, multiplicada por sete, resulta nos conhecidos sete palmos, que designam também o buraco na terra para receber a última embalagem de nosso corpo, o caixão. A primeira foi a placenta. Por isso dei o título de A placenta e o caixão a meu mais recente livro de crônicas.
A propósito, são da cantora inglesa Britney Spears esses versos: “Mantenha nossos corações batendo/ Batendo ainda/ A sete palmos/ Um funeral por todos os amores que perdemos/ Vamos enterrar o ontem/ As coisas que eu nunca disse antes/ Sempre a sete palmos”.
Para medir, mudamos o gênero do braço, passando a braça. Fizemos isso porque em latim braço é bracchium, mas como não era masculino nem feminino, era neutro na língua-mãe, ao inventarmos a medida, usamos os dois braços, e o plural neutro de bracchium é bracchia. Nos dois casos, transformamos em som de “s” aquilo que tinha som de “k”. Mas nosso plural é feito com “s” e por isso começamos a dizer “braças” e não “braça”apenas, para o plural.
Do antigo Egito, onde os hebreus viveram como escravos, trouxeram a medida denominada côvado, que, para os egípcios resultava mais ou menos em 45 centímetros. O homem foi aumentando de estatura e hoje é possível que um côvado tenha como referência 52 centímetros. Côvado veio do latim cubitus, cotovelo, designando também o antebraço. Assim, a medida era resultante da extensão do cotovelo à ponta do dedo médio.
Ao determinar a Noé o tamanho da Arca, Deus utilizou o côvado como medida: “Farás uma arca de três andares, com 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura. Farás o teto um côvado mais alto”.
É uma lenda bíblica, provavelmente influenciada por outro dilúvio, o de Gilgamesh. Afinal, o cativeiro dos judeus na Babilônica durou quase meio século.
Todos nós embarcamos em 2011, preocupados em medir o próximo. Com a mesma medida, seremos medidos. (xx)
• Escritor, professor, Doutor em Letras pela USP, Deonísio da Silva é Pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
OS FUZILADOS DE SOCA, NO URUGUAI
A falta que faz um WikiLeaks na América do Sul! Estou no Uruguai por uns dias. Viajo de carro. Vi a algumas dezenas de quilômetros de Montevideu uma plaquinha na estrada indicando Memorial dos Fuzilados de Soca, com saída à direita, para quem vem de Punta del Este. Estranhei que, lendo jornais todos os dias no Brasil, não tenha sabido disso. Em 1974, seis uruguaios foram sequestrados na Argentina e fuzilados na localidade de Soca. Um sobreviveu e contou a história, em 2004, trinta anos depois, mas em 1985 a Armada uruguaia já pedira perdão a um capitão de fragata, que é irmão de uma das vítimas. Amaral García, menino naquela época, é filho de uma vítimas. Em agosto deste ano os ditadores uruguaios Juan Matia Bordaberry e Gregorio "Goyo"Alvarez foram condenados por estes e outros crimes. Goyo pegou 25 anos de prisão. Está com 84. Era a tristemente famosa Operação Condor, que quase deu certo em Porto Alegre. Os gaúchos devem lembrar dos jornalistas Lilian e Gumercindo, e do Didi Pedalada, figuras do caso!
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
ETIMOLOGIA: ALBATROZ, GLOBOSFERA, INCREMENTO, SONDAR, TULIPA.
Etimologia
Maior ave voadora do planeta, cantada no poema O Navio Negreiro pelo poeta baiano Castro Alves, albatroz teve origem no árabe al-gattás, mergulhador. Tulipa, flor cultivada atualmente até mesmo no Brasil, veio do turco tulbend, que designa também o turbante.
por Deonísio da Silva*
Albatroz: do inglês albatross, pelo francês albatros, com influência do espanhol alcatraz, pelicano. A origem remota é o árabe al-gattás, mergulhador. Designa a maior ave voadora do mundo, cujas asas chegam a medir 3,5 metros de uma ponta à outra. Tal distância é denominada envergadura. O poeta baiano Castro Alves (1847-1871) a ela se refere em O Navio Negreiro: "Albatroz! Albatroz! Águia do oceano,/ Tu que dormes das nuvens por entre as gazas:/ Sacode as penas, Leviatã do espaço!; Albatroz! Albatroz! Dá-me essas asas!".
Globosfera: de globo, do latim globus, e de esfera, do latim sphera, que, pela junção das duas palavras, passou a constituir-se como sinônimo de blogosfera, espaço da rede mundial de computadores onde jornais e revistas podem ser lidos antes ou depois de impressos, incluindo conteúdos que jamais serão publicados em papel, além de músicas e vídeos que também podem ser editados e publicados na globosfera, de que são exemplos os materiais encontrados no Youtube. O Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, um dos mais antigos diários brasileiros, abandonou leitores em bancas e assinantes, deixando de ser impresso, e agora está disponível apenas na Internet.
Incremento: do latim incrementum, do mesmo étimo de crescer, de excremento e de excrescência, mas nesses dois últimos justamente o prefixo "ex" muda-lhes o sentido. Designa o crescimento, visto como desenvolvimento. O poeta paulista Manuel Batista Cepelos (1868-1915), autor de poemas nacionalistas como Os Bandeirantes, usa a palavra como sinônimo de crescimento no poema O Fundador de São Paulo, em que trata de José de Anchieta (1534-1597): "Estende-se o comércio, em soberbo incremento;/ Circula como um sangue a riqueza na praça;/ E, numa rapidez superior à do vento,/ Os prelos dão à luz e o trem de ferro passa.../ E na sua modéstia e na sua roupeta,/ De repente me surge a figura de Anchieta,/ Melancolicamente apoiada a um bordão...".
Sondar: do latim subundare, ir para debaixo da onda, pelo francês sonder. Em latim, onda é unda, isto é, água em movimento. O étimo está presente em inundar, inundação. Designa ato de examinar alguma coisa para além da superfície, às vezes usando uma sonda, do francês sonde, para fazer isso. Em sentido figurado significa conhecer algo para além das aparências, procurando as profundezas. Quando uma pessoa diz que foi sondada para ser ministra da presidente eleita Dilma Rousseff (62) - fará 63 anos no próximo dia 14 -, o que quer dizer é que alguém a consultou antes de anunciar a escolha. Todavia alguns dizem que foram sondados, mas não o foram.
Tulipa: do turco tulbend ou do persa dulband, pelo latim tulipa, e daí ao holandês tulipa e ao francês tulipe. No turco e no persa, a mesma palavra designa o turbante. A flor ganhou este nome porque sua forma lembra o pano enrolado à cabeça, por homens e mulheres do Oriente, costume que passou ao Ocidente como de exclusivo uso feminino. O primeiro registro da palavra aparece em carta que o embaixador Ogier Ghiselin de Busbecq (1522-1592), mais conhecido pelo nome latino Gislenius Busbequius, às vezes Augier Ghislain de Busbecq, escreveu a Ferdinando I, da Áustria (1503-1564), quando servia na corte de Suleimã, o Magnífico (1494-1566), informando em latim, sem dizer que o sultão era poeta e tinha três mulheres, que "per haec loca transeuntibus ingens ubique florum, copia offerebatur, narcissorum, hyacinthorum et eorum quos Turcae tulipam vocant". Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), professor da Universidade de São Paulo por décadas, faz uma ironia no verbete, que registrou na página 4112 do 8º volume de seu Grande Dicionário Etimológico e Prosódico da Língua Portuguesa: "Se o leitor não souber traduzir este latim, recorra ao vigário da paróquia". Tal recomendação engraçada era válida na década de 1960, quando a Editora Saraiva publicou a obra de quase 5000 páginas. Naquele tempo, todos os alunos do ensino médio e secundário sabiam um pouco de latim, e os padres tinham domínio dessa língua, do contrário não seriam ordenados, pois não teriam passado nos cerca de 14 anos de preparação para o sacerdócio. Poucos embaixadores saberiam latim hoje. De todo modo, o trecho citado informa que por aqueles lugares (Império Otomano), os turcos chamavam tulipa a referida flor. O diplomata era filho bastardo do senhor do castelo Busbeck, origem de seu nome, com uma amante chamada Catarina. Pesquisador e sábio, foi ele também quem levou para a Europa o lilás e a cabra angorá.
* Deonísio da Silva (62), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa). Seus livros já foram premiados pelo MEC, Biblioteca Nacional e Casa de las Américas. E-mail: deonisio@terra.com.br
Maior ave voadora do planeta, cantada no poema O Navio Negreiro pelo poeta baiano Castro Alves, albatroz teve origem no árabe al-gattás, mergulhador. Tulipa, flor cultivada atualmente até mesmo no Brasil, veio do turco tulbend, que designa também o turbante.
por Deonísio da Silva*
Albatroz: do inglês albatross, pelo francês albatros, com influência do espanhol alcatraz, pelicano. A origem remota é o árabe al-gattás, mergulhador. Designa a maior ave voadora do mundo, cujas asas chegam a medir 3,5 metros de uma ponta à outra. Tal distância é denominada envergadura. O poeta baiano Castro Alves (1847-1871) a ela se refere em O Navio Negreiro: "Albatroz! Albatroz! Águia do oceano,/ Tu que dormes das nuvens por entre as gazas:/ Sacode as penas, Leviatã do espaço!; Albatroz! Albatroz! Dá-me essas asas!".
Globosfera: de globo, do latim globus, e de esfera, do latim sphera, que, pela junção das duas palavras, passou a constituir-se como sinônimo de blogosfera, espaço da rede mundial de computadores onde jornais e revistas podem ser lidos antes ou depois de impressos, incluindo conteúdos que jamais serão publicados em papel, além de músicas e vídeos que também podem ser editados e publicados na globosfera, de que são exemplos os materiais encontrados no Youtube. O Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, um dos mais antigos diários brasileiros, abandonou leitores em bancas e assinantes, deixando de ser impresso, e agora está disponível apenas na Internet.
Incremento: do latim incrementum, do mesmo étimo de crescer, de excremento e de excrescência, mas nesses dois últimos justamente o prefixo "ex" muda-lhes o sentido. Designa o crescimento, visto como desenvolvimento. O poeta paulista Manuel Batista Cepelos (1868-1915), autor de poemas nacionalistas como Os Bandeirantes, usa a palavra como sinônimo de crescimento no poema O Fundador de São Paulo, em que trata de José de Anchieta (1534-1597): "Estende-se o comércio, em soberbo incremento;/ Circula como um sangue a riqueza na praça;/ E, numa rapidez superior à do vento,/ Os prelos dão à luz e o trem de ferro passa.../ E na sua modéstia e na sua roupeta,/ De repente me surge a figura de Anchieta,/ Melancolicamente apoiada a um bordão...".
