NOME DE POBRE NO BRASIL

sexta-feira, 31 de maio de 2013

NÃO FOI INRI QUE ESCREVERAM NA CRUZ

O Império Romano mandava escrever na cruz dos condenados o nome do réu e o motivo da pena de morte. No caso de Jesus, a tradição sempre informou que a explicação estava resumida no acrônimo INRI, como vemos nos crucifixos. Mas o Evangelho de São João 19,19 informa que a frase foi colocada completa, sem abreviação ou acrônimo algum: “Pilatos mandou escrever e colocar na cruz esta inscrição: Jesus, Nazareno, Rei dos Judeus”. “Estava escrita em hebraico, em latim e em grego”. Narrações históricas e lendárias informam que Santa Helena, mãe de Constantino, que no século IV tornou o cristianismo a religião oficial do império romano, liderou a expedição que encontrou a cruz em que Jesus foi crucificado, repartiu-a em três partes, mandando um pedaço para cada uma das três igrejas construídas especialmente para guardar o precioso tesouro: em Jerusalém, em Roma e em Constantinopla. Erros de tradução contribuíram para que essa história fosse dada como invenção, mas inventio em Latim significa descoberta. Então, ela não inventou essa história, ela descobriu a cruz, os pregos e a tabuleta nas escavações que mandou fazer no monte que em Hebraico era chamado Gólgotha, em Aramaico Gûlgaltâ, em Grego Kraniou topos, e em Latim Calvarium. Nas quatro línguas, o significado era o mesmo: lugar das caveiras. Era naquela pequena elevação, nos arredores de Jerusalém, que os condenados à morte eram crucificados. O romanos chamavam a tabuleta de titulus, cujo significado era título, inscrição. E o que ali estava escrito era chamado elogium, que no Português elogio conservou apenas um significado positivo. No Latim designa identificação, podendo ser de nobreza ou não. Era semelhante ao Grego epitáhion, epitaphium em Latim e epitáfio em Português. Em túmulos antigos, o epitáfio trazia versos enaltecendo as virtudes de quem ali estava enterrado, mas às vezes eram versos satíricos que debochavam de alguma característica ou defeito do falecido. Os romanos enterravam ou incineravam os mortos, dando origem à palavra busto, de bustum, queimado, do mesmo étimo de combustão. Isto porque, no lugar em que o morto era queimado, erguia-se um pedestal onde era posta a sua imagem em bronze. Há outras curiosidades no elogium, a escrita do titulus, a tabuleta posta na cruz do Senhor. Como no Hebraico a frase é escrita da direita para a esquerda, o copista, a mando de Pilatos, escreveu as traduções em Grego e em Latim, também da direita para a esquerda, mas nessas duas línguas, como no Português, é da esquerda para a direita que se escreve. Pilatos exigiu também que a frase latina ficasse perto da cabeça do condenado. Assim, a hebraica ficou no alto, e a grega no meio das duas. A Palestina, palco dos trágicos eventos, era então poliglota. No comércio, usava-se o Grego. Nos documentos, predominava o Latim. No templo, o Hebraico. E na vida quotidiana, o Aramaico, língua em que Jesus ensinava aos contemporâneos. Aonde nos leva essa fascinante história das palavras! (xx)