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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

ALGARISMOS ROMANOS. MAS, ALGARISMOS?

Este foi um dos programas mais ouvidos no ano de 2014! Foi sobre ALGARISMOS ROMANOS. MAS, ALGARISMOS? Por que razão os números têm a forma atual: o número 1 tem um ângulo; o número 2 tem porque tem dois; e assim por diante. ZERO, em árabe, tem o significado de VAZIO. Os romanos entretanto tinham apenas letras; I (um), V (5), X (10), L (50), C (100), D (500), M (1.000). O ano de 2014 é escrito assim: MMXIV De 1 a 10: I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X. De 20 a 100: XX, XXX, XL, L, LX, LXX, LXXX, XC, C. De 200 a 3000: CC, CCC, CD, D, DC, DCC, DCCC, CM, M, MM (2.000), MMM (3.000). Deonísio tem LXVI anos (66). Nasceu em MCMXLVIII (1948). Os algarismos arábicos na verdade são indo-arábicos, pois houve contribuição dos hindus na pesquisa que levou à invenção dos algarismos pelo matemático e astrônomo Abu Jafar Muhammad Ibn Musa Al-Khwarizm (nascido em 780; morto m 850), natural da localidade de Kharizm. Ele foi para Bagdá, no atual Iraque, a convite do califa Abû al-`Abbâs al-Ma'mûn `Abd Allah ben Hârûn ar-Rachîd, mais conhecido por Al-Mamum (nascido em 786; morto em 833). Esse califa (lugar-tenente de Deus na Terra, vigário, mesmo título do Papa) queria reunir os sábios do mundo inteiro na capital de seu império, com vistas a fazer de seu reino um centro que contemplasse todos os saberes. Os romanos não precisavam do zero porque não estavam interessados em cálculos e, sim, em determinar quantidades, contando animais, armas, objetos, soldados, pessoas. E durante muitos séculos toda a Europa, ignorando o zero, viveu muito bem sem ele. Mas a numeração romana persistiu nos nomes de papas, de reis, de séculos, de ruas, das horas nos relógios, dos capítulos de livros etc. números e ângulos.jpg

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

SETE COISAS QUE EU SEI SOBRE GAÚCHOS

SETE COISAS QUE EU SEI SOBRE GAÚCHO.
Morei muito tempo no Brasil meridional e aprendi o seguinte: 1) O Rio Grande é o único estado da federação que faz divisas com três países: Uruguai, Argentina e Brasil. 2) Os gaúchos acham que o Atlântico tem água salgada porque a indiada batia os espetos do churrasco perto de sangas, riachos e rios, que, claro, levaram toda essa água salobra para o mar. 3) Eles acham que o Sol é um fogo de chão que alastrou e ficou fora de controle e ninguém mais pôde apagar; de repente fica fraquinho, quando desce lá pelos lados de Uruguaiana, porque bate o minuano ou uma brisa vinda de Alegrete e ele diminui bastante; 4) Ensinam ciência errado nas escolas: a extinção dos dinossauros deu-se em razão de uma churrascada muito do exagerada que se fez; 5) O Saara antigamente era uma floresta com madeira muito apropriada para canzil, canga e... espeto; navegadores que saíram da Lagoa dos Patos em busca de lenha, trouxeram uns galhos de lá e desde então sempre voltaram para buscar mais; 6) Gaúchos vão pro céu: O Coiso não quer saber de pelear com eles na eternidade; 7) Gaúchas vão pro céu também porque lá o capataz é São Pedro: ele gosta de organizar uns fandangos aos quais até o Patrão comparece com Muié, Filho e Espírito Santo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

