NOME DE POBRE NO BRASIL

quinta-feira, 28 de julho de 2016

SÉRGIO DA COSTA RAMOS RECEBE DEONÍSIO DA SILVA NA ACL

As Academias nasceram nos bosques de Atenas e as vozes dos sofistas ecoavam ao ar livre. Com a Renascença, elas se abrigaram sob colunas dóricas e veludos, para reunir as greis de artistas e escritores. E as academias foram ganhando uma certa pompa para hospedar o sacramento da Literatura. Imagine-se, Senhor Presidente, esta tribuna transformada num púlpito, nossa Academia de Letras numa basílica em dia de sagração episcopal. Nosso plenário acolhendo ardentes fiéis e a fragrância do incenso se evolando pelo ar - ao ponto do seu alado perfume transformar a ilustre Mesa num altar de missa solene. Sendo ao mesmo tempo laica e ecumênica, esta Academia vive uma noite em que não pode deixar de ser cerimoniosa, pela boa ventura de receber entre os seus pares um cardeal da Literatura catarinense, brasileira e universal. Vejo-o, numa ilusão de ótica, estendido ali na nave central, em vestes sacerdotais, bem no meio deste corredor, e na iminência de receber aqui e agora a ordenação devida pelos seus votos e feitos literários, hierarquia há muito reconhecida em outras catedrais – e hoje crismada na igreja de sua terra, que sobre ele asperge os seus óleos votivos. Já enxergo daqui o Deonísio hasteando em seu lábio de incréu um sorriso de mofa, e pensando: “Chi, o Sérgio está levando por demais a sério aquela brincadeira dos meus amigos de Floripa, velhos camaradas do Seminário Nossa Senhora de Fátima, de Tubarão, que se autobatizaram “Os Presbíteros”. E que, brincando, tratam-se de monsignore, eminenza e até de Camerlengo, por ocasião das eleições papais. Estão todos por aí, Deonísio, balançando os seus turíbulos... ----------- Era uma vez, Deonísio da Silva, um catarinense, filho de um trabalhador das minas de carvão, Silvestre, oriundi italiano de Siderópolis, sopé da grande serra. Autor de 34 livros, professor, etimólogo, membro da Academia Brasileira de Filologia, viveu boa parte de sua infância e juventude em casas paroquiais e seminários de Siderópolis e de Tubarão, até o limiar da ordenação, quando os demônios sartreanos do ser e do existir pediram abrigo em seu sótão. Para desgosto, talvez, do padre Herval Fontanella, que lhe ensinou o primeiro Latim e que o queria só sacerdote. Melhor doutor em Literatura e um escritor do mundo do que padre em Leiria, num certo sobrado criado por Eça de Queiroz... Se o quase sacerdote desenrolasse aqui toda a sua biografia acabaria lendo um longo breviário – que é tudo, menos sinônimo de “breve”. E se optasse por enumerar o rol de sua obra, então, acabaria lendo, com jeitão travesso, uma Bíblia iconoclástica, dividida em dois testamentos: No Velho Testamento, abriria o pergaminho do seu primeiro grande romance – “A Cidade dos Padres”, de 1986. Uma epifania literária, em que o autor revisita a história, ajustando o relógio para girar ao contrário, desde os tempos da “Revolução Redentora” do general Figueiredo , anos 60 a 80, até o Império sob a tirania fiscal do Marquês de Pombal, no século XVIII, – quem sabe uma boa explicação para as roubalheiras que hoje nos presidem e atormentam. Uma criativa anarquia, que reconstituiu, “avant-la-lettre”, este Brasil hoje identificado como um local “propício aos desmandos, à desorgarnização e à pilhagem do dinheiro público”. Melhor premonição para os acontecimentos do que hoje chamamos de “Lava Jato”, impossível. Do seu Novo Testamento, anos 90, emerge o grande sucesso que primeiro o levou para além do mapa do Brasil - o “Premio Casa de las Americas”, em 1992, num júri presidido pelo futuro Nobel José Saramago. “Avante Soldados, Para Trás” é uma diabrura literária em que o escritor alista-se nos “voluntários da Pátria” e, como um “soldado narrador”, vai à guerra do