NOME DE POBRE NO BRASIL

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

POR FAVOR, ME PASSE O SAL! OBRIGADO!

Judas acabou de derrubar o saleiro e segura firme a bolsa com as moedas. Ele era o tesoureiro da campanha de Jesus, administrava as finanças e certa vez repreendeu Maria Madalena ((ou talvez outra Maria, dentre as as mulheres que seguia o Mestre) por lavar os pés do Mestre com bálsamo para enxugá-los depois com os cabelos, um gesto, aliás, um tantinho libidinoso. Judas diz que aquele bálsamo poderia ser vendido por 300 denários para serem dados aos pobres...São João diz: "O traidor dizia isso porque era ladrão e furtava o dinheiro que era recolhido...". Judas está ao lado dela na Última Ceia, segundo antiga heresia apócrifa, tornada mundialmente conhecida pelo filme O Código Da Vinci, baseado no romance homônimo do jornalista americano Dan Brown. A figura loura e linda, com traços femininos, não pode ser São João… Quando Da Vinci a Última Ceia numa parede do Convento Santa Maria Delle Grazie, em Milão, na Itália, o sal derramado já era uma superstição conhecida. E, além do mais, ele tinha uma pendenga com o prior do convento, que o apressava e repreendia com muita frequência, reclamando que o artista trabalhava pouco, pois ficava longas horas contemplando as diversas etapas do quadro que um dia ficaria tão famoso. Até que o gênio deu a primeira de suas duas respostas ao pior, então no papel de gestor, responsável por remunerar o artista: “os homens de gênio às vezes produzem mais quando menos trabalham, pois esta é a hora em que elaboram invenções e formam em suas mentes as ideias perfeitas que depois expressam e reproduzem com as mãos”. A outra resposta? Judas tem a cara do prior!
Aliás, Michelângelo também utilizava este recurso de deboche. No teto da Capela Sistina podem ser reconhecidos no Juízo Final vários de seus desafetos entre os que foram lançados ao Inferno. Não foi apenas na pintura evidentemente que os criadores se vingaram. Também Dante Alighieri colocou no Inferno o papa Celestino V, por renunciar, e muitos inimigos, com muito menos disfarces, pois são identificados pelos nomes de sua vida civil, militar ou eclesiástica. O detalhe do sal na Última Ceia nos revela muito. E comprova a superstição de que sal derramado na mesa já dava azar naquela época. Da Vinci e Lutero, que aboliu o sal no batismo dos protestantes, foram contemporâneos. Entre os católicos, o sal esteve presente no batismo até 1973. Afinal, o sal combate a corrupção, que é tudo o que o Diabo quer.
O sal gerou outras crenças curiosas. Era tido como afrodisíaco e remédio contra a impotência sexual. Em antigas gravuras francesas, mulheres de várias classes sociais aparecem esfregando sal nas partes íntimas dos maridos para restabelecer seu interesse por elas. Fariam melhor homens e mulheres se caprichassem mais na higiene… O ”sal” está também em “salário”, pois os primeiros pagamentos foram feitos em sal, do contrário a família morreria de fome, mesmo com a despensa cheia, pois os alimentos apodreceriam. E em “salvar” e “salvador”, que originalmente foi apenas o “salgador”, encarregado de salgar os alimentos. O sal é do bem, não é inimigo da Humanidade! º escritor, colunista da Bandnews, professor (aposentado) da UFSCar (SP) e consultor das universidades Estácio (RJ) e Unisul (SC). Autor de 34 livros, entre os quais De onde vêm as palavras (17ª edição). www.lexikon.com.br