DEONÍSIO DA SILVA: ENTREVISTA A BRUNA FÜCHTER NOS 130 ANOS DA HOEPCKE

Confira a entrevista com Deonísio da Silva, etimologista da revista CARAS 09/12/2014 Isto se chama etimologia, uma atividade fascinante em busca da origem das palavras. Ninguém melhor que ele, professor, etimologista brasileiro e autor de diversos livros premiados para falar conosco sobre o assunto: DEONÍSIO DA SILVA. Deo, como gosta de ser chamado pelos amigos, escreve há 20 anos uma coluna semanal de etimologia na revista CARAS, onde traz curiosidades sobre a origem das palavras. Conversamos com ele sobre seu trabalho e de onde vêm suas inspirações. Confira esta entrevista exclusiva abaixo (Bruna Füchter)
1- Você assina uma coluna na revista Caras sobre etimologia, ou seja, sobre a origem e o significado das palavras. Como você faz para escolher as palavras que serão abordadas? As palavras são escolhidas por vários critérios, mas damos atenção especial àquelas que estão na ordem do dia. Se os leitores repararem bem, as palavras que se destacam no dia a dia estão na revista CARAS. E de seis delas, toda semana, os assinantes e os leitores eventuais sabem a origem, de onde vieram, que escalas fizeram em outras línguas, o que significavam anteriormente e o que hoje significam. 2- O que “palavra” significa para você? Tudo! Com ela amamos, trabalhamos, lutamos, vivemos. Gente de palavra é gente séria. Os vários significados de "palavra", de que é exemplo a expressão "ser pessoa de palavra", isto é, honesta, faz coincidir o que diz com o que é e com o que faz. Mas "palavra" tem suas complexas sutilezas. Ela é meio estranha, provém de uma adaptação feita pela Igreja, que dominou o império romano do século IV ao XV: sua origem é o Hebraico "párehál", que passou ao Grego como "parabolé", virou "parabola" no Latim e "palavra" no Português. "No princípio era o Verbo". "In principio erat Verbum", na tradução do Grego ou do Aramaico, feita por São Jerônimo, para a versão Vulgata, da bíblia, diz o Evangelho de São João, o mais culto dos quatro narradores oficiais. O Alemão prefere "Wort", sempre com inicial maiúscula, mesmo no meio das frases, porque é um substantivo. E mesmo as palavras cruzadas os alemães chamam "Kreuzworträtsel" (eles nunca mexeram no trema!), em que o étimo de "Wort" está ali no meio. O Inglês prefere "word", que, aliás dá nome a um programa de informática para escrever. Mas línguas neolatinas, muito influenciadas pelo Latim eclesiástico, mantiveram o étimo vindo do Hebraico, do Grego e do Latim. "Parola", em Italiano; "parole", em Francês; "palabra", em Espanhol. Veja que, quando os Ingleses inventaram o sistema dos aristocratas consultarem também a burguesia urbana e os produtores rurais para as decisões de governo, eles trouxeram uma palavra de origem francesa, o "parliament", do Latim "parabolare", que deu "parlare" em Italiano e "parler" em Francês. Até o Alemão respeitou este étimo, aceitando "Parlament" em lugar de "Bundeshaus". 3- Qual o poder da palavra no dia a dia? Respondo com um trecho do romance "Avalovara", do escritor Osman Lins, professor da USP, que sei de cor, pois acho memorável: "A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, é também a bala dos desarmados e o bicho que corrói as carcaças podres". Ou com Carlos Drummond de Andrade: "Lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos, mal rompe a manhã". Quanto a mim, me defino como "botânico e jardineiro das palavras". Botânico, porque as pesquiso e as ensino aos alunos e aos leitores. "Jardineiro", porque nos romances e contos, eu as trato como flores, para fazer buquês que, espero, levem bons aromas, novos significados, mensagens, entretenimento e segredos embutidos, como as flores. Não sou "gigolô das palavras", como se autodefiniu Luís Fernando Veríssimo. Eu as trato com amor! Aliás, não sou o único a fazer isso, claro. Sérgio da Costa Ramos, para mim o maior cronista do Brasil, faz isso tão bem ou melhor do que eu. 4- Você vem da literatura, já publicou diversos romances e contos. Como é para você escrever para uma revista? Quanto à linguagem, é preciso adaptar-se. O estilo não é o mesmo dos contos e dos romances, não pode ser o mesmo dos "papers" acadêmicos, senão meus textos não seriam entendidos pelo grande público, nem sequer lidos. Quanto a tamanhos e prazos, eu aprendi desde os meus verdes anos a ter disciplina no trabalho e em tudo o que eu faço, ou em quase tudo. Nunca atrasei uma coluna. 5- Há alguma palavra com significado especial pra você? Sim, muitas. Gosto muito de "açucena", uma planta ornamental, que veio do Árabe "as-susana", cujo étimo foi parar em nomes femininos em várias línguas, e que significa lírio, o tal copo-de-leite, como é mais conhecido no Brasil meridional. O "sim" é muito bonito, não apenas nos casamentos, mas nas concessões, nas ajudas, na solidariedade. João Cabral de Melo Neto tem um verso que diz "é tão belo como um sim numa sala negativa", em canção que o Chico Buarque gravou. "Não" também é bonito, ainda mais que tem este xibolete que só o Português, a língua do "ão", tem. 6- O que você gosta de fazer nos momentos de lazer? Ouvir música, principalmente clássica, ler, conversar com amigos, principalmente à beira de pratos e copos, comendo e bebendo, vinho principalmente, pois "in vino veritas" (no vinho, a verdade), e minha maior paixão, inclusive diante das pessoas, é pelo conhecimento, que, como sabemos, desde os tempos míticos do Paraíso traz a morte, pois morreremos disso desde a velha praga divina: "No dia em que comerdes do fruto da árvore do conhecimento, morrereis". Era o fruto proibido! 7- Atualmente mora onde? Vem com frequência vem a Florianópolis? Moro no Rio de Janeiro há doze anos! Desde que, pelo romance "Teresa D´Ávila", já adaptado para teatro, meus ex-colegas da infância e da adolescência me redescobriram, venho com muita frequência a Florianópolis para encontrá-los, principalmente ao Wilson Volpato, seus familiares e amigos comuns. Eu adoro a prosa catarinauta, tão rara em minha vida de expatriado do estado. Os catarinenses têm uma melodia na voz, falam cantadinho, um diapasão que eu perdi no rude sotaque de gaúchos e parananenses, nas palatais retroflexas fortes de paulistas e paulistanos, no chiado de cariocas e fluminenses. E desde há alguns anos, passo uma semana por mês em Florianópolis para desenvolver com Laudelino Sardá um projeto editorial na Unisul, a convite do reitor Salésio Herdt.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

