NOME DE POBRE NO BRASIL

sexta-feira, 21 de março de 2014

DISSE POUCO, NÃO TIVE TEMPO

O gaúcho Carlos Amaral Freire completará 83 anos em outubro deste 2014. Vive num sítio em Morro das Pedras, nas proximidades da Ilha do Desterro (SC), cujo nome foi mudado para Florianópolis. Eu o conheci ano passado. Para encontrá-lo fui ajudado por Janer Cristaldo, escritor, tradutor e jornalista, e por Ana Maria Oliveira, minha amiga do Facebook. Graças aos dois, marquei um jantar com o maior poliglota vivo do mundo. A amizade é um tesouro. E onde está nosso tesouro, ali está nosso coração. Convidei para jantar conosco Wilson Volpato, este um dos amigos mais queridos que tenho na vida, meu ex-colega de seminário nos tempos de adolescência, a quem homenageei no romance “Teresa D´Ávila”. Aliás, a rede da amizade é urdida com muitos fios, de várias procedências. A artista plástica Arlinda Volpato, que fez recentemente algumas das mais belas capas de meus livros, entre as quais a da 17a edição de “De onde vêm as palavras”, vem a ser a esposa de Wilson. Lá fomos nós três jantar com Carlos. Arlinda, como toda artista, é muito intuitiva. Percebi que foi a primeira a sacar quem estava diante de nós. Wilson e eu estávamos um pouco desconfiados, afinal o homem diante de nós podia ser um charlatão. Como pode alguém saber 162 línguas? O cardeal italiano Giuseppe Mezzofanti, que viveu entre os séculos XVII e XVIII, conseguia traduzir 114 línguas, mas morreu esquecido de todas, menos uma, o Caló, um dialeto cigano. Já trabalho com a hipótese de que esse cardeal amava uma cigana, pois o amor não deixa morrer nada… Todavia Carlos logo manifestou, meio sem querer, instigado por nós, seu domínio de Grego, Latim, Italiano, Francês, Espanhol, Alemão etc., naquele nosso primeiro encontro. Tradutor juramentado de 12 línguas, tradutor de poemas escritos em 60 línguas (ver o livro “Babel de Poemas”, Editora L&PM), Carlos continua vivendo em Florianópolis. Voltei a encontrá-lo na semana passada. Contou-me que estava andando pelo shopping, sentiu-se mal, demorou a ser atendido no hospital, mas os médicos resolveram seu infarto. Quando se recuperava, a enfermeira lhe disse que a casa dele tinha sido arrombada por ladrões, que levaram tudo (dinheiro, joias, recordações preciosas etc.), menos o cachorro. Perguntou dos livros. A enfermeira disse que estavam intactos! Ele ficou tranquilo. “Ladrões não gostam de livros”, ela disse. Pois é, larápios têm esse ponto em comum com muitas pessoas. E me atrevi a mudar a tradução que ele fez dos versos do Prêmio Nobel Czeslav Milosz. Usei os recursos de uma elipse e de uma inversão sintática, por achar que assim o texto fica ainda mais bonito: “Krótki dini,/ Krótki noce,/ Krótki lata./ Tak malo powiedzialem,/ Nie zdaqzilem” (Curtos os dias,/ Curtas as noites,/ Curtos os anos./Eu disse tão pouco,/ Não tive tempo). Ao me despedir, nem lhe contei que estou estudando Hebraico e Polonês. Diante de quem sabe 162 línguas, eu me sinto um iniciante. E temos outro ponto em comum: ele foi assaltado por ladrões; eu, pelo governo, no contracheque e nos impostos exagerados. (xx)