NOME DE POBRE NO BRASIL

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ELA ERA BARANGA OU MEQUETREFE?

Palavra que foi destaque na mídia há pouco, baranga, que significa mulher feia, veio talvez do quicongo mbalanga, hérnia umbilical. Também destaque recente nos meios de comunicação, mequetrefe tem origem controversa — uma das hipóteses é o árabe mogatref, petulante. Autoajuda: de auto, do grego autós, por si mesmo, e de ajuda, redução de ajudar, do latim adjutare. Designa forma de tratamento psicológico, mas sobretudo estratégia mercadológica de vender produtos por meio dos quais as pessoas possam ajudar a si mesmas. A avalanche editorial de livros sobre o tema começou com Autoajuda, publicado em 1859 pelo britânico Samuel Smiles (1812-1904), que trabalhara de aprendiz com um médico. “Deus ajuda aqueles que ajudam a si mesmos”, frase de Benjamin Franklin (1706-1790), extraída do Almanaque do Pobre Ricardo (Poor Richard’s Almanac), serviu de inspiração para o autor compor seu livro, cuja primeira frase é: “O Céu ajuda aqueles que ajudam a si mesmos”. A principal crítica que se faz aos livros de autoajuda é que oferecem respostas por demais simplórias para questões complexas. Baranga: provavelmente do quicongo mbalanga, hérnia umbilical. A língua quicongo foi trazida para o Brasil pelos escravos. A pessoa com hérnia umbilical ficava com aparência de desleixada, pois os panos mal cobriam a barriga. Quando mudou de mbalanga para baranga, passou a designar mulher feia, descuidada. Como adjetivo de dois gêneros, veio a significar pessoa ou coisa de pouco ou nenhum valor. No Supremo Tribunal Federal (STF), atuando na Ação Penal 470, o mensalão, o advogado Paulo Sérgio de Abreu e Silva pensou inicialmente em caracterizar como baranga sua cliente Geiza Dias, uma das rés do mensalão, ex-gerente financeira de uma das empresas do publicitário mineiro Marcos Valério, também réu do mesmo processo. Mas optou por identificá-la como funcionária mequetrefe. Guilda: do holandês gild, pelo latim gilda, ao francês guilde, do qual chegou ao português. Designou originalmente reunião festiva, depois associação de negociantes, artesãos e artistas cujo objetivo era o atendimento mútuo. O ministro Joaquim Barbosa, do STF, relator do processo do mensalão, usou a palavra no sentido pejorativo, para tipificar os crimes de uma quadrilha que atuava orquestrada, em proveito de seus integrantes e em prejuízo do dinheiro público. Mequetrefe: de origem controversa. Os árabes, que ficaram sete séculos em Portugal, têm mogatref, petulante, pernóstico, intrometido. Os ingleses têm make trifles, designando aquele que faz bagatelas, ninharias. Todavia, a origem remota pode ser o latim moechus, pronunciado “mécus”, que virou “méque”, com os significados de malicioso, espertalhão. Somou-se ao castelhano trefe, étimo presente no português trêfego, de origem obscura, que tem os significados de inquieto, esperto, hábil na arte de enganar os outros. Mequetrefe passou a designar indivíduo sem importância, inútil, insignificante, joão-ninguém, porém sem perder as conotações pejorativas de trêfego. Como diz a poeta carioca Cecília Meireles: “Ai, palavras, ai, palavras/ Que estranha potência a vossa!/ Todo o sentido da vida/ Principia à vossa porta;/ O mel do amor cristaliza/ Seu perfume em vossa rosa;/ Sois o sonho e sois audácia/ Calúnia, fúria, derrota.” Sofocliano: do nome do dramaturgo e poeta grego Sófocles (495-406 a.C.). Ele foi autor de tragédias memoráveis e seu modo de escrever veio a designar tudo o que é dramático ou trágico ao estilo dele. Estreou nas festas dionisíacas, em Atenas, por volta de 430 a.C., com a peça Édipo Rei, que entretanto não ganhou o primeiro prêmio. A tragédia resulta do cumprimento involuntário de uma profecia: o filho (Édipo) matará o pai (Laio) e casará com a mãe (Jocasta). Tchekhoviano: do nome do escritor e médico russo Anton Tchekhov (1860-1904). O adjetivo é usado para designar o estilo marcado por concisão, objetividade e clareza na arte de narrar. Filho de comerciante, o menino ficou em sérias dificuldades quando seu pai faliu. Formou-se em Medicina pela Universidade de Moscou e trabalhou muito para custear os estudos e sustentar a família. Exercia a Medicina numa clínica rural e, juntando esse conhecimento à sua vivência de estudante, tornou-se um grande observador da vida comum, como se depreende da leitura de seus contos. Examinando a fundo banalidades da vida cotidiana, ele chega aos motivos que levam a gestos, falas e comportamentos.