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sábado, 24 de janeiro de 2015

BOI NA LINHA: A VACA TOSSIU E VAI PRO BREJO

A presidente Dilma garantiu que não mexeria em Férias, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, nem em hora extra: “Eu não mudo nem que a vaca tussa”. A promessa foi feita em 10 preciosos segundos: https://www.youtube.com/watch?v=J73sH0EI1Ig A dupla Tião Carreiro e Pardinho faz divertidos comentários cantados sobre expressões nas quais aparecem bichos, de que é exemplo “matar a cobra e mostrar o pau”. São 22 segundos: https://www.youtube.com/watch?v=tz3Scg7NBpE “Nem que a vaca tussa” designa impossibilidade. Mas a vaca tosse, dizem os veterinários! Orientada pelo marqueteiro João Santana, a presidente, então candidata, usou palavras e expressões que todo mundo entende. Os animais aparecem com frequência nas conversas. Outros exemplos são: “A vaca foi pro brejo”. Brejo é terra úmida, pantanosa, a vaca pode atolar-se, isto é, ir para o atol, lamaçal, de onde é difícil tirá-la. E lá ela mantém um “olhar de vaca atolada”. Parece de admiração, é que ela não pode fazer nada para sair dali. Outra: “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás”. Não é verdade. Não é o boi, que já é animal castrado. É o touro.
Outra: “Chutar o balde” é ainda pior do que “chutar o pau da barraca”. No primeiro caso, derrama o leite ou, se o sujeito vai ser enforcado, enforca-se o cara de uma vez. Outra: “Pensando na morte da bezerra”. Esta é de origem hebraica: bezerros e bezerras eram oferecidos em sacrifício; havia casos em que as crianças eram apegadas a eles e choravam. Mas de nada adiantava.
Mais uma. “Tem boi na linha”. Designa atrapalho, obstáculo, dificuldade. Boi na linha era sério problema no Brasil quando Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, construiu, no Rio, a primeira estrada de ferro, inaugurada no dia 30 de abril de 1854. Não foram colocadas cercas nas laterais dos trilhos e por isso era comum que os bovinos atravessassem a linha ou até deitassem sobre os trilhos. A expressão passou a ser aplicada também a escutas indevidas na linha do telefone. Quer dizer, os animais são eternos em nossas conversas. (xx)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

LEITE DA MULHER AMADA OU DA MÃE AMADA?

No Brasil, deu-se tradução libidinosa a um vinho branco, meio doce, de garrafa azul, importado da Alemanha. É o “Liebfraumilch” (leite da mulher amada). O nome é referência à “Liebfrauenstift Kirche” (Igreja de Nossa Senhora). “Milch”, em alemão antigo, é variante de “Minch” e “Monck”, monge. “Frau” é Senhora. E “Lieb” pode ser amada, bondosa, querida. Como se vê, o que era sagrado na Alemanha, virou profano no Brasil. Leites impossíveis aparecem em outras expressões, de que é exemplo “beber leite de galinha”, antiga forma de designar coisa rara e preciosa, mas impossível de ser obtida. Foi registrada nas comédias “Os pássaros” e “As vespas”, peças do grego Aristófanes ( entre séc. V e IV a.C.). Autores latinos, como Luciano e Petrônio, também mencionaram a raridade, mas Plínio, que cochilava e mentia mais do que Homero, atestou ter bebido leite de galinha, dizendo-o de gosto bom. Nas literaturas francesa, italiana e polonesa também encontramos essas impossibilidades. No Brasil, vindo de Portugal, chegou outro leite impossível, o leite de pato. Trabalhar a leite de pato é fazer o serviço de graça, e jogar a leite de pato é jogar sem envolver dinheiro. E o leite batizado? Antigos entregadores, aproveitando-se que o leite era gordo, misturavam-lhe água, fraudando aqueles a quem deveriam entregar leite puro. A expressão nasceu do gesto do padre, que, no batismo, derrama água sobre a cabeça da criança quando lhe administra o sacramento. Uma coisa santificada ajudou a designar atividade ilícita. O leite está também no pedido “me dá um pingado”, em que há elipse da palavra “leite”. O que se quer é um café no qual seja pingado um pouco de leite, isto é, que tenha mais café do que leite. Já esconder o leite é ocultar alguma coisa, como fazem as vacas durante a ordenha manual. Mãe amorosa, a vaca esconde o leite, que depois libera para o bezerro, condenado a ficar só com o apojo. Leite da mulher amada é libidinoso. Mas da mãe amada, como sugere o original em alemão, não! (xx)

FUNDADOR DA NEWSWEEK TRABALHOU PARA A CIA NO BRASIL

Thomas John Cardell Martyn trabalhou para a CIA, na operação Mockingbird, cujo objetivo era influenciar a mídia no mundo inteiro. Ele morreu em 1979 e está enterrado em Agrolândia (SC), localidade de apenas 9.000 habitantes. Foi o fundador da revista Newsweek, como está escrito em letras de metal no seu túmulo, ao lado da esposa catarinense Irmagard Stahanke. O número um circulou no dia 17 de fevereiro de 1933.
Com apenas sete fotografias, vendeu 50.000 exemplares. Mais tarde venderia 3,2 milhões, em 192 países. Hoje suas edições impressas saem em Japonês, Coreano, Polonês, Árabe e Turco. Tem também uma edição internacional em Inglês, mas a edição americana é eletrônica.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

NEWSWEEK E UM MISTÉRIO NO CEMITÉRIO DE AGROLÂNDIA (SC)

Cemitério de Agrolândia (SC). Vida misteriosa do fundador da revista Newsweek, que morreu na cidade natal de sua segunda esposa, a agrolandense com quem ele se casou em São Paulo, em 1969, quando ela estava com 28 e ele com 53 anos. É só uma palhinha que dou aos meus amigos do Facebook. Antes de fundar a revista famosa, em 1933, ele era piloto e foi abatido na Primeira Guerra Mundial, quando perdeu a perna direita. Soube dele por matéria da CNN, feita pelo brasileiro Edson Bruno, em inglês. Está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=aCwOFB8F3XU

