NOME DE POBRE NO BRASIL

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

ETIMOLOGIA DE BALDAQUIM, GARRAFA, MORDOMO ETC & UM ERRO DO PADRE VIEIRA

Baldaquim: do Italiano baldacchino. Designa dossel com colunas e cortinas para embelezar tronos, carruagens, andores, tálamos conjugais ou simples camas, importado de Bagdá, que em Italiano antigo se chamava Baldac. O famoso orador luso-brasileiro Antonio Vieira (1608-1697), descrevendo o baldaquim do rei Salomão (século X a.C.), cujo nome quer dizer Pacífico, do mesmo étimo de Shalom, paz, chama-o carroça e diz que os pés reais se apoiavam sobre uma representação da caridade, para mostrar que também esta virtude está submetida aos reis. Ele deve ter lido uma tradução equivocada. Os originais do trecho citado, o Cântico dos Cânticos, tanto em Hebraico, como em Grego e em Latim, informam que “as filhas de Jerusalém enfeitaram com amor o revestimento do tálamo”. Antigos estudiosos da Bíblia evitavam traduzir o Latim charitas por amor.Preferiam caridade. Mas nas epístolas de São Paulo (10-67) o Latim charitas é traduzido amor: “Ainda que eu falasse todas as línguas do mundo, sem amor eu nada seria”. Criado: do Latim creatus, uma das primeiras palavras a entrar para a língua portuguesa designando a pessoa que, nascida de servidores ou agregados dos palácios e residências nobres, era criada, alimentada e educada no próprio local, fazendo serviços domésticos. Por humildade e cortesia, entrou para a forma de tratamento nas apresentações: “Fulano de Tal, seu criado”, expressão em desuso. Entre valetes, garçons, camareiras, cavalariços e demais serviçais, havia tipos como a criada invejosa e malévola, o genro metido a besta, a avó sem papas na língua, o homossexual enrustido e o mordomo pelego, às vezes caricaturados em romances e até em seriados, de que é exemplo Downton Abbey, sucesso da televisão inglesa, ora em exibição também no Brasil. Garrafal: de garrafa, de origem controversa, do Árabe giraf ou do Árabe-Persa garába, designando vasilha para transporte de grãos e de líquidos. No Português do Brasil, garrafa ensejou garrafal, adjetivo de dois gêneros para qualificar algo grande, como no caso das manchetes dos jornais ou em qualquer texto com letras bem maiores do que as outras, letras garrafais. É que, no começo da imprensa tipográfica, na fabricação dos títulos das notícias eram usados de modelo os rótulos das garrafas. Garrafão designa também um jogo de pega-pega no qual um participante faz as vezes de rolha, interditando a entrada dos outros em certa área. E no basquete o garrafão leva este nome porque aquele espaço semelha uma garrafa bem grande. Mordomo: do Latim medieval maiore domus, o criado mais importante da casa, chefe de empregados como camareiros, valetes e cozinheiros, entretanto acima da governanta, quando esta se fazia presente e não administrava sozinha a casa, fixando-se, então, como chefe das criadas que trabalhavam no interior das residências e dos palácios, chamadas camareiras, por arrumarem a câmara, do Latim camera, depois quarto, de quartus, de início a quarta parte da casa. Quantificar: de quant, étimo do Latim quantus, quanto, mais a alteração de fazer, do Latim facere e ficere, tornados ficare e depois ficar como elemento de composição, de que são exemplos classificar, simplificar e fortificar. No Português ocorre com frequência a quantificação semântica, como nas expressões “trocar seis por meia dúzia”, “são outros quinhentos” e “cheio de nove horas”. Zeugma: do Grego zeugma, vínculo, ligação. A figura de linguagem provavelmente foi inspirada em instrumento musical da Grécia antiga, composto de duas flautas reunidas, denominado Zeûgos. No zeugma se diz mais com menos palavras, pela supressão de algumas, que expressas antes, na mesma frase ou oração, não precisam ser repetidas. Bom exemplo de zeugma está no Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma, do padre Antonio Vieira, ao descrever o baldaquim no qual o rei Salomão desfilava por Jerusalém nos dias solenes: “A matéria era dos lenhos mais preciosos e cheirosos do Líbano, as colunas de prata, o trono de ouro, as almofadas de púrpura, e no estrado onde punha os pés estava esculpida a caridade”. Por economia, regra de elegância, mesmo num autor de estilo copioso como o dele, o verbo ser (era) foi omitido três vezes.