NOME DE POBRE NO BRASIL

domingo, 24 de julho de 2016

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS

Dedico este discurso a pessoas muito queridas e, por motivos diferentes, muito importantes em minha vida: • Soeli Maria Schreiber da Silva, com quem fui casado por mais de trinta anos, mãe de nossa filha • Manuela Schreiber e Sousa, casada com • Rodrigo Ribeiro de Sousa, um filho para mim, ambos aqui presentes, e • Michele Roberta da Rosa, minha companheira já há alguns anos. Senhor Presidente de nossa Academia, Salomão Ribas: não é à toa que muitos de nossos grandes autores cursaram Direito, como fez o senhor presidente e como fizeram tantos confrades desta Academia. Senhora Secretária Lélia Nunes: a mulher deu o terceiro passo na vida literária, ao passar de personagem e leitora, a autora, como evidenciam sua presença aqui e a de Leatrice Moelmann e Urda Klueger, entre outras. Até então narradores masculinos cometiam as maiores gafes quando adentravam por temas que ignoravam, fossem cólicas menstruais, gravidez ou estados de alma que só as mulheres sentem, e que só podem entender aqueles que seguem o conselho de Olavo Bilac: "Amai para entendê-las!”. E o poeta acrescentou: “Pois só quem ama pode ter ouvido/ Capaz de ouvir e e de entender estrelas". As mulheres que amamos, a começar por nossas mães, são nossas estrelas-guias! Vou me demorar um cadinho mais neste assunto, pois ele é o mais relevante, uma vez que nenhum de nós estaria aqui, não fosse uma mulher generosa que um dia fez com nosso pai uma coisa até então proibida. O próprio Criador reconheceu em Hebraico e em Grego o que São Jerônimo traduziu para o Latim vulgar:“Non est bonum esse hominem solum; faciam ei adjutorium simile sui”: Não é bom que o homem esteja só; façamos alguém semelhante a ele para ajudá-lo”. E recentemente a professora Francesca Stavrakopoulu, nascida num subúrbio de Londres, filha de mãe inglesa e pai grego, Doutora em Teologia pela Universidade de Oxford, encontrou evidências em suas pesquisas arqueológicas de que o próprio Jeová teve uma esposa chamada Axerá, escondida pelo patriarcalismo que tomou conta dos hebreus no cativeiro da Babilônia. Prezados confrades, autoridades, amigos, conhecidos, respeitável público. Hoje é dia de abandonar as “velhas tristezas que se vão embora/ no poente da Saudade amortalhadas! ...”, como disse Cruz e Sousa, certamente a figura solar das letras catarinenses, cumprindo o destino da literatura brasileira, que faz com que todos os que tenham talento emerjam um dia, uma vez que não há força que os abafe, pois não se tapam sóis com peneiras. Aliás, luzes poderosas não são tapadas com nada! Saúdo especialmente suas excelências, os leitores, os principais personagens na vida de todos os autores, pois que com obra, mas sem leitores, não existimos, ainda que nem sempre escritores e leitores sejam contemporâneos. Coube-nos a sorte de contar com leitores no breve intervalo entre o berço e o túmulo que é a vida, e isso é graça alcançada, sem a novena do Menino Jesus de Praga, graça de graça, mesmo, vinda dos misteriosos motivos que levam alguém a abrir um livro nosso e ler, estejamos vivos ou mortos. Este é o contexto para designar um imortal literário, alguém cuja obra tornou-se perene, imorrível como diria o ministro que moldou “imexível” quando precisou explicar plano econômico do governo Collor e justificar que sua cachorra era um ser humano como qualquer outro, temas imperdoados, entre outros, por dois confrades de muita verve, na fala como na escrita, e referências cardeais de nossas letras, Sérgio da Costa Ramos e Péricles Prade. Peço licença para não citar a todos, como é minha vontade, pois todos os meus confrades, alguns dos quais amigos de longo convívio, embora pouco frequente pela distância de nossas moradas, estão nesta casa por merecimento, fazendo jus ao que se convencionou denominar imortais, não por suas pessoas, mas por seus livros, pois imortais podem ser nossos escritos, jamais nossas pessoas. Como se sabe, é paradoxalmente alta a taxa de mortalidade