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O BRASIL NÃO É MONOTEÍSTA, É HENOTEÍSTA

O Brasil integra a civilização ocidental cristã, que se diz monoteísta, mas acho interessante destacar esta miudeza: não somos monoteístas, pois temos muitos personagens ou pessoas tratados como deuses. Então, somos henoteístas. As palavras “henoteísmo” e “henoteísta”, até então desconhecidas da maioria de nossos ouvintes da Bandnews, apareceram no dia 1º de janeiro de 2015, no programa SEM PAPAS NA LÍNGUA, criado pelo jornalista Ricardo Boechat, depois de uma entrevista que fez comigo nos idos de março de 2011. Se alguém quiser o áudio, é preciso baixá-lo no Google Drive: https://drive.google.com/file/d/0B_onW3GxIVpMdlRxV2paaFBIX3c/view?usp=sharing Estas palavras, “henoteísmo” e “henoteísta” foram criadas pelo orientalista alemão Max Müller, falecido em 1900, aos 77 anos, quando estudava as três religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Elas têm um único deus, tido por supremo, mas não negam a existência de outros deuses. Na linha dos saberes históricos e religiosos do professor alemão, voltou recentemente ao assunto a professora inglesa Francesca Stavrakopoulou, de 39 anos. Na série de televisão da BBC, “Os Segredos Enterrados da Bíblia”, apresentada em 2011, ela comprovou que Jeová era casado com uma deusa chamada Asherath, abandonada depois do cativeiro da Babilônia, quando também o episódio da expulsão de Adão e Eva foi deslocado do meio da Bíblia para o livro de abertura, o Gênesis. Era preciso fazer uma releitura, mostrando que era a mulher (Eva) quem tinha errado, não o homem (Adão). Anjos, santos, santas e divindades afro-brasileiras evidenciam que somos henoteístas e não monoteístas, pois tais entidades são tratadas como deuses e deusas. Temos boas amostras desses cultos nos festejos de fim e de começo de cada ano. Não se pede a intercessão deles, pede-se a graça diretamente. Ou Iemanjá, mulher de Oxalá, mãe de Ogum e de Oxóssi, é intermediária de algum deus? (xx)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

FOLHINHA COM DIAS PRETOS E VERMELHOS. POR QUÊ?

SEM PAPAS NA LÍNGUA DE 1/1/2015 https://www.youtube.com/watch?v=a23945btJYw ETIMOLOGIA E CURIOSIDADES DOS CALENDÁRIOS Nada de Michel Teló e assemelhados! Nosso primeiro programa do ano na Bandnews FM 94,9 começou música de Beethoven e letra de F. Schiller,a companhia de Ricardo Boechat e Maíra Gama, que me acham onde quer que eu esteja. A "folhinha" remete às sibilas que escreviam em folhas de árvores as profecias do ano que começava. Feriados, domingos, e dias santificados têm a cor vermelha, remetendo ao Latim vermiculus, originalmente um verme de fornecia o pigmento para tingir as roupas dos nobres: civis religiosos, militares. Outro fornecedor era a púrpura, molusco de difícil captura. A caça e a pesca dos dois era proibida para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor. O cartão vermelho nos campos de futebol (proibição), o rubor nas faces (indicador de vergonha na cara, sentimento nobre-, os outros amarelam de medo...) e outros símbolos com essa cores nasceram aí.
O homem sempre olhou para cima, para o céu, de noite ou de dia, não apenas pelos fenômenos atmosféricos, mas porque foi originalmente coletor (de frutas: precisava saber as estações em que elas davam...), caçador (caçava à noite: noites claras, de Lua iluminando a mata, eram observadas com cuidado), agricultor, pecuarista. Precisava conhecer, medir, contar o tempo, pois a vida de todos era finita! Plantas, animais, pessoas envelheciam e morriam, cumprindo prazos para amadurecer, procriar, morrer.... Surgiram os calendários. Durante milênios, valeram outros, como os calendários egípcio, chinês, babilônico etc. Desde outubro de 1582, vale o GREGORIANO.
As formas de contar e medir o tempo sempre tiveram vinculações religiosas, mesmo depois que anos e meses foram cientificamente fixados. Ainda hoje notamos isso nas cores dos dias da folhinha, que marcam feriados (religiosos e civis). O arcebispo irlandês James Usher (1581-1656) exagerou: baseado em estudos bíblicos, disse que o mundo foi criado no dia 23/10, uma sexta-feira, de 4004 a.C., às 9h da manhã. O estudioso hebreu Dr. John Lightfoot (1602-1675), vice-chanceler da Universidade de Cambridge, construiu uma cronologia da história de genealogias bíblicas. Ele calculou que o mundo foi criado ao equinócio em setembro de 3298 A.C., à terceira hora do dia (9 da manhã). Tivemos que esperar o século XX, quando Rutherford e Boltwood determinaram a idade de pedras e minerais a partir de medidas de decaimento radioativo. Eles encontraram idades de 500 milhões de anos a 1.64 bilhões anos. Trabalho subsequente encontrou amostras de pedra tão antigas quanto 4.3 bilhões anos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A SABEDORIA PAI D'ÉGUA DOS ALMANAQUES