Sondar: do latim subundare, ir para debaixo da onda, pelo francês sonder. Em latim, onda é unda, isto é, água em movimento. O étimo está presente em inundar, inundação. Designa ato de examinar alguma coisa para além da superfície, às vezes usando uma sonda, do francês sonde, para fazer isso. Em sentido figurado significa conhecer algo para além das aparências, procurando as profundezas. Quando uma pessoa diz que foi sondada para ser ministra da presidente eleita Dilma Rousseff (62) - fará 63 anos no próximo dia 14 -, o que quer dizer é que alguém a consultou antes de anunciar a escolha. Todavia alguns dizem que foram sondados, mas não o foram.
Tulipa: do turco tulbend ou do persa dulband, pelo latim tulipa, e daí ao holandês tulipa e ao francês tulipe. No turco e no persa, a mesma palavra designa o turbante. A flor ganhou este nome porque sua forma lembra o pano enrolado à cabeça, por homens e mulheres do Oriente, costume que passou ao Ocidente como de exclusivo uso feminino. O primeiro registro da palavra aparece em carta que o embaixador Ogier Ghiselin de Busbecq (1522-1592), mais conhecido pelo nome latino Gislenius Busbequius, às vezes Augier Ghislain de Busbecq, escreveu a Ferdinando I, da Áustria (1503-1564), quando servia na corte de Suleimã, o Magnífico (1494-1566), informando em latim, sem dizer que o sultão era poeta e tinha três mulheres, que "per haec loca transeuntibus ingens ubique florum, copia offerebatur, narcissorum, hyacinthorum et eorum quos Turcae tulipam vocant". Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), professor da Universidade de São Paulo por décadas, faz uma ironia no verbete, que registrou na página 4112 do 8º volume de seu Grande Dicionário Etimológico e Prosódico da Língua Portuguesa: "Se o leitor não souber traduzir este latim, recorra ao vigário da paróquia". Tal recomendação engraçada era válida na década de 1960, quando a Editora Saraiva publicou a obra de quase 5000 páginas. Naquele tempo, todos os alunos do ensino médio e secundário sabiam um pouco de latim, e os padres tinham domínio dessa língua, do contrário não seriam ordenados, pois não teriam passado nos cerca de 14 anos de preparação para o sacerdócio. Poucos embaixadores saberiam latim hoje. De todo modo, o trecho citado informa que por aqueles lugares (Império Otomano), os turcos chamavam tulipa a referida flor. O diplomata era filho bastardo do senhor do castelo Busbeck, origem de seu nome, com uma amante chamada Catarina. Pesquisador e sábio, foi ele também quem levou para a Europa o lilás e a cabra angorá.
* Deonísio da Silva (62), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa). Seus livros já foram premiados pelo MEC, Biblioteca Nacional e Casa de las Américas. E-mail: deonisio@terra.com.br
sábado, 4 de dezembro de 2010
ETIMOLOGIA
Etimologia
Expressão muito comum, conto do vigário formou-se de conto, da redução do latim computus, cômputo, cálculo, derivado de computare, contar, mas com o sentido de narrar, e de vigário, do latim vicarius, que está no lugar de outro. De vigário originou-se vigarista, que significa ladrão.
por Deonísio da Silva*
Atalaia: do árabe at-talaia, plural de talaia, lugar alto, de onde se exerce vigilância; sentinela; sobreaviso. Aparece neste trecho de Contrastes e Confrontos, obra do escritor paulista Euclides da Cunha (1866-1909): "Adensaram-se em batalhões as patrulhas errantes e dispersas dos pedestres; e avançaram ao acaso pelas matas em busca dos adversários invisíveis. Os garimpeiros remontavam às serras: espalhavam-se em atalaias; grupavam-se em guerrilhas diminutas; e por vezes os graves intendentes confessavam aos conselhos de ultramar a 'vitória de uma emboscada de salteadores' ".
Conto do vigário: de conto, da redução do latim computus, cômputo, cálculo, derivado de computare, contar, mas com o sentido de narrar, por enumerar os detalhes; e de vigário, do latim vicarius, que está no lugar de outro, que o substitui. Na hierarquia católica, designou originalmente aquele que o capítulo da diocese nomeava para substituir o bispo ou o padre em caso de morte ou transferência. No Brasil, como os provisórios são quase sempre definitivos, veio a indicar o pároco titular de uma paróquia. Antes do recente Acordo Ortográfico, era escrito "conto-do-vigário", com dois hifens, para designar o que continua designando: trapaça, engano, embuste.
Espreitar: da mistura de duas palavras latinas, spectare, olhar, observar, e explicitare, revelar com detalhes, derivado de explicare, explicar. O verbo é muito praticado pelos paparazzi, plural de paparazzo, apresentados pelo cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) no filme A Doce Vida (1960). Ele se inspirou no fotógrafo italiano Tazio Secchiaroli (1925-1998), que surpreendia as celebridades, clicando-as nos momentos mais inesperados, como faziam os paparazzi com a personagem vivida pela atriz sueca Anita Ekberg (79). Em 1898, o chanceler do Império Alemão, Otto von Bismark (1815-1898), fotografado no leito de morte, declarou: "Nunca se sabe se alguém vai ser fotografado ou morto por tais indivíduos".
Homofobia: dos compostos homo e fobia, vindos dos étimos gregos homos, semelhante, igual, e fóbos, medo. Designa aversão ou ódio a homossexuais, mais aos homossexuais masculinos do que às lésbicas. Num tempo em que as lutas pelas liberdades alcançaram também a opção sexual, os homofóbicos representam atraso e chegam a agredir homossexuais nas cidades, principalmente nas grandes metrópoles, praticando crimes diversos.
Vigarista: de vigário, do latim vicarius, e sufixo ista. Substantivo de dois gêneros, designa ladrão, ladra, meretriz, trapaceiro e sobretudo o autor do conto do vigário, que inventa uma história mirabolante que, apesar das complicações, tem verossimilhança. O objetivo é enganar os incautos. No livro Os Contos e os Vigários: Uma História da Trapaça no Brasil, José Augusto Dias Júnior (49), doutor em História Cultural pela Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo, examina o livro Os Ladrões no Rio, publicado em 1903 pelo delegado de polícia Vicente Reis. Um falso pároco espanhol envia ao brasileiro José Martins Barbosa, de Lorena, em São Paulo, cartas em que relata que um coronel do Exército espanhol, Eduardo Martinez Castellano, por perseguição de inimigos, foi condenado à morte. Ouvido em confissão, segredou ao tal vigário que deixou uma herança de 2,45 milhões de pesetas para uma órfã chamada Luiza, de 13 anos. E, como o brasileiro foi a pessoa de melhor índole que conheceu em sua estada no Brasil, pede ao vigário que o localize e lhe confie fortuna e filha. O dinheiro está, porém, no fundo falso de uma mala embargada judicialmente. Para retirá-la, é preciso pagar as custas do processo. Também o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) tratou do tema. Segundo ele, a origem é o nome português Manuel Peres Vigário. Dias Júnior esclarece: "Não é necessário que Manuel Peres Vigário tenha existido ou feito o que lhe é atribuído; basta que o chiste tenha caído no gosto popular". Já o catedrático da Universidade de São Paulo Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), em Grande Dicionário Etimológico Prosódico da Língua Portuguesa, volume 8, dá outra explicação: "A origem desta expressão estará, certamente, no espírito irreverente do povo que não leva a sério as narrações piedosas dos párocos a respeito da outra vida ou da intercessão milagrosa dos santos, etc.".
* Deonísio da Silva (62), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa). Seus livros já foram premiados pelo MEC, Biblioteca Nacional e Casa de las Américas. E-mail: deonisio@terra.com.br
Expressão muito comum, conto do vigário formou-se de conto, da redução do latim computus, cômputo, cálculo, derivado de computare, contar, mas com o sentido de narrar, e de vigário, do latim vicarius, que está no lugar de outro. De vigário originou-se vigarista, que significa ladrão.
por Deonísio da Silva*
Atalaia: do árabe at-talaia, plural de talaia, lugar alto, de onde se exerce vigilância; sentinela; sobreaviso. Aparece neste trecho de Contrastes e Confrontos, obra do escritor paulista Euclides da Cunha (1866-1909): "Adensaram-se em batalhões as patrulhas errantes e dispersas dos pedestres; e avançaram ao acaso pelas matas em busca dos adversários invisíveis. Os garimpeiros remontavam às serras: espalhavam-se em atalaias; grupavam-se em guerrilhas diminutas; e por vezes os graves intendentes confessavam aos conselhos de ultramar a 'vitória de uma emboscada de salteadores' ".
Conto do vigário: de conto, da redução do latim computus, cômputo, cálculo, derivado de computare, contar, mas com o sentido de narrar, por enumerar os detalhes; e de vigário, do latim vicarius, que está no lugar de outro, que o substitui. Na hierarquia católica, designou originalmente aquele que o capítulo da diocese nomeava para substituir o bispo ou o padre em caso de morte ou transferência. No Brasil, como os provisórios são quase sempre definitivos, veio a indicar o pároco titular de uma paróquia. Antes do recente Acordo Ortográfico, era escrito "conto-do-vigário", com dois hifens, para designar o que continua designando: trapaça, engano, embuste.
Espreitar: da mistura de duas palavras latinas, spectare, olhar, observar, e explicitare, revelar com detalhes, derivado de explicare, explicar. O verbo é muito praticado pelos paparazzi, plural de paparazzo, apresentados pelo cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993) no filme A Doce Vida (1960). Ele se inspirou no fotógrafo italiano Tazio Secchiaroli (1925-1998), que surpreendia as celebridades, clicando-as nos momentos mais inesperados, como faziam os paparazzi com a personagem vivida pela atriz sueca Anita Ekberg (79). Em 1898, o chanceler do Império Alemão, Otto von Bismark (1815-1898), fotografado no leito de morte, declarou: "Nunca se sabe se alguém vai ser fotografado ou morto por tais indivíduos".
