NOME DE POBRE NO BRASIL

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

CASTRO ALVES, O POETA DOS ESCRAVOS

No Dia da Consciência Negra, recitei, agora há pouco, no Pitadas do Deonísio, na Bandnews, fragmentos destes versos do poeta dos escravos. Eu os sei de cor desde menino. São lindos! E trazem uma epígrafe em Latim, do Lutero (Invideo quia quiescunt.); outra em Português, do Alexandre Herculano (Tu que passas, descobre-te! Ali dorme o forte que morreu). A CRUZ DA ESTRADA Castro Alves Caminheiro que passas pela estrada, Seguindo pelo rumo do sertão, Quando vires a cruz abandonada, Deixa-a em paz dormir na solidão. Que vale o ramo do alecrim cheiroso Que lhe atiras nos braços ao passar? Vais espantar o bando buliçoso Das borboletas, que lá vão pousar. É de um escravo humilde sepultura, Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz. Deixa-o dormir no leito de verdura, Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs. Não precisa de ti. O gaturamo Geme, por ele, à tarde, no sertão. E a juriti, do taquaral no ramo, Povoa, soluçando, a solidão. Dentre os braços da cruz, a parasita, Num abraço de flores, se prendeu. Chora orvalhos a grama, que palpita; Lhe acende o vaga-lume o facho seu. Quando, à noite, o silêncio habita as matas, A sepultura fala a sós com Deus. Prende-se a voz na boca das cascatas, E as asas de ouro aos astros lá nos céus. Caminheiro! do escravo desgraçado O sono agora mesmo começou! Não lhe toques no leito de noivado, Há pouco a liberdade o desposou.