Fim de 2014. Rotação e translação. A Terra vai enfim completar mais uma volta em torno do Sol, depois de 365 dias e algumas horas. Em torno de si mesma, ela faz o percurso todos os dias. O “quando” tem muito a ver com o “onde”. O tempo e o espaço são irmãos gêmeos. Júpiter leva 11 anos e 314 dias para dar uma volta completa ao redor do Sol. Você descobre a sua idade em Júpiter dividindo-a por 11,3. Este colunista tem 66 anos. Se vivesse em Júpiter (teria 66:11,3=) 5,8. O ano de Plutão é 248,09 vezes maior do que o da Terra. Parece paradoxal, mas se eu vivesse lá, ainda não teria nascido. Como se vê, a volta ao passado não é impossível. A sabedoria dos almanaques é, além do mais, divertida. E onde entram os bichos, as narrativas ficam ainda melhores. O chimpanzé (não é “chipanzé”, como tantos escrevem) adora formigas. E, para caçá-las, mete um galho seco no formigueiro. Os insetos atacam o inimigo, grudando no graveto. E ele se banqueteia com o espeto corrido. Já formigas africanas, ditas caçadoras, atacam um búfalo ferido e de lasquinha em lasquinha, em apenas dez horas, levam os 400 quilos do animal para o formigueiro. Em Jerusalém descobriram um tipo de barata atleta, capaz de correr um metro por segundo. Se jogasse futebol, seria um Garrincha: é capaz de mudar de rumo 25 vezes por segundo durante a corrida. A abelha não morre quando ataca outro inseto. Mas quando pica uma pessoa, a pele dos humanos não lhe permite retirar as pequenas hastes do ferrão: sai junto o abdome, e a abelha morre. Na Idade Média, por superstição, faziam armadilhas para matar gatos. Curiosos, eles iam verificar as arapucas, gerando o ditado: a curiosidade matou o gato. A maioria dos gatos mortos era de cor preta. Desde então é má sorte encontrá-los. Almanaque designa no Árabe o descanso das caravanas de camelos. É quando se contam histórias de todos os gêneros. Afinal, Xerazade ensina: narrar é adiar a morte. (*) Escritor e professor, da Academia Brasileira de Filologia, autor de De onde vêm as palavras (17ª edição) e de Avante, soldados: para trás (publicado também em outros países).

domingo, 21 de dezembro de 2014

O QUARTO REI MAGO

O QUARTO REI MAGO DEONÍSIO DA SILVA º Para Arlinda Volpato, artista plástica Recente manuscrito, encontrado em cavernas próximas de Quram, na região do Mar Morto, traz novas e surpreendentes informações sobre a vida de Jesus. A começar pelo título, que, diferentemente dos anteriores, aparece em letras grandes, encimando a narrativa, e não se chama Evangelho de Fulano, Beltrano, Sicrano ou Outro, mas simplesmente A Vida do Menino Jesus.
Escrito em sânscrito e de autoria feminina, é obra de uma donzela vinda da Índia, acompanhando Jesus, que lá esteve dos doze aos trinta anos, isto é, desde o episódio em que se perde propositalmente dos pais na visita ao templo de Jerusalém, quando então desaparece de todas as narrativas, até sua volta para a Galileia, onde começa a pregar, aos trinta anos. Um dos parágrafos mais desconcertantes é a visita dos magos ao menino, narrada até agora exclusivamente pelo Evangelho de Mateus, uma vez que todos os outros evangelistas o ignoravam ou o omitiram, por razões que desconhecemos. Afinal, os textos sobre o que se entende por A Vida de Jesus, isto é, sua biografia, principalmente os quatro canônicos ou oficiais, mais do que os apócrifos, estão repletos de insólitas contradições, de complexas sutilezas e de mistérios mirabolantes que já duram mais de dois milênios. Mas o que diz Mateus neste parágrafo que todos os outros omitiram? Não sabemos. O original perdeu-se e talvez um dia seja encontrado em outra caverna, preservado por bibliotecário ou bibliotecária anônima – sabemos que mulheres gostam muito de guardar tudo, começando por guardar o sêmen que recolhem dos homens para gerar outros homens, do contrário a espécie desapareceria. Guardar é, pois, prosseguir. Esta é a concepção que elas têm da vida. O que sabíamos da visita dos magos até agora estava exclusivamente nas traduções do texto de Mateus, que fez uma longa viagem, cheia de escalas em muitos portos e portas, fossem de entrada, fossem de saída. Partiu do aramaico, passou pelo hebraico, pelo grego, pelo latim e dali seguiu para muitas outras línguas, incluindo o português, trazido da Europa para o Brasil pelos primeiros navegadores que aqui aportaram entre os séculos XV e XVI. Diz Mateus em alguns poucos versículos do capítulo dois que “nascido Jesus em Belém da Judeia nos dias do rei Herodes, magos vieram do Oriente a Jerusalém para adorá-lo”. Mateus não disse que eram três, nem que eram reis. Não disse também o que nos informa Pradusta – só sabemos o nome da autora no final, pois ela data e assina o documento -, que entre os magos havia uma mulher chamada Asherath, que também estava grávida, e que não trouxe nem ouro, nem incenso, nem mirra, mas um jarro com água fresca. Mulher é assim: pode dar atenção a metais, unguentos e essências que melhorem o ambiente, mas jamais se esquece do essencial. Terminada a adoração, Pradusta diz que os outros magos deixaram a gruta, mas Asherath, não! Ficou conversando mais um pouquinho com o casal e com o menino. Entre as revelações surpreendentes estão estas: José e o menino também falaram. Sabemos que nenhuma criança nasce falando, língua é preciso aprendê-la, qualquer que seja ela, e que José jamais disse coisa alguma em nenhum dos evangelhos. Ele apenas faz o que é necessário para proteger e criar o menino. Desconfia, mas faz. Desconfia que não é o pai do menino, mas fica com Maria, por conselho recebido de um anjo em sonhos. Desconfia que Herodes quer matar o menino e, a conselho do mesmo anjo, de novo em sonhos, foge com a sagrada família para o Egito. Na História da Salvação, foi necessário que José morresse antes do Filho, do contrário teria impedido que ele fosse crucificado. O manuscrito está incompleto, mas vai fazer uma reviravolta na biografia de Jesus. Um comentarista já escreveu que o baralho foi o primeiro documento a reconhecer Asherath na rainha, mas Carlos Magno determinou que ela fosse representada no coringa. O manuscrito continua em exames, pois, sendo apócrifo, pode ser falso. (xx) º Da Academia Brasileira de Filologia, é escritor e professor. Seus livros mais recentes são De onde vêm as palavras (17ª edição) e o romance Lotte & Zweig, já publicado também em outros países.