Homofobia: dos compostos homo e fobia, vindos dos étimos gregos homos, semelhante, igual, e fóbos, medo. Designa aversão ou ódio a homossexuais, mais aos homossexuais masculinos do que às lésbicas. Num tempo em que as lutas pelas liberdades alcançaram também a opção sexual, os homofóbicos representam atraso e chegam a agredir homossexuais nas cidades, principalmente nas grandes metrópoles, praticando crimes diversos.
Vigarista: de vigário, do latim vicarius, e sufixo ista. Substantivo de dois gêneros, designa ladrão, ladra, meretriz, trapaceiro e sobretudo o autor do conto do vigário, que inventa uma história mirabolante que, apesar das complicações, tem verossimilhança. O objetivo é enganar os incautos. No livro Os Contos e os Vigários: Uma História da Trapaça no Brasil, José Augusto Dias Júnior (49), doutor em História Cultural pela Universidade de Campinas (Unicamp), em São Paulo, examina o livro Os Ladrões no Rio, publicado em 1903 pelo delegado de polícia Vicente Reis. Um falso pároco espanhol envia ao brasileiro José Martins Barbosa, de Lorena, em São Paulo, cartas em que relata que um coronel do Exército espanhol, Eduardo Martinez Castellano, por perseguição de inimigos, foi condenado à morte. Ouvido em confissão, segredou ao tal vigário que deixou uma herança de 2,45 milhões de pesetas para uma órfã chamada Luiza, de 13 anos. E, como o brasileiro foi a pessoa de melhor índole que conheceu em sua estada no Brasil, pede ao vigário que o localize e lhe confie fortuna e filha. O dinheiro está, porém, no fundo falso de uma mala embargada judicialmente. Para retirá-la, é preciso pagar as custas do processo. Também o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) tratou do tema. Segundo ele, a origem é o nome português Manuel Peres Vigário. Dias Júnior esclarece: "Não é necessário que Manuel Peres Vigário tenha existido ou feito o que lhe é atribuído; basta que o chiste tenha caído no gosto popular". Já o catedrático da Universidade de São Paulo Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), em Grande Dicionário Etimológico Prosódico da Língua Portuguesa, volume 8, dá outra explicação: "A origem desta expressão estará, certamente, no espírito irreverente do povo que não leva a sério as narrações piedosas dos párocos a respeito da outra vida ou da intercessão milagrosa dos santos, etc.".
* Deonísio da Silva (62), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa). Seus livros já foram premiados pelo MEC, Biblioteca Nacional e Casa de las Américas. E-mail: deonisio@terra.com.br
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
WIKILEAKS, por Deonísio da Silva
Wikileaks, uma palavra composta, está na ordem do dia. Wiki, para todos, como existe a Wikipedia, uma enciclopédia livre, onde todos podem colaborar dando informações que todos podem também consultar. Isto é, todos os que têm computador e banda larga. E leak, vazar, em inglês. Significa também mijar, mas aqui o sentido é divulgar informações confidenciais. Por causa do Wikileaks, o jornalista australiano Julian Assange é notícia no mundo inteiro. Até no Brasil.
Digo até no Brasil porque em português as coisas demoram mais a chegar a todos. Aqui o palhaço Tiririca foi eleito deputado federal por São Paulo, o mais avançado estado da federação, e antes de ser diplomado teve que provar que sabe ler e escrever. É esse tipo de gente que faz leis para o cidadão leitor, eleitor ou não, cumprir!
Poucos leem em português. Dos poucos que leem temos que descontar aqueles que não entendem o que leem. As provas de ENEM, ENADE e congêneres demonstram isso com uma frequência aterradora.
Mas o que faz Julian Assange para merecer a atenção do mundo? Em dezembro de 2006, ele fundou uma organização transnacional, sediada na Suécia, que faz o seguinte: posta documentos, fotos e vídeos confidenciais vazados do mundo inteiro.
No portal da Wikileaks você encontra de tudo. Desde um vídeo que mostra soldados americanos matando de propósito civis iraquianos num ataque aéreo até a execução de civis por forças do governo que deveriam protegê-los.
Em julho de 2010, o Wikileaks irritou o governo dos EUA, especialmente a secretária de Estado, Hillary Clinton, porque vazou documentos secretos sobre a Guerra do Afeganistão.
No dia 28 de novembro deste ano, publicou um pacote de telegramas secretos de embaixadas e do governo americano. Foi quando a coisa chegou ao governo brasileiro. Pelo jeito vai sair muito mais.
Todavia já se sabe que Nelson Jobim, atual ministro da Defesa, que já declarou em público e foi gravado quando disse isso, que incrustou na Constituição alguns artigos que ninguém mais sabe quais foram, e que não foram votados, apareceu num despacho do embaixador dos EUA no Brasil dizendo que Evo Morales, presidente da Bolívia, tem um tumor no cérebro e que isso explica certas dificuldades que vem tendo para falar. Disse também que há uma briga de diplomatas no Itamaraty. Que uns são muito contra os EUA, deixando entredito que os afagos no ditador do Irã são apenas a ponta de um iceberg para outras confusões.
O Wikileaks não passa de um portal de fofocas, dizem seus críticos. Pode ser verdade, mas são fofocas que estão tirando o sono de governantes no mundo inteiro.
Bertolt Brecht, pensando sobre a guerra, escreveu estes versos: “O homem, meu general, é muito útil:/Sabe voar e sabe matar/ Mas tem um defeito:/ Sabe pensar”. Os versos estão citados no portal.
Ninguém faz nada sem gente qualificada! E entre civis, militares ou eclesiásticos, sempre haverá alguém capaz de contar o que todos queriam saber, mas era segredo guardado a sete chaves. (xx)
Digo até no Brasil porque em português as coisas demoram mais a chegar a todos. Aqui o palhaço Tiririca foi eleito deputado federal por São Paulo, o mais avançado estado da federação, e antes de ser diplomado teve que provar que sabe ler e escrever. É esse tipo de gente que faz leis para o cidadão leitor, eleitor ou não, cumprir!
Poucos leem em português. Dos poucos que leem temos que descontar aqueles que não entendem o que leem. As provas de ENEM, ENADE e congêneres demonstram isso com uma frequência aterradora.
Mas o que faz Julian Assange para merecer a atenção do mundo? Em dezembro de 2006, ele fundou uma organização transnacional, sediada na Suécia, que faz o seguinte: posta documentos, fotos e vídeos confidenciais vazados do mundo inteiro.
No portal da Wikileaks você encontra de tudo. Desde um vídeo que mostra soldados americanos matando de propósito civis iraquianos num ataque aéreo até a execução de civis por forças do governo que deveriam protegê-los.
Em julho de 2010, o Wikileaks irritou o governo dos EUA, especialmente a secretária de Estado, Hillary Clinton, porque vazou documentos secretos sobre a Guerra do Afeganistão.
No dia 28 de novembro deste ano, publicou um pacote de telegramas secretos de embaixadas e do governo americano. Foi quando a coisa chegou ao governo brasileiro. Pelo jeito vai sair muito mais.
Todavia já se sabe que Nelson Jobim, atual ministro da Defesa, que já declarou em público e foi gravado quando disse isso, que incrustou na Constituição alguns artigos que ninguém mais sabe quais foram, e que não foram votados, apareceu num despacho do embaixador dos EUA no Brasil dizendo que Evo Morales, presidente da Bolívia, tem um tumor no cérebro e que isso explica certas dificuldades que vem tendo para falar. Disse também que há uma briga de diplomatas no Itamaraty. Que uns são muito contra os EUA, deixando entredito que os afagos no ditador do Irã são apenas a ponta de um iceberg para outras confusões.
O Wikileaks não passa de um portal de fofocas, dizem seus críticos. Pode ser verdade, mas são fofocas que estão tirando o sono de governantes no mundo inteiro.
Bertolt Brecht, pensando sobre a guerra, escreveu estes versos: “O homem, meu general, é muito útil:/Sabe voar e sabe matar/ Mas tem um defeito:/ Sabe pensar”. Os versos estão citados no portal.
Ninguém faz nada sem gente qualificada! E entre civis, militares ou eclesiásticos, sempre haverá alguém capaz de contar o que todos queriam saber, mas era segredo guardado a sete chaves. (xx)
terça-feira, 30 de novembro de 2010
ETIMOLOGIA
Bater, verbo que tem grande número de sentidos, a ponto ocupar uma coluna inteira no dicionário Houaiss impresso, por exemplo, veio do latim vulgar battere, significando surrar. Sujar, de outro lado, teve origem em sujo, do latim succidus, úmido, molhado, gorduroso.
por Deonísio da Silva*
Bater: do latim vulgar battere, significando surrar, mas aplicando-se também a bater a massa do pão; bater a porta na cara de alguém, para impedir a entrada; bater à porta de alguém para solicitar alguma coisa; bater a falta, bater o pênalti; bater no rochedo, como as ondas; bater em Brasília, isto é, ir lá para pleitear algo; bater recorde; bater em retirada; bater na casa dos 100 anos, isto é, chegar ao centenário, como o fez o arquiteto Oscar Niemeyer (103) há três anos; bater asas, isto é, partir; bater cabeça, variante para quebrá-la de tanto preocupar-se; bater o santo, isto é, entender-se com alguém cujo gênio é semelhante ao nosso; e, em não sendo, dizer "meu santo não bate com o dele"; bater a cidade toda, isto é, procurar por todos os lugares, centro e bairros. A expressão "bateu, levou" está presente em Mil Dias de Solidão: Collor Bateu e Levou, de Cláudio Humberto Rosa, porta-voz da presidência da República no governo de Fernando Collor de Mello (61). O livro chegava aos leitores no mesmo ano em que a revista CARAS estreava no Brasil, novembro de 1993.
Livre-comércio: de livre, do latim liber, entrecasca de árvore sobre a qual se escrevia antes da descoberta do papiro; Liber era também o nome de uma divindade itálica com as funções de Baco; e de comércio, do latim commercium, de merx, mercadoria. Quando a revista CARAS estreou no Brasil, o presidente era Itamar Cautiero Franco (80), vice de Fernando Collor, a quem substituiu porque o titular tinha sido afastado em sessão conjunta do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, em 29 de dezembro do ano anterior. Os dois são atualmente senadores. Nos Estados Unidos, o presidente Bill Clinton (64) festejava a aprovação do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (a sigla em inglês é Nafta) na Câmara dos Representantes, por uma vantagem superior à esperada: 234 a 200 votos. O presidente teve que contrariar os sindicalistas do Partido Democrata, pelo qual se elegera, que combateram sua iniciativa, temendo desemprego. Mais tarde, além dos Estados Unidos e do México, o Chile passou a integrar o tratado. Eleito em 3 de novembro de 1992, Clinton fez um dos melhores governos dos Estados Unidos, mas quase sofreu impeachment por ter mentido ao povo, negando que tivera relações sexuais com a estagiária Monica Levinski (37). O Senado concedeu-lhe perdão, e o povo também.
