NOME DE POBRE NO BRASIL

terça-feira, 29 de maio de 2012

LÍNGUA PORTUGUESA: VITAL PARA O ENSINO DE OUTRAS DISCIPLINAS

Quando na década de 80 o então presidente José Sarney lançou o Plano Cruzado, que tinha o fim de combater a inflação e estabilizar a economia, um cidadão de Curitiba, à pergunta se a situação tinha melhorado, vacilou, tremeu os lábios, gaguejou um pouco e disse, por fim: "está piorando menos". É o que está ocorrendo com nosso ensino. Ainda é ruim em muitos níveis e áreas? É. Mas está piorando menos. Há vários indicadores dessas melhoras e uma delas é que agora temos uma universidade, a USP, entre as 70 mais importantes do mundo. É pouco ter uma única universidade brasileira entre as cem mais? É. Mas está piorando menos. Ainda temos sérias deficiências, apesar de passos decisivos dados nas direções corretas, tanto no setor público como no privado. Boa parte dos médicos mais qualificados dos hospitais referenciais do Brasil estudou em escolas públicas, o mesmo acontecendo nos concursos para ocupação de carreiras de Estado e postos gerenciais nas empresas. Nessas mudanças, o ensino da disciplina língua portuguesa cumpre função estratégica. Os professores de quaisquer outras matérias alcançam mais facilmente os objetivos traçados nos projetos pedagógicos, se eles e os alunos são bons em português! É frequente que haja prejuízos mútuos no processo de ensino e aprendizagem quando proliferam erros constantes de ortografia e sintaxe. Na Medicina e no Direito, tais equívocos podem matar o paciente ou levar o cliente para a cadeia. A diferença entre veneno e remédio pode ser uma letra apenas. E um enfermeiro que lê mal uma instrução do médico pode matar aquele que ambos querem salvar. Apesar de erros ortográficos serem os mais fáceis de perceber, os prejuízos da falta de clareza e de lógica, na fala como na escrita, se não são decisivos como o são na Medicina e no Direito, são igualmente deploráveis. E por quê? Porque quem fala e escreve sem clareza dá indícios de que ouve e lê pouco, e essa deficiência é capital para muitas outras. Deonísio da Silva é Escritor, doutor em letras pela USP, professor e vice-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Filologia.(Revista Língua Portuguesa, Abril de 2012)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

RÉQUIEM PARA STEFAN ZWEIG, POR WANDER LOURENÇO

Em Lotte & Zweig, romance recém-publicado pelo escritor e professor Deonísio da Silva, nota-se que se intercalam versões distintas referentes ao fatídico episódio ocorrido no município de Petrópolis, na noite de 22 de fevereiro 1942, em pleno contexto da Segunda Guerra Mundial e do governo de Getulio Vargas. Uma das vertentes de interpretação, decerto, impelirá o leitor a deduzir que a ficcionalização da tragédia vivenciada por Stefan Zweig servirá de palimpsesto para se desmascarar uma imposição histórica ditada por interesses políticos de questionável ordem diplomática entre Brasil e Alemanha. Por esta linha de raciocínio, a propagação oficial do suicídio seria contestada pela segunda parte do livro em questão, a partir de um suposto homicídio que abreviara a existência do escritor judeu de origem austríaca. Por um dos diletos subterfúgios narrativos da escrita contemporânea, o enredo da obra literária Lotte & Zweigse estrutura pelo viés de uma voz narrativa em primeira pessoa; todavia, a narração se bifurcará mais adiante pelos meandros de uma onisciente perspectiva a se equilibrar pelos parâmetros de um mistério à luz do Holocausto nazista. A consoada de Zweig se instaura pelas evidências da preparação para um suicídio anunciado por inúmeras missivas endereçadas a destinatários mundo afora. Por outro ângulo, o narrador irá inserir elementos fictícios para comprovação de uma trama alemã capitaneada por Joseph, Frida, Helmut, Gustav etc. Acrescenta-se a isto que uma terceira voz narrativa, cujas menções entrelaçam os múltiplos discursos vigentes, margeará a trama por intermédio de um frágil fluxo de consciência provindo da figura que intitula o livro, Lotte, o que, aliás, pouco acrescenta à espinha dorsal da tessitura arquitetada pelas hábeis mãos de um ficcionista em pleno domínio da técnica do romance moderno. A História sofre as investidas da ficção engendradas pelo intelectual apto a afirmar que a ferramenta do escritor é a imaginação, conquanto não se admita a intervenção do bisturi verbal do artista a interferir no amálgama nevrálgico do conflito étnico. De antemão deve-se, ao menos, se depreender que a escritura se predispõe a arraigar-se por uma tênue hermenêutica da suspeita, em diálogo com a ambiguidade que se instaura pela fresta a incutir a dúvida referente ao ato de renúncia praticado por um homem perseguido pelo antissemitismo cultuado pelo cenário europeu. Destarte, como poder-se-ia forjar a identidade criminal sem se abster da insigne inclemência de historiadores e biógrafos de Stefan Zweig, autores de teses absolutistas não refratárias ao diagnóstico oficial assinalado pela perícia dos discípulos de Getulio Vargas e Adolf Hitler? Curiosamente, não seria desperdício de causa afiançar que estas duas personagens históricas, Hitler e Vargas, também padeceriam com o estigma de um suicídio mal prefaciado por sobrescritos apócrifos. Entretanto, em retorno ao livro, quiçá seja de bom alvitre advertir que a dialética da sensatez não se ancora em cais de aviltamento. De outra feita, se as palpáveis diretrizes da narrativa que se interpenetram, no tocante à personalidade austríaca que preludia o suicídio e ao narrador que aventa a possibilidade do assassínio, por que considerar que o autor de Lotte & Zweig se responsabilizaria pela rubrica assinalada no laudo ou testamento, que apontaria como causa mortis de cunho político do intelectual de estirpe hebreia? Caberia enfatizar que a percepção do leitor se equilibrará por sobre um picadeiro de suposições acrobáticas, para abarcar as múltiplas expectativas de um desenlace que, no mínimo, irá se escorar na hipótese do questionamento. Muito provavelmente alguns incautos obterão a certeza de que a posição do alter ego de Deonísio da Silva se pautará pelas prédicas do homicídio contra a família Zweig. Contudo, julgo que mais condizente seria afirmar que, com a proposição do discurso que se alicerça pelo movediço espaço da dubiedade, Lotte & Zweig instigará o debate com requintes de subversão e complexidade. *Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são 'O enigma Diadorim' (Nitpress) e 'Antologia teatral' (Ed. Macabéa).