MISTÉRIOS E SEGREDOS DO CALENDÁRIO

O ano de 2014 envelheceu e vai morrer no dia 31. No dia seguinte, vai nascer um bebezão que já tem nome: 2015. O calendário é irmão da agricultura e da pecuária, surgidas no Neolítico, quer dizer pedra nova (10 mil anos a.C.). Os homens tinham aprendido a fazer ferramentas e passaram a viver em povoações ou aldeias próximas aos rios, de modo a terem água para si mesmos e para os animais que tinham domesticado, como a vaca, a camela e a cabra, que davam leite para eles e para as crianças; e o boi, o camelo e o cavalo, nos quais eles montavam ou aos quais adaptavam carroças e arados, para irem de um lugar a outro, transportarem mercadorias e lavrar a terra para o plantio.
Tal como hoje, eles já precisavam de autoridades para dirimir rivalidades, palavra do mesmo étimo de “rio”. As primeiras autoridades foram os mais velhos. Tais resquícios ainda permanecem em modernos sistemas de poder. Senado tem o mesmo étimo de senex, velho, ancião. E as crianças sabem que podem recorrer aos avós, o STF delas. Os primeiros homens olharam para o Céu para organizar a vida na Terra. A agricultura, a pecuária e o calendário estão ligados ao poder, dado como de origem divina, a teocracia, em que a política é exercida por sacerdotes, intermediários da vontade dos deuses. Dois vestígios deste tempo quase imemorial são o papa e o calendário, chamado gregoriano, porque foi o papa Gregório XIII que, em 24/02/1582, decretou que naquele ano o dia seguinte a 4 de outubro fosse o dia 15. Aqueles dez dias foram para as calendas gregas. Calendário veio de calendae, o primeiro dia de cada mês, palavra do mesmo étimo de calare, convocar. Autoridades religiosas e jurídicas convocavam a todos para nesse dia pagar as contas.
No calendário, o dia e a noite são as medições mais antigas. Em segundo lugar vêm a semana e o mês, medidos pelas quatro fases da Lua. Em último, o ano, que mede o tempo (52 semanas, 12 meses) que a Terra leva para dar uma volta ao redor do Sol. O primeiro dia de nossas vidas é o aniversário. O último é um mistério. (xx) (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor federal aposentado, dá videoaulas à distância na Estácio (RJ), é colunista da Caras (SP) e da Bandnews (RJ), e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

ALGARISMOS ROMANOS. MAS, ALGARISMOS?

Este foi um dos programas mais ouvidos no ano de 2014! Foi sobre ALGARISMOS ROMANOS. MAS, ALGARISMOS? Por que razão os números têm a forma atual: o número 1 tem um ângulo; o número 2 tem porque tem dois; e assim por diante. ZERO, em árabe, tem o significado de VAZIO. Os romanos entretanto tinham apenas letras; I (um), V (5), X (10), L (50), C (100), D (500), M (1.000). O ano de 2014 é escrito assim: MMXIV De 1 a 10: I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X. De 20 a 100: XX, XXX, XL, L, LX, LXX, LXXX, XC, C. De 200 a 3000: CC, CCC, CD, D, DC, DCC, DCCC, CM, M, MM (2.000), MMM (3.000). Deonísio tem LXVI anos (66). Nasceu em MCMXLVIII (1948). Os algarismos arábicos na verdade são indo-arábicos, pois houve contribuição dos hindus na pesquisa que levou à invenção dos algarismos pelo matemático e astrônomo Abu Jafar Muhammad Ibn Musa Al-Khwarizm (nascido em 780; morto m 850), natural da localidade de Kharizm. Ele foi para Bagdá, no atual Iraque, a convite do califa Abû al-`Abbâs al-Ma'mûn `Abd Allah ben Hârûn ar-Rachîd, mais conhecido por Al-Mamum (nascido em 786; morto em 833). Esse califa (lugar-tenente de Deus na Terra, vigário, mesmo título do Papa) queria reunir os sábios do mundo inteiro na capital de seu império, com vistas a fazer de seu reino um centro que contemplasse todos os saberes. Os romanos não precisavam do zero porque não estavam interessados em cálculos e, sim, em determinar quantidades, contando animais, armas, objetos, soldados, pessoas. E durante muitos séculos toda a Europa, ignorando o zero, viveu muito bem sem ele. Mas a numeração romana persistiu nos nomes de papas, de reis, de séculos, de ruas, das horas nos relógios, dos capítulos de livros etc. números e ângulos.jpg

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

SETE COISAS QUE EU SEI SOBRE GAÚCHOS

SETE COISAS QUE EU SEI SOBRE GAÚCHO.
Morei muito tempo no Brasil meridional e aprendi o seguinte: 1) O Rio Grande é o único estado da federação que faz divisas com três países: Uruguai, Argentina e Brasil. 2) Os gaúchos acham que o Atlântico tem água salgada porque a indiada batia os espetos do churrasco perto de sangas, riachos e rios, que, claro, levaram toda essa água salobra para o mar. 3) Eles acham que o Sol é um fogo de chão que alastrou e ficou fora de controle e ninguém mais pôde apagar; de repente fica fraquinho, quando desce lá pelos lados de Uruguaiana, porque bate o minuano ou uma brisa vinda de Alegrete e ele diminui bastante; 4) Ensinam ciência errado nas escolas: a extinção dos dinossauros deu-se em razão de uma churrascada muito do exagerada que se fez; 5) O Saara antigamente era uma floresta com madeira muito apropriada para canzil, canga e... espeto; navegadores que saíram da Lagoa dos Patos em busca de lenha, trouxeram uns galhos de lá e desde então sempre voltaram para buscar mais; 6) Gaúchos vão pro céu: O Coiso não quer saber de pelear com eles na eternidade; 7) Gaúchas vão pro céu também porque lá o capataz é São Pedro: ele gosta de organizar uns fandangos aos quais até o Patrão comparece com Muié, Filho e Espírito Santo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

