NOME DE POBRE NO BRASIL

sexta-feira, 22 de abril de 2011

NOMES DE CARRO,

Deonísio da Silva, no Jornal do Brasil, 20 de abril de 2011

Provavelmente os celtas não achariam confortável o automóvel com que a General Motors e a Chevrolet os homenageiam. Os celtas eram fortes e altos e, se lhes fosse dado escolher o meio de transporte, hoje, entre um Celta e um Bora, escolheriam o segundo.

Os celtas, de cepa indo-germânica, migraram do centro-sul da Europa, em ondas sucessivas, para a Bretanha, a Espanha e a Itália, povoando ainda a região dos Bálcãs e da Ásia Menor.

O Bora, mais amplo, com mais conforto, levaria o seu dono celta para onde o viajante quisesse. A Volkswagen escolheu esse nome para um de seus carros porque bora designa um vento que sopra no sul do Mar Adriático. Talvez os engenheiros quisessem vincular o carro ao famoso vento porque, a bordo dele, veloz e livre como o vento, o ocupante pode ir aonde bem quiser.

Os irreverentes cantores da banda Mamonas Assassinas, tragicamente falecidos em desastre aéreo, em 1996, proclamaram em conhecida canção: “Minha Brasília amarela/ Tá de portas abertas/ Pra mode a gente se amar/ Pelados em Santos”. O carro com que a Volkswagen tinha homenageado a capital do Brasil já não era mais fabricado.

Os irmãos Karl Rath e Gustav Otto começaram a fabricar motores de avião na Primeira Guerra Mundial. E, ao lançarem o primeiro automóvel, em 1928, mantiveram o símbolo, duas hélices, uma preta, outra azul, em fundo branco, no veículo terrestre conhecido como BMW, iniciais das palavras alemãs Bayerische Motoren Werk (Fábrica de Motores da Bavária).

Abrasileirar nomes é nosso velho costume. Quando Getulio Vargas nacionalizou a Alfa Romeo, os caminhões passaram a ostentar em letras garrafais as iniciais FNM, de Fábrica Nacional de Motores. E o caminhão passou a ser conhecido como fenemê.

Aconteceu algo semelhante com o DKW. As letras maiúsculas são as iniciais de Dampf-Kraft-Wagen, carro de força a vapor: A empresa alemã, fundada por um engenheiro dinamarquês, começou fabricando pequenos motores a vapor. Passou depois aos motores a gasolina com ciclo de dois tempos, mantendo a denominação DKW. O vapor dos primeiros motores simplesmente evaporou-se no tempo. E hoje quem tem um automóvel DKW guarda-o como joia rara.

A General Motors ainda hoje mantém a gravata-borboleta em seus veículos. O vapor dos primeiros motores simplesmente evaporou-se no tempo. E hoje quem tem um automóvel DKW guarda-o como joia rara. O motorista se esfalfava de macacão ao volante do caminhão, mas era mantida a imaginação do designer, que o imaginou usando terno e gravata-borboleta.

A Citroën, empresa francesa fundada por André Citroën, resolveu homenagear o filho do empreendedor, identificando seus automóveis com os deux chevron, a patente de cabo que o moço tinha no braço quando morreu em combate na Primeira Guerra Mundial. São duas letras V invertidas. É uma versão lendária esta, mas há outra mais prosaica: seria o símbolo da engrenagem helicoidal, dupla, criada por Monsieur Citroën.

E mecânico sem macacão, existe? O alemão que ouve pela primeira vez a palavra macacão demora a entender que se trata de uma Latzhose, própria para os trabalhos de jardinagem, e por isso chamada também jardineira. Como a cor azul fosse predominante nesse tipo de uniforme, os alemães usaram a variante Blaumann, homem (Mann) azul (blau). Os alemães marcam o substantivo com a inicial maiúscula.

Um alemão que conhecia pouco a língua portuguesa e estava de carona com um brasileiro, ficou aparvalhado quando, de pneu furado, com o carro em que estava já no acostamento, ouviu do motorista que ele iria tirar o macaco do porta-malas para substituir aquela roda pelo estepe. Confessou depois que ficou imaginando como podiam ter a companhia de um macaco e como o animal viajara silencioso, preso ali atrás, e que ainda seria utilizado na tarefa. Mas era apenas um Wagenheber, erguedor mecânico de carro.

Macaco é mais simples, mesmo. E o brasileiro adora uma síntese. (xx)