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quarta-feira, 2 de abril de 2014

ETIMOLOGIA DE ALFABETO, CONTÊINER, DEVAGAR, PELOTA, QUENGA, XINGAR

Quenga é a mulher sem juízo, que se tornou prostituta porque a cabeça é vazia, como a metade de um coco (KENA). E o alfabeto inventado fenícios (libaneses, hoje) tinha letras que representavam animais, instrumentos e coisas concretas.
Alfabeto: do Grego alphábetos pelo Latim alphabetum. Essas denominações derivam das duas primeiras letras do alfabeto grego, alfa e beta. No Português, a designação refere três e às vezes quatro letras, como se comprova em abecê e abecedário. Entre os primeiros alfabetos do mundo estão o ugarítico (séc. XV a.C.), o fenício (séc. XIII a.C.), o etrusco (séc. VIII a.C.) e o hebraico (séc. XIII a.C.). Os fenícios, hábeis navegadores e comerciantes, deram origem aos alfabetos grego (séc. X a.C.), latino (séc. VII a.C.) e árabe (séc. IV a.C.). O alfabeto cirílico é um dos mais tardios, tendo surgido no século IX d.C. As letras do alfabeto não saíram do nada. Nosso abecedê, por exemplo, procede das letras alfa, beta, gama e delta, vindas de hieroglifos que representavam o boi, a casa, o bumerangue e a porta. E prossegue com alusões ao ato de contemplar (E, do HE fenício), a um gancho ou suporte (o F), a uma cerca ou corda trançada (o H), à mão ( o I ou J), à palma da mão (o K), ao cajado (o L), à água (o M, originalmente representando as ondas do mar), à serpente (o N), ao olho (o O), à boca ( o P), ao nó (o Q), à cabeça ( o R; RECH em fenício), ao dente ( o S, vindo do CHIN fenício), à marca (o T), ao peixe (o X) , e à foice ( o Z). O alfabeto grego acrescentou outras letras, como o Teta, vindo do hieroglifo que representava o Sol, cujo correspondente na escrita semítica era TETH, e o Ômega, representado por um “U” em forma de ferradura.
Contêiner: do Inglês container, que contém, do Inglês medieval conteinen, radicado no Latim continere, conter, na verdade com o significado de cum tenere, com ter. O ancestral comum é “ten” uma raiz indoeuropeia com o significado de ocupar, pegar, reter. Designa grande recipiente de metal ou de madeira, usado no transporte de cargas em trens e em navios, capaz de acomodar muitas mercadorias ali dentro, pois o contêiner é sempre de grandes proporções. Foi inventado pelo americano Malcolm Mc Lean (1914-2001), quando ele tinha pouco mais de vinte anos. Durante décadas, ele operou seus contêineres apenas dentro dos EUA, mas na década de 60 chegou a Rotterdam, já o maior porto do mundo, levando ao desemprego milhares de estivadores, pois dali por diante apenas 208 pessoas substituíram cerca de cinco mil trabalhadores. Devagar: do Latim vagare, vagar, ir de um lugar a outro,s em direção definida, sem objetivo algum, portanto sem pressa, antecedido da preposição “de”, que pode indicar modo, como em “de chapéu”, “de botas”, de “casaco”, “de sapatos” etc. Está presente em expressões como “devagar, quase parando”, referindo lentidão exagerada, e “devagar com o andor que o santo é de barro”, às vezes utilizada só com a primeira frase. Quanto a esta última, sua origem é um padre gordo que, incapaz de acompanhar uma procissão que carregava o santo padroeiro de sua paróquia, apelou àqueles que levavam a imagem nos ombros que fossem mais devagar, usando como argumento que o santo, não sendo de pau, sendo de barro, se caísse, viraria em pedaços. Pelota: do Latim vulgar pilota, vindo de pila, bola, globo, coisa arredondada, talvez com influência de pilus, pêlo, crina, porque durante muito tempo as bolas foram preenchidas com crina ou pelos, e, como o couro nem sempre fosse curtido, havia pelos também do lado externo da bola. Designando a bola de futebol, chegou ao Brasil pelos países de língua espanhola vizinhos do Brasil, como a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, onde foi chamada assim pela distância em que ficam os narradores de futebol nas cabines de rádio e de televisão, aos quais a bola parece menor do que é. Em outros esportes, como o basquete e o vôlei, a bola não é chamada de pelota. Nem mesmo no tênis em que a bola, por ser bem pequena, se parece mais a uma pelota. Quenga: do Quimbundo kena, metade de um coco, depois vasilha feita com essa metade de coco, depois seu conteúdo, a seguir um guisado de galinha com quiabo, para o qual a vasilha, que manteve a denominação, mas já podia ser um tacho, servindo de recipiente e por fim a prostituta, por ter a cabeça vazia como a metade do coco ou por servir de comida a quem a procurasse, ou por oferecer-se assim aos homens, com o fim de obter seu sustento oferecendo um ventre vazio, que não daria prole aos homens com os quais coabitasse. Foi assim que quenga se tornou sinônimo de meretriz, cuja origem é a raiz indo-europeia “mer”, que significa atrair. Outros sinônimos: bandida, bisca, biscate, bruaca, bucho, cadela, égua, frete, loba, marafa, marafaia, marafona, mariposa, menina, messalina, michê, perua, piranha, pistoleira, rameira, rapariga, tronga, vadia, ventena, zoina, sem contar mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher do pala aberto, mulher errada, mulher perdida, mulher pública. Xingar: do Quimbundo xinga, insulta, ofender, dizer obscenidades, em domínio conexo com o Quicongo sinka, rosnar. Xingar foi um progresso rumo à civilização, pois que seu sinônimo, insultar, do Latim insultare, designou originalmente o ato de saltar sobre o outro para matá-lo ou machucá-lo. Também a lei do olho por olho, dente por dente, representou um avanço em relação ao homicídio. Entretanto, se for aplicada à risca, todos ficarão caolhos, cegos e desdentados. Deonísio da Silva, da Academia Brasileira de Filologia, é escritor, Doutor em Letras pela USP, professor (aposentado) da UFSCar (SP), consultor das universidades Estácio (RJ) e Unisul (SC) e colunista da Bandnews, com Ricardo Boechat e Pollyanna Bretas. Alguns de seus romances e contos estão publicados também em Portugal, Cuba, Itália, México, Alemanha, Suécia etc., e é autor de De onde vêm as palavras (17ª edição). www.lexikon.com.br