PANDORA, LILI, EVA: TRÊS MULHERES COMPLICADAS

Os antigos gregos consideraram a esperança um dos males que afligiam o mundo. Por isso a colocaram lá no fundo da caixa de Pandora. Mas a caixa foi aberta e os males se espalharam. A esperança era um dos males porque poderia enganar os homens sobre o futuro, fazendo-os acreditar em coisas que jamais aconteceriam.
A doutrina da Igreja pensou diferentemente. Elaborada por sábios, homens experimentados, quase todos anciães, trouxe a esperança ao lado da fé e da caridade para que o trio formasse as três virtudes teologais. Se não foram velhos que as elaboraram, foram velhos que as sancionaram. A Igreja sempre deu preferência aos velhos em seus quadros dirigentes. Ainda hoje é dirigida por um colégio de cardeais, quase todos sessentões ou setentões, presididos por um deles, eleito por seus pares.
Depois, para alcançar o mágico número sete, vieram as quatro virtudes cardeais: temperança, justiça, fortaleza, prudência. Pandora, para os gregos; Lili, para os judeus; Eva para os cristãos. Três versões da criação da primeira mulher. Pandora foi encomenda de Zeus a dois outros deuses: Hefesto e Atena. Ela tem todos os dons, como o nome indica. Cada um dos deuses lhe deu uma qualidade: graça, beleza, persuasão, inteligência, paciência, meiguice, habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Prometeu avisou a Epimeteu, seu irmão, que não recebesse nenhum presente dos deuses. Mas ele se esqueceu da advertência e casou-se com Pandora.
A caixa que ela abriu era dele. Tinha ganhado de outros deuses de presente de casamento, mas deveria permanecer fechada. Nas três versões, a mulher leva o homem para maus caminhos. Esses mitos nascem na passagem do matriarcado para a patriarcado. Bom domingo para todos, na companhia de suas Pandoras, Lilis, Evas ou outros nomes. A essência feminina está em todas elas. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor de videoaulas à distância na Estácio (RJ), colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