DEONÍSIO DA SILVA: ENTREVISTA A BRUNA FÜCHTER NOS 130 ANOS DA HOEPCKE

Confira a entrevista com Deonísio da Silva, etimologista da revista CARAS 09/12/2014 Isto se chama etimologia, uma atividade fascinante em busca da origem das palavras. Ninguém melhor que ele, professor, etimologista brasileiro e autor de diversos livros premiados para falar conosco sobre o assunto: DEONÍSIO DA SILVA. Deo, como gosta de ser chamado pelos amigos, escreve há 20 anos uma coluna semanal de etimologia na revista CARAS, onde traz curiosidades sobre a origem das palavras. Conversamos com ele sobre seu trabalho e de onde vêm suas inspirações. Confira esta entrevista exclusiva abaixo (Bruna Füchter)
1- Você assina uma coluna na revista Caras sobre etimologia, ou seja, sobre a origem e o significado das palavras. Como você faz para escolher as palavras que serão abordadas? As palavras são escolhidas por vários critérios, mas damos atenção especial àquelas que estão na ordem do dia. Se os leitores repararem bem, as palavras que se destacam no dia a dia estão na revista CARAS. E de seis delas, toda semana, os assinantes e os leitores eventuais sabem a origem, de onde vieram, que escalas fizeram em outras línguas, o que significavam anteriormente e o que hoje significam. 2- O que “palavra” significa para você? Tudo! Com ela amamos, trabalhamos, lutamos, vivemos. Gente de palavra é gente séria. Os vários significados de "palavra", de que é exemplo a expressão "ser pessoa de palavra", isto é, honesta, faz coincidir o que diz com o que é e com o que faz. Mas "palavra" tem suas complexas sutilezas. Ela é meio estranha, provém de uma adaptação feita pela Igreja, que dominou o império romano do século IV ao XV: sua origem é o Hebraico "párehál", que passou ao Grego como "parabolé", virou "parabola" no Latim e "palavra" no Português. "No princípio era o Verbo". "In principio erat Verbum", na tradução do Grego ou do Aramaico, feita por São Jerônimo, para a versão Vulgata, da bíblia, diz o Evangelho de São João, o mais culto dos quatro narradores oficiais. O Alemão prefere "Wort", sempre com inicial maiúscula, mesmo no meio das frases, porque é um substantivo. E mesmo as palavras cruzadas os alemães chamam "Kreuzworträtsel" (eles nunca mexeram no trema!), em que o étimo de "Wort" está ali no meio. O Inglês prefere "word", que, aliás dá nome a um programa de informática para escrever. Mas línguas neolatinas, muito influenciadas pelo Latim eclesiástico, mantiveram o étimo vindo do Hebraico, do Grego e do Latim. "Parola", em Italiano; "parole", em Francês; "palabra", em Espanhol. Veja que, quando os Ingleses inventaram o sistema dos aristocratas consultarem também a burguesia urbana e os produtores rurais para as decisões de governo, eles trouxeram uma palavra de origem francesa, o "parliament", do Latim "parabolare", que deu "parlare" em Italiano e "parler" em Francês. Até o Alemão respeitou este étimo, aceitando "Parlament" em lugar de "Bundeshaus". 3- Qual o poder da palavra no dia a dia? Respondo com um trecho do romance "Avalovara", do escritor Osman Lins, professor da USP, que sei de cor, pois acho memorável: "A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, é também a bala dos desarmados e o bicho que corrói as carcaças podres". Ou com Carlos Drummond de Andrade: "Lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos, mal rompe a manhã". Quanto a mim, me defino como "botânico e jardineiro das palavras". Botânico, porque as pesquiso e as ensino aos alunos e aos leitores. "Jardineiro", porque nos romances e contos, eu as trato como flores, para fazer buquês que, espero, levem bons aromas, novos significados, mensagens, entretenimento e segredos embutidos, como as flores. Não sou "gigolô das palavras", como se autodefiniu Luís Fernando Veríssimo. Eu as trato com amor! Aliás, não sou o único a fazer isso, claro. Sérgio da Costa Ramos, para mim o maior cronista do Brasil, faz isso tão bem ou melhor do que eu. 4- Você vem da literatura, já publicou diversos romances e contos. Como é para você escrever para uma revista? Quanto à linguagem, é preciso adaptar-se. O estilo não é o mesmo dos contos e dos romances, não pode ser o mesmo dos "papers" acadêmicos, senão meus textos não seriam entendidos pelo grande público, nem sequer lidos. Quanto a tamanhos e prazos, eu aprendi desde os meus verdes anos a ter disciplina no trabalho e em tudo o que eu faço, ou em quase tudo. Nunca atrasei uma coluna. 5- Há alguma palavra com significado especial pra você? Sim, muitas. Gosto muito de "açucena", uma planta ornamental, que veio do Árabe "as-susana", cujo étimo foi parar em nomes femininos em várias línguas, e que significa lírio, o tal copo-de-leite, como é mais conhecido no Brasil meridional. O "sim" é muito bonito, não apenas nos casamentos, mas nas concessões, nas ajudas, na solidariedade. João Cabral de Melo Neto tem um verso que diz "é tão belo como um sim numa sala negativa", em canção que o Chico Buarque gravou. "Não" também é bonito, ainda mais que tem este xibolete que só o Português, a língua do "ão", tem. 6- O que você gosta de fazer nos momentos de lazer? Ouvir música, principalmente clássica, ler, conversar com amigos, principalmente à beira de pratos e copos, comendo e bebendo, vinho principalmente, pois "in vino veritas" (no vinho, a verdade), e minha maior paixão, inclusive diante das pessoas, é pelo conhecimento, que, como sabemos, desde os tempos míticos do Paraíso traz a morte, pois morreremos disso desde a velha praga divina: "No dia em que comerdes do fruto da árvore do conhecimento, morrereis". Era o fruto proibido! 7- Atualmente mora onde? Vem com frequência vem a Florianópolis? Moro no Rio de Janeiro há doze anos! Desde que, pelo romance "Teresa D´Ávila", já adaptado para teatro, meus ex-colegas da infância e da adolescência me redescobriram, venho com muita frequência a Florianópolis para encontrá-los, principalmente ao Wilson Volpato, seus familiares e amigos comuns. Eu adoro a prosa catarinauta, tão rara em minha vida de expatriado do estado. Os catarinenses têm uma melodia na voz, falam cantadinho, um diapasão que eu perdi no rude sotaque de gaúchos e parananenses, nas palatais retroflexas fortes de paulistas e paulistanos, no chiado de cariocas e fluminenses. E desde há alguns anos, passo uma semana por mês em Florianópolis para desenvolver com Laudelino Sardá um projeto editorial na Unisul, a convite do reitor Salésio Herdt.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