terça-feira, 22 de maio de 2012

MULHER FEIA É JABURU

Caravançará: do persa karwaansarai, palácio das caravanas, estalagem, pelo francês caravansérail, refúgio para caravanas, construído pelo governo ou por anônimos beneméritos à beira dos caminhos para servir de abrigo aos viajantes. Aparece num conto do escritor paulista Malba Tahan, pseudônimo de Júlio César de Melo e Sousa (1895-1974): “Encontrei num caravançará, perto de Damasco, um velho árabe de Hedjaz que me chamou, de certo modo, a atenção. Falava agitado com os mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; mascava constantemente uma mistura de fumo e haxixe.” Ele recebe de um feiticeiro, a quem salva da morte, um poderoso talismã que lhe dá acesso ao Maktub, o que está escrito no Livro do Destino, numa gruta encantada. Começa a acrescentar males nas páginas da vida dos inimigos e se esquece de acrescentar boas coisas à própria vida. Termina na miséria. A lição final do conto é: “Alguns homens, preocupados em levar o mal a seus semelhantes, se esquecem do bem que podem trazer a si próprios.” Embromar: do grego broma, cárie, úlcera, pelo espanhol broma, mingau de aveia, brincadeira e burla, entre outros, mas também um molusco que se agarra ao casco das embarcações, dificultando e atrasando a navegação. Foi por esse último significado em espanhol que embromar em português ganhou o significado de atrasar, protelar a execução de um trabalho, sem prejuízo de outros significados que lhe estão atrelados, de que são exemplos embuste, cilada, engano, tapeação, velhacaria. No português corrente, é mais frequente embromar com o sentido de prometer e não cumprir, levar muito tempo para decidir ou fazer alguma coisa, prometendo sempre que no futuro a tarefa será feita. E o futuro nunca chega. Jaburu: do tupi yambiru, de papo cheio, designando ave de grande porte, encontrada em grandes rios, lagoas e pantanais. As penas são brancas e o bico é preto, levemente curvado para cima, é preto também o pescoço, mas com a base vermelha. Diz-se também jabiru. Como parece muito desajeitada, jaburu passou a designar também a mulher feia. O tuiuiú, ave-símbolo do Pantanal mato-grossense, é uma das espécies de jaburu. Massagem: de origem controversa, talvez de amassar, do latim hispânico amassare, do latim massa, massa. O francês massage é adaptação de como foi ouvida a palavra na Índia. O árabe massa, tocar, apalpar, é outra hipótese. Dia 25 de maio é o Dia do Massagista. A massagem é principalmente uma atividade terapêutica pela compressão metódica de determinados pontos do corpo, com o fim de melhorar a circulação sanguínea ou aliviar tensões. E, como massagista é substantivo de dois gêneros, não é necessário recorrer à lei que desde 3 de abril último obriga as instituições de ensino a expedir ou reemitir diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada. A reemissão é gratuita. Ojeriza: do espanhol ojeriza, formado a partir de ojear, espantar a caça, afugentar animais. O espanhol ojo, olho, está presente em muitas outras expressões que vieram para o português, como olho d’água, isto é, lugar de onde a água subterrânea vê a luz; a advertência ojo, significando cuidado, como em nosso “fique de olho”, “estou de olho” etc. Ter ojeriza a alguma coisa ou a alguém é nem olhar, rejeitar, evitar, pois ojeriza é sinônimo de horror. Pressionar: de pressão, do latim pressione, declinação de pressio. Designa fazer pressão, apertar, comprimir, sendo usada também em sentidos conotativos. Assim, o corpo é pressionado na massagem, mas as pessoas podem ser pressionadas a fazer o que não querem ou que iriam fazer, mas não já. Tranchã: do francês tranchant, que corta bem, por ser duro e afiado. Tomou o significado de categórico, decisivo, bom. Em francês, trancher é dividir, separar, trinchar. O étimo está também em destrinchar, cortar, que tomou o sentido de explicar, resolver, mas neste caso a origem é strictiare, apertar, comprimir, delimitar o campo de combate no corpo a corpo. Em Mistura Tranchã, temos estes versos de Valdo Silva: “Batuque baticum bom/ Bum! Bum! Agogô/ Balangandã com raybun/ E chapéu-coco são/ Uma mistura tranchã/ De samba funk e baião!”.

SAGA DO CAMINHO NOVO: O TEMA É A INCONFIDÊNCIA MINEIRA

Despojos: a festa da morte na Corte, romance histórico cujo tema solar é a Inconfidência Mineira, quarto volume da monumental e esplêndida tetralogia Saga do Caminho Novo, do romancista mineiro Benito Barreto, 83 anos, documentou e trouxe para a prosa de ficção as lutas sociais dos brasileiros naquele que foi o primeiro sólido projeto de independência política. Sua prosa de alta qualidade rivaliza em grandeza com outra obra igualmente monumental e sobre o mesmo tema, mas em versos, que é Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Prosa e poesia têm-se aproximado muito na modernidade. Já não se concebe um escritor que à la Balzac ocupe-se quase que exclusivamente em narrar, como o fizeram entre nós Erico Verissimo e Jorge Amado, sem maiores preocupações com a poesia da linguagem, obcecados apenas pelas tramas do enredo, por personagens referenciais que – isto mesmo – personificassem as ideias de interpretação social por eles defendidas. Desta limitação, aliás, não sofre a maioria dos ficcionistas contemporâneos, mas esses se recusam ficar no traçado de um bom enredo, alicerçado em boas tramas; não o fazem por opção estética e, sim, por absoluta incapacidade de encantar os leitores com uma história que tenha começo, meio e fim bem concatenados. Passam, então, a disfarçar o que não sabem fazer com floreios desconexos, mergulhos ao redor do umbigo e obsessão por temas e modos de narrar que, além de a eles mesmos, a poucos mais interessam. Quebra-se, então, ainda no nascedouro, um das pernas do famoso tripé autor-obra-público, sem o qual não existe literatura. Depois é fácil explicar o fracasso: fazem biscoito fino que a patuleia não sabe comer por desinformada; o editor é um incompetente; a mídia escondeu sua obra etc. (que a mídia esconde, sim, esta é uma grande verdade: esconde o que presta e satura os pobres leitores com resenhas que ninguém lê). Dolorosa via Eis como escreve Benito Barreto, em tudo diferente do que mais se badala em nossas páginas ditas literárias: “Tenho de meu uma trempe e formas, tacho de cobre e panelas, uns caldeirões e tabuleiro, afinal, todo o vasilhame eu tenho, pra fazer e servir o de comer de sal e doces, para vosmicê vender nas feiras e nas praças...- que tal?”. No diálogo seguinte, reboa o pronome informal de segunda pessoa do singular, que séculos depois marcará o coloquial brasileiro: “Tirante os gastos, incluído o aluguel e o teu sustento, o teu e o meu, mais o aluguel, com as despesas, o que der de sobra, a gente racha, meia o lucro: eu banco e faço, tu me ajudas, vais às vendas e, no dia a dia ou por semana, a combinar, tirado o custo e as perdas, a sobre é nossa, se reparte...” E adiante, a forma originalmente de segunda pessoa do plural (vosmicê) aparece já consolidada com função de segunda do singular: “E por causa de quê que, tão bonita, vosmicê tá só? –Enviuvei. – Deus do céu, o Senhor proteja suncê, Sinhá: morte morrida ou matada? – Marcada, a-quer dizer...Não quero falar disso, não”. Benito Barreto, como o fez Cecília Meireles na poesia, conta e canta, quando ela cantou e contou, isto é, o substrato mais consistente nela é a poesia da narração e em Benito é a narração poética daquele momento singular que o Brasil do século 18 viveu pela liderança de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um homem simples que afinal deu a vida por todos os outros companheiros de sublevação, incluindo o resgate da de seu traidor, Joaquim Silvério dos Reis. Faz o prefácio Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, escritor e prefeito de Ouro Preto. Sim, temos um escritor prefeito, não um prefeito escritor, bem entendido, pois o primeiro ofício é para sempre, o outro é passageiro, e ele, ao contrário de muitos de seus colegas nas prefeituras, sabe disso. Num texto conciso e didático, o prefaciador dá indicações preciosas para leitura: “Ele apresenta a quarta estação da dolorosa via histórica, acolhendo o leitor na fase que sucede ao desmanche do movimento pela prisão dos cabeças, graças à rede de denúncias urdida pelo vil Joaquim Silvério dos Reis”. Brilho em Frankfurt Este quarto volume estrutura-se em três partes, que muito adequadamente foram denominadas Livro 1, Livro 2 e Livro 3, pois são três narrativas quase autônomas: “A Batalha do Breu”, “Um pároco na Corte”, “A festa da morte”. Como é de praxe na História do Brasil, há um suicídio controverso. Foi assim na década de 1970 no caso do jornalista Vladimir Herzog, que volta à mídia por conta da Comissão da Verdade, recentemente instituída pela presidente Dilma Rousseff, e foi assim no caso do poeta Cláudio Manoel da Costa, figura referencial da Inconfidência, cuja morte marca um dos esplêndidos e fascinantes romances da tetralogia. Personagens históricos perfeitamente conhecidos daqueles que não são jejunos em História do Brasil contracenam com as figuras solares que a imaginação do escritor engendrou. “Sinto-me, então, também lavado, como que passado a limpo pelas águas de março. Certa sensação de banho e limpeza apossa-se de mim, eis que algo mineral me sinto, autodemitido do meu ser, de ser, e, por momentos, sem pensar nem sentir, me deixo só, a ver e ouvir, somente, e que me ocupe e fique a ressoar em mim, como nas conchas o vago pulsar das coisas, seu metabolismo e os andamentos da matéria.” Do desfecho do romance, à p. 580, destaco esta joia da coroa do romance de Benito Barreto: “– Pois, pois, se mal não pergunto, pode-se lá saber o que, a vosso juízo, herdamos dele, o morto? – Matéria de aprendizado e ensino, vida afora, é o meu parecer, senhor: – foi minha resposta, acautelado em dubiedade e reticência: – ...certo é que, afora a dor e o sentimento, – ousei ainda- muita coisa há que tirar e aprender desta tragédia luso-brasileira...!” Foi difícil encontrar o romance nas livrarias. Publicado com apoio da Lei de Incentivo à Cultura, ele precisa agora irromper do gargalo da distribuição que tantos bons livros engarrafa nesse trânsito amalucado de nossas livrarias, onde quantos piores em conteúdo e forma os livros, mais à vista estão em todos os lugares e, quanto mais refinados e de qualidade, mais escondidos. Nenhuma força, porém, esconde de todos um bom livro todo o tempo. E em breve, não apenas esse romance, mas também os outros três, que compõem a tetralogia antológica, brilharão ao lado dos outros livros do autor, um dos baluartes mais seguros da alta qualidade da literatura brasileira que agora, com apoio de procedências diversas, ameaça finalmente reflorescer na Feira de Frankfurt no ano que vem, quando o Brasil será o país convidado de honra, mostrando-se entre 7 mil expositores e 280 mil visitantes do mundo inteiro. Que não deixemos autores como Benito Barreto de fora desses empreendimentos literários internacionais. *** [Deonísio da Silva é doutor em Letras pela USP, vice-reitor da Universidade Estácio de Sá e autor de 34 livros, o mais recente é o romance Lotte & Zweig]