domingo, 23 de novembro de 2014

O DESTINO VAI E VEM DE TREM

A Estrada de Ferro Donna Thereza Christina tem este nome em homenagem à esposa de Dom Pedro II, a última imperatriz do Brasil. A pequena ferrovia tem apenas 164 km de extensão e foi construída pelos ingleses entre os anos de 1880 e 1884. Seu objetivo era transportar carvão, mas levava também vagões de passageiros. Tudo começara na década de 1830, quando tropeiros que faziam o trajeto entre serra-abaixo e serra-acima, descobriram “pedras que se incendiavam”. O negócio não deu certo e em 1902 a República a encampou. Em 1996, já na Era FHC, a ferrovia foi privatizada por R$ 18,5 milhões, uma pechincha. Pouco tenho escrito sobre o trem em minha vida. Mas ele teve presença marcante em momentos decisivos. Incluindo os ramais, este pequeno trecho passava também por Urussanga, em cuja paróquia fui batizado pelo padre Agenor Marques; então com 33 anos, ele faleceu em 2006, aos 91 anos; por Tubarão, onde estudei no Seminário Nossa Senhora de Fátima; e por Siderópolis, onde nasci. Passando por essas então pequenas cidades, não passava entretanto por São Ludgero, onde fiz meu primeiro ano de ensino médio, no Educandário São Joaquim; nem por Jacinto Machado, em cujo Grupo Escolar de mesmo nome fiz o curso primário. Guardei os nomes das quatro professoras normalistas com as quais tanto aprendi naqueles anos: Edite, Priscila, Alda e Alzira. No ramal de Araranguá, embarcou rumo ao seminário, com o fim de preparar-se para o sacerdócio durante os próximos catorze anos, um coroinha chamado Deonísio, a quem o Padre Herval Fontanella ensinou o Latim necessário ao ofício. Na estação, empurrados pelos guardas, embarcaram também dois de três bêbados cambaleantes. O terceiro não conseguiu embarcar. Já no trem, perguntei se eles estavam tristes por que um dos amigos não tinha embarcado. Eles me responderam que quem deveria estar triste era o que ficou: eles tinham vindo à estação para se despedirem dele. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, escritor e professor, trabalha nas universidades Estácio (RJ) e Unisul (SC) e faz colunas de etimologia na Rádio Bandnews e na revista Caras.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A ESPERANÇA, UM DOS MALES DA REPÚBLICA