Parador: do espanhol parador, hotel oficial mantido por organismos públicos; de parado, de parar, do latim parare, preparar, tendo também o sentido de interromper. No caso, interrupção da viagem para descanso, com o fim de visitar a cidade ou a vila onde está sediado o parador. Os paradores espanhóis são hotéis especiais, cujos aposentos ocupam monumentos históricos restaurados em toda a Espanha. Faturam 245 milhões de euros por ano e empregam mais de 5000 pessoas. Foram criados em 1928. Por preços abaixo dos praticados pela rede hoteleira, o turista fica em castelos bem decorados, em que predominam o bom gosto das instalações, serviçais preparados e bem treinados, além de culinárias especiais. Em alguns deles, é possível hospedar-se e comer como um cavaleiro medieval, por exemplo. E nos quartos, despir a roupa, não a armadura, naturalmente.
Repto: de reptar, do latim reputare, refazer as contas, recalcular, ligado a putare, limpar, cortar, que é o étimo também de podar; as plantas, no sentido denotativo; as pessoas, no sentido conotativo, impondo limites semelhantes àqueles fixados para árvores, arbustos, gramas. Lançar um repto a alguém é desafiá-lo.
Sujar: de sujo, do latim succidus, úmido, molhado, gorduroso. O homem suja tudo, pois a sujeira decorre do próprio ato de existir e para isso sempre tomou providências ao longo da história, erguendo cidades à beira de rios, não apenas para aproveitar água limpa em bebidas e comidas, mas também em higiene, retirando o suor que molhava e sujava a roupa, lavando talheres e utensílios, limpando a casa. Mais recentemente, vem cuidando de limpar também os rios, as ruas, os lagos e o próprio mar, depositários de tantas impurezas. Rafael Greca de Macedo (54) assumiu a prefeitura de Curitiba quando CARAS chegava pela primeira vez às bancas de todo o Brasil e a ecologia consolidava-se como tema freqüente na mídia por causa da ECO-92. Ele disse a um grupo de moradoras que reclamavam de um rio, sujo porque havia na localidade centenas de ligações clandestinas que levavam a sujeira diretamente para o pobre rio: "O Barigui está sujo porque vocês o sujaram; rio não faz cocô".
* Deonísio da Silva (62), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa). Seus livros já foram premiados pelo MEC, Biblioteca Nacional e Casa de las Américas. E-mail: deonisio@terra.com.br
por Deonísio da Silva*
Bater: do latim vulgar battere, significando surrar, mas aplicando-se também a bater a massa do pão; bater a porta na cara de alguém, para impedir a entrada; bater à porta de alguém para solicitar alguma coisa; bater a falta, bater o pênalti; bater no rochedo, como as ondas; bater em Brasília, isto é, ir lá para pleitear algo; bater recorde; bater em retirada; bater na casa dos 100 anos, isto é, chegar ao centenário, como o fez o arquiteto Oscar Niemeyer (103) há três anos; bater asas, isto é, partir; bater cabeça, variante para quebrá-la de tanto preocupar-se; bater o santo, isto é, entender-se com alguém cujo gênio é semelhante ao nosso; e, em não sendo, dizer "meu santo não bate com o dele"; bater a cidade toda, isto é, procurar por todos os lugares, centro e bairros. A expressão "bateu, levou" está presente em Mil Dias de Solidão: Collor Bateu e Levou, de Cláudio Humberto Rosa, porta-voz da presidência da República no governo de Fernando Collor de Mello (61). O livro chegava aos leitores no mesmo ano em que a revista CARAS estreava no Brasil, novembro de 1993.
Livre-comércio: de livre, do latim liber, entrecasca de árvore sobre a qual se escrevia antes da descoberta do papiro; Liber era também o nome de uma divindade itálica com as funções de Baco; e de comércio, do latim commercium, de merx, mercadoria. Quando a revista CARAS estreou no Brasil, o presidente era Itamar Cautiero Franco (80), vice de Fernando Collor, a quem substituiu porque o titular tinha sido afastado em sessão conjunta do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, em 29 de dezembro do ano anterior. Os dois são atualmente senadores. Nos Estados Unidos, o presidente Bill Clinton (64) festejava a aprovação do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (a sigla em inglês é Nafta) na Câmara dos Representantes, por uma vantagem superior à esperada: 234 a 200 votos. O presidente teve que contrariar os sindicalistas do Partido Democrata, pelo qual se elegera, que combateram sua iniciativa, temendo desemprego. Mais tarde, além dos Estados Unidos e do México, o Chile passou a integrar o tratado. Eleito em 3 de novembro de 1992, Clinton fez um dos melhores governos dos Estados Unidos, mas quase sofreu impeachment por ter mentido ao povo, negando que tivera relações sexuais com a estagiária Monica Levinski (37). O Senado concedeu-lhe perdão, e o povo também.
Parador: do espanhol parador, hotel oficial mantido por organismos públicos; de parado, de parar, do latim parare, preparar, tendo também o sentido de interromper. No caso, interrupção da viagem para descanso, com o fim de visitar a cidade ou a vila onde está sediado o parador. Os paradores espanhóis são hotéis especiais, cujos aposentos ocupam monumentos históricos restaurados em toda a Espanha. Faturam 245 milhões de euros por ano e empregam mais de 5000 pessoas. Foram criados em 1928. Por preços abaixo dos praticados pela rede hoteleira, o turista fica em castelos bem decorados, em que predominam o bom gosto das instalações, serviçais preparados e bem treinados, além de culinárias especiais. Em alguns deles, é possível hospedar-se e comer como um cavaleiro medieval, por exemplo. E nos quartos, despir a roupa, não a armadura, naturalmente.
Repto: de reptar, do latim reputare, refazer as contas, recalcular, ligado a putare, limpar, cortar, que é o étimo também de podar; as plantas, no sentido denotativo; as pessoas, no sentido conotativo, impondo limites semelhantes àqueles fixados para árvores, arbustos, gramas. Lançar um repto a alguém é desafiá-lo.
Sujar: de sujo, do latim succidus, úmido, molhado, gorduroso. O homem suja tudo, pois a sujeira decorre do próprio ato de existir e para isso sempre tomou providências ao longo da história, erguendo cidades à beira de rios, não apenas para aproveitar água limpa em bebidas e comidas, mas também em higiene, retirando o suor que molhava e sujava a roupa, lavando talheres e utensílios, limpando a casa. Mais recentemente, vem cuidando de limpar também os rios, as ruas, os lagos e o próprio mar, depositários de tantas impurezas. Rafael Greca de Macedo (54) assumiu a prefeitura de Curitiba quando CARAS chegava pela primeira vez às bancas de todo o Brasil e a ecologia consolidava-se como tema freqüente na mídia por causa da ECO-92. Ele disse a um grupo de moradoras que reclamavam de um rio, sujo porque havia na localidade centenas de ligações clandestinas que levavam a sujeira diretamente para o pobre rio: "O Barigui está sujo porque vocês o sujaram; rio não faz cocô".
* Deonísio da Silva (62), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa). Seus livros já foram premiados pelo MEC, Biblioteca Nacional e Casa de las Américas. E-mail: deonisio@terra.com.br
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
PETIÇÃO PROLIXA, SENTENÇA INJUSTA
Deonísio da Silva *
A maioria de nossos advogados não sabe escrever. Quem os denuncia são eles mesmos nas petições que protocolam. De vez em quando a sociedade, irritada, ameaça tomar alguma atitude contra eles e em defesa do direito e do idioma. Em notável autocrítica, frequentemente o Judiciário e o Ministério Público manifestam insatisfação com o estilo dos advogados. Por força dessas críticas, já houve alguns progressos, mas ainda falta muito.
Na semana passada, mais um passo relevante foi dado na direção de simplificar a aplicação do Direito. Foi lançado, no Palácio da Justiça, em Porto Alegre (RS), o Projeto Petição 10, Sentença 10, que tem apoio do Judiciário e do Ministério Público. (Zero Hora, 25/11/20, p. 14, e http://www2.tjrs.jus.br/peticao10sentenca10/index.html). Entre outras providências, o Projeto recomenda concisão em petições e sentenças, aconselhando seus autores a não usar mais do que dez páginas. Informa ainda que:
1) “A produção de 1 kg de papel consome 540 litros de água”;
2) “As plantações extensivas de eucalipto para produção de celulose esgotam os recursos hídricos, ressecando o solo e reduzindo drasticamente a biodiversidade”;
3) “O branqueamento do papel, no Brasil, é feito com o uso, entre outros produtos, de dióxido de cloro, que libera dioxinas, substâncias comprovadamente cancerígenas”.
Não é possível que para garantir a aplicação do Direito ainda se gaste tanto com impressoras, tinta e papel. E os funcionários certamente têm mais o que fazer do que cópias excessivas de calhamaços que, enxugados no estilo, dizem muito pouco a respeito dos temas que ocuparam os construtores das conhecidas Torres de Papel, cujo conteúdo é muito difícil de ser decifrado. Determinadas petições são entendidas apenas por quem as escreveu e às vezes nem por seus autores ou signatários.
No ano passado o Judiciário gastou no Rio Grande do Sul 100 milhões de folhas de papel para cumprir suas funções. Nos outros Estados não deve ter sido muito diferente, uma vez que os gaúchos são muito cuidadosos com a escrita, pois começaram cedo a aprender. Primeiro com os jesuítas, que, ainda nos séculos XVII e XVIII, ergueram naquelas plagas o complexo urbano dos Sete Povos Missioneiros, antes mesmo de o Rio Grande do Sul existir política, social e juridicamente. E nos séculos seguintes tiveram Júlio de Castilhos e os imigrantes europeus, sobretudo os alemães, que cuidaram de ter escolas e jornais em todos os lugares em que se estabeleciam.