domingo, 20 de maio de 2012

LÍNGUA PORTUGUESA: APOIO ESTRATÉGICO PARA ENSINAR OUTRAS DISCIPLINAS

Quando na década de 80 o então presidente José Sarney lançou o Plano Cruzado, que tinha o fim de combater a inflação e estabilizar a economia, um cidadão de Curitiba, à pergunta se a situação tinha melhorado, vacilou, tremeu os lábios, gaguejou um pouco e disse, por fim: "está piorando menos". É o que está ocorrendo com nosso ensino. Ainda é ruim em muitos níveis e áreas? É. Mas está piorando menos. Há vários indicadores dessas melhoras e uma delas é que agora temos uma universidade, a USP, entre as 70 mais importantes do mundo. É pouco ter uma única universidade brasileira entre as cem mais? É. Mas está piorando menos. Ainda temos sérias deficiências, apesar de passos decisivos dados nas direções corretas, tanto no setor público como no privado. Boa parte dos médicos mais qualificados dos hospitais referenciais do Brasil estudou em escolas públicas, o mesmo acontecendo nos concursos para ocupação de carreiras de Estado e postos gerenciais nas empresas. Nessas mudanças, o ensino da disciplina língua portuguesa cumpre função estratégica. Os professores de quaisquer outras matérias alcançam mais facilmente os objetivos traçados nos projetos pedagógicos, se eles e os alunos são bons em português! É frequente que haja prejuízos mútuos no processo de ensino e aprendizagem quando proliferam erros constantes de ortografia e sintaxe. Na Medicina e no Direito, tais equívocos podem matar o paciente ou levar o cliente para a cadeia. A diferença entre veneno e remédio pode ser uma letra apenas. E um enfermeiro que lê mal uma instrução do médico pode matar aquele que ambos querem salvar. Apesar de erros ortográficos serem os mais fáceis de perceber, os prejuízos da falta de clareza e de lógica, na fala como na escrita, se não são decisivos como o são na Medicina e no Direito, são igualmente deploráveis. E por quê? Porque quem fala e escreve sem clareza dá indícios de que ouve e lê pouco, e essa deficiência é capital para muitas outras.(Revista Língua Portuguesa, Abril de 2012) Deonísio da Silva é Escritor, doutor em letras pela USP, professor e vice-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Filologia.

sábado, 19 de maio de 2012

AUDI, CHEVROLET, HONDA: POR QUE ESSES NOMES?

Nomes de família identificam numerosos carros, camionetes e caminhões mundo afora. Lembrei isso a um taciturno motorista português em Lisboa, no Natal passado. Ele me parecia sorumbático e entristecido pela crise que se abatera sobre Portugal e resolvi distraí-lo um pouco perguntando-lhe se ele sabia por que razão seu carro se chamava Mercedes. “Alguma identificação todos os carros haverão de ter”, ele me disse, naquela objetividade bem portuguesa, “e ao meu tocou Mercedes”. Concordei, mas fiz nova pergunta, sorrindo, manifestando meu interesse em apenas conversarmos um pouquinho sobre um assunto que não fosse obviamente o Natal. Ruas e praças estavam quase às escuras para economizar energia, não brilhavam nas lojas as tradicionais luzes que as enfeitam em festas de fim de ano, e dias antes a estatal de eletricidade, uma das joias da economia portuguesa, havia sido vendida aos chineses. Os portugueses estavam aborrecidos com as medidas baixadas por Angela Merkel, a poderosa chanceler alemã, ainda que o presidente da Comunidade dos Países Europeus fosse e ainda seja o português José Manuel Durão Barroso, a quem me coube saudar quando ele recebeu o título de Doutor Honoris Causa na Universidade Estácio de Sá, em 2010. Ele me olhou de soslaio, também um modo bem português de confiar desconfiando do gajo ao lado, quando lhe disse que seu carro tinha aquele nome porque um alemão chamado Emil Jellinek dera aos automóveis o nome de sua filha, Mercedes. O nome pegou tão bem que foi adotado mais tarde pela Daimler-Benz. “Nome de mulher”, completei, “só podia trazer sorte, como de fato trouxe”. “Trouxe mais a quem vende”, acrescentou ele. “Sim, mas vendem um carro bom, que dura bastante, é seguro, veloz”. Ele pareceu concordar. Olhei ao redor para buscar novo assunto. Ele dava mostras de interesse, mas a tristeza o impedia de prosseguir mais animado. “Esse aí a seu lado é um é um Toyota”, prossegui. “Era para ser Toyoda, sobrenome do fundador da marca, mas o “d” foi transformado em “t” para facilitar a pronúncia. Aqui a meu lado está um Honda. Poderia ser Soichiro e talvez poucos o comprassem, mas Soichiro Honda escolheu o sobrenome. Há muitos carros com nome de pessoa. Louis Chevrolet homenageia o piloto de corridas e amigo do fundador da companhia. Já Henry Ford pôs seu sobrenome nos carros que fabricou. Volvo e Audi são verbos latinos. Volvo quer dizer “eu volto” e Audi, “ouça”. Um carro muito popular no Brasil, o Fusca, era o carinhoso apelido de Volkswagen, carro do povo, em alemão. E Agile, em italiano, é o que se move ligeiro e com desenvoltura. E, a bordo da Mercedes dele, chegáramos a um dos poucos restaurantes abertos na noite da consoada, como os portugueses chamam a noite de Natal. (xx)

sábado, 12 de maio de 2012

LOTTE & ZWEIG NA GLOBONEWS, 11/05/2012

LOTTE E ZWEIG: ASSASSINADOS EM PETRÓPOLIS Cheguei muito tarde, somente hoje de madrugada vi no computador. Foi ao ar ontem a bela matéria da Globonews sobre meu romance LOTTE & ZWEIG. O que teria havido na tragédia daquela noite sem testemunhas (de 22 para 23/02/1942), quando mulher (Charlotte) e marido (Stefan Zweig) apareceram mortos? Duplo suicídio? Duplo assassinato? Apenas Lotte foi executada pelos nazistas? Abaixo, quem não viu, pode ver; quem já viu, pode rever. Para examinar detalhes, como o caso requer, é sempre recomendável rever. http://g1.globo.com/globo-news/literatura/videos/t/todos-os-videos/v/livro-reascende-a-polemica-sobre-a-morte-do-escritor-austriaco-stefan-zweig/1944280/