entre os imortais. Devagarinho, convido-os a saber um pouco do que me traz aqui, dito por mim mesmo, isto é, pela mais inconfiável das versões. Aprendemos também com o que não é, para sabermos o que é, pois não disse Picasso que “a arte é uma mentira que revela uma verdade”? A literatura também. Desde priscas eras, escrever é fingir, como fingia o artífice, que poderia ser um oleiro, que fazia uma persona, isto é, uma máscara, seu significado primordial. Como se sabe, entre as credenciais dos aqui chegados está em relevo para muitos deles a arte de fingir, não no sentido moral que o verbo tomou, mas no significado de moldar e modelar, à semelhança do oleiro, para dizer algumas coisas sobre a condição humana, uma vez que não escrevemos para outros seres vivos que nos rodeiam, como animais, flores e plantas domésticas. É para pessoas que escrevemos. Por mais que um pássaro, um gato, um cachorro, uma vaca ou um muar se encantem diante de quadros, músicas, imagens ou textos, em que talvez sejam personagens, é para olhos, ouvidos e outros sentidos hu-ma-nos que escrevemos. Registro, porém, por inusitado, que outro dia vi e ouvi uma tropa de vacas que pararam de pastar para ouvir Beethoven, embora, é claro, fossem holandesas as vacas, e de Beethoven a música. Não sei se não sairiam correndo se fosse o violento Dvórak ou o insípido Michel Teló, digamos. Voltemos à vaca-fria, de outra espécie de vacas, expressão que designa o ato de voltarmos ao assunto principal. Originalmente o bicho foi um carneiro. Um advogado digredia muito sobre o assunto, talvez uma partilha de carneiros, e o juiz propôs “voltemos aos nossos carneiros”. Como em Portugal foi costume servir carne fria de vaca antes das refeições, às vezes, terminada a comida quente, voltava-se àquela carne, por muito saborosa. Era, então, agradável voltar à vaca-fria. E não as carneiros frios. E volto dizendo: nem sempre somos entendidos. Foi assim com Crispim Mira, o patrono da cadeira que ora poderei vir a ocupar, DEPOIS desta posse – nós não sabemos nada de nossas existências no futuro, não apenas do tempo que nos resta, nada sabemos do próximo minuto, pois tudo isto é mistério, e o próximo minuto poderá ser o ponto final da narrativa referencial que é a vida, tão fugaz e tão breve, como foi para Crispim Mira, que morreu assassinado na redação do jornal onde escrevia, em 1927, com apenas 46 anos, segundo nos informa, entre outros, o escritor catarinense Enéas Athanázio, autor de “Jornalista por ideal”, biografia do patrono da cadeira 5 desta Casa, cujo fundador foi o também jornalista e advogado Leopoldo de Dinis Martins Júnior, mais conhecido por Dinis Júnior. Teve vida mais longa o fundador da cadeira que homenageia Crispim Mira, pois, nascido em Florianópolis, Dinis Júnior morreu no Rio de Janeiro, em 1967, aos 80 anos. Penso que alguns dos presentes, se não conheceram o patrono, conheceram o fundador. Não tive esta sorte. Aliás, também Crispim Mira foi advogado. Embora sem curso superior, naqueles anos era possível exercer o Direito como “advogado provisionado”, figura hoje extinta. Faz algumas décadas que até os próprios cursos de Direito desconfiam do saber que ministram aos advogados que ali se formam e oferecem cursos adicionais para que eles possam ser aprovados nos exames da OAB, Ordem dos Advogados do Brasil. Teobaldo Costa Jamundá, o intelectual que veio a tornar-se o primeiro sucessor do fundador não era catarinense de nascimento, mas sabemos que gato que nasce no forno não é biscoito - e que por isso o professor Salésio Herdt, reitor da Unisul, aqui presente, não é alemão, é brasileiro - e que a utilizar-se o mesmo critério a escritora Clarice Lispector, de repente com tanta atenção para sua obra, ela que teve tão poucos leitores quando viva, não seria escritora brasileira, mas ucraniana. Jamais esquecerei certos episódios da vida de Clarice Lispector dos quais fui testemunha ocular e auricular. Estava sem dinheiro e pediu direitos autorais a seu editor, que era o mesmo meu, e ouviu em resposta que seus livros não vendiam