NOME DE POBRE NO BRASIL

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ETIMOLOGIA: ALBATROZ, GLOBOSFERA, INCREMENTO, SONDAR, TULIPA.

Etimologia
Maior ave voadora do planeta, cantada no poema O Navio Negreiro pelo poeta baiano Castro Alves, albatroz teve origem no árabe al-gattás, mergulhador. Tulipa, flor cultivada atualmente até mesmo no Brasil, veio do turco tulbend, que designa também o turbante.
por Deonísio da Silva*

Albatroz: do inglês albatross, pelo francês albatros, com influência do espanhol alcatraz, pelicano. A origem remota é o árabe al-gattás, mergulhador. Designa a maior ave voadora do mundo, cujas asas chegam a medir 3,5 metros de uma ponta à outra. Tal distância é denominada envergadura. O poeta baiano Castro Alves (1847-1871) a ela se refere em O Navio Negreiro: "Albatroz! Albatroz! Águia do oceano,/ Tu que dormes das nuvens por entre as gazas:/ Sacode as penas, Leviatã do espaço!; Albatroz! Albatroz! Dá-me essas asas!".

Globosfera: de globo, do latim globus, e de esfera, do latim sphera, que, pela junção das duas palavras, passou a constituir-se como sinônimo de blogosfera, espaço da rede mundial de computadores onde jornais e revistas podem ser lidos antes ou depois de impressos, incluindo conteúdos que jamais serão publicados em papel, além de músicas e vídeos que também podem ser editados e publicados na globosfera, de que são exemplos os materiais encontrados no Youtube. O Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, um dos mais antigos diários brasileiros, abandonou leitores em bancas e assinantes, deixando de ser impresso, e agora está disponível apenas na Internet.

Incremento: do latim incrementum, do mesmo étimo de crescer, de excremento e de excrescência, mas nesses dois últimos justamente o prefixo "ex" muda-lhes o sentido. Designa o crescimento, visto como desenvolvimento. O poeta paulista Manuel Batista Cepelos (1868-1915), autor de poemas nacionalistas como Os Bandeirantes, usa a palavra como sinônimo de crescimento no poema O Fundador de São Paulo, em que trata de José de Anchieta (1534-1597): "Estende-se o comércio, em soberbo incremento;/ Circula como um sangue a riqueza na praça;/ E, numa rapidez superior à do vento,/ Os prelos dão à luz e o trem de ferro passa.../ E na sua modéstia e na sua roupeta,/ De repente me surge a figura de Anchieta,/ Melancolicamente apoiada a um bordão...".

Sondar: do latim subundare, ir para debaixo da onda, pelo francês sonder. Em latim, onda é unda, isto é, água em movimento. O étimo está presente em inundar, inundação. Designa ato de examinar alguma coisa para além da superfície, às vezes usando uma sonda, do francês sonde, para fazer isso. Em sentido figurado significa conhecer algo para além das aparências, procurando as profundezas. Quando uma pessoa diz que foi sondada para ser ministra da presidente eleita Dilma Rousseff (62) - fará 63 anos no próximo dia 14 -, o que quer dizer é que alguém a consultou antes de anunciar a escolha. Todavia alguns dizem que foram sondados, mas não o foram.

Tulipa: do turco tulbend ou do persa dulband, pelo latim tulipa, e daí ao holandês tulipa e ao francês tulipe. No turco e no persa, a mesma palavra designa o turbante. A flor ganhou este nome porque sua forma lembra o pano enrolado à cabeça, por homens e mulheres do Oriente, costume que passou ao Ocidente como de exclusivo uso feminino. O primeiro registro da palavra aparece em carta que o embaixador Ogier Ghiselin de Busbecq (1522-1592), mais conhecido pelo nome latino Gislenius Busbequius, às vezes Augier Ghislain de Busbecq, escreveu a Ferdinando I, da Áustria (1503-1564), quando servia na corte de Suleimã, o Magnífico (1494-1566), informando em latim, sem dizer que o sultão era poeta e tinha três mulheres, que "per haec loca transeuntibus ingens ubique florum, copia offerebatur, narcissorum, hyacinthorum et eorum quos Turcae tulipam vocant". Francisco da Silveira Bueno (1898-1989), professor da Universidade de São Paulo por décadas, faz uma ironia no verbete, que registrou na página 4112 do 8º volume de seu Grande Dicionário Etimológico e Prosódico da Língua Portuguesa: "Se o leitor não souber traduzir este latim, recorra ao vigário da paróquia". Tal recomendação engraçada era válida na década de 1960, quando a Editora Saraiva publicou a obra de quase 5000 páginas. Naquele tempo, todos os alunos do ensino médio e secundário sabiam um pouco de latim, e os padres tinham domínio dessa língua, do contrário não seriam ordenados, pois não teriam passado nos cerca de 14 anos de preparação para o sacerdócio. Poucos embaixadores saberiam latim hoje. De todo modo, o trecho citado informa que por aqueles lugares (Império Otomano), os turcos chamavam tulipa a referida flor. O diplomata era filho bastardo do senhor do castelo Busbeck, origem de seu nome, com uma amante chamada Catarina. Pesquisador e sábio, foi ele também quem levou para a Europa o lilás e a cabra angorá.
* Deonísio da Silva (62), escritor, é doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa). Seus livros já foram premiados pelo MEC, Biblioteca Nacional e Casa de las Américas. E-mail: deonisio@terra.com.br