PANDORA, LILI, EVA: TRÊS MULHERES COMPLICADAS

Os antigos gregos consideraram a esperança um dos males que afligiam o mundo. Por isso a colocaram lá no fundo da caixa de Pandora. Mas a caixa foi aberta e os males se espalharam. A esperança era um dos males porque poderia enganar os homens sobre o futuro, fazendo-os acreditar em coisas que jamais aconteceriam.
A doutrina da Igreja pensou diferentemente. Elaborada por sábios, homens experimentados, quase todos anciães, trouxe a esperança ao lado da fé e da caridade para que o trio formasse as três virtudes teologais. Se não foram velhos que as elaboraram, foram velhos que as sancionaram. A Igreja sempre deu preferência aos velhos em seus quadros dirigentes. Ainda hoje é dirigida por um colégio de cardeais, quase todos sessentões ou setentões, presididos por um deles, eleito por seus pares.
Depois, para alcançar o mágico número sete, vieram as quatro virtudes cardeais: temperança, justiça, fortaleza, prudência. Pandora, para os gregos; Lili, para os judeus; Eva para os cristãos. Três versões da criação da primeira mulher. Pandora foi encomenda de Zeus a dois outros deuses: Hefesto e Atena. Ela tem todos os dons, como o nome indica. Cada um dos deuses lhe deu uma qualidade: graça, beleza, persuasão, inteligência, paciência, meiguice, habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Prometeu avisou a Epimeteu, seu irmão, que não recebesse nenhum presente dos deuses. Mas ele se esqueceu da advertência e casou-se com Pandora.
A caixa que ela abriu era dele. Tinha ganhado de outros deuses de presente de casamento, mas deveria permanecer fechada. Nas três versões, a mulher leva o homem para maus caminhos. Esses mitos nascem na passagem do matriarcado para a patriarcado. Bom domingo para todos, na companhia de suas Pandoras, Lilis, Evas ou outros nomes. A essência feminina está em todas elas. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor de videoaulas à distância na Estácio (RJ), colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

domingo, 23 de novembro de 2014

O DESTINO VAI E VEM DE TREM

A Estrada de Ferro Donna Thereza Christina tem este nome em homenagem à esposa de Dom Pedro II, a última imperatriz do Brasil. A pequena ferrovia tem apenas 164 km de extensão e foi construída pelos ingleses entre os anos de 1880 e 1884. Seu objetivo era transportar carvão, mas levava também vagões de passageiros. Tudo começara na década de 1830, quando tropeiros que faziam o trajeto entre serra-abaixo e serra-acima, descobriram “pedras que se incendiavam”. O negócio não deu certo e em 1902 a República a encampou. Em 1996, já na Era FHC, a ferrovia foi privatizada por R$ 18,5 milhões, uma pechincha. Pouco tenho escrito sobre o trem em minha vida. Mas ele teve presença marcante em momentos decisivos. Incluindo os ramais, este pequeno trecho passava também por Urussanga, em cuja paróquia fui batizado pelo padre Agenor Marques; então com 33 anos, ele faleceu em 2006, aos 91 anos; por Tubarão, onde estudei no Seminário Nossa Senhora de Fátima; e por Siderópolis, onde nasci. Passando por essas então pequenas cidades, não passava entretanto por São Ludgero, onde fiz meu primeiro ano de ensino médio, no Educandário São Joaquim; nem por Jacinto Machado, em cujo Grupo Escolar de mesmo nome fiz o curso primário. Guardei os nomes das quatro professoras normalistas com as quais tanto aprendi naqueles anos: Edite, Priscila, Alda e Alzira. No ramal de Araranguá, embarcou rumo ao seminário, com o fim de preparar-se para o sacerdócio durante os próximos catorze anos, um coroinha chamado Deonísio, a quem o Padre Herval Fontanella ensinou o Latim necessário ao ofício. Na estação, empurrados pelos guardas, embarcaram também dois de três bêbados cambaleantes. O terceiro não conseguiu embarcar. Já no trem, perguntei se eles estavam tristes por que um dos amigos não tinha embarcado. Eles me responderam que quem deveria estar triste era o que ficou: eles tinham vindo à estação para se despedirem dele. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, escritor e professor, trabalha nas universidades Estácio (RJ) e Unisul (SC) e faz colunas de etimologia na Rádio Bandnews e na revista Caras.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A ESPERANÇA, UM DOS MALES DA REPÚBLICA