A palavra república veio do Latim “res publica”, coisa pública. Os gregos usavam “politeia”: polis (cidade) governada por assembleia de cidadãos. Nem tudo no Brasil atrasa! Algumas coisas são antecipadas. O golpe de Estado que proclamou a República estava planejado para acontecer no dia 20 de novembro de 1889. Como era uma conspiração e o governo de Dom Pedro II descobriu a tempo, determinou a transferência dos líderes, a maioria deles maçons e militares, para províncias distantes. Os conspiradores souberam das intenções do imperador e o transferiram às pressas para o exílio, antecipando o golpe em cinco dias e cancelando as transferências. Afinal, ser transferido do Rio era um castigo! Tragédias e farsas presidiram aquela proclamação. O líder militar do levante, o marechal Deodoro da Fonseca, era monarquista. Quando, a cavalo, proclamou a República, tinha sido tirado da cama há apenas algumas horas. Estava muito doente, com febre, tanto que morreu menos de dois anos depois. O povo assistiu abestalhado ao que acontecia, pensando tratar-se de um desfile em homenagem a alguém, talvez ao próprio Dom Pedro II. Mas depois vieram as tragédias, algumas das quais persistem até hoje, sendo a da corrupção a mais grave. Afinal, se antes a república foi concebida como uma concessão dos militares ao povo, hoje é tida como uma concessão dos empresários ao povo. Por isso, o custo estratosférico das eleições! Ninguém sabe ao certo quanto custa uma eleição, mesmo porque algumas das verbas utilizadas são secretas.
Houve muitas lutas para consolidar o novo regime, sendo a de Canudos a mais retumbante, com milhares de mortos. Não fosse o talento do engenheiro e jornalista Euclides da Cunha, será que teríamos sabido direito o que aconteceu? Quem escreve, sempre faz falta quando não está. Foi assim também na Guerra do Paraguai, algumas décadas antes. O Visconde de Taunay estava lá para narrar a Retirada da Laguna. O povo brasileiro tem esperança de que a República melhore. Um dos males da caixa de Pandora era a esperança, pois ela poderia enganar-nos sobre o futuro. Mas a deusa Pandora, depois de deixar escapar todos os males do mundo da caixinha que não deveria abrir, mas abriu, fechou a tempo de guardar a esperança ali dentro. (xx). º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor de videoaulas à distância na Estácio (RJ), colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MEDOS E PAVORES TROCARAM DE LUGAR (O Globo, 10 nov 2014)