Foram-se os tempos dos discípulos de Paulo Brossard, a quem Leonel Brizola, sem a cultura do desafeto, mas quase invencível num debate, qualificava de “Rui Barbosa em compota”. O caso é que Paulo Brossard sabia e sabe escrever bem, como demonstra ainda hoje nos artigos esparsos que publica na mídia. E Leonel Brizola sabia falar! E pouco escreveu!
Atualmente, os juízes, assoberbados com tantos processos, são obrigados a lidar com montanhas de detritos retóricos e figuras de linguagem de mau gosto, fora de lugar e de propósito, que não os ajudam a formar sua convicção. Afinal, "sentença" vem de "sentir" e, para sentir o que se passa entre os litigantes, é necessário que as petições sejam objetivas; do contrário, o juiz não sabe o que é que está sendo pleiteado.
Toda Torre de Papel acaba numa Torre de Babel. Nem o juiz entende o que está sendo reivindicado, nem as partes, depois de tantos floreios e divagações, lembram o que solicitaram.
Em resumo, faltam clareza, concisão e objetividade à maioria de nossos advogados. E esta insuficiência prejudica em primeiro lugar os seus clientes e em segundo lugar todo mundo. Pois quem paga tanto papel, tanta árvore derrubada para atendê-los? O distinto público, é claro.
Qual é a principal vítima do juridiquês? O cidadão. Exercer o direito requer os trabalhos de um advogado que o represente. Quando o advogado é incompetente, o prejudicado não é o representante, é o representado. No Judiciário, são mínimas as chances de um cidadão ser atendido quando seu advogado não é objetivo e não reivindica claramente o essencial. Fica ainda pior quando, jejuno em direito e em língua portuguesa, para disfarçar tais insuficiências recorre a floreios esquisitos, citações longas, impertinentes, fora de contexto, desnecessárias, que fazem seus autores revirarem nos túmulos.
Foram advogados grandes escritores brasileiros. Todavia, de umas décadas para cá, com o rebaixamento do ensino de língua portuguesa em quase todas as escolas de todos os níveis, temos advogados atuantes que, conquanto entendam da profissão que exercem, não a dominam com eficiência justamente porque as faculdades que cursaram não deram ao ato de escrever a importância essa profissão requer. Se não sabem escrever, é claro que também não sabem ler nem interpretar as leis que, se não as leem, deveriam lê-las. Comportam-se como Tiriricas do Judiciário.
Ainda que a Ordem dos Advogados do Brasil submeta os portadores de diploma de Bacharel em Direito a exames adicionais, ainda há muito que fazer. Os profissionais de Letras precisam ajudar o Judiciário e o Ministério Público nessa tarefa de erradicar o juridiquês, que é o analfabetismo empolado do Direito.
Talvez o STF pudesse fazer com a Suprema Corte dos EUA, que limitou o tamanho das petições entre 3.000 e 15.000 caracteres, isto é, entre duas e dez laudas, no máximo, que é exatamente a proposta agora feita pelos gaúchos.
Seria um reforço no processo de ensino e de aprendizagem de alfabetizados que, lendo menos do que devem, aumentam suas insuficiências na hora de escrever. (xx)
A maioria de nossos advogados não sabe escrever. Quem os denuncia são eles mesmos nas petições que protocolam. De vez em quando a sociedade, irritada, ameaça tomar alguma atitude contra eles e em defesa do direito e do idioma. Em notável autocrítica, frequentemente o Judiciário e o Ministério Público manifestam insatisfação com o estilo dos advogados. Por força dessas críticas, já houve alguns progressos, mas ainda falta muito.
Na semana passada, mais um passo relevante foi dado na direção de simplificar a aplicação do Direito. Foi lançado, no Palácio da Justiça, em Porto Alegre (RS), o Projeto Petição 10, Sentença 10, que tem apoio do Judiciário e do Ministério Público. (Zero Hora, 25/11/20, p. 14, e http://www2.tjrs.jus.br/peticao10sentenca10/index.html). Entre outras providências, o Projeto recomenda concisão em petições e sentenças, aconselhando seus autores a não usar mais do que dez páginas. Informa ainda que:
1) “A produção de 1 kg de papel consome 540 litros de água”;
2) “As plantações extensivas de eucalipto para produção de celulose esgotam os recursos hídricos, ressecando o solo e reduzindo drasticamente a biodiversidade”;
3) “O branqueamento do papel, no Brasil, é feito com o uso, entre outros produtos, de dióxido de cloro, que libera dioxinas, substâncias comprovadamente cancerígenas”.
Não é possível que para garantir a aplicação do Direito ainda se gaste tanto com impressoras, tinta e papel. E os funcionários certamente têm mais o que fazer do que cópias excessivas de calhamaços que, enxugados no estilo, dizem muito pouco a respeito dos temas que ocuparam os construtores das conhecidas Torres de Papel, cujo conteúdo é muito difícil de ser decifrado. Determinadas petições são entendidas apenas por quem as escreveu e às vezes nem por seus autores ou signatários.
No ano passado o Judiciário gastou no Rio Grande do Sul 100 milhões de folhas de papel para cumprir suas funções. Nos outros Estados não deve ter sido muito diferente, uma vez que os gaúchos são muito cuidadosos com a escrita, pois começaram cedo a aprender. Primeiro com os jesuítas, que, ainda nos séculos XVII e XVIII, ergueram naquelas plagas o complexo urbano dos Sete Povos Missioneiros, antes mesmo de o Rio Grande do Sul existir política, social e juridicamente. E nos séculos seguintes tiveram Júlio de Castilhos e os imigrantes europeus, sobretudo os alemães, que cuidaram de ter escolas e jornais em todos os lugares em que se estabeleciam.
Foram-se os tempos dos discípulos de Paulo Brossard, a quem Leonel Brizola, sem a cultura do desafeto, mas quase invencível num debate, qualificava de “Rui Barbosa em compota”. O caso é que Paulo Brossard sabia e sabe escrever bem, como demonstra ainda hoje nos artigos esparsos que publica na mídia. E Leonel Brizola sabia falar! E pouco escreveu!
Atualmente, os juízes, assoberbados com tantos processos, são obrigados a lidar com montanhas de detritos retóricos e figuras de linguagem de mau gosto, fora de lugar e de propósito, que não os ajudam a formar sua convicção. Afinal, "sentença" vem de "sentir" e, para sentir o que se passa entre os litigantes, é necessário que as petições sejam objetivas; do contrário, o juiz não sabe o que é que está sendo pleiteado.
Toda Torre de Papel acaba numa Torre de Babel. Nem o juiz entende o que está sendo reivindicado, nem as partes, depois de tantos floreios e divagações, lembram o que solicitaram.
Em resumo, faltam clareza, concisão e objetividade à maioria de nossos advogados. E esta insuficiência prejudica em primeiro lugar os seus clientes e em segundo lugar todo mundo. Pois quem paga tanto papel, tanta árvore derrubada para atendê-los? O distinto público, é claro.
Qual é a principal vítima do juridiquês? O cidadão. Exercer o direito requer os trabalhos de um advogado que o represente. Quando o advogado é incompetente, o prejudicado não é o representante, é o representado. No Judiciário, são mínimas as chances de um cidadão ser atendido quando seu advogado não é objetivo e não reivindica claramente o essencial. Fica ainda pior quando, jejuno em direito e em língua portuguesa, para disfarçar tais insuficiências recorre a floreios esquisitos, citações longas, impertinentes, fora de contexto, desnecessárias, que fazem seus autores revirarem nos túmulos.
Foram advogados grandes escritores brasileiros. Todavia, de umas décadas para cá, com o rebaixamento do ensino de língua portuguesa em quase todas as escolas de todos os níveis, temos advogados atuantes que, conquanto entendam da profissão que exercem, não a dominam com eficiência justamente porque as faculdades que cursaram não deram ao ato de escrever a importância essa profissão requer. Se não sabem escrever, é claro que também não sabem ler nem interpretar as leis que, se não as leem, deveriam lê-las. Comportam-se como Tiriricas do Judiciário.
Ainda que a Ordem dos Advogados do Brasil submeta os portadores de diploma de Bacharel em Direito a exames adicionais, ainda há muito que fazer. Os profissionais de Letras precisam ajudar o Judiciário e o Ministério Público nessa tarefa de erradicar o juridiquês, que é o analfabetismo empolado do Direito.
Talvez o STF pudesse fazer com a Suprema Corte dos EUA, que limitou o tamanho das petições entre 3.000 e 15.000 caracteres, isto é, entre duas e dez laudas, no máximo, que é exatamente a proposta agora feita pelos gaúchos.
Seria um reforço no processo de ensino e de aprendizagem de alfabetizados que, lendo menos do que devem, aumentam suas insuficiências na hora de escrever. (xx)
domingo, 28 de novembro de 2010
RIO DE BALAS, AMBULÂNCIAS E MOTOLÂNCIAS
Vi no dispositivo eletrônico do táxi que me levava ao Galeão, no caminho Barra da Tijuca-Linha Amarela-Linha Vermelha, o aviso da cooperativa: “os motoristas podem recusar as corridas sem dar nenhuma explicação”.
A tristeza desses dias podia ser medida por tal licença. Corridas para a Rocinha, Rio Comprido, Del Castilho, Baixada Fluminense e principalmente para a Penha, ninguém queria fazer. Eram todas recusadas. Como ficariam aquelas pessoas que precisavam com urgência de um táxi? Tomar ônibus ou vans era o maior perigo. Dezenas deles vinham sendo incendiados.
Essa operação é o modo mais fácil de assustar os habitantes. Um jovem a serviço de traficantes desde do morro, ordena que os passageiros desembarquem, espalha gasolina ou qualquer outro líquido inflamável e risca um fósforo ou isqueiro. Pronto! Está instituído o pânico. E como pode a polícia identificá-lo? Ele é o mais competente dos guerrilheiros urbanos nessa hora. Sai dali e pega um ônibus ou van e ainda reclama de que estão incendiando os veículos de transporte, que assim não dá etc.
O governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes estão com uma batata quente nas mãos. O governo federal também faz o que pode. Carros de guerra da Marinha ajudaram no policiamento.