A palavra república veio do Latim “res publica”, coisa pública. Os gregos usavam “politeia”: polis (cidade) governada por assembleia de cidadãos. Nem tudo no Brasil atrasa! Algumas coisas são antecipadas. O golpe de Estado que proclamou a República estava planejado para acontecer no dia 20 de novembro de 1889. Como era uma conspiração e o governo de Dom Pedro II descobriu a tempo, determinou a transferência dos líderes, a maioria deles maçons e militares, para províncias distantes. Os conspiradores souberam das intenções do imperador e o transferiram às pressas para o exílio, antecipando o golpe em cinco dias e cancelando as transferências. Afinal, ser transferido do Rio era um castigo! Tragédias e farsas presidiram aquela proclamação. O líder militar do levante, o marechal Deodoro da Fonseca, era monarquista. Quando, a cavalo, proclamou a República, tinha sido tirado da cama há apenas algumas horas. Estava muito doente, com febre, tanto que morreu menos de dois anos depois. O povo assistiu abestalhado ao que acontecia, pensando tratar-se de um desfile em homenagem a alguém, talvez ao próprio Dom Pedro II. Mas depois vieram as tragédias, algumas das quais persistem até hoje, sendo a da corrupção a mais grave. Afinal, se antes a república foi concebida como uma concessão dos militares ao povo, hoje é tida como uma concessão dos empresários ao povo. Por isso, o custo estratosférico das eleições! Ninguém sabe ao certo quanto custa uma eleição, mesmo porque algumas das verbas utilizadas são secretas.
Houve muitas lutas para consolidar o novo regime, sendo a de Canudos a mais retumbante, com milhares de mortos. Não fosse o talento do engenheiro e jornalista Euclides da Cunha, será que teríamos sabido direito o que aconteceu? Quem escreve, sempre faz falta quando não está. Foi assim também na Guerra do Paraguai, algumas décadas antes. O Visconde de Taunay estava lá para narrar a Retirada da Laguna. O povo brasileiro tem esperança de que a República melhore. Um dos males da caixa de Pandora era a esperança, pois ela poderia enganar-nos sobre o futuro. Mas a deusa Pandora, depois de deixar escapar todos os males do mundo da caixinha que não deveria abrir, mas abriu, fechou a tempo de guardar a esperança ali dentro. (xx). º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor de videoaulas à distância na Estácio (RJ), colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MEDOS E PAVORES TROCARAM DE LUGAR (O Globo, 10 nov 2014)

Tal como Constantinopla, nossas cidades já não nos protegem mais, pois os inimigos não vêm de fora, eles estão no meio de nós.
O pavor do homem medieval era chegar tarde da noite e encontrar fechadas as portas da cidade. Protegidos por muralhas, seus habitantes tinham medo de ataques de inimigos, de aves de rapina e de animais ferozes, principalmente de lobos, e até do vilão, o morador da vila, que, desde então, tem servido para caracterizar o personagem que representa o mal em romances, peças de teatro, novelas e filmes. Sem contar que não apenas os vilões, mas também animais ferozes e lendários chegaram à cultura brasileira, de que é exemplo o lobisomem. Surgido na Grécia antiga, o homem-lobo aportou ao Brasil, depois de escala em Portugal, e foi personagem referencial de romances e de peças de teatro e telenovelas, de que são exemplos “O coronel e o lobisomem”, de José Cândido de Carvalho, e “Roque Santeiro”, de Alfredo Dias Gomes. Nos arredores de Viseu, em Portugal, ainda existe a Cova do Lobisomem, onde o bicho se escondia depois dos ataques noturnos e aguardava o amanhecer, quando voltava a ser homem outra vez. O vilão ganhou má fama porque ladrões, assassinos e outros malfeitores, quando podiam evitar prisões e masmorras, ou delas fugir, iam esconder-se nas vilas, misturando-se a seus inocentes e rudes habitantes, tal como nos mostrou o filme “O feitiço de Áquila”, ambientado na Europa medieval, no século XIII. Nessa história lendária, um bispo apaixona-se por uma bela mulher (Isabeau D’Anjou), cujo pai morreu na Primeira Cruzada. Quando esta foge com um militar (Etienne de Navarre), o bispo faz um pacto com o demônio, com o fim de garantir que os amantes fiquem “sempre juntos, mas eternamente separados”. Para isso, Isabeau é transformada em falcão durante o dia, e Etienne em lobo, durante a noite. Um ladrão fugitivo (Philippe Gaston), que vive entre os vilões, um caçador de lobos (Cezar) e um monge confessor que exerce a medicina (Imperius) também se destacam nas tramas, que incluem um eclipse solar de três dias, quando o feitiço poderá ser quebrado, pois haverá “um dia sem noite e uma noite sem dia”. Outras narrativas lendárias representaram medos diversos, como Chapeuzinho Vermelho, o lobo e o cordeiro, a mula sem cabeça etc. Mas hoje o grande medo não é mais morar na selva, transformada em santuário, ou em pequenas povoações e cidades. Ao contrário, quanto maior a cidade, maiores os perigos. É por isso que a segurança e a violência urbana, vestindo outras roupas, vêm sendo temas inevitáveis de eleições presidenciais, estaduais e municipais, tanto para cargos no Executivo como no Legislativo.
A Idade Média defendeu suas cidades com muralhas até o dia 29 de maio de 1453, quando os exércitos de Maomé II, utilizando canhões, abriram imensos buracos nas muralhas de Constantinopla, atual Istambul, por onde entraram para derrubar o ainda poderoso império bizantino. As lutas foram tão sanguinolentas e desorganizadas que o corpo de Constantino XI, o último imperador bizantino, nunca foi encontrado. Naquela semana, realizava-se dentro das muralhas um simpósio que discutia se os anjos tinham sexo, expressão que passou a designar a perda de tempo com assuntos inúteis, enquanto temas importantes são ignorados. Governantes e governados, por exemplo, desconheciam o canhão, mas sabiam distinguir anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades e demais cargos da hierarquia celestial! Tal como Constantinopla, nossas cidades já não nos protegem mais, pois os inimigos não vêm de fora, eles estão no meio de nós. E muitas vezes são eles que nos governam. Mas todos os candidatos, como Pezão, cujo apelido se deve ao fato de calçar 47 e meio, isto é, quarenta e sete grãos de cevada e meio, origem do número dos sapatos, e o “bispo” Crivella prometeram resolver todos os nossos problemas. Bastaria que tivéssemos votado neles! (xx) Deonísio da Silva é escritor e professor.

