NOME DE POBRE NO BRASIL

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O REI DA COCADA PRETA E A MÃE DE SÃO PEDRO

Se tudo deu certo – escrevo esta crônica na sexta-feira – ontem, sábado, falei de Palavras de Direito , em Ribeirão Preto, a convite do Dr. Paulo Scanavez, Juiz em São Carlos e coordenador da Escola Paulista de Magistratura na região. Lançado este mês pela Editora Novo Século, o livro já vendeu dois mil exemplares. Seu tema é a etimologia de palavras muito usadas no Direito. A etimologia nos ensina que os pontífices, originalmente construtores de pontes, vieram a abençoá-las apenas, e o mais importante deles virou Sumo Pontífice. Com o advento do cristianismo veio a designar o Papa. Um molusco chamado purpura, em Latim, tinha que ser obtido em grande quantidade para, espremido, tingir as roupas de uma cor avermelhada. Apenas ricos e poderosos podiam caçá-lo. Resultado: a cor púrpura tornou-se a veste oficial de cardeais, reis, príncipes etc. As primeiras piscinas foram construídas para criar peixes em casa, em clubes, em outros estabelecimentos. Piscina veio do Latim piscis, peixe. O desaforo não podia ser levado para casa e era resolvido fora do foro, o Latim forum, praça do comércio onde os magistrados julgavam as demandas. Salário, do Latim salarium, pagamento feito em sal, continua amargando a vida do trabalhador, mas é difícil avaliar o honorário, do latim honorarium, originalmente um presente dado em honra do profissional que nos atendeu. Almirante é do mesmo étimo de emir, do Árabe al-mir, e designava o chefe do povoado, de alguma repartição. Tornou-se o mais alto posto da Marinha. Armário veio do Latim armarium, móvel para guardar armas, mas hoje ali são guardadas outras coisas, não mais armas. E quando alguém sai do armário, está revelando outra opção sexual, que antes escondia. Os índios Camba que moravam nos arredores de Corumbá se comportavam mal e passaram a ser referidos como uma cambada, pejorativo. Canja veio do Malaiala kanji, arroz com água, mas no Português veio a designar caldo de carne de galinha com arroz. Quando a Família Real veio para o Brasil, em 1809, o rei tinha o privilégio de comer as primeiras cocadas pretas e só depois os nobres podiam servir-se. O brasileiro, muito debochado, passou a usar a frase para vingar a arrogância de que quem queria sobrepor-se aos outros, como se rei fosse, criando a expressão rei ou rainha da cocada preta. A expressão “essa aí é pior do que a mãe de São Pedro” baseia-se numa lenda. A mãe de São Pedro vive equidistante entre o Céu e o Inferno. É a única ali. As outras almas estão no Céu, no Inferno, no Purgatório ou no Limbo, mas ela nem cai, nem sobe. Personagem de um conto europeu muito popular trazido pelos portugueses para o Brasil, ela é condenada ao Inferno, mas São Pedro consegue de Jesus que ela suba ao Céu por um talo de cebola que ela perdera num ralo. Quando está subindo, outras almas se agarram nela e a ranzinza senhora começa a chutá-las com tanta violência que o talo se rompe. Não voltou para o Inferno, mas também não pôde subir ao Céu. Que fascinante a viagem das palavras! (xx) · Escritor e professor, Doutor em Letras pela USP, autor de 34 livros.