nada, que ela deveria escrever sobre sexo. E ela escreveu tempos depois. O título é “A via-crúcis do corpo”. De todo modo, o editor lhe adiantou pequena quantia. De outra feita, em jantar na casa de Rubem Fonseca, cujos livros vendiam muito bem, ela recomendou que ele prestasse atenção no fenômeno, pois isso raramente era um bom sinal no Brasil. Fora do Estado desde os dezesseis anos, como todos sabem, eu conheci Teobaldo Costa Jamundá, em Florianópolis, quando fui agraciado com o Prêmio Virgílio Várzea de Literatura, juntamente com Maria Odete Olsen, então esposa de meu confrade Oldemar Olsen Jr, e fomos apresentados a ele por Maria Tereza de Queiroz Piacentini, que nesta época trabalhava com João Nicolau Caravalho, na Fundação Catarinense de Cultura, que ele presidia. Teobaldo Costa Jamundá nasceu no Recife e morreu em Blumenau, em 2004, aos 90 anos. Jornalista, poeta de versos sensíveis e bem cuidados, de olhar atento a usos e costumes catarinenses, dedicou muito de seu tempo à pesquisa do rico e complexo folclore de Santa Catarina, singular por muitos motivos, um dos quais é a sutileza com que se mesclaram aqui neste terrum as crenças populares indígenas, as de matriz luso-brasileira e as contribuições vindas de outros imigrantes europeus e africanos, sobretudo, na rica mistura de entidades que nos divertem, assustam ou abençoam, conforme as superstições e crenças de vários estamentos culturais que encontraram neste Estado um campo fértil para suas manifestações, algumas, aliás, hoje reprováveis, como é a Farra do Boi, que, à semelhança das Touradas, só dá certo para seus críticos quando a vítima não é o animal...Pois Teobaldo Costa Jamundá fixou-se nestes estudos, tão raros, infelizmente, mas tão pertinentes. O próximo ocupante e mais recente, cuja vaga hoje terei a honra de ocupar, se Deus quiser, como diz o povo para tudo o que está no futuro, ainda que o futuro pareça bem próximo, foi Francisco José Pereira, falecido há apenas quatro anos, em 2012, aos 79 anos. Seu berço e seu túmulo, eles os encontrou aqui, em Florianópolis, deixando-nos uma obra valiosíssima como jornalista, romancista, contista, ensaísta e editor, pois publicou livros de vários autores catarinenses na editora por ele fundada com o nome de Guapuruvu, dita também Garapuvu, a árvore-símbolo de Florianópolis. Destaca-se em sua obra um estudo que o aproxima muito de meu ofício de via vicinal, o da lexicologia, ou, como digo, o de botânico das palavras, que tanto serve ao principal, o de jardineiro, por permitir um acréscimo nem sempre dispensável, de saber exatamente qual foi no berço o significado da palavra, com o fim de invocar aquelas que expressem exatamente o que sentimos ou pensamos, ainda que às vezes em nosso tempo elas signifiquem o contrário do que expressaram no nascimento. Por exemplo, o Sumo Pontífice não constrói mais pontes sobre o rioTibre, nem as inaugura, nem as abençoa. A palavra passou a designar o Papa, sinônimo de pater, pai em Latim. Aliás, por celibatário, o Papa, cujo significado é pai não é pai de ninguém... Talvez muitas palavras sejam semelhantes àqueles que as proferem...E Francisco José Pereira deixou contos e romances de lado, deixou o jornalismo de lado em suas preferências e fez neste tempo um ensaio muito pertinente sobre o vocabulário de “Os Sertões”, a obra máxima do engenheiro militar e jornalista Euclides da Cunha. Até aqui falei dos meus confrades que já foram, pois a vida inclui a morte. Como se vê, a média de interesse pela eternidade, pela qual todos temos muita curiosidade, mas nenhuma pressa de conhecer, exceto os suicidas, poderia demorar-se um pouco mais e, no caso do patrono, muito mais! Todavia nenhum dos citados partiu por conta própria, ainda que infelizmente seja tão frequente entre artistas e escritores o suicídio, diga-se de passagem, e eu mesmo me interessei pelo tema no romance mais recente, “Lotte & Zweig”, com capa muito bela, de autoria da artista catarinense e minha querida amiga, Arlinda Volpato, casada com o advogado e empresário, Wilson Volpato, que foi