sábado, 8 de novembro de 2014

MEIO SÉCULO SEM CECÍLIA MEIRELES

Faz cinquenta anos que morreu Cecília Meireles, escritora homenageada em São Carlos com o nome de um colégio. Foi Cecília Meireles quem fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil, em 1934, aos 33 anos. E em sua obra poética destacam-se versos encantadores, escritos especialmente para as crianças, como estes: “Esta menina/ tão pequenina/ quer ser bailarina”. “Não conhece nem dó nem ré/ mas inclina o corpo para cá e para lá”. (...) “Mas depois esquece todas as danças,/ e também quer dormir como as outras crianças”. Estes versos de “Mulher ao Espelho” estavam na parede do quarto de Manuela, quando pequenina: “Já fui loura, já morena,/ já fui Margarida e Beatriz,/ já fui Maria e Madalena./ Só não pude ser como quis”.
Cecília, órfã, foi criada pela avó, pode ter encontrado refúgio no catolicismo e no espiritismo. No “Pequeno Oratório de Santa Clara”, santa de sua devoção, escreverá: “os santos, com seus serviços./ Entre os humanos tormentos,/ São exemplo e aviso,/ pois estamos tão cercados,/ de ciladas e inimigos!”. Cecília publicou o primeiro livro aos 18 anos. Três anos depois, aos 21, casava com o português Fernando Correia Dias, artista plástico, que, sempre muito depressivo, suicidou-se em 1935. Cecília voltou a casar-se em 1940, com Heitor Vinícius da Silveira Grilo, professor e engenheiro agrônomo, que, viúvo de Cecília, morreu em 1972. Para mim, sua obra solar é o “Romanceiro da Inconfidência”. Extraí das páginas mais gloriosas do longo poema os versos para as epígrafes de todos os capítulos de “Avante, soldados: para trás”, que recebeu em Cuba o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em 1992. Alguns dias depois, na UFSCar, um colega me disse no cafezinho: “Por que será que te premiaram?”. Repliquei: “Você leu o romance?”. “Não”. “Então”. Penso que não sabe até hoje que a equipe presidida por José Saramago estava enganada. Talvez a tenham fascinado as epígrafes. º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor de videoaulas à distância na Estácio (RJ), colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

BOMBÁSTICO, CARTEIRA E CARTEIRAÇO

Este programa, da Rádio BandNews FM, é ouvido até em Siderópolis (SC), minha terra natal. Foi postado pela cantora e compositora Isis Bez Birolo. Ontem, quinta-feira, demos a etimologia de CARTEIRA, CARTEIRAÇO E BOMBÁSTICO, entre outras palavras da semana, a propósito do entrevero entre o juiz, que abusou da autoridade, e Luciana Tamburini, funcionária do Detran, que cumpriu a lei e foi punida! E justamente por um juiz, valha-nos, Deus, que recusou - e conseguiu! - ser "mais igual" do que os outros diante da Lei Seca. Maíra Gama Martins também participou, como sempre, principalmente nos bastidores. https://www.youtube.com/watch?v=MVwnkoGc9P0&feature=youtu.be

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

ACENDER UMA VELA A DEUS, OUTRA AO DIABO

Descobri o quanto o azeite foi importante para Santo Agostinho escrever seus livros depois de integrar uma banca de tese de uma cantora lírica, Ria Fucci Amato, que fez uma pesquisa abordando o que famoso santo e filósofo tinha escrito sobre MÚSICA. No estudo descobri também que Nero foi acusado de ter posto fogo em Roma porque tinha feito a Reforma Agrária na África e contrariado poderosos chefes militares que tinham ficado latifundiários com as conquistas. Mas nosso assunto de hoje foi uma expressão curiosa, invocada quando a pessoa quer agradar lados contrários entre si: ACENDER UMA VELA A DEUS, OUTRA AO DIABO. A expressão veio da França para Portugal, e daí ao Brasil, mas os personagens foram trocados: na França, diz-se acender uma vela a São Miguel, outra à sua Serpente.
O Diabo tomou a forma de serpente ainda no Paraíso quando tentou Adão e Eva. Satanás, seu outro nome, não conseguiu nada com Adão, mas com Eva, sim! Quem mais profundamente escreveu sobre esta e outras questões teológicas foi Santo Agostinho. Ele nasceu em Tagaste, ma África, e foi bispo de Hipona, também na África. Na época em que ele, voltando de Milão e de Roma, foi viver no continente em que nascera, a África produzia muito azeite e por isso ele pôde ler, estudar e escrever muito à noite, porque todos podiam manter acesas as lamparinas de azeite. Era ele quem rezava assim: "Senhor, dai-me a castidade, mas não já", porque teve muitas namoradas, e teve um filho com uma delas, a que chamou Adeodato,que significa "A Deus dado".

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A MACAXEIRA DA PETROBRÁS E O TCU

Os doutores do Tribunal de Contas da União (TCU) gastaram horas discutindo se os trabalhadores das refinarias da Petrobrás no Nordeste deveriam comer 120 ou 220 gramas de macaxeira (mandioca ) no café da manhã. E questionaram o preço pago pela empresa: R$ 2,78 pela ração. Argumentaram que no mercado é R$ 0,39 por 220g. Está no relatório que lavraram.
Pergunto : quantas toneladas de macaxeira ( mandioca ) poderiam ser compradas com o dinheiro que custaram a reunião e o relatório? Os ordenadores das despesas deixaram de fazer o que estavam fazendo e foram explicar-se aos doutores. Ainda bem que foram objetivos neste caso : "a convenção coletiva dos trabalhadores da indústria da construção pesada exige que o café da manhã respeite os regionalismos ". Só no Brasil!
Onde estavam os mesmos doutores do Tribunal de Contas da União (TCU) quando deixaram passar os 175 milhões que as equipes do juiz Sérgio Moro estão conseguindo trazer de volta para os cofres públicos, roubados na maciota pelos criminosos, agora arrependidos, da rubrica "delação premiada "? Só no Brasil!