Paraguai. Do “front”, descreve o conflito com a licença da ironia e do bom humor, a partir da “Retirada da Laguna”, narrada como derrota épica. Porque o narrador está lá não para endossar a história oficial, mas para relativizá-la e descrer de todas as verdades absolutas. No fundo, um libelo contra a guerra e a favor do homem. Esse reconhecimento internacional levou o ex-quase padre Deonísio às fronteiras do Vaticano: numa banca de revistas da Piazza de Spaña ou da elegante vizinha, Via Condotti, em Roma, é possível comprar dois livros de Deonísio da Silva: “Avanti soldati, Dietro Front” - a edição italiana do premio assinado por Saramago - e o seu mais recente sucesso, “Lotte e Zweig”, em que narra, com estrutura de novela policial, a morte de Stefan Zweig e sua mulher, Charlotte, na Petrópolis de 1942, quando o escritor austríaco descobriu que o seu desencanto com o mundo incluía o “país do futuro”. O autor instiga o leitor, inaugurando um novo mistério: suicídio shakespeariano num pacto de amor ou duplo homicídio pelo braço longo do nazismo? Diz-se que tamanho condão criativo, de criar ficção sobre a história oficial, teria levado o povo de Roma, ainda outro dia, a confundir - em pleno domingo de benção na Piazza São Pedro - os dois paramentos que na manhã de sol brilhavam na moldura da grande janela . Ao longe, identificaram claramente só uma das duas figuras: - Aquele à esquerda, a la sinistra, é o padre Deonísio, scrittore brasiliano. O outro, de branco, acho que é aquele argentino contra quem a gente torceu na Copa América... Claro, nós, leitores, vamos logo esperar da inventiva do nosso caro escritor, uma versão picaresca e criativa da perda daquele pênalti pelo argentino Messi. Teria sido pouca reza do seu colega de janela, Francisco, mera culpa fadista de um tango de Gardel ou simples macumba da torcida brasileira? Tudo é possível em se tratando desse originalissimo realismo fantástico de Deonísio da Silva, em que a ficção surge como detetive da verdade e a imaginação como seu salvo-conduto, tudo sobre o magnífico alicerce de uma cultura consolidada, capaz de produzir densos romances na forma de roteiros cinematográficos, como nos já mencionados “A Cidade dos Padres” ,“Avante” e “Lotte & Zweig”. Além de outros tão instigantes quanto “Tereza D’Ávila”, em que o autor intromete-se entre as muralhas de Ávila e flagra a Santa em seu Convento, lutando contra as febres da matéria, a sanha punitiva dos inquisidores e a própria fé, que as vezes fraqueja. É bem diversificado o seu empório de criativa Literatura, seja na crônica ou no conto, em que também é mestre, e cuja maior prova é seu último livro do gênero, “A Placenta e o Caixão”. Ou o seu primeiro conto elogiado em resenha nacional, “Cenas Indecorosas”, notado por ninguém menos que o nosso líbano-biguaçuense Salim Miguel, em crítica literária para o “Jornal do Brasil”, no quase longínquo 1976. Tanto talento brilha também em ribaltas nas quais suas obras são adaptadas, no teatro ou no teleteatro, como em “Relatório Confidencial”, dirigido por Antunes Filho. Com tempo e oportunidade também para o cronista Deonísio e o etimologista de jornais e revistas de circulação nacional, ou para os seus livros de Literatura Infantil. Do escritor para crianças, aliás, brotou uma confissão: “Eu não sabia escrever para crianças, aprendi com minha filha Manuela”. Tamanho é o fascínio do autor pela figura feminina, que ele a cobre de cortesias e reverências na vida e na obra – desde a amante e combatente Mercedes de “Avante Soldados”, à tentada carmelita de Ávila do romance que primeiro se chamou “Pedras em febre”, depois simplesmente “Tereza”; até à infeliz secretária Lotte , mulher de Stefan Zweig, figura chave do romance sobre a saga do perseguido escritor austríaco. Ou à primeira mártir do Brasil, beata Albertina