terça-feira, 8 de maio de 2012

BRASIL: DA CASA DO CARACLUM A PAU-BRASILEIRO Deonísio da Silva * No dia 22 de abril de 1500 o aviso de “Terra à vista” foi dado pelo marinheiro que estava de castigo na casa do caraclum. Sim, prezados leitores, antes de designar o órgão sexual masculino, o latim caraclum tinha o significado de estaca, palanque, pau firme. E dava nome ao mastro mais alto das naus. Não era palavrão! No alto do caraclum, palavra vinda do grego chárax, esteio e apoio para as vinhas, acima da cesta da gávea, ficava a casa do caraclum, um lugar de punição e sofrimento, para onde era enviado o marinheiro desobediente. Lá ele estava submetido ao frio, ao calor, à chuva, ao sol, passava sede e fome. Seu dever era avisar o comandante de tempestades no horizonte, de piratas a bombordo ou a estibordo, pela proa ou pela popa, pois dali tinha visão privilegiada, uma vez que estava no mais alto de todos, até mesmo do comandante Pedro Álvares Cabral, à frente daquela frota ou esquadra de 13 naus, que vinha para o que desse e viesse, para o comércio ou para a guerra, o que encontrassem primeiro. Provavelmente o Brasil já tinha sido descoberto há alguns anos por outros navegadores, não apenas portugueses. Tratava-se então de achá-lo e tomar posse da nova terra. Mas deixemos que o escrivão da frota ou esquadra, Pero Vaz de Caminha, que não usa uma única vez a palavra caravela em toda a sua famosa Carta, nos dê o gosto de seu estilo ao descrever e narrar ao rei Dom Manuel I, o Venturoso, o grande feito obrado por aqueles 1.500 homens. “Senhor: Posto que o Capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que ora nesta navegação se achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer.” E passa a descartar o que não vai escrever: “Da marinhagem e singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado.” Mas do que pode e tem a dizer não demora a esclarecer ao soberano: “Portanto, Senhor, do que hei de falar começo e digo: A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. (...) E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto. “ O primeiro nome que o minucioso escrivão registra para o Brasil é Terra de Vera Cruz. Ao concluir a Carta e despedir-se do rei, o nome já é outro: “Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.” O dia do registo do nascimento do Brasil não era ainda o dia do trabalho, do latim tripalium, instrumento de castigo composto de três paus, aos quais era afixado o condenado, quando não empalado num deles! Exagero semântico? Não, porque, cessada a extração do pau-brasil, passou-se a extrair ouro, e o trabalho era sofrimento inaudito para escravos vindos da África, muitos dos quais eram castrados sem qualquer anestesia, como se fazia com o gado, para que ficassem com as pernas grossas, não crescessem muito e assim as minas pudessem ter teto mais baixo. Quem duvida, vá aos museus e igrejas de Ouro Preto (MG), que os instrumentos de castigo e castração estão ali guardados ad perpetuam rei memoriam desde o Século do Ouro. Aqueles audazes navegantes deixaram o Brasil, seguiram para a África, perderam sete das trezes naus, consagrando o treze como número de azar, e voltaram a Portugal sem saber o tamanho do que tinham descoberto ou achado! E, por força da extração daquela madeira de cor brasina, o pau-brasil, objeto de intenso comércio no século XVI, por fornecer um corante vermelho muito usado para tingir tecidos e fabricar tintas, logo o nome não era mais Ilha de Vera Cruz nem Terra de Vera Cruz, mas simplesmente Brazil, inicialmente com “z” e depois como “s”, como veio a consolidar-se. O habitante deveria ser braziliense, com “z”, ou brasiliense, “s” com som de “z”, por estar entre duas vogais, mas, por designar o ofício de quem derrubava as árvores para comercializá-las chamou-se brasileiro, à semelhança de marceneiro, ferreiro etc. Por pouco, o brasileiro não é identificado hoje nos documentos como pau-brasileiro. Seria demais! Da casa do caraclum a pau-brasileiro! Mudamos muito? Nem tanto! Outras nações para cá acorrem com o fim de levar, não pau-brasil, mas ferro-brasil, aço-brasil, pedra-brasil, cereal-brasil, diversidade-brasil etc, para dar empregos em outros lados do mundo e conjugar o velho verbo mais praticado nos primeiros séculos, roubar! Embora nossa classe política, com tanta corrupção, insista em tratar-nos com se vivêssemos ainda na casa do caraclum, o certo é que de grão em grão, não a galinha, mas o povo enche o papo. E quinhentos anos depois vive muito melhor do que vivia naqueles primeiros séculos. (xx) Transcrito do Primeira Página, São Carlos (SP), 22/04/2012 • O escritor Deonísio da Silva é Doutor em Letras pela USP e autor de 34 livros. O mais recente é o romance Lotte & Zweig. É vice-reitor da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

ESTÁCIO é síncope de EUSTÁCIO. Sinkopé, em grego, é cortar. Já na adaptação foi cortado o fonema "u". A palavra fez a seguinte viagem. Em grego, EUSTATHEES quer dizer sólido, bem construído. Era pronunciado OISTACIS no grego clássico. Daí passou a metáfora de firme, constante, que está, que fica, que permanece, é são. Houve mescla com EU ISTEEMI, bem construído. Pronuncia-se "OI ISTEEMI". Só então passou a nome e virou EUSTATHIOS, no grego, e era pronunciado OISTÁCIOS. Quando os romanos invadiram a Grécia, trouxeram esse nome para Roma e passaram a escrever EUSTHATHIUS, em latim, que pronunciavam EUSTÁCIUS, porque este segundo TH era pronunciado com som de "s". Ao passar para o português, houve corte do "U" na sílaba inicial, corte , corte do "H" junto ao "T" nas duas sílabas seguintes, corte de "S" final e mudança de "U" para "O". Virou ESTÁCIO, com acento, para não ser pronunciado "ESTACÍO". Escrever bem é cortar, coisa de que os barrocos e Deonísio da Silva não gostam muito por acharem que uma flor é bonita, mas um ramalhete é muito mais. (xx)

sexta-feira, 23 de março de 2012

JOSÉ FOGAÇA COMENTA LOTTE & ZWEIG

http://josefogaca.blogspot.com.br/2012/03/lotte-zweig-os-cinco-itinerarios-um.html
Um texto preciso, com o estilo de José Fogaça, um intelectual e político de extraordinário desempenho nos diversos campos em que tem atuado. Ter um romance comentado por essa referência solar faz com que até o próprio autor volte a seu livr...o para reler, outra vez, o texto com o qual tanto conviveu nos últimos anos. Obrigado, meu querido amigo, pela carinhosa atenção que deu às tramas que urdi para os últimos momento daquela noite fatal, palco de uma tragédia sem outras testemunhas que não suas vítimas, pois seus algozes desapareceram nos tempos que se seguiram. Acendi um fósforo nessa escuridão e à pequena luz juntou-se a sua, iluminando desvãos do meu romance até para mim mesmo.
http://josefogaca.blogspot.com.br/2012/03/lotte-zweig-os-cinco-itinerarios-um.html
José Fogaça

sexta-feira, 9 de março de 2012

O ENIGMA D STEFAN ZWEIG

Livro diz que o autor da frase "Brasil, país do futuro" não se matou, mas foi assassinado por nazistas
Marcos Diego Nogueira



SUSPEITA
A não permissão da autópsia de Zweig (acima) e a recusa
de entregar o corpo ao rabino são indícios de assassinato

Um suicídio mal contado ou um homicídio forjado? Para o escritor Deonísio da Silva, as circunstâncias que envolveram a morte do casal de austríacos Stefan Zweig e Charlotte Altmann, em 1942, em Petrópolis, pendem para a segunda opção. Ele está lançando “Lotte & Zweig” (LeYa), romance que se baseia nas cartas deixadas por Charlotte, cuja tragédia ao lado do seu marido escritor foi até hoje atribuída a um autoenvenenamento. “O fato de não autorizarem a autópsia dos corpos e de eles não terem sido entregues aos rabinos para serem enterrados em um cemitério israelista é indício contrário”, diz Deonísio. Zweig era um judeu de origem austríaca que amava o Brasil. Biógrafo de sucesso, foi o autor da expressão “Brasil, país do futuro”, usada para dar nome ao livro que exaltava o lugar que o acolheu como morador. Não veio para Petrópolis em 1940 apenas para fugir do nazismo, mas também para proporcionar a Lotte, que tinha problemas respiratórios, um cotidiano saudável na região serrana fluminense. Dois anos depois, ambos foram encontrados mortos pela faxineira da casa. Estavam abraçados. Ventilou-se a hipótese de ingestão de veneno, mas a falta de perícia não definiu qual substância teria sido usada.



Deonísio aposta na hipótese de uma execução típica de uma visita de nazistas. “Fazia menos de um mês que o Brasil havia entrado na guerra contra a Alemanha e havia muitos nazistas na América do Sul”, afirma o autor. Para ele, o fato de não existir documento que comprove essa versão não desvaloriza a sua teoria. À época, Zweig já era um escritor renomado e aclamado por leitores de todo o mundo pela biografia de Maria Antonieta, rainha da França. Não passava por dificuldades financeiras e teria morrido com altas reservas no banco. “Não havia motivos para ele se matar”, diz Deonísio, que preferiu contar essa história pela visão de Lotte, 30 anos mais jovem que o marido. A opção pelo romance lhe permitiu exercitar a imaginação sem abandonar o rigor da história.

“Documentos podem ser construídos com mais inventividade que a ficção e o romancista, por sua vez, pode se valer de elementos que não
são documentados”, argumenta Deonísio em defesa do caráter híbrido de sua obra.”

