NOME DE POBRE NO BRASIL

sábado, 12 de novembro de 2016

DOS EUA PARA AGROLÂNDIA (SC).

Não era assim que o fundador da Newsweek queria sua revista. Sua alma deve ter saído do túmulo e vagado pelas ruas da pequena cidade catarinense quando a revista dava a vitória de Hillary Clinton na capa e o vencedor Donald Trump ria por último. Faltou combinar com os eleitores! Se quiser saber mais, leia "A misteriosa vida do fundador da ‘Newsweek", que publiquei em O Globo, em 13.02.2015, depois de visitar o túmulo e entrevistar em Agrolândia (SC) o seu cunhado e outros que o conheceram quando ele, casado com uma brasileira, morou ali. O jornalismo atual exagera no uso do telefone e da internet, ignorando fontes preciosas, só acessíveis aos olhos e aos ouvidos Há poucos anos, um vídeo de apenas cinco minutos, feito pelo brasileiro Edson Bruno e exibido pela CNN, falado em inglês, mostrava que o fundador da famosa revista “Newsweek” está enterrado em Agrolândia, pequena localidade de apenas 9.323 habitantes, no interior de Santa Catarina, a 274 quilômetros de Florianópolis. Em janeiro de 2015, estive lá, com o fim de pesquisar esse novo mistério catarinense. Sou um detalhista apaixonado por minúcias. Nas biografias que leio, já nas primeiras páginas vou desconfiando de ninharias desprezadas pelos autores. Foi assim quando escrevia o romance “Lotte & Zweig", cujas personagens solares são o escritor judeu- austríaco Stefan Zweig e sua esposa, a judia-polonesa Elizabeth Altmann. Donald Prater, o biógrafo inglês de Stefan Zweig, deu pouca importância ao diabo das pequenas coisas, presente na vida do casal.
O jornalismo atual exagera no uso do telefone e da internet, ignorando fontes preciosas, só acessíveis aos olhos e aos ouvidos de quem vê e ouve para depois narrar. Quando estava na Espanha para escrever outro romance, “Teresa d’Ávila", perguntei a um de meus interlocutores por que razão o túmulo de um dos Herodes estava no caminho para Ávila. Ele me disse: “Homem, a pessoa é enterrada onde morre”. Pois o fundador da “Newswek”, o aviador inglês Thomas John Cardell Martyn — que chegou a ser derrubado pelos alemães na Primeira Guerra —, está enterrado no cemitério de Agrolândia (SC). Ele está enterrado ali, mas sua perna direita, não! Ele a perdeu na queda e usava uma prótese mecânica. A “Newsweek”, fundada em 1933, tornou-se uma das maiores revistas de informação do mundo e chegou a circular em 132 países, com edições de 3,2 milhões de exemplares (agora, está apenas na internet). Thomas Martyn conheceu Irmgard Stahnke no Rio, onde ela trabalhava de doméstica, indicada por um soldado de Agrolândia recrutado para a guarda presidencial. O certo é que se casaram em São Paulo, em 8 de abril de 1961. Ela estava com 40, ele com 65 anos. Muitos anos depois foram morar em Agrolândia para que, quando o marido morresse, a esposa tivesse o amparo dos familiares. Mas ela morreu primeiro, em 1973, aos 53 anos, de câncer no útero, segundo a certidão de óbito. O irmão dela, o alfaiate Afonso Stahnke, atualmente com 79 anos, diz que o câncer foi no ânus e ela sofreu muito com um tratamento à base de cauterizações, feito nas semanas finais de sua existência. O marido, que tinha acrescentado Mary ao nome da mulher, declarou ao cartório, “por respeito”, que ela falecera de complicações cardíacas por causa de um câncer no útero. Mas pediu que o declarante fosse o cunhado. Martyn morreu em 1979, aos 84 aos, também de câncer, uma das maiores causas de morte na região. Talvez em decorrência de tantos inseticidas nas plantações de fumo. A maioria dos documentos foi queimada, como se faz com o fumo. Mas por quê? Este é apenas mais um dos mistérios na vida deste homem invulgar. (fim)