Quem não está no Rio, não entende muito bem o que se passa. Em primeiro lugar, há aqueles lugares que a violência parece não atingir. Parece. Moro na Barra da Tijuca, um desses bairros, e do 13º andar vi várias ambulâncias chegarem aos hospitais. Naturalmente, nem todos eram feridos de guerra, mas o número de ambulâncias era maior do que nos outros dias. E chegavam também motolâncias, neologismo nascido com o uso de motos que transportam quem está precisando de socorro médico. A maioria tem problemas de pressão, taquicardia, arrependimentos, remorsos etc, coisas do coração! Muitos se perguntam: por que ainda moro aqui?
Um percurso que em quintas-feiras normais levaria até duas horas, nesse dia levou quarenta minutos. Da avenida Aírton Senna em diante, passando pela Linha Amarela e pela Linha Vermelha, havia poucos carros e nenhum ônibus ou van. Era aterrador. As pessoas, assustadas, não saíam de casa. Nessas horas, a televisão reina soberana, assustando mais ainda.
As redes cumprem também, com muito esmero, a tarefa de, sem querer, auxiliar os bandidos, que acompanham pela televisão a estratégia da polícia e vão descobrindo modos de fugir do cerco. As autoridades reclamaram que os traficantes eram ajudados pelos repórteres do rádio e da televisão, mas fazer o quê? A mesma informação que serve às pessoas de bem, serve aos bandidos também.
Não nos enganemos. Essa guerra vai demorar. Enquanto houver quem compra drogas, haverá quem as vende. E a polícia ataca apenas quem as vende. Eis um assunto mais complexo do que o Complexo do Alemão, reunião de favelas onde os fugitivos se escondiam da polícia na semana que passou e de onde vinham sendo também desalojados.(xx)
Transcrito do Primeira Página, São Carlos, SP, 28/11/2010.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
O SACERDÓCIO DO INTELECTUAL
por Deonísio da Silva (texto publicado em 1999, extraviado e agora encontrado)
É desconcertante o que vou declarar, mas facilmente comprovável. A remuneração do trabalho intelectual é quase sempre rebaixada pelos próprios membros das diversas confrarias ou comunidades.
Tomemos o caso de uma conferência, palestra ou mesa redonda. Várias vezes, participando desses eventos, refleti com meus suspensórios: aqui o único que está trabalhando de graça sou eu. O telefonema do convite foi cobrado. A Telesp, portanto, ou qualquer outra companhia telefônica, recebeu o seu bem antes de eu dizer sim ou não. O papel em que o convite foi confirmado não foi doado. Foi vendido à instituição que fez o convite. O carro que levou o conferencista ao local, rodou com combustível que não foi doado. A água mineral servida à mesa para o conferencista regar seu jardim de palavras na garganta, foi comprada. A luz que ali nos ilumina foi vendida pela Companhia Paulista de Força e Luz ou qualquer outra empresa congênere, o mesmo valendo para a força que move condicionadores de ar. A água utilizada para lavar o recinto antes e depois, não foi doada. E, é claro, as faxineiras não trabalham de graça.
Por fim, o coordenador, organizador ou ocupante de qualquer dos cargos que planejou o evento, tem um salário ou remuneração para fazer o que faz. Em geral, uma remuneração incompatível com sua qualificação, porque a mão-de-obra no Brasil é a coisa mais barata do mundo, mas é uma remuneração. Mais barata para quem recebe. Porque, para quem emprega, custa o dobro. De todo modo, não é zero.
Somente o conferencista está trabalhando de graça. Vá você, meu caro leitor, solicitar remuneração pelo seu trabalho. Se você for encanador, eletricista, faxineira, mecânico, manicure, cabeleireiro etc, se exerce enfim qualquer profissão semelhante às citadas, você será remunerado. Bem ou mal, mas será. Ninguém terá o topete de solicitar que você desentupa o banheiro, conserte uma lâmpada, limpe uma casa, arrume um carro, faça unhas ou lave o cabelo de ninguém de graça. Imagine o diálogo: “prontinho, seu cabelo ficou uma graça!” E a freguesa: “muito obrigado!” E abandone o cabeleireiro sem pagar-lhe o devido! Será um caso de histeria e de polícia.
Mas com o trabalho intelectual dá-se o contrário. A primeira dificuldade, a primeira incompreensão vem do seu colega de ofício, ou de alguém que exerça funções em áreas de domínio conexo. Os diálogos se repetem mais ou menos assim: “estamos convidando você para uma palestra no dia tal e qual, no tal lugar, às tantas horas”. E o convidado: “e o que vocês oferecem?” “Como? Não entendi! O que nós oferecemos?” “É. Quanto vou receber pelo serviço para o qual vocês estão me requisitando?”
Desconcerto e perplexidade. No fundo, os que convidam devem pensar assim: “olha a petulância e arrogância desse aí”. Sim, porque antes do convite éramos um brilhante profissional, cujas credenciais nos levaram à súbita honra de receber um convite feito por gente tão digna e chique. Mas, feita a exigência de um pagamento, ainda antes de estipular um valor, por mínimo que seja, fomos imediatamente rebaixados à condição de “esse aí”.
Pois então tendo mais o que fazer, para preservar nosso “vitae” e aperfeiçoarmos nosso ofício, a fim de não sermos mais um “desses aí”, os que me convidam, que me desculpem, mas que não tomem meu tempo e vão convidar qualquer um “desses aí”. Pois, se há tanta gente qualificada, disposta a trabalhar de graça, por que vêm eles bater justamente à porta de quem, a duras penas, se esforça para trabalhar profissionalmente?
Que espanto ser profissional no Brasil! Se o trabalho do professor ou do escritor é um sacerdócio, queremos casa, comida e roupa lavada, como os padres. E a cobertura da maior multinacional do mundo, a Igreja católica, com sedes, representações e demais instâncias em todo o universo conhecido. Sei que em qualquer lugar do mundo, um padre será bem tratado por sua Igreja. Mas um professor ou escritor, para ser bem tratado, dependerá de muitas outras sutis complexidades, entre as quais cartão de crédito e qualquer outra moeda que não seja a brasileira. Como se sabe, você não pode viajar ao exterior com nossa moeda. Só se você for para alguns países — como direi? — do nosso nível.
Ocorre, porém, uma exceção nos tais convites. Uma Nestlé, uma IBM — uma da indústria da alimentação, fazendo chocolates; outra produzindo computadores —, um Banco, uma rede de lojas, enfim, quaisquer outros profissionais que atuem em outros ramos, que não o ensino ou a dita cultura, jamais nos farão propostas tão indecorosas, como estas de trabalhar de graça.
Portanto, aviso aos navegantes desses mares: a escravidão foi abolida muito tarde entre nós, é verdade; mas já foi abolida. Em 1888. Mesmo trabalhando de graça, o escravo tinha direito a casa, comida e roupa lavada.
Então, o que propõe quem faz um convite desses? Um recuo até um pouco antes da escravidão. Aceitando a dita proposta de trabalhar de graça seríamos um pré-escravo.
Agora, me digam: não é espantoso que sejam nossos colegas de ofício os autores de propostas tão indecorosas? (xx)
É desconcertante o que vou declarar, mas facilmente comprovável. A remuneração do trabalho intelectual é quase sempre rebaixada pelos próprios membros das diversas confrarias ou comunidades.
Tomemos o caso de uma conferência, palestra ou mesa redonda. Várias vezes, participando desses eventos, refleti com meus suspensórios: aqui o único que está trabalhando de graça sou eu. O telefonema do convite foi cobrado. A Telesp, portanto, ou qualquer outra companhia telefônica, recebeu o seu bem antes de eu dizer sim ou não. O papel em que o convite foi confirmado não foi doado. Foi vendido à instituição que fez o convite. O carro que levou o conferencista ao local, rodou com combustível que não foi doado. A água mineral servida à mesa para o conferencista regar seu jardim de palavras na garganta, foi comprada. A luz que ali nos ilumina foi vendida pela Companhia Paulista de Força e Luz ou qualquer outra empresa congênere, o mesmo valendo para a força que move condicionadores de ar. A água utilizada para lavar o recinto antes e depois, não foi doada. E, é claro, as faxineiras não trabalham de graça.
Por fim, o coordenador, organizador ou ocupante de qualquer dos cargos que planejou o evento, tem um salário ou remuneração para fazer o que faz. Em geral, uma remuneração incompatível com sua qualificação, porque a mão-de-obra no Brasil é a coisa mais barata do mundo, mas é uma remuneração. Mais barata para quem recebe. Porque, para quem emprega, custa o dobro. De todo modo, não é zero.
Somente o conferencista está trabalhando de graça. Vá você, meu caro leitor, solicitar remuneração pelo seu trabalho. Se você for encanador, eletricista, faxineira, mecânico, manicure, cabeleireiro etc, se exerce enfim qualquer profissão semelhante às citadas, você será remunerado. Bem ou mal, mas será. Ninguém terá o topete de solicitar que você desentupa o banheiro, conserte uma lâmpada, limpe uma casa, arrume um carro, faça unhas ou lave o cabelo de ninguém de graça. Imagine o diálogo: “prontinho, seu cabelo ficou uma graça!” E a freguesa: “muito obrigado!” E abandone o cabeleireiro sem pagar-lhe o devido! Será um caso de histeria e de polícia.
Mas com o trabalho intelectual dá-se o contrário. A primeira dificuldade, a primeira incompreensão vem do seu colega de ofício, ou de alguém que exerça funções em áreas de domínio conexo. Os diálogos se repetem mais ou menos assim: “estamos convidando você para uma palestra no dia tal e qual, no tal lugar, às tantas horas”. E o convidado: “e o que vocês oferecem?” “Como? Não entendi! O que nós oferecemos?” “É. Quanto vou receber pelo serviço para o qual vocês estão me requisitando?”
Desconcerto e perplexidade. No fundo, os que convidam devem pensar assim: “olha a petulância e arrogância desse aí”. Sim, porque antes do convite éramos um brilhante profissional, cujas credenciais nos levaram à súbita honra de receber um convite feito por gente tão digna e chique. Mas, feita a exigência de um pagamento, ainda antes de estipular um valor, por mínimo que seja, fomos imediatamente rebaixados à condição de “esse aí”.
Pois então tendo mais o que fazer, para preservar nosso “vitae” e aperfeiçoarmos nosso ofício, a fim de não sermos mais um “desses aí”, os que me convidam, que me desculpem, mas que não tomem meu tempo e vão convidar qualquer um “desses aí”. Pois, se há tanta gente qualificada, disposta a trabalhar de graça, por que vêm eles bater justamente à porta de quem, a duras penas, se esforça para trabalhar profissionalmente?