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ECOS ESTRANGEIROS NA LÍNGUA PORTUGUESA

Não é de hoje que palavras e expressões da língua inglesa reverberam em nosso idioma

A expressão "Dia D" é tradução do inglês D-Day. O primeiro Dia D deu-se na Segunda Guerra Mundial. A invasão da Normandia estava marcada para 5 de junho de 1944. Como fez mau tempo, o desembarque deu-se no dia seguinte. "Dia D" migrou do meio militar para os dicionários com o fim de designar o começo de uma operação planejada com bastante antecedência.

Outra expressão nascida naquela guerra foi "blecaute", do inglês black out. De setembro de 1939 a abril de 1945, os ingleses eram obrigados por lei a cobrir as janelas antes de escurecer, para dificultar os bombardeios alemães. Hoje é mais comum "apagão" em vez de "blecaute".

Nós voltamos à estaca zero, mas originalmente a volta era à estaca um: "Back to square one". Nos albores da Era do Rádio, os ouvintes tinham dificuldade de entender um jogo que não viam. Uma representação gráfica do campo, imitando um tabuleiro de xadrez, passou a ser publicada nos jornais para que eles acompanhassem os jogos, voltando sempre que necessário à estaca um.

Guinéu
O porquinho-da-índia não é porco e não é da Índia. As Índias Ocidentais foram confundidas com a América do Sul, onde o bichinho era criado para alimento. Desde o século 19, o animal vem sendo usado como cobaia, que em inglês é guinea pig. Guinea designava, não apenas a Guiné, mas qualquer lugar muito distante dos EUA. E os bichinhos eram vendidos por marinheiros ingleses ao preço de um guinéu,
moeda de ouro. O nome pegou.

E ainda temos os problemas da tradução. "O xerife xis despachou o deputado Fulano para investigar um caso", estranhou Ruy Castro, que explicou a confusão: "o xerife estava dando ordens ao seu humilde auxiliar - deputy, em inglês."

Visitas, as palavras vindas do inglês devem ser bem recebidas, desde que não mandem em nossa casa, a língua portuguesa. Do contrário, o texto vira uma miscelânea, do latim miscellanea, a gororoba servida aos gladiadores. Aquela refeição poderia ser a última! Afinal, eles iam morrer!

*Escritor, doutor em letras pela USP, professor e vice-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

CONGRESSO DE ESCRITORES: A OMISSÃO DA MÍDIA

O anfiteatro estava lotado no Congresso de Escritores para minha oficina A Arte de Narrar. Durou duas horas. Foram feitas perguntas muito pertinentes. Fábio Lucas, um dos melhores críticos literários do Brasil, assistiu à oficina inteirinha. Menalton Braft, grande escritor, com prêmios importantes na bagagem, inclusive alguns Jabutis, me apresentou ao distinto público, mas todos conheciam o autor ou sua obra e disseram que por isso mesmo se tinham inscrito.

No corredor, vejo o escritor Joaquim Botelho, presidente da UBE, que levou sua mãe, a tradutora de grego e de latim, para o Congresso. Que lindo gesto.

Nos corredores e restaurantes, encontro o escritor e tradutor Luís Avelima, quero saber o que anda fazendo, e ele me informa que está traduzindo uma antologia de autores russos. Encontro também a crítica literária Dirce Lorimier e o poeta e ensaísta Claudio Willer. Vejo nos recortes de jornais afixados na parede que o jornalista e biógrafo Fernando Morais e a romancista e psicanalista Betty Milan falaram no dia anterior a diversas das pessoas ali presentes. Betty enfatizou as relações entre autor, obra e público, e as dificuldades do autor para chegar ao leitor, dado o antigo (que parece eterno) problema da distribuição de livros. Fernando Morais queixou-se de que não vai poder pagar a indenização de R$ 500 mil, imposta em rumoroso processo judicial movido por Ronaldo Caiado, que se sentiu ofendido em certos trechos da biografia de Assis Chateaubriand.

Na sala ao lado, o jornalista e romancista José Nêumanne Pinto disserta sobre o que sabe de Lula e reitera que seu livro O que sei de Lula (Editora Topbooks) apresenta um Lula de direita, vindo das lutas sindicais que, segundo ele, tem projetos estranhos e parece ter como prioridade ocupar os aparelhos de Estado.

Se cobertura

Nos jornais e revistas nas bancas, nenhuma linha sobre o Congresso de Escritores. Minha memória começa a brotar. No primeiro, em 1945, eu ainda não tinha nascido, e dele só sei o que li, com destaque para a presença de Graciliano Ramos. Mas do segundo, em 1985, eu estava participando como escritor, já com oito livros publicados, pois que demorara quarenta anos para que fosse realizada aquela segunda edição.

Neste terceiro, agora com 33 livros publicados, e tendo chegado ao Outono, com meus 63 anos, o que vejo? O que vejo é pouco em comparação com o que vi em 1985. Tancredo Neves agonizava num hospital e morreria dali a dois ou três dias. Coubera-me, então, sentar ao lado de Rubem Braga, que a toda hora me pedia para olhar para a mesa onde estavam o presidente José Sarney, ao lado de Fernando Henrique Cardoso. O sabiá da crônica, seu melhor epíteto, me cochichava ao ouvido: “Como esse Fernando Henrique é cínico!”

Mas em 1985 havia a imprensa espelhando aquele Congresso. Deste, a mídia, com raras exceções, esteve ausente. Mas nas navegações ao longo da vida também se rema contra a corrente, e aqui estamos, em Ribeirão Preto, a postos mais uma vez. Tomara que ao próximo Congresso de Escritores a imprensa vá e informe ao distinto público o que ocorrer. Do contrário, a mídia, obcecada com denúncias de todos os tipos, deixará de informar um momento decisivo da vida dos escritores.

Bem, esta é uma crítica de mídia, e, no caso, foi a crítica de um sentida ausência. Não sei por que os jornais, as revistas, as emissoras de rádio e TV não foram cobrir o Congresso. Só sei que não foram e aqui deixo da ausência tão notada este inconformado registro.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

ETIMOLOGIA: CHARADA, ESFEROGRÁFICA, NÉCESSAIRE ETC

Charada: do francês charade, ligada ao provençal charrado, conversa para passar o tempo, donde algumas charadas publicadas na imprensa serem denominadas também passatempo. Malba Tahan, pseudônimo do brasileiro Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), apresenta várias charadas em seus livros, como esta, extraída de Matemática Divertida e Curiosa: vários sábios reunidos no palácio de um califa pedem ao geômetra persa Beremiz Samir que escreva uma expressão igual a 100 na qual constem, sem repetição, nove algarismos. Ele responde com a seguinte: 1+2+3+4+5+6+7+8 x 9=100. E ainda lhes dá uma segunda opção: 91+542/638=100. Em geral, charada designa um problema que pode ser resolvido mediante reflexão e criatividade, como na expressão “matou a charada”, isto é, encontrou uma solução para o problema.

Denominar: do latim denominare, formado da preposição de e do verbo nominare, nomear, com sentido diferente, pois nomear aplica-se mais a indicar oficialmente para um cargo e designar é dar nomes, seja a pessoas, seja a lugares, para identificá-los. No Brasil, há nomes folclóricos, como Hímen: o irmão mais velho do nascituro era fã da personagem He Man, o pai não soube dizer direito e o escrivão fez o resto do estrago, sem se dar conta de que referia um seriado infantil da televisão. Também têm denominações curiosas alguns municípios do País, como Doutor Pedrinho (SC), nome do filho do governador da época, e Anta Gorda (RS), que foi mudado para o do então governador, mas não foi aceito pela população, que consolidou o nome do animal. Brasil: Almanaque de Cultura Popular registra outros nomes curiosos de municípios, como Varre-Sai (RJ) e Não-Me-Toque (RS).

Esferográfica: do grego sphaîra, esfera, e graphikós, gráfico, referente ao ato de escrever. Quem inventou esse tipo de caneta foi o judeu húngaro Laszló Biró (1899-1985), em 1938. Ele e o irmão Georg, químico, solicitaram a patente da esferográfica na Hungria, na França e na Suíça, em 1938. Fugindo dos nazistas, Laszló e Georg receberam a patente em Paris. Na Iugoslávia, Laszló conheceu Agustín Pedro Justo (1976-1943), presidente da Argentina entre 1932 e 1938. Para lá emigraram e, com a ajuda do amigo argentino Juan Jorge Meyne, os irmãos Biró fundaram a companhia Biró y Meyne, em 1940. Essa segunda patente saiu em 1943. Em 1944, foi vendida a um grupo industrial norte-americano por 2 milhões de dólares, mas reservando a propriedade na Europa a Marcel Bich (1914-1994). Para facilitar a pronúncia do sobrenome, a caneta passou a ser comercializada sob a marca Bic, na Europa, em 1949; em 1959, nos Estados Unidos; e a seguir em muitos outros países.

