NOME DE POBRE NO BRASIL

sexta-feira, 28 de março de 2014

O HOMEM QUE NÃO SABIA JAVANÊS

A quarta língua mais falada hoje no mundo é o Português. As três primeiras são o Mandarim, o Espanhol e o Inglês. A décima é uma das línguas da Indonésia, o Javanês, idioma do grupo malaio-polinésio, falado originalmente na ilha de Java, na Oceania, daí o nome. Esta atrás do Japonês, do Russo, do Bengali, do Hindi e do Alemão, segundo nos informa o Observatório da Língua Portuguesa. Mas essa classificação é controversa. “O homem que sabia javanês” não falava javanês e dá título a um conto de Lima Barreto. Depois de aprender rudimentos de língua tão desconhecida de todos, o “senhor Castelo” arruma boas ocupações e é designado para representar o Brasil em congresso internacional de Linguística. Ao voltar do exterior, é recebido no cais Pharoux como “uma glória nacional”. Aclamado por todas as classes sociais, almoça com o presidente da República. Pouco tempo depois é nomeado cônsul em Havana, onde passa seis anos, e para onde voltará, a fim de aperfeiçoar os seus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia. Eis como tudo começou para o “senhor Castelo”: “Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte: Precisa-se de um professor de língua javanesa".
Ele vai à Biblioteca Nacional, pede o volume da letra J de uma enciclopédia, onde fica sabendo que Java é ilha de um arquipélago colonizado pela Holanda. Aprende o alfabeto, algumas frases, duas ou três regras de gramática e cerca de vinte palavras de Javanês. Vai então à casa da pessoa que precisa aprender Javanês, o “Doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga”, e acaba enganando o infeliz, fazendo-o crer que realmente sabe Javanês. Mas antes passa por alguns sobressaltos durante a entrevista para arrumar o emprego. O futuro empregador lhe pergunta, “com aquela teimosia peculiar aos velhos”, onde ele aprendera Javanês. Tomado de surpresa, o malandro inventa uma porção de mentiras. Diz que seu pai, tripulante de um navio mercante que aportara na Bahia, era um javanês que resolveu ficar no Brasil, onde casara, prosperara e naturalmente ensinara sua língua ao filho. Por que então a trapaça deu certo, se o professor de Javanês não se parecia com um javanês? A explicação do malandro: “Não sou lá muito diferente de um javanês. Estes meu cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço malaio…”. Afinal, o Brasil é um país de imigrantes que vieram de todos os lados: “Entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro”. O Barão quis aprender Javanês porque herdara do pai um livro escrito em javanês. E, segundo a crença paterna, era um livro que evitava desgraças e trazia felicidades. No Brasil, duzentos milhões falam a quarta língua do mundo. Mas quantos leem nela? (xx)