NOME DE POBRE NO BRASIL

domingo, 8 de junho de 2014

ABIDICAÇÕES E RENÚNCIAS: A VEZ DE DILMA?

http://www.jornalpp.com.br/colunista/item/62377-abdicacoes-e-renuncias-a-vez-de-dilma
Fui assistir ao filme “Getúlio: os últimos dias”, em que Tony Ramos faz o papel do presidente. “Só morto sairei do Catete”, disse Getúlio Vargas na madrugada de 24 de agosto de 1954. Horas depois dava um tiro no coração, às 8h45 da manhã. Morreu sozinho na cama em que dormia, no Palácio do Catete, no Rio, hoje transformado em museu, mas guardando ainda todas as assombrações de casas de suicidas. Naqueles dias a televisão não tinha a hegemonia que tem hoje. Mais se ouvia do que se via e lia. O país soube do suicídio quinze minutos depois pelas ondas da Rádio Nacional. Oswaldo Aranha leu a carta-testamento do presidente, dando ênfase em frases bombásticas, como essas: “Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. A crise vinha de longe, mas tudo despencara há 19 dias, em 5 de agosto, quando Carlos Lacerda recebera um tiro no pé ao chegar em casa, na Rua Toneleros, em Copacabana, no Rio. Os outros tiros mataram um major da Aeronáutica chamado Rubens Vaz. Lacerda era destemperado. Chamara Getúlio de “monstro”, e ao filho dele, Lutero Vargas, agraciara com essas desqualificações: “filho rico e degenerado do pai dos pobres”. A Oswaldo Aranha, figura reconhecida já internacionalmente, pois presidira a assembleia da ONU que criara o Estado de Israel, chamara de “mentiroso e ladrão”. Gustavo Capanema, talvez o melhor ministro da Educação que o Brasil já teve, então líder da maioria, lera no Congresso uma declaração assinada por Vargas: “Até agora considerava Lacerda meu principal inimigo. Mas agora o considero meu inimigo número 2; o número 1, aquele que causou o maior prejuízo ao meu governo, foi o homem que atentou contra sua vida”. “A história só se repete como farsa”. Atribuem essa frase a Marx, mas ele não a escreveu assim. No texto em que comenta o golpe de Estado de Carlos Luís Napoleão, sobrinho de Napoleão Bonaparte, que imitou o tio, Marx diz: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. O golpe do tio foi uma tragédia. O golpe do sobrinho foi uma farsa. Não é segredo para ninguém que o Brasil inteiro anda apreensivo com tudo. Nem a Copa está mudando o espírito nacional. E no mundo estão acontecendo renúncias e abdicações: o papa Bento XVI abriu o cortejo. Agora foi o rei Juan Carlos, da Espanha. No Brasil, o imperador Dom Pedro I abdicou. E os presidentes Deodoro, Getúlio, Jânio e Collor também renunciaram. Getúlio em 1945, para não ser deposto. O último a renunciar foi Collor, em 1992, para não sofrer impeachment. Mas não adiantou. Faz tempo que ninguém renuncia no Brasil, a não ser quando pego em flagrante e para não perder a boquinha. Mas perigo sempre há. Dilma Rousseff parece abandonada por todos e cai sem parar. Será que a renúncia passa pela cabeça da presidente? Depende da Copa. Agora tudo ficou para depois da Copa. (*) Da Academia Brasileira de Filologia, escritor e professor, autor de 34 livros. Está publicado em Portugal, Cuba, Itália, Alemanha, Suécia etc. Os mais recentes são “Lotte & Zweig” e “De onde vêm as palavras (17ª edição).