Berkenbrock, assassinada em defesa de sua virtude na Imaruí de 1931. Todas estão ou estarão na prosa do escritor, esse admirador das mulheres que não pode deixar de reconhecer uma verdade absoluta: pertence a elas um pedacinho da insígnia que esta Academia daqui a pouco pendurará em seu peito. Pertence a todas elas e à Manuela, a filha que, aos 13 anos, influenciou no desfecho de “Avante Soldados” e que hoje, adulta, instiga o pai a afinar o senso crítico, enquanto ajuda o país a justiçar seus malfeitores como Promotora de Justiça em São Paulo. Na verdade, ai dele se não admitir outra grande heroína em sua vida: aquela que possui o condão de lhe fazer coriscar a centelha criadora e o dínamo da pletórica produção: leitora, crítica e musa – musa, cuja etimologia, sabemos, nasce de música, canção. Harmonia que o aqui recepcionado faz questão de ouvir da mulher Michele, sempre que inicia a aventura de uma nova escrita. “Elas são – derrete-se o escritor – a melhor parte da natureza humana” e a própria Literatura nada mais é do que um empenho do homem em indenizar-se pelas imperfeições da sua natureza”. A vida de Deonísio é a Literatura, como escritor, doutor em Letras e professor do magistério superior. À essa arte imprimiu sua marca, reescrevendo a história pelo avesso e servindo apenas ao leitor e à Literatura - e à nenhum outro mandarim. Se é chegada a hora da sagração, senhor presidente, quando esta Casa recebe um hierarca da Literatura brasileira, é preciso dizer que Deonísio da Silva é um grande admirador da Literatura de Santa Catarina, desde os tempos de Siderópolis e de Tubarão. Faz questão de ser um admirador de muitos dos que daqui a pouco serão seus pares nesta Casa. Gosta de ser um simples, um autor que é sobretudo um leitor e que gosta de cultivar a Literatura da sua terra. Sabemos que “um autor só é bom se é bom leitor e melhor inventor”, na bem humorada definição de Alberto Manguell, que, na juventude, lia para Jorge Luis Borges - e era dele os seus olhos. A liturgia desta noite, senhor presidente, é dupla: as campainhas querem dizer que a recepção a Deonísio é também uma benção à Academia, posto que é a Literatura em pão e vinho que recebemos. Vivemos, senhor presidente, um grande momento deste sodalício quase centenário, um tempo de transformações e de eleições, ditados pela própria progressão da vida. Circunstância que realça a solenidade deste momento. “Os abençoados mortos”, pontificou Graça Aranha sobre a Academia Brasileira de Letras, “deram-lhe a mais preciosa das vidas, a vida eleitoral”. E resumiu: “São as mortes que dão vida às Academias. Boa recepção, pois, e longa vida aos que chegam, e reverência aos que construíram ao longo dos tempos esta catedral de cultura - como o saudoso escritor, contista de truz e cultor das melhores utopias, Francisco José Pereira, a quem sucede o recepcionado. A Literatura, aqui, senhor presidente, deve ser, mais do que nunca, um ato de fé e de reconhecimento. Houve época em que a própria Academia Francesa quebrou a tradição dessa preeminência literária, acolhendo eminentes figuras da vida pública, homenageando a sociedade pela academização de seus notáveis. Conta o escritor e imortal Carlos Heitor Cony que, certa vez, Joaquim Nabuco sugeriu ao Petit Trianon o nome do Barão de Rio Branco, então Ministro de Relações Exteriores e o homem mais importante do seu tempo. “Machado de Assis hesitou, alegando que o indicado nada escrevera até então. Nabuco argumentou: “Machado, o Rio Branco está escrevendo o mapa do Brasil”. E o Barão acabou acadêmico. Felizes, senhor presidente, somos nós: Deonísio da Silva tem obra, tem mérito e tem “sustança”, como diria um manezinho da Ilha catarina. Tem obra e está escrevendo o mapa de Santa Catarina na Literatura do Brasil. ==================================Muito obrigado