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domingo, 23 de dezembro de 2012

O NATAL DO FIM DO MUNDO

Este ano o Natal foi precedido de anúncios do fim do mundo para o dia 21 de dezembro. O fim do mundo já foi anunciado muitas vezes. Os primeiros cristãos acreditavam que Jesus voltaria no ano 100, ao fim do primeiro século, para julgar os vivos e os mortos. Originalmente a palavra “século” designava um longo tempo, que poderia ser de cem ou de mil anos. Depois tornou-se sinônimo de centúria, de centenário, modo de contar o tempo, mas também de contar soldados, pois centúria era o conjunto de cem homens do exército romano. Seu comandante era o centurião. Os soldados romanos encarregados de executar a sentença de morte de Jesus no ano 33 eram comandados por um centurião chamado Longinus, aquele que enfiou uma lança no peito do Crucificado, de onde saíram água e sangue. Longinus tinha uma doença nos olhos, curou-se com os respingos e passou a ver com perfeição. E chegou a Portugal e depois ao Brasil com o nome de São Longuinho, alteração de São Longino, aquele que ajuda a encontrar objetos perdidos, por ver melhor do que nós. Jesus é um dileto filho do Judaísmo e nasceu por volta do ano 6 a.C. Um monge chamado Dionísio datou o nascimento dele no ano 753 da fundação de Roma, renomeado ano 1. Atento ao fato de que Maria dera à luz ao Menino Jesus por ocasião do recenseamento ordenado pelo imperador César Augusto e executado na Palestina, Judeia e outras províncias romanas pelo governador Quirino, da Síria, esqueceu-se entretanto de que Herodes, o da matança dos inocentes, morrera quatro anos antes. Então Jesus já era nascido! O próprio papa Bento XVI procura conciliar o Natal com a História em seu livro recente A infância de Jesus. Ele diz que a Estrela de Belém foi um evento astronômico: a conjunção de Júpiter, Saturno e Marte, aliás três deuses romanos. Quando o cristianismo tornou-se religião oficial do império, no século IV, sob Constantino, o Grande, narrativas lendárias se consolidaram, entre as quais a dos reis magos, que não eram três, não eram reis e não tinham nomes. Os Evangelhos dizem apenas que eram magos (sacerdotes, astrônomos) vindos do Oriente. Entretanto os ossos de Gaspar, Melquior e Baltazar (representando brancos, amarelos e negros) repousam na Catedral de Colônia, na Alemanha. Na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, há quatro ripas da manjedoura onde Jesus foi posto depois do parto. Essas são algumas das mais famosas relíquias do Natal! O cristianismo triunfou primeiramente entre os pagãos, no meio rural, e nas bordas das cidades. Paganus, em Latim, é quem vive nos pagos. Para aquelas pessoas simples, pastores, agricultores e pecuaristas, as narrativas tinham que apelar mais aos sentimentos do que à razão. E graças a isso temos histórias, músicas e imagens belíssimas, que anunciam o Natal como um evento que “dá glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade!” O Papai Noel, as renas, a cor vermelha, a neve, a Lapônia etc são a face comercial de um evento que se modificou ao longo dos anos. (xx) * escritor e professor universitário, Doutor em Letras pela USP.