NOME DE POBRE NO BRASIL

sábado, 23 de agosto de 2014

FAZ 60 ANOS QUE GETÚLIO VARGAS SE MATOU

Amanhã faz 60 anos que Getúlio Vargas se matou! Antecipo a crônica que sai no Primeira Página, como de hábito.
O jornal “Última Hora”, que hoje não existe mais, estampou em primeira página há exatos sessenta anos, no dia 24 de agosto de 2014: “‘Última Hora’ havia adiantado ontem o trágico propósito”. E mais abaixo: “Matou-se Vargas”. De colorido, em azul claro, só o nome do jornal. O preto no branco acentuava o luto nas chamadas seguintes, todas ainda na primeira página: “O presidente cumpriu a palavra: ‘só morto sairei do Catete”. As informações continuavam, todas ainda na primeira página: “A mensagem que Vargas deixou pouco antes de desfechar contra o peito o tiro fatal: À sanha de meus inimigos deixo o legado de minha morte. Levo o pezar (sic) de não ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que eu desejava”. Todo esse bombardeio foi feito em letras garrafais. E à esquerda, do meio da página para baixo, vinha o seguinte: “Às 8,30 hs da manhã de hoje o maior líder popular que o povo brasileiro já conheceu encerrou de modo dramático a sua grande vida. Um tiro no coração. O general Caiado ainda encontrou com vida o presidente. Desolação no Catete”. Ao longo daquele dia, outros jornais, em sucessivas edições extras, ilustravam um dos maiores acontecimentos do século. Vinham fotos do presidente com um pano branco comprimindo o queixo, com um nó bem em cima da cabeça. Para não aparecer de boca aberta? Sem a camisa do pijama, ainda hoje exposta no Catete, ou aberta para mostrar o lugar exato do tiro, as fotos diziam mais do que as palavras. Getúlio Vargas tinha sido deposto em 29 de outubro de 1945. Voltara ao poder em 1951. Nem antes, nem depois, jamais um presidente se suicidou. Não foram encontradas provas de corrupção. De outros presidentes depois dele, foram encontradas montanhas de provas de corrupção, mas nenhum deles se suicidou. Ao mergulhar no mistério indevassável da pós-vida, por vontade própria, a vida misteriosa do suicida deixa-nos um mistério a mais. º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).