NOME DE POBRE NO BRASIL

quinta-feira, 13 de março de 2014

ETIMOLOGIA: ARRECADAR, ESQUENTAR, LAGARTO, MALEFÍCIO, NIRVANA, SEXTA-FEIRA

Na revista Caras, que começou a chegar ontem à bancas e aos assinantes, as complexas e fascinantes curiosidades da viagem das palavras desta semana. http://deonisio.blogspot.com.br/2014/03/etimologia-arrecadar-esquentar-lagarto.html
Arrecadar: do modo de dizer no Português arcaico o Latim vulgar recaptare, duplicando captare, pegar, recolher. Nas origens teve o sentido de guardar, proteger, prover segurança ao que é guardado, como no caso de pedras e metais preciosos. Ganhou depois o significado com o qual se consolidou, de recolher, cobrar, receber. No Brasil, deve ser o verbo mais conjugado pelos governos atuais, por arrecadar mais do que prover os serviços e bens para os quais foi feita a arrecadação, vinda de impostos, contribuições, taxas, pedágios etc. O governo sabe entretanto quanto arrecadou exatamente de quem, mas houve uma insólita forma de arrecadar depois que os mensaleiros foram presos: as multas aplicadas pelas autoridades judiciárias foram cobertas por arrecadações anônimas que, pelas altas quantias, despertaram muita desconfiança sobre a fonte desses recursos. Algumas ONGs (organizações não-governamentais), instaladas no país há mais de uma década, jamais receberam durante todo esse tempo o que os mensaleiros receberam em poucos dias. Esquentar: do Latim excalentare, tornar calentem, declinação de calens, que deu caente, depois queente e por fim quente em Português. É um verbo transitivo – “o Sol esquenta a terra”–, mas também intransitivo – “o clima da discórdia esquentou”-, e ainda pronominal – “esquentou-se com o que ouviu do desafeto”. No Português arcaico chegou a ser escrito escaentar. A advertência ou aviso “não esquenta!” tem o significado de “não pense nisso, não se preocupe”. Tem também o sentido de limpar dinheiro sujo, sendo sinônimo de lavar, como Lagarto: do Latim lacertus, lagarto, que por desvio e alteração da forma culta passou a ser pronunciado lacartus, depois lagartus e por fim lagarto, com o fim de designar o réptil escamado, da subordem dos sáurios - em Grego, lagarto, lagartixa e salamandra são conhecidos por saúra: houve deslocamento da sílaba tônica -, que habitam terras, árvores e regiões aquáticas. A parte de trás da coxa do boi também tem este nome, provavelmente pela aparência que adquire quando o animal caminha, tomando a forma assemelhada ao réptil. Assim, nos cardápios pode aparecer um prato com lagarto no nome, mas é carne de vaca. Aparece em A Turma, belo poema de Manoel de Barros (97): “Logo vimos um sapo com olhar de árvore!/ Ele queria mudar a Natureza?/ Vimos depois um lagarto de olhos garços/ beijar as pernas da Manhã!/ Ele queria mudar a Natureza?/ Mas o que nós queríamos é que a nossa/ palavra poemasse”. Malefício: do Latim maleficium, do étimo de facere, fazer, malum, mal, desgraça, designando também crime, malfeito, delito, pecado. Exemplos de malefícios: Adão e Eva comeram o fruto proibido numa sexta-feira; o dilúvio começou numa sexta-feira; Jesus morreu numa sexta-feira. Aumenta o malefício quando a sexta-feira é associada ao número teze. Eram treze à mesa da Última Ceia, e um er aio traidor (Judas); doze divindades nórdicas fizeram uma reunião, e o excluído, Loki, veio sem ser convidado e matou Balder, favorito do deus Asgard. O dia 13 de outubro de 1307 caiu numa sexta-feira, quando a Ordem dos Templários foi extinta, e muitos de seus chefes foram torturados e mortos. Numa narrativa lendária e apócrifa, diz-se que para acabar com a superstição a Marinha Britânica, já no século XIX, lançou ao mar numa sexta-feira um navio chamado Friday, comandado por um capitão chamado James Friday, que nunca mais retornou. A vassoura, meio de transporte das bruxas, e o gato preto, incluído pelo papa Inocêncio VIII (1432-1492) entre os perseguidos pela Inquisição, aumentaram os indicadores de azar para a sexta-feira, 13. Nirvana: do Sânscrito nirvana, extinção, desaparecimento. Designa o fim dos sofrimentos, que é obtido com a eliminação dos desejos. Se não deseja nada que não possa ser conseguido, não há sofrimento. Segundo diversas religiões, mas especialmente de acordo com o budismo, o desapego das coisas terrenas e das paixões conduz a esse estado da alma, denominado nirvana. É uma atitude de beatitude e de indiferença diante dos outros e de si mesmo. Sexta-feira: do Latim sexta, sexta, e feria, festa, mas que tomou também o significado de feira porque os dias de festa eram muito favoráveis ao comércio, pela reunião de todos nas grandes como nas pequenas localidades. O étimo remoto é o Latim sex, indicador de seis: sexta-feira é o sexto dia, Agosto chamava-se sextilis, pois era o sexto mês antes da homenagem recebida pelo primeiro imperador romano, Caio Júlio César Otaviano Augusto (63 a.C- 14 d.C.) No Inglês sexta-feira virou Friday, palavra do mesmo étimo de Friga, deusa equivalente a Afrodite. Banida dos cultos depois do cristianismo, Friga tornou-se bruxa e todas as sextas-feiras fazia reuniões com as colegas, reforçando a sexta-feira como dia de azar. Deonísio da Silva, da Academia Brasileira de Filologia, é escritor, Doutor em Letras pela USP, professor (aposentado) da UFSCar (SP), consultor das universidades Estácio (RJ) e Unisul (SC) e colunista da Bandnews, com Ricardo Boechat e Pollyanna Bretas. Alguns de seus romances e contos estão publicados também em Portugal, Cuba, Itália, México, Alemanha, Suécia etc., e é autor de De onde vêm as palavras (17ª edição). www.lexikon.com.br