quem primeiro me fez apreciar quão belos eram os versos de Castro Alves e outros poetas por ele declamados, como reconhecemos todos nós, os presbíteros – capitaneados pelo presidente de nossa confraria de ex-seminaristas, o também advogado e empresário José de Souza Patrício. Presbíteros é como nos chama Sérgio da Costa Ramos, com a verve tão deliciosa de suas crônicas. De resto, Celestino Sachet é quem nos pode dizer, pois sabe tudo de todos os colegas, no âmbito litérário, se e quais foram os escritores suicidas de Santa Catarina, e se os há, apesar deste mar, destas planícies e destas serras, para citar três antídotos contra o fim prematuro da existência pelas próprias mãos. Na dimensão universal, são muitos os escritores suicidas e só para ilustrar o quanto o tema é evitado, mas recorrente, lembro o caso de nosso vizinho, o uruguaio Horácio Quiroga, cujo pai se matou quando ele era criança, o padrasto suicidou-se diante dele, sua primeira esposa suicidou-se, ele se suicidou e se suicidaram também seus três filhos. De mim não falarei. Não tenho bons juízos a meu respeito. Na verdade, nem gosto de externá-los. Acho o terreno pantanoso das confidências um caminho perigoso, que às vezes é necessário ser trilhado, por necessidade, mas não por gosto, com interlocutores confiáveis e tolerantes, em hora propícia. Nós temos um sincero amor pela confissão e este tema legou-nos grandes obras. A confissão limpa nossa alma, a ponto de designar um sacramento, também conhecido por penitência e por reconciliação. Uns se confessam de pé, outros de joelhos, outros sentados, outros deitados, outros dançando ou balançando o corpo, o certo é que para a confissão a palavra é indispensável, seja ao sacerdote, seja a psicanalistas e psicólogos. Mesmo quando alguém quer confessar-se, nem sempre confessa tudo, pois algumas coisas “nem às paredes confesso”, sobretudo amores ilícitos, como diz o fado. Nosso amigo Evilásio Volpato – tu es sacerdos in aeternum, secundum ordinem Melquisedec (tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec), a frase que designa ofício, mais que vitalício, perpétuo, pois vai além da vida - é quem domina com talento este mister, para o qual é necessário o ato de espremer a própria alma, como diz, aliás, o próprio nome do ato que é requisito: ato de contrição. Melquisedec é uma figura referencial do Antigo Testamento e o sacerdócio não é uma invenção cristã. Eu quero dizer de mim apenas o seguinte: o que sou, o que tenho sido, o que vou ser, devo em parte a muitos de vocês aqui presentes. Devo à gente de Santa Catarina, a mão que ora balança o berço e o faz desde que nasci em Siderópolis, em 1948, aonde um dia aportou meu bisavô italiano Alessandro Daboit, gerando Silvestre, que gerou Leobertina, que casou com Cecílio, filho de gaúchos descendentes de lusos, que geraram 14 filhos, entre os quais um sou eu. Devo ter muitas semelhanças com meus irmãos. Somos sete meninos, eu sou o primeiro deles, mas asseguro que disponho de provas de que não sou lobisomem, e sete meninas. De mim pode ser dito o que a mãe de um talentoso pianista, Marcelo de Moraes Caetano, meu colega da Academia Brasileira de Filologia, no Rio, que, convidada a falar do filho e de como ele se interessara daquele modo pela música, disse apenas: “não sei de nada, até os 14 anos, ele foi normal!”. Eu fui normal até mais tarde. Até chegar aos 27 anos, que celebrei publicando em Curitiba meu primeiro livro e recebendo antes dos 29 anos, com o segundo livro, o prêmio de melhor obra publicada no ano anterior. E o primeiro já tinha sido adaptado para a televisão sem que eu soubesse até então, pois quem levou meu livro à TV Cultura disse que eu tinha me suicidado no Rio Grande do Sul, onde eu morava. Era verdade que eu estava agauchado, mas era mentira que eu me matara. E eu estou acostumado a tratar o suicídio como terror ou como graça desde os verdes anos. Um de meus tios se suicidou e anos depois quando eu lecionava no Paraná e um colega de docência também se matou, ouvi no rádio que EU me matara. Mas quem se matara se