NOME DE POBRE NO BRASIL

domingo, 3 de agosto de 2014

SUA EXCELÊNCIA O CELULAR

http://www.jornalpp.com.br/colunista/item/66742-o-sucessor-do-radio-da-tv-do-computador O rádio não aboliu a leitura nem o hábito da boa prosa entre familiares e amigos, que se visitavam muito. Mas a televisão, sim. Pouco mais do que uma máquina de escrever no começo, o computador, depois da internet, fez parecer mais interessante quem estava mais longe. E o celular acabou de vez com o convívio. As visitas eram recebidas na sala, onde, antes de virem poltronas e sofás, havia uma mesa com bancos e poucas cadeiras, em geral de palha, com um furo no meio. Elas ensejaram a historinha contada por nosso avô, libidinoso e irreverente. Uma viúva se acomodara numa delas, e um gato passou por baixo, de rabo erguido, roçando naquele furo. E ela exclamou no meio da conversa: “Ai que saudade do falecido!”. Talvez este avô tenha feito de mim o escritor que sou. E talvez tenha me tornado também professor por outro motivo: ensinar aos interessados como apreciar uma boa história e para isso dominar a ferramenta de trabalho, a nossa saborosa língua portuguesa, repleta de palavras misteriosas, atraentes, e de frases tão significativas quanto nosso cancioneiro. Nos quartos, só os habitantes da casa entravam.E a parteira no quarto da mãe, onde dormia também o pai, é claro, do contrário não nasceriam bebês. Mas o quarto era da mãe. Nos quartos dos filhos, nas paredes ou em portas dos armários havia recortes de revistas com imagens dos artistas de quem os adolescentes eram fãs. Na cozinha, fogão a lenha, salames dependurados num arame, queijos sobre uma tábua. Num armário, chás, remédios simples. E latas com mantimentos. Eram latas semelhantes a bonecas russas. Vinham sete latas, uma dentro da outra, parecia que a pessoa tinha comprado apenas a maior. Conviviam com os locais as vacas e seus bezerros, o touro, os cavalos, os porcos, o galináceo. E árvores davam sombras e frutos. Este Brasil quase desapareceu. O povo produzia quase tudo o que precisava e ia muito pouco sofrer nos hospitais. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, autor de romances e contos.