NOME DE POBRE NO BRASIL

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

NOS TEMPOS DE ROMEU E JULIETA, EM 1970!

Eram os tormentosos anos 70 que tinham começado. Eu morava no convento dos padres saletinos no Jardim Social, em Curitiba, e naquela madrugada fomos acordados pelo padre superior que nos mandou en terrar na hora todos os livros suspeitos, pois nosso contato avisara que a polícia viria revistar o convento cela por cela, tão logo amanhecesse o dia. Assim o fizemos. Entre os meus livros enterrados estava "Pedagogy of the opressed", de Paulo Freire, capa azul anil, lindo, e "Educação como prática da liberdade". No fim daquela tarde fui com minha namorada, que não sabia de nada, Soeli da Silva, oito anos depois mãe de nossa filha Manuela, assistir no cine Vitória ao filme "Romeu e Julieta". Eu estudava Inglês no Centro Cultural Americano. Obtivera a melhor média de um aluno que já tinha passado por lá, até àquela data: 9,47. Eu já sabia todo aquele Inglês, tinha aprendido no seminário, mas a pronúncia não era boa, e o professor Dick teve que ter muita paciência comigo nos "repeat, please, Deonísio!", e "again" e nas "substitution tables", faladas! O passado é insaqueável. Aqueles que, em nosso nome e em nosso lugar, décadas depois, roubaram o nosso patrimônio, dizendo que foram eles que derrubaram a ditadura, faziam o quê nesses anos? Alguns de seus líderes estão sendo condenados por roubo do dinheiro público, desvios, sobretudo éticos etc. Voltemos ao Amor, pois só pelo Amor vale a vida! A letra, baseada em William Shakespeare, musica por Nino Rota (olha o nível!) dizia assim: "Deve existir Um bom lugar Só para nós e nosso amor, Cheio de esplendor! Um bom lugar para viver A vida... Que eu sonhei viver só com você! Vou procurar e irei achar Um bom lugar Só para nós. Me dê a mão Vamos sair, e procurar Um bom lugar Para ser feliz! Então o mundo há de saber Que o nosso amor Que o nosso amor Não morrera jamais." Hoje cada um de nós vive outros tempos! Mas a História não seja jamais apagada, pois ninguém constrói mentindo, omitindo e fazendo de conta que só vale o instantâneo. Não! Todos seremos para sempre, como disse Ortega y Gasset, nós e as nossas circunstâncias. Um bom dia a todos vocês! Sim, houve uma vez um verão, mas houve uma vez também uma ditadura. Eu queria ser escritor, era meu sonho, e dali a quatro anos seria preso pelo meu primeiro conto publicado. Solto, escrevi um livro, premiado pelo MEC como melhor livro publicado no Brasil naquele ano (1976, prêmio recebido em 1977) e levado à televisão por Antunes Filho. Desde então, outros livros e essas madrugadas tão diferentes, em que nenhum padre superior vem dizer que você precisa esconder os livros que lê.