Que espanto ser profissional no Brasil! Se o trabalho do professor ou do escritor é um sacerdócio, queremos casa, comida e roupa lavada, como os padres. E a cobertura da maior multinacional do mundo, a Igreja católica, com sedes, representações e demais instâncias em todo o universo conhecido. Sei que em qualquer lugar do mundo, um padre será bem tratado por sua Igreja. Mas um professor ou escritor, para ser bem tratado, dependerá de muitas outras sutis complexidades, entre as quais cartão de crédito e qualquer outra moeda que não seja a brasileira. Como se sabe, você não pode viajar ao exterior com nossa moeda. Só se você for para alguns países — como direi? — do nosso nível.
Ocorre, porém, uma exceção nos tais convites. Uma Nestlé, uma IBM — uma da indústria da alimentação, fazendo chocolates; outra produzindo computadores —, um Banco, uma rede de lojas, enfim, quaisquer outros profissionais que atuem em outros ramos, que não o ensino ou a dita cultura, jamais nos farão propostas tão indecorosas, como estas de trabalhar de graça.
Portanto, aviso aos navegantes desses mares: a escravidão foi abolida muito tarde entre nós, é verdade; mas já foi abolida. Em 1888. Mesmo trabalhando de graça, o escravo tinha direito a casa, comida e roupa lavada.
Então, o que propõe quem faz um convite desses? Um recuo até um pouco antes da escravidão. Aceitando a dita proposta de trabalhar de graça seríamos um pré-escravo.
Agora, me digam: não é espantoso que sejam nossos colegas de ofício os autores de propostas tão indecorosas? (xx)
terça-feira, 23 de novembro de 2010
WILSON MARTINS (1921-2010): O ARTESANATO DA CRÍTICA
| Por Deonísio da Silva em 23/11/2010 | |
| A floração da inteligência brasileira vai começar. Estamos em 1550 e já começamos tarde. Perdemos meio século! Os jesuítas começam a ensinar latim no Colégio dos Meninos, em São Vicente, prosseguindo na Bahia em 1553, em São Paulo em 1554, no Rio em 1567, chegando ao Pará, no Norte, e à colônia de Sacramento, no Sul. Ensinam latim porque quem aprende latim, aprende a pensar, aprende lógica, aprende História, aprende Geografia, aprende cultura e civilização e, principalmente, aprende a ler e a escrever. Não que esse seja o caminho único, mas porque é o que melhor dominam, paradoxais homens do Renascimento e da Reforma no alvorecer do século 16, mas que servem à Contrarreforma. Padres e letrados, ou melhor, padres letrados, plantaram a inteligência no Brasil. Ou, no dizer de Nelson Werneck Sodré, transplantaram-na. Ainda hoje a nação deve muito a ordens religiosas, masculinas ou femininas, e a igrejas confessionais e a outras religiões, o cuidado com a escola, com a cultura, sempre abandonadas pelo poder público, nos tempos monárquicos como nos republicanos, com pequenos períodos de bons tratos, nem sempre aplicados a todos os níveis de ensino. Ora se cuidava mais do ensino superior, ora do ensino fundamental, médio e secundário, como hoje se cuida mais da pós-graduação do que de todos os outros. E assim temos verdadeiros brutamontes, desprovidos de qualquer verniz cultural, com a arrogância comum a PhD’s que, às vezes, sabem da caspa e da unha encravada, ou da ponta da língua de um biguá, mas se mostram incapazes de entender o Brasil ou fazer algo relevante pelo país que proveu suas condições de estudo, aqui ou no exterior. Para tomar coca-colaMas como começou e como se formou a inteligência no Brasil? A Editora da Universidade Estadual de Ponta Grossa acaba de relançar, acrescida de textos até então inéditos, a obra referencial de Wilson Martins, a coleção História da Inteligência Brasileira, agora em sete volumes. É a terceira edição de uma obra lançada originalmente pela Cultrix, entre 1976 e 1979, e reeditada pela T, A. Queiroz, entre 1992 e 1994. O autor, paulista de nascimento, passou a viver em Curitiba aos nove anos e na adolescência estudou em Ponta Grossa (PR), a mesma cidade que hoje sedia a universidade que ousou relançar esta obra indispensável. Seu percurso intelectual revela sutis complexidades das vantagens propriamente de formação que recebia quem cursasse Direito antes da rude predominância das exigências do mercado sobre esse curso. Fazia-se Direito nas famílias, não com o objetivo estreito e específico de obter um emprego definido, mas como um valor absoluto na educação. Houve um tempo, no Brasil, em que o ato de estudar não estava submetido ao mercado, como hoje. Afinal, a cultura não tem esta estreiteza que lhe querem atribuir a ferro e fogo. Você pode querer aprender mandarim para entender o universo cultural do país mais antigo do mundo, sem que tal aprendizado cumpra o objetivo de você tornar-se tradutor profissional ou professor. Naturalmente, acima do lastro cultural que a língua e sua literatura lhe darão, estará também a notável ferramenta de trabalho que o mandarim é hoje no mundo, dada a relevância da China, não apenas no mercado, mas no cenário internacional. E nem se estuda inglês para tomar coca-cola e comer hambúrguer nas viagens quase compulsórias a Disney, mas para ler e entender melhor Shakespeare, assim como o francês, o italiano, o espanhol e o alemão, ao lado de outras línguas de cultura, nos tornarão mais homens depois de lermos Proust, Dante, Cervantes, Goethe e as notáveis florações de seus companheiros de letras em todas as épocas. Enganando o distinto públicoTanto que, concluído o curso de Direito, Wilson Martins vai fazer o curso de Letras, estudando em Paris e concluindo seu doutorado pela Universidade Federal do Paraná, a mais antiga do Brasil. Seu saber, conquanto atento à realidade brasileira, jamais foi provinciano ou paroquial, sobretudo porque, além de leitor compulsivo, ele procurou e obteve, sem quotas e por mérito, apoios importantes para prosseguir seus estudos e pesquisas na forma de bolsas de estudos na Europa e nos EUA. E acabou por lecionar em universidades americanas, de 1962 a 1991, quando se aposentou pela Universidade de Nova York. Por muito menos, colegas de ofício receberam da mídia os mais estabanados e exagerados destaques. Wilson Martins, não. Dada sua independência intelectual, desarrumava com frequência arranjos como esses que hoje nos querem impor, ora com um, ora com outro escritor, enganando o distinto público, ao apresentá-los como expoentes de nossas letras, quando o prestígio dos aclamados provém de razões extraliterárias. Desastre totalFoi no exercício da docência e da crítica que Wilson Martins mais desconcertou o status quo da inteligência brasileira, isto é, dos aparelhos que a formam e constituem. Num tempo em que os turiferários de praxe na mídia queimavam incenso a pretensos críticos que, no máximo, tinham estudado a obra de um único autor, quando não um único livro do escritor escolhido, usufruindo por muitas décadas de um prestígio epocal obtido há tempos, pondo-se improdutivos para o resto de seus dias, ele estava no batente crítico todas as semanas, desde que estreara como comentarista de livros no jornal O Dia, em 1942, de lá migrando para O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e Gazeta do Povo, em Curitiba, onde viria a morrer, em janeiro de 2010. Estão aí os sete volumes na praça. Naturalmente, as livrarias talvez os escondam lá no fundo das lojas, nas últimas prateleiras, ou, pior ainda, terão registrado nos computadores – ah, a modernidade! –, mas não os terão disponíveis quando o leitor quiser. Mas – que boa a modernidade! –, se você tem acesso à rede mundial e um cartão crédito, pode adquirir todos os volumes já, com algumas simples dedilhadas no teclado do seu computador. Será, adicionalmente, uma forma de gratidão a quem dedilhou a vida inteira para levar aos leitores a sua interpretação dos autores referenciais de nossa inteligência. Wilson Martins faria falta a qualquer país. No Brasil, sua falta é um desastre total. Não há mais nenhum crítico em atividade. A crítica foi confinada aos minimalismos universitários, quando não à própria ignorância de mestres e alunos sobre quem tanto fez pelo Brasil. | |
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
QUANTOS PAÍSES TEM O MUNDO?
A Organização das Nações Unidas (ONU) conta 191. O Banco Mundial diz que são 229. O Comitê Olímpico Internacional reconhece 202 países, e a Fifa, 209.
Mr. Miles, pseudônimo de autor das deliciosas colunas de viagem do Estadão, escreveu que um alto executivo do cartão Visa, (ele pediu para não ser identificado: onde há dinheiro, há segredo), informou que estabelecimentos de 249 países enviam, mensalmente, suas faturas para a empresa.
Mr. Miles respondeu ao leitor que fez a pergunta: “Ora, me parece impossível inventar um país apenas para aceitar um cartão de crédito. Don’t you agree?". No pé de página, é dito que Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos. Seu texto é enfeitado com palavras do inglês. Don’t you agree (você não concorda?) não é a única expressão do latim do império. Na última coluna, além desta, usou as seguintes: "É uma boa pergunta, my friend” (meu amigo). Lamento, however (entretanto), que ela se repita”. “Therefore (consequentemente), nunca tive a preocupação de contá-los”. “ I’m afraid (temo que), ele não tem nenhum critério”. “Nevertheless (todavia), surpreende-me o interesse das pessoas por tais pormenores”. “Oh, my God! (Oh, meu Deus!) - eu já estive em todos os países do planeta”. “Já visitei, for instance (por exemplo), a União Soviética”. “What I’m supposed to do?”. (O que eu posso fazer?) “Do you see?” (Você percebe?). “In fact, my friend, (De fato, meu amigo) nem se sabe quantos países existem. Diversas fontes confiáveis divergem sobre o tema”. “Besides England (além da Inglaterra), participam das competições mundiais a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte”.
A ONU não conta o Vaticano nem Taiwan. O primeiro é observador permanente da organização, mas está fora do cadastro. O segundo, porque a China não reconhece sua independência.
Também os territórios e as possessões não entram na lista da ONU. É o caso de Aruba e Ilhas Cayman, que são da Holanda e da Inglaterra.
Há pouco mais de cem anos, no início no século XX, havia apenas 57 países. A Áustria e o Iraque, por exemplo, surgiram depois da 1ª Guerra Mundial, com o fim dos impérios austro-húngaro e turco-otomano.