Municipal: do latim municipalis, ligado a municipium, pela formação munus, cargo, ofício, e capere, referente e ligado a jurisdições maiores, originalmente províncias de Roma e hoje unidades políticas e administrativas dos Estados, com o fim de assegurar direitos aos cidadãos romanos. A origem remota é a raiz indo-europeia “*mei”, mudar, trocar. As palavras municipium e municipalis tinham no latim vinculações com munus facere, desempenhar o cargo, fazer alguma coisa, donde praefectus, prefeito, ligado ao verbo praeficire, evoluído de prae facere, fazer antes, antecipar-se.

Nécessaire: do francês nécessaire, redução de nécessaire de toilette, estojo, maleta, valise ou bolsa contendo objetos indispensáveis, no Brasil mais usada por mulheres, que levam no recipiente batom, pente, pó, escova e outros recursos de toalete e maquiagem rápida, embora seja designada nécessaire também quando utilizado para levar agulha, linha e outres itens de costura, ou, ainda, pequenas ferramentas de uso manual em alguns ofícios. A palavra ainda não foi aportuguesada, embora esteja há três séculos entre nós.

Tamanho: provavelmente do latim tam magnus, tão grande, mas que acabou se tornando termo de comparação também para coisas menores. O Brasil é tão grande que só no Município de Altamira (PA), o maior do País, caberiam quatro Holandas, mas é habitado por apenas 105000 pessoas. O menor do Brasil em extensão é Santa Cruz de Minas (MG). Já os cerca de 800 habitantes de Borá (SP), o menor município do Brasil, caberiam num avião.

‘Sociedade 43 x governo zero’

A liberdade de expressão é importante para quem quer ser livre, mas é mais importante ainda para a sociedade, que tem o direito de saber o que pensam aqueles que escrevem. E daí, sim, discordar ou concordar com eles.

Antes de ser levada ao ar, a peça publicitária com Gisele Bündchen foi escrita, isto é, pensada. Podemos falar sem pensar, o que vale para muitas desculpas, mas escrever sem pensar, não! A letra de cada palavra é digitada e isso toma muito tempo.

Felizmente, o Brasil que presta se mexeu, como diz Augusto Nunes em suas criativas indignações. E a manhã do dia 13 de outubro de 2011 vai ficar na História do Brasil e principalmente nos anais da defesa da liberdade de expressão. O Conselho de Ética do Conar recomendou o arquivamento da Representação Hope/Gisele Bündchen.

A decisão da 1ª. e da 8ª. Câmaras do Conselho de Ética foi tomada por unanimidade: 43 votos a zero a favor da manutenção da peça publicitária da campanha da Hope, fabricante de lingeries. A ministra Iriny Lopes pode recorrer da decisão. Não se sabe se exercerá esse direito.

Recordemos! A peça publicitária, estrelada por Gisele Bündchen, foi criada pela Giovanni+DraftFCB. Diz a ata: “Os membros do Conselho de Ética presentes à sessão de julgamento, realizada na manhã de hoje, na sede do Conar, em São Paulo, acompanharam o voto do relator, que considerou que os estereótipos presentes na campanha são comuns à sociedade e facilmente identificados por ela, não desmerecendo a condição feminina”.

A representação tinha sido aberta por denúncias formuladas ao Conar por cerca de 40 consumidores e também pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Representantes da Secretaria, do anunciante e da agência participaram da sessão de julgamento.

A ministra Iriny Lopes anda metendo os pés pelas mãos há algum tempo. Já enviou ofício à Rede Globo sugerindo uma mudança no andamento de Fina Estampa. O personagem Baltazar (Alexandre Nero) humilha e bate na esposa, Celeste (Dira Paes). A ministra pede que Celeste vá atrás da Rede de Atendimento à Mulher por meio do número telefônico 180. Além disso, quer que Baltazar seja levado a algum centro de reabilitação, conforme previsto na Lei Maria da Penha. Se Os irmãos Karamazóv ou qualquer outro livro de Dostoiévski for transposto para a telinha, o que vai “sugerir” a ministra? Que os filhos não matem os pais? Para Crime e Castigo vai sugerir que Raskolnikov seja punido por agressão a idosa? Até Chapeuzinho Vermelho está em perigo. Por que vovó foi abandonada num asilo florestal?

O fascismo não consiste apenas em proibir uma coisa. Os fascistas querem obrigar a dizer ou a fazer outra! O autor do roteiro de Fina Stampa, o escritor Aguinaldo Silva, quem diria, sucede a Dias Gomes também nesse particular: Roque Santeiro foi proibido durante a ditadura militar, mas nenhum censor atreveu-se a ensinar Dias Gomes a escrever. Essa ministra quer mais: ela sugere, compreendem?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

ETIMOLOGIA DE 28 DE SETEMBRO DE 2011

Conquistador: de conquistar, do latim vulgar conquisitare, do latim clássico conquirere, mas remotamente radicado em quaerere, procurar. Designou originalmente o chefe militar vitorioso que anexava territórios e ainda trazia os bens confiscados do vencido. Pitigrilli, pseudônimo do escritor e jornalista italiano Dino Segri (1893-1975), escreveu que quando levaram um pirata à presença do rei macedônio Alexandre, o Grande (356-323) para ser interrogado, este lhe perguntou: “Não te envergonhas do teu ofício?”. Ouviu em resposta: “Sou pirata porque possuo apenas um navio. Se possuísse uma esquadra, seria um conquistador.” Conquistador tem também o sentido de namorador.

Dita: do latim dicta, coisas ditas, feminino plural de dictum, dito, particípio do verbo dicere, dizer. Ganhou o sentido de destino, sorte, donde ditoso, feliz, e também desdita, falta de sorte. Em Os Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões (1524-1580), Portugal é assim definido: “Esta é a ditosa pátria minha amada,/ À qual se o Céu me dá que eu sem perigo/ Torne com esta empresa já acabada,/ Acabe-se esta luz aqui comigo.”

Livralhada: de livro, do latim livrum, livro, declinação de liber, película entre a madeirae a casca das árvores. Era nesse tipo de material que se escrevia antes da descoberta do papiro, mas o nome se consolidou, mesmo quando o livro passou a ser impresso. Até o livro eletrônico é chamado de livro, e-book, abreviação do inglês eletronic book. Livralhada formou-se de livro e alhada, com exclusão do “o” em livro. O estranho e pejorativo coletivo é dito também livraiada, mas Eduardo Frieiro (1889-1982), escritor e professor mineiro hoje meio esquecido, preferiu livroxada, como se lê em Os Livros Nossos Amigos: “Acontece frequentemente que estes livros, pela maior parte, não são lidos e nem ao menos abertos. Essa livroxada vai-se então acumulando a um canto.”

Presbítero: do grego presbíteros, velho, ancião. Passou a designar autoridade importante na Igreja, sacerdote referencial, em cargo atribuído a um homem dentre os mais velhos da comunidade. Para os protestantes, presbítero equivale a bispo. Em algumas igrejas, presbítero é a pessoa eleita pela congregação para ser o chefe espiritual. Nos albores do cristianismo, a língua grega forneceu a designação para várias funções e instituições eclesiásticas e esses étimos permanecem na língua portuguesa, tendo ou não passado pelo latim, como eclésia, diocese, bispo, episcopal. E este é o caso de presbítero.

Seguro: do latim securus, firme, tranquilo, certo, adjetivo que indica ausência de risco, de perigo, isto é, sine cura, sem cuidado, mas aqui com o sentido de dispensar preocupação, inquietação, aflição, angústia, tarefa delegada a outrem, como no caso de seguro contratado. Como substantivo designa contrato pelo qual o segurador se obriga a pagar ao segurado uma indenização, caso ocorra algum sinistro. O professor Julio Cezar da Silva Pauzeiro (47), da Universidade Estácio de Sá, engenheiro e pós-graduado por várias instituições, fez estudos muito pertinentes sobre o tema, abordando em especial a relação entre segurados, corretores e empresas, num livro de leitura imperdível, intitulado As Estratégias Adotadas pelos Corretores de Seguros na Gestão de seus Negócios: um Estudo de Múltiplos Casos, publicado pela Escola Nacional de Seguros.

