NOME DE POBRE NO BRASIL

sábado, 4 de maio de 2013

AS ÚLTIMAS PALAVRAS DO PAI

Ele deveria ter uns vinte e poucos anos. Seu pai, setenta anos mais velho do que ele, ia morrer. O pai ia surpreendê-lo, não apenas por morrer em casa e de madrugada, fazendo com que o filho acordasse com os passarinhos, coisas que ele odiava: a aurora e os passarinhos. “Se ele morrer logo, o enterro pode ser hoje e a gente acaba com essa agonia”, disse a mãe, que já não aguentava mais cuidar do velho. As mulheres amam e cuidam dos homens que amam, mas isso também cansa, tudo cansa. Menos o amor, que este, sim, é imortal, e aqueles que partiram permanecem na memória daqueles que os amaram. O pai queria cochichar algo ao ouvido dele. Com o último suspiro, a última lição. “Meu filho”, começou o velho, entre sussurros e gemidos, “não faça má ideia de mim e doravante veja o mundo que você não vê.” “Sabe, a Maria Sofia, aquela gordona insone que disfarça toucinhos e banhas em largos vestidos de listras, que reza e comunga todos os domingos e se confessa uma vez por semana?” “Sei, pai”. Pois é!”. “Sabe a Maria Irene, aquela magrona, falsa magrona, porque tem bunda grande e perna grossa, casada com o Gervásio, mulher de bunda grande e perna grossa só fica solteira se quiser, as irmãs dela, todas de pernas finas, nenhuma se casou, aquela que de vez em quando convida a tua mãe pra quermesse...”. “Sei, pai.” “Pois é”. “Sabe a Maria Piíssima do Coração Sagrado de Jesus, de mãe amantíssima, de passado negro, que pôs esse nome comprido e esquisito na filha porque na hora do parto estava contemplando com fervor uma folhinha do calendário católico das Edições Paulinas? Aquela que fugiu com o João Preto, que dois dias depois a trouxe de volta, dizendo que o descasamento não era por incompatibilidade de gênios, mas por incompatibilidade de cheiros, tudo mentira, ele é que não era muito chegado à fruta, compreende?-, mas você sabe, então, de quem estou falando?”. “Sei, pai”. “Pois é”. E o pai seguiu recitando o nome de muitas, com as respectivas e estranhas identificações. Por fim, perguntou? “Deu dezenove essa lista que não é de Schindler, meu filho, filho querido?” “Dezessete, pai”, disse o filho, que contara uma a uma. “Então, faltam duas, mas essas esqueci. Pois é!” “Pois é o quê, pai?” “Não, não, ninguém soube. Nem por elas nem por mim. Não se aborreça se amanhã ou depois aparecer algum irmão extraviado. O que eu mais fiz na vida foi trabalhar, mas houve esses momentos com elas, que foram muito bons. Pois é!” O pai apertou a mão do filho e expirou, enfim. A mãe quis saber qual ela o segredo. “Nada, mãe, ele só disse que amou apenas uma mulher na vida, a senhora, mas ele ficou tímido na hora da morte.” “Coitado do teu pai”, explodiu a mãe em soluços e remorsos, “seu eu soubesse, não teria feito o que fiz quando ele viajava.” “E ele viajava muito?” “Quando você era pequeno, toda semana”. E a mãe chorou ainda mais alto, abraçada ao filho: “Eu ficava muito sozinha”. Dali a pouco, muitas outras chorariam disfarçadas ao redor do caixão do velho: “ele era um homem tão bom!” (xx)