Índia, Paquistão, Moçambique e Angola, entre outros, surgiram depois da 2ª Guerra Mundial. Daqui a pouco talvez sejam países independentes a Caxemira, na fronteira com a Índia, e a Chechênia, que irrompeu no noticiário há alguns anos com as sangrentas lutas de independência, que entretanto ainda não foi alcançada.
Na década de 1990, surgiram diversos países, como Ubequistão e Ucrânia, mas desapareceram a Iugoslávia e a República Democrática Alemã. A propósito, este escritor estava na casa do embaixador do Brasil na Alemanha Oriental quando ele passou a cônsul. O cargo de embaixador ficou com a ex-Alemanha Ocidental.
As diferenças entre os mais de duzentos países são apavorantes. Os habitantes do mais pobre, a Etiópia, ganham 90 dólares por ano. Em Luxemburgo, o mais rico, a renda mensal é de 3.661 dólares, quantia superior aos 3.330 dólares os brasileiros ganham por ano, 3.330 dólares por ano.
A China é o país mais antigo do mundo. Existe desde 1.500 a.C. Egito e Iraque existem há 3.000 anos a.C., mas não como países. Timor Leste é o caçulinha. Desmembrou-se da Indonésia entre 1999 e 2002.
Os países estão cheios de mistérios. Esses dados dizem pouco, mas algo dizem. Nosso peso, nossa idade e onde nascemos e moramos também dizem algo de nós. (xx).
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
ETIMOLOGIA
Expressão que caiu em desuso, porém está no Hino do Flamengo, ai-jesus formou-se de ai, interjeição que designa queixa e dor, mas também alegria, e de Jesus, do hebraico tardio Iexu. Já heim, que muitos dizem quando não ouvem direito o que lhes foi dito, veio do latim hem.
por Deonísio da Silva*
Ai-jesus: de ai, interjeição de origem onomatopaica, designando dor, queixa, mas também alegria, e de Jesus, do hebraico tardio Iexu, com a variante Iexua, forma abreviada de Iehoxua, Javé ajuda na salvação. No grego foi escrito Ieosous, tornado Jesus no latim, conservando a mesma grafia no português. Ai-jesus designa o queridinho, o muito amado, o xodó, o predileto. A expressão caiu em desuso, mas está no Hino do Flamengo: "Consagrado no gramado/ Sempre amado/ Mais cotado nos Fla-Flus/ É o ai-jesus". Outro verso diz: "Ele vibra, ele é fibra, muita libra já pesou". O peso dos barcos do Clube de Regatas Flamengo era medido em libras.
Hein: do latim hem, ai!, ah!, interjeição pronunciada em geral em forma de pergunta, dando a entender que a pessoa não ouviu o que lhe foi dito. Comumente expressa dor, indignação, alegria, aflição, espanto. Há controvérsia sobre a origem ser latina. Alguns defendem que seja onomatopaica, como atchim, zunzum, epa. Outros dão como origem o antigo francês ainz, radicado no latim antius, fala ou comportamento próprios da localidade de Âncio, no Lácio. Hein é semelhante a hum, hã, hem, ah!, oh! e outras interjeições de surpresa, admiração ou reprovação.
Rumor: do latim rumore, declinação de rumor, ruído, murmúrio, notícia, boato. Rumor tomou ares de notícia preocupante ainda no nascedouro da palavra porque os povos latinos dos finais da Idade do Bronze e das primeiras fases da Idade do Ferro, ainda antes da chegada das culturas clássicas da Grécia e de Roma, já acreditavam que o farfalhar do vento nas folhas das árvores, o crepitar das fogueiras e a variação nas vozes dos animais eram presságios, avisos divinos. Eram muitas as divindades que queriam ser ouvidas e elas foram disciplinadas e organizadas pela civilização romana, que as personificou em deusas, principalmente: Flora, Fauna, Ninfas. Adivinhos e profetas surgiram dessas crenças. Esses ofícios existiram e ainda persistem em várias culturas, inclusive nos tempos modernos. A página de horóscopo, de bons índices de leitura em jornais e revistas, é exemplo da certeza ou da suspeita de que forças ocultas guiam nossos destinos. Vox Populi, "Voz do Povo", denomina conhecido instituto de pesquisa de opinião. O provérbio Vox populi, vox Dei (a voz do povo é a voz de Deus) traduz interesse pela opinião pública.
Sumidade: do latim summitate, declinação de summitas, a parte mais elevada de um lugar, o cume da montanha, o alto de uma torre. Veio a designar indivíduo que se sobressai dentre a maioria por sua inteligência, talento, saber. Exemplo: Fulano é uma sumidade em Medicina, em Língua Portuguesa, para indicar que ele é quem mais sabe dentre os que sabem mais, isto é, sabe tudo. Sumiço, porém, procede do verbo sumir, do latim sumere, agarrar, roubar, esconder.
Vernáculo: do latim vernaculus, escravo ou criado nascido em Roma, radicado em verna, escravo. Passou a designar a língua de determinado lugar e mais tarde o idioma próprio de um país, sem estrangeirismos. Tais cuidados com o vernáculo não podem, porém, ser exagerados, sob pena de se tornarem ridículos, como os propostos pelo médico homeopata Antônio de Castro Lopes (1827-1901). Como odiava estrangeirismos, propôs que fossem substituídas, entre outras, as seguintes palavras: menu, por cardápio; chofer, por cinesífero; abajur por lucívelo; anúncio por preconício; cachecol por castelete; turista por ludâmbulo; repórter por alvissareiro; e futebol por ludopédio. Vagalume, que Rafael Bluteau (1638-1734) já impusera em lugar de caga-lume, por ser vocábulo obsceno, já tinha sido objeto de um concurso em Portugal para que fosse substituído e resultara em palavra bonita, que afinal pegou no gosto popular: pirilampo. Rejeitando a proposta, Machado de Assis (1839-1908) escreveu: "Nunca comi croquettes, por mais que me digam que são boas, só por causa do nome francês. Tenho comido e comerei filet de boeuf, é certo, mas com restrição mental de estar comendo lombo de vaca." De lá para cá, filet de boeuf tornou-se filé de bife e depois bife. E o francês croquette, do verbo croquer, quebrar com estalo, tornou-se croquete apenas. Os gramáticos, como o sapateiro de Apeles, não podem ir além das sandálias. À semelhança dos sexólogos, podem orientar-nos, jamais nos substituir na hora de falarmos ou escrevermos.
Hein: do latim hem, ai!, ah!, interjeição pronunciada em geral em forma de pergunta, dando a entender que a pessoa não ouviu o que lhe foi dito. Comumente expressa dor, indignação, alegria, aflição, espanto. Há controvérsia sobre a origem ser latina. Alguns defendem que seja onomatopaica, como atchim, zunzum, epa. Outros dão como origem o antigo francês ainz, radicado no latim antius, fala ou comportamento próprios da localidade de Âncio, no Lácio. Hein é semelhante a hum, hã, hem, ah!, oh! e outras interjeições de surpresa, admiração ou reprovação.
Rumor: do latim rumore, declinação de rumor, ruído, murmúrio, notícia, boato. Rumor tomou ares de notícia preocupante ainda no nascedouro da palavra porque os povos latinos dos finais da Idade do Bronze e das primeiras fases da Idade do Ferro, ainda antes da chegada das culturas clássicas da Grécia e de Roma, já acreditavam que o farfalhar do vento nas folhas das árvores, o crepitar das fogueiras e a variação nas vozes dos animais eram presságios, avisos divinos. Eram muitas as divindades que queriam ser ouvidas e elas foram disciplinadas e organizadas pela civilização romana, que as personificou em deusas, principalmente: Flora, Fauna, Ninfas. Adivinhos e profetas surgiram dessas crenças. Esses ofícios existiram e ainda persistem em várias culturas, inclusive nos tempos modernos. A página de horóscopo, de bons índices de leitura em jornais e revistas, é exemplo da certeza ou da suspeita de que forças ocultas guiam nossos destinos. Vox Populi, "Voz do Povo", denomina conhecido instituto de pesquisa de opinião. O provérbio Vox populi, vox Dei (a voz do povo é a voz de Deus) traduz interesse pela opinião pública.
Sumidade: do latim summitate, declinação de summitas, a parte mais elevada de um lugar, o cume da montanha, o alto de uma torre. Veio a designar indivíduo que se sobressai dentre a maioria por sua inteligência, talento, saber. Exemplo: Fulano é uma sumidade em Medicina, em Língua Portuguesa, para indicar que ele é quem mais sabe dentre os que sabem mais, isto é, sabe tudo. Sumiço, porém, procede do verbo sumir, do latim sumere, agarrar, roubar, esconder.
Vernáculo: do latim vernaculus, escravo ou criado nascido em Roma, radicado em verna, escravo. Passou a designar a língua de determinado lugar e mais tarde o idioma próprio de um país, sem estrangeirismos. Tais cuidados com o vernáculo não podem, porém, ser exagerados, sob pena de se tornarem ridículos, como os propostos pelo médico homeopata Antônio de Castro Lopes (1827-1901). Como odiava estrangeirismos, propôs que fossem substituídas, entre outras, as seguintes palavras: menu, por cardápio; chofer, por cinesífero; abajur por lucívelo; anúncio por preconício; cachecol por castelete; turista por ludâmbulo; repórter por alvissareiro; e futebol por ludopédio. Vagalume, que Rafael Bluteau (1638-1734) já impusera em lugar de caga-lume, por ser vocábulo obsceno, já tinha sido objeto de um concurso em Portugal para que fosse substituído e resultara em palavra bonita, que afinal pegou no gosto popular: pirilampo. Rejeitando a proposta, Machado de Assis (1839-1908) escreveu: "Nunca comi croquettes, por mais que me digam que são boas, só por causa do nome francês. Tenho comido e comerei filet de boeuf, é certo, mas com restrição mental de estar comendo lombo de vaca." De lá para cá, filet de boeuf tornou-se filé de bife e depois bife. E o francês croquette, do verbo croquer, quebrar com estalo, tornou-se croquete apenas. Os gramáticos, como o sapateiro de Apeles, não podem ir além das sandálias. À semelhança dos sexólogos, podem orientar-nos, jamais nos substituir na hora de falarmos ou escrevermos.
* Deonísio da Silva (62), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa). Seus livros já foram premiados pelo MEC, Biblioteca Nacional e Casa de las Américas. E-mail: deonisio@terra.com.br
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