Tuitar: do inglês twitter, trinar como um passarinho, imitando seu canto. O sentido de postar comentários em microblogues, limitados a 140 caracteres, foi introduzido em 2006. Veio para o inglês do antigo alto alemão zwizziron, hoje zwistschern, gorjear ou tomar um gole.

Ultrapassar: do prefixo ultra, do latim ultra, para além de, mais longe, transpor, exceder, e de passar, do latim vulgar passare, afastar as pernas, passar. O prefixo está presente em ultramontano, para além dos montes, e o verbo ultrapassar aparece com frequência nos avisos de trânsito, quando sinais de advertência lembram que é proibido seguir em velocidade maior do que a do carro que está na frente ou mediante sinais nos quais aparece a figura de um veículo com uma faixa indicando proibição. Uma linha amarela contínua no leito da estrada, à esquerda do motorista, também indica que é proibido ultrapassar naquele trecho.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ETIMOLOGIA DESTA SEMANA EM CARAS

Caderno: do latim quaternus, assim chamado porque originalmente era uma folha dobrada em quatro partes. Ele substituiu o rolo de papiro e a lousa portátil, depois que a grande lousa tornou-se recurso didático quase exclusivo do professor.

Difusão: do latim diffusione, declinação de diffusio, do mesmo étimo de fundere, espalhar, e de funda, funda, laçada de couro ou de borracha para atirar pedras. Na mídia, depois do jornal, do rádio e da televisão, a difusão ganhou dimensões de multimídia. Uma das conquistas mais recentes é expressa no neologismo podcast, palavra forjada pelo escritor britânico Ben Hammersley (36) a partir de iPod — I, eu, em inglês, e pod, acrônimo para portable on demand, portátil sob demanda, mas aqui com o sentido de Eu desejo — e broadcast, transmissão.

Lousa: do latim lausiae, pedra rasa assentada sobre a sepultura. Como redução de lausiae lapides, pedra de ardósia, designava a lousa, quadro de ardósia de tamanhos variados, com moldura de madeira, posta sobre a carteira escolar, fixada na parede ou sobre um cavalete, destinada a nela se escrever com giz. Desde a antiga Roma, o aluno levava a lousa para a schola, intervalo para aprender, depois que o ensino deixou a aula, o palácio, e foi levado a todos, livres ou escravos. Com o tempo, ficou apenas a lousa grande, que mudou de nome para quadro-negro, e em cuja superfície o aluno às vezes era instado a manifestar a todos os colegas e ao professor sua ignorância ou saber! No tablet, a ignorância e a sabedoria tornaram-se privativas de cada um, que vai partilhar apenas o que quiser!

Ouvir: do latim audire, a partir da raiz indo-europeia aus, orelha, presente no grego otós, genitivo de oûs, ouvido, étimo presente em otite e ótico. Não confundir com óptico. Ótico diz respeito ao ouvido, à audição. Óptico, à visão. Otite é inflamação do ouvido. Óptica diz respeito à visão e aos olhos. O poeta carioca Olavo Bilac (1865-1918) fez, entretanto, uma criativa e complexa união entre os dois verbos, ouvir e ver, nestes versos: “ ‘Ora (direis ) ouvir estrelas!/ Certo, perdestes o senso!’/ E eu vos direi, no entanto/ Que, para ouvi-las,/ muitas vezes desperto/ E abro as janelas, pálido de espanto./ E conversamos toda a noite,/ Enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto/ Cintila./ E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,/ Inda as procuro pelo céu deserto./ Direis agora: ‘Tresloucado amigo!/ Que conversas com elas?/ Que sentido tem o que dizem,/ Quando estão contigo?’/ E eu vos direi:/ ‘Amai para entendê-las!/Pois só quem ama pode ter ouvido/ Capaz de ouvir e de entender estrelas.’ ”

Tablet: do francês tablette, pelo inglês tablet, diminutivo de table, mesa, designando originalmente mesinha, placa, tabuinha e também livro de lembranças. Modernamente, aplica-se a computador pessoal, em formato fino e pequeno, que semelha a versão eletrônica da lousa usada para estudo entre os antigos romanos. Dispensando o mouse, é operado pelo sistema touch screen, toque na tela. O tablet não exclui o professor! Torna-o muito mais eficiente, por melhor aparelhá-lo! As bibliografias são inseridas, atualizadas e disponíveis, a um clique, o que permite a docentes e alunos um novo e poderoso quadro de referência para ensinar melhor. Há evidências de que a qualidade do ensino vem melhorando após a adoção do tablet.

Urbano: do latim urbanus, habitante da urbs, urbe, como era designada no latim a cidade, que passou depois a civitas. O étimo antigo ainda é predominante, como se constata em subúrbio, bairro nos arredores da cidade, e suburbano, aquele que mora nesses lugares. Urbano tomou o sentido de educado, em oposição a aldeão e vilão, habitantes da aldeia e da vila.

Vinheta: do latim vinea, vinha, pelo francês vignette, enfeite usado para adornar peça de mobília ou de louça e ilustrar manuscritos, servindo também para destacar ou separar certos trechos da escrita. Recebeu tal designação porque esses ornamentos tinham a forma de folhas de parreira e cachos de uva. No rádio e na televisão, designa chamada de curta duração utilizada em abertura, encerramento ou reinício dos programas, para destacar a estação, o conteúdo ou o patrocinador.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

MEC MOSTRA QUE ENSINO VAI MAL

MEC MOSTRA QUE ENSINO VAI MAL

De cada vez escolas públicas, oito não atingiram a média de 553,73 pontos nas provas do Exame de Ensino Médio (ENEM). A escala é de mil pontos. Assim, se a prova fosse bimestral, semestral ou final, os melhores alunos teriam tirado nota abaixo de seis!

É muito pouco! Mas a maioria nem a isso chegou. A escola classificada em primeiro lugar, o Colégio São Bento, do Rio, alcançou modestos 761,7 pontos. Também é pouco. Afinal, aluno que tem média 7,61 é um bom aluno, mas comparado a seus colegas europeus, americanos ou chineses não é!

A mídia está comparando as escolas públicas com as escolas privadas, mas são muitos os textos que omitem o seguinte: a rede pública responde por 88,2% de todos os alunos do ensino médio.

O ensino médio vai mal? Bem, nem precisava medir, o senso comum já sabe disso há muito tempo, mas de todo modo essas estatísticas servem para revisões e planejamentos, pois é preciso saber onde, quando, como e para que investir. O próprio MEC já sabia da situação calamitosa do ensino médio pelos exames do Sistema de Avaliação Básica (SAEB).

O que fazem as escolas que se saíram bem? Naturalmente, o óbvio: seus alunos estudam e têm melhores professores! Estas são as duas razões principais. Têm também melhores instalações.

O MEC já sabe o que fazer: reformar as instalações, pagar melhor os professores e exigir deles constantes estudos com o fim de aperfeiçoar o conhecimento das disciplinas que ministram, pois agora, com a atualização das bibliografias por meios eletrônicos (internet, tablet etc), eles correm o risco de saberem menos do que seus alunos mais aplicados, aos quais devem ensinar e não apenas com eles aprender.

A relação bunda-cadeira-hora, abandonada há anos na escola pública, que privilegia merenda, certamente necessária, mas os alunos não foram ali para comer, foram ali para estudar, deve ser retomada imediatamente. As escolas que ficaram nos primeiros lugares fazem no lugar onde estudam três refeições diárias e não apenas a merenda.

Seus alunos começam a estudar às 7h30 e saem às 16h20. Há ainda aulas de reforço em outros horários e provas e exames simulados aos sábados. Ali, porém, filhos de pobres não entram, a não ser em casos raríssimos: as mensalidades estão ao redor de R$ 2.000,00 (dois mil reais).

Os melhoramentos aplicados nas escolas de excelência podem ser estendidos a todas as outras escolas, públicas ou privadas. O segundo e o sétimo lugares, por exemplo, couberam ao Instituto Dom Barreto e ao Educandário Santa Maria Goretti, do Piauí.

Há outras surpresas no ranking. São Paulo, o mais avançado estado da federação em tantos quesitos, aparece com uma única escola entre as dez mais, atrás do Piauí, com o Vértice Colégio. O estado de Minas Gerais ocupa quatro das dez primeiras posições. E certas regiões, tradicionalmente bem avaliadas, como o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e o Paraná, não têm nenhuma escola entre as dez mais.