chamava Canísio, que confundiram com Deonísio. Se falei tanto de suicídio é porque, como se sabe, ex abundantia cordis os loquitur (a boca fala daquilo que há de sobra no coração), e este tema sempre me fascinou e me fascina. Aliás, suicídios são quase sempre homicídios, quando menos talvez por omissão de alguém do convívio do suicida, sendo, então, o suicídio no mínimo um assassinato coletivo, um linchamento. Como o advogado especialista em crimes não os deseja praticar, mas defender quem teve a infelicidade de cometê-los, ou, sendo promotor, denunciar, ou como o oncologista não quer um câncer para si mesmo, quer é tratar de quem sofre de câncer, eu quero entender o que leva alguém a tirar a própria vida. De meus 34 livros publicados, só um fixou-se num duplo suicídio, do escritor e de sua esposa, que para mim foi duplo assassinato, como sabe quem já leu o livro, aqui e na Itália, onde já foi publicado. Para concluir, muito obrigado a todos. A língua portuguesa é a única do mundo que declara ter obrigações com quem nos fez o bem. Não mereço tanta atenção, muitos dos escritores e outros artistas aqui presentes merecem mais atenção para suas obras, e que nos sirva de consolo o que disse Camões: “Porque essas honras vãs, esse ouro puro/ Verdadeiro valor não dão à gente:/ Melhor é, merecê-los sem os ter,/ Que possuí-los sem os merecer”. Tenho a ilusão de que sou menos pior escrevendo. Por isso, querendo saber mais, leiam meus livros. É a melhor homenagem e o melhor reconhecimento que alguém pode prestar a um escritor: ler o que ele escreveu. Como a pintores, contemplar os quadros que eles fizeram , a atores assistir ao filme ou à peça de teatro, a cantores ouvirem suas músicas e assim por diante. Obrigado, como nos ensina o berço da palavra, e lembrou recentemente o reitor honorário da Universidade de Lisboa, António Sampaio da Nóvoa, designa que temos uma obrigação doravante com quem nos ouviu. O Inglês, o Alemão, o Italiano, o Espanhol e o Francês diriam thanks (do mesmo etimo de pensar: vou pensar em você), Denken (idem), grazie (dar alguma coisa), grácias (ibidem) e merci (do mesmo étimo de mercado e de mercadoria, e também de mercê). Mas o Português não é assim. Nossa língua fixa vínculos muito fortes entre quem recebeu alguma coisa e quem a deu, que passam a ter suas vidas entrelaçadas dali por diante, como se fizessem uma aliança, regida por regras de bom convívio, que exclui apenas pensar ou mercadejar com quem nos agraciou, às vezes não com palavras, mas com o silêncio, ouvindo-nos para que externássemos o que achamos ser do interesse de ouvintes e leitores. Quis ter misericórdia para com ouvintes e leitores, e não abusar da paciência deles. Mas de boas intenções o inferno está cheio, nos ensinou São Bernardo, reiterando que é preciso fazer e não apenas ter intenção de fazer. Declaro, pois, que cumpri na longa caminhada do berço em Siderópolis, onde estive deitado tanto tempo, sob a ameaça de vizinhas que profetizam como sibilas sinistras “este não se cria”, por vezes convencendo até minha mãe, o último requisito para chegar até aqui: fazer este discurso e não deitar-me na cadeira 5, mas apenas sentar-me, certo de que, precisamos trabalhar e não abandonar o ofício depois que chegamos às Academias, como fazem tantos. Que esta Academia não seja cemitério para ninguém e, sim, berçário de novos livros, de outras obras. Para tanto, ouço a voz de meu pai, alegre e contrário ao triste vaticínio da sibilias: “Este se cria, sim”. Tanto estava certo meu pobre pai em sua solitária esperança, como se sabe o último dos males da caixa de Pandora, que o filho se criou. Perguntemos, por fim, e por que a esperança foi concebida pelos antigos gregos e latinos como um mal? Porque a esperança pode nos enganar sobre o futuro. Que desta vez a esperança não nos engane e que aquilo que meus queridos confrades esperaram de mim ao me eleger para lugar tão honroso possa concretizar-se e que eu seja e faça aquilo que de mim esperaram e esperam. Muito obrigado a todos! (fim) Florianópolis, 21 de Julho de 2016