É bom o MEC medir. Sabemos que vamos mal e isso é um bom começo: conhecer a realidade para saber o que fazer. (xx)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ETIMOLOGIA DE BRASILIENSE, PERFÍDIA ETC

Brasiliense: de Brasil, mas a partir do nome de nosso país em latim, Brasilia, que aportuguesado, com acento no “i”, veio a designar a atual capital brasileira. Brasiliense e braziliense foram usados como alternativas a brasileiro, nosso adjetivo pátrio. O sufixo “-eiro” indicou originalmente o comerciante de pau-brasil e não nossa nacionalidade. Assim, o primeiro jornal foi o Correio Braziliense e o atual Hino da Indepedência chamou-se inicialmente Hino Constitucional Braziliense.
Conto: do latim computus, conta, enumeração. O étimo de putare, julgar, está presente nesta palavra e também em computare, contar, que ganhou o sentido de narrar pela enumeração de acontecimentos e detalhes em uma história. O conto de fadas, que precedeu as narrativas literárias curtas, tem sua grande referência no dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), que escreveu 156 contos infantojuvenis. Sua influência é tão grande que o dia de seu nascimento, 2 de abril, é o Dia Internacinal do Livro Infantil. Os contos mais conhecidos de Andersen são: O Patinho Feio, A Pequena Sereia e O Soldadinho de Chumbo. Também os irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), alemães, recolheram e reescreveram fábulas que podem ser lidas como contos infantojuvenis. Os mais conhecidos são: Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida e Rapunzel.
Garbo: do italiano garbo, talvez com raízes no árabe qalib, modelo, molde. Tomou o significado de cortesia, amabilidade. Aparece na última estrofe do Hino da Independência do Brasil: “Parabéns, oh brasileiros/ Já, com garbo varonil/ Do universo entre as nações/ Resplandece a do Brasil”. A primeira estrofe também foi escrita com palavras rebuscadas e sintaxe arrevesada, como era próprio do estilo epocal: “Já podeis da pátria, oh filhos/ Ver contente a mãe gentil/ Já raiou a liberdade/ no horizonte do Brasil”. “Mãe gentil”, qualificando a pátria, aparece também no Hino Nacional, em que está presente a mesma metáfora da liberdade como Sol, “raios fúlgidos”, e a luz e o brilho implícitos no conceito: “do universo entre as nações/ resplandece a do Brasil”.
Helicóptero: do francês hélicoptère, aeronave de asas rotativas, ditas móveis, ao contrário das do avião, que se ergue verticalmente do solo e se desloca para cima, para baixo e para os lados. O francês aproveitou os compsotos gregos héliks, hélice, movimento circular, da raiz indo-europeia wel/welw-, rolar, rodar, e pterón, pena, penacho, pluma. A invenção do helicóptero se deve a franceses, alemães e ingleses, mas quem realmente fez por merecer a sua invenção foram o alemão Anton Flettner (1885-1961) e o russo Igor Ivanovich Sikorsky (1889-1972), em 1909.
Perfídia: título de famoso tango, aparece em sofisticados versos do Hino da Independência: “Os grilhões que nos forjava/ Da perfídia astuto ardil/ Houve mão mais poderosa/ Zombou deles o Brasil”. Naqueles anos, apenas a elite culta e frequentadora dos palácios conhecia palavras tão raras. Em quatro pequenos versos, três palavras são incompreensíveis para incultos: perfídia, astuto, ardil. Também a inversão sintática atrapalha a comprensão. Na ordem direta ficaria assim: o astuto ardil da perfídia forjava grilhões para nós. Mas apareceu mão mais poderosa (e) o Brasil zombou deles (dos grilhões). Grilhões eram correntes de ferro para prender condenados ou escravos. Ardil é armadilha, cilada. E perfídia é traição.
Televisionar: de televisão, do francês télévision e do inglês television, palavras surgidas respectivamente em 1900 e 1907, fez-se este verbo que designa o ato de transmitir programas à distância pela televisão. As transmissões feitas por canais abertos, mais populares, contrastam com aquelas realizadas por televisão a cabo, efetuadas pela primeira vez por John Watson (1914-1993) e sua mulher, Margaret, proprietários da Companhia de Serviços Elétricos de Mahanoy City, na Pensilvânia. Ele instalou uma antena no alto de um morro e fez a imagem chegar lá por cabo, mas no caminho conectou as casas de vários de seus clientes a esse cabo central. Hoje a televisão a cabo está presente em 60% das residências nos EUA e na Europa e em muitas no Brasil.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A placenta e o caixão

Quem de nós já não se irritou com algum tipo de embalagem? Ah, escritores românticos! Como ignorastes o cotidiano das pessoas numa sociedade que se industrializou desse modo!

É de manhã, o astro-rei espalha seus primeiros raios fúlgidos sobre a parte que lhe cabe da pátria, o torrão em que vivem você e a família que você preside, antigamente a célula-mater da sociedade e hoje a célula-mártir, tantas as preocupações que desabam sobre o lar. O seu dia nem bem começou e você já está todo atrapalhado.

Na verdade, seus atrapalhos começaram ao acordar. Você dá um pequeno tapa no rádio-relógio para que o instrumento de suplício pare de bombardear seu ouvido com aquele zuem-zuem, bip-bip ou nheco-nheco. Se você despertou com rádio ou televisão, responda depressa: por que tanta gritaria nos comerciais?

Você, enfim, levanta com o pé direito, supersticioso que é. Mas como tirar o aparelho de barbear daquele bunker em que puseram a parte que tem a lâmina? Está escrito descartável. Descartável para quem? Mais fácil os aliados destruírem o esconderijo de Hitler na Segunda Guerra Mundial do que você arrebentar o invólucro onde a gilete está escondida.

Feita a barba, você se sente glorioso: sobreviveu e está com a cara limpa. Mais daí aquela toalha da poderosa indústria têxtil que proclamou suas vantagens na televisão - você bem que, outra vez, acreditou, pois é um homem de fé e acredita em todos eles -, com a qual você acaba de enxugar o rosto, deixa aqueles ridículos fiapos sobre a sua face de brasileiro envergonhado da sociedade high tech em que vive. Sua meia desfia ao menor toque da unha. Com sua consorte, não é diferente. Ainda na caixinha, sua meia-calça já foi rasgada antes de sair dali.

Sim, é verdade que temos carros luxuosos, máquinas sofisticadas e um arsenal de leis impressionante, sendo essa Constituição uma das mais prolixas do mundo. Mas você pensa que os constituintes, que tabelaram de mentirinha os juros a 12% ao ano, poderiam fazer uma Constituição modesta e de verdade incrustando artigos que tratassem de melhorar o cotidiano dos cidadãos? Por exemplo: a tampa do dentifrício há de ser menor do que a circunferência do buraco da pia? E como ser feliz se a tampa, como a felicidade, nunca está onde nós a pusemos e sempre cai onde não queremos?
Se não nos é permitido sonhar com uma sociedade cuja Constituição garanta que todos sejam iguais perante a Lei, que pelo menos nos seja lícito exigir que as embalagens não nos façam sofrer tanto. De que serve você brilhar na sua profissão, vencendo um monte de obstáculos, se, do alto de seus saberes, você é derrotado pela caixinha de iogurte, cuja orelha, como a de Van Gogh, você extirpou na tentativa de sorver a delícia descrita em cores vivas no invólucro? Você manda a orelhinha arrebentada para a filha do fabricante como prova do incontido amor que você tem pela empresa?

Meu Deus, nossa primeira embalagem, a placenta que nos embrulhou na vinda para cá, já não era lá essas coisas. Talvez seja para compensar que enfeitemos tanto os mortos. Que o caixão, nosso derradeiro pacote, que nos levará deste para o outro mundo, sobre o qual temos muita curiosidade mas nenhuma pressa de ir, resista àqueles últimos amigos que nos haverão de carregar para a nossa última morada e também nosso último cacófato.
Já pensou se o fundo desprega e você cai no meio do corredorzinho do cemitério ou diante do altar, onde sua alma acabou de ser encomendada? O velho São Pedro, experiente, ranzinza e com estabilidade no emprego há quase dois milênios, aceitará a encomenda em embalagem assim esculhambada?

• Escritor e professor, Deonísio da Silva é Coordenador Geral de Letras e um dos Vice-reitores da Universidade Estácio de Sá. É autor de 33 livros, alguns deles publicados também em outros países e membro da Academia Brasileira de Filologia.