Tal como Constantinopla, nossas cidades já não nos protegem mais, pois os inimigos não vêm de fora, eles estão no meio de nós.
O pavor do homem medieval era chegar tarde da noite e encontrar fechadas as portas da cidade. Protegidos por muralhas, seus habitantes tinham medo de ataques de inimigos, de aves de rapina e de animais ferozes, principalmente de lobos, e até do vilão, o morador da vila, que, desde então, tem servido para caracterizar o personagem que representa o mal em romances, peças de teatro, novelas e filmes. Sem contar que não apenas os vilões, mas também animais ferozes e lendários chegaram à cultura brasileira, de que é exemplo o lobisomem. Surgido na Grécia antiga, o homem-lobo aportou ao Brasil, depois de escala em Portugal, e foi personagem referencial de romances e de peças de teatro e telenovelas, de que são exemplos “O coronel e o lobisomem”, de José Cândido de Carvalho, e “Roque Santeiro”, de Alfredo Dias Gomes. Nos arredores de Viseu, em Portugal, ainda existe a Cova do Lobisomem, onde o bicho se escondia depois dos ataques noturnos e aguardava o amanhecer, quando voltava a ser homem outra vez. O vilão ganhou má fama porque ladrões, assassinos e outros malfeitores, quando podiam evitar prisões e masmorras, ou delas fugir, iam esconder-se nas vilas, misturando-se a seus inocentes e rudes habitantes, tal como nos mostrou o filme “O feitiço de Áquila”, ambientado na Europa medieval, no século XIII. Nessa história lendária, um bispo apaixona-se por uma bela mulher (Isabeau D’Anjou), cujo pai morreu na Primeira Cruzada. Quando esta foge com um militar (Etienne de Navarre), o bispo faz um pacto com o demônio, com o fim de garantir que os amantes fiquem “sempre juntos, mas eternamente separados”. Para isso, Isabeau é transformada em falcão durante o dia, e Etienne em lobo, durante a noite. Um ladrão fugitivo (Philippe Gaston), que vive entre os vilões, um caçador de lobos (Cezar) e um monge confessor que exerce a medicina (Imperius) também se destacam nas tramas, que incluem um eclipse solar de três dias, quando o feitiço poderá ser quebrado, pois haverá “um dia sem noite e uma noite sem dia”. Outras narrativas lendárias representaram medos diversos, como Chapeuzinho Vermelho, o lobo e o cordeiro, a mula sem cabeça etc. Mas hoje o grande medo não é mais morar na selva, transformada em santuário, ou em pequenas povoações e cidades. Ao contrário, quanto maior a cidade, maiores os perigos. É por isso que a segurança e a violência urbana, vestindo outras roupas, vêm sendo temas inevitáveis de eleições presidenciais, estaduais e municipais, tanto para cargos no Executivo como no Legislativo.
A Idade Média defendeu suas cidades com muralhas até o dia 29 de maio de 1453, quando os exércitos de Maomé II, utilizando canhões, abriram imensos buracos nas muralhas de Constantinopla, atual Istambul, por onde entraram para derrubar o ainda poderoso império bizantino. As lutas foram tão sanguinolentas e desorganizadas que o corpo de Constantino XI, o último imperador bizantino, nunca foi encontrado. Naquela semana, realizava-se dentro das muralhas um simpósio que discutia se os anjos tinham sexo, expressão que passou a designar a perda de tempo com assuntos inúteis, enquanto temas importantes são ignorados. Governantes e governados, por exemplo, desconheciam o canhão, mas sabiam distinguir anjos, arcanjos, querubins, serafins, tronos, potestades e demais cargos da hierarquia celestial! Tal como Constantinopla, nossas cidades já não nos protegem mais, pois os inimigos não vêm de fora, eles estão no meio de nós. E muitas vezes são eles que nos governam. Mas todos os candidatos, como Pezão, cujo apelido se deve ao fato de calçar 47 e meio, isto é, quarenta e sete grãos de cevada e meio, origem do número dos sapatos, e o “bispo” Crivella prometeram resolver todos os nossos problemas. Bastaria que tivéssemos votado neles! (xx) Deonísio da Silva é escritor e professor.

sábado, 8 de novembro de 2014

MEIO SÉCULO SEM CECÍLIA MEIRELES

Faz cinquenta anos que morreu Cecília Meireles, escritora homenageada em São Carlos com o nome de um colégio. Foi Cecília Meireles quem fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil, em 1934, aos 33 anos. E em sua obra poética destacam-se versos encantadores, escritos especialmente para as crianças, como estes: “Esta menina/ tão pequenina/ quer ser bailarina”. “Não conhece nem dó nem ré/ mas inclina o corpo para cá e para lá”. (...) “Mas depois esquece todas as danças,/ e também quer dormir como as outras crianças”. Estes versos de “Mulher ao Espelho” estavam na parede do quarto de Manuela, quando pequenina: “Já fui loura, já morena,/ já fui Margarida e Beatriz,/ já fui Maria e Madalena./ Só não pude ser como quis”.
Cecília, órfã, foi criada pela avó, pode ter encontrado refúgio no catolicismo e no espiritismo. No “Pequeno Oratório de Santa Clara”, santa de sua devoção, escreverá: “os santos, com seus serviços./ Entre os humanos tormentos,/ São exemplo e aviso,/ pois estamos tão cercados,/ de ciladas e inimigos!”. Cecília publicou o primeiro livro aos 18 anos. Três anos depois, aos 21, casava com o português Fernando Correia Dias, artista plástico, que, sempre muito depressivo, suicidou-se em 1935. Cecília voltou a casar-se em 1940, com Heitor Vinícius da Silveira Grilo, professor e engenheiro agrônomo, que, viúvo de Cecília, morreu em 1972. Para mim, sua obra solar é o “Romanceiro da Inconfidência”. Extraí das páginas mais gloriosas do longo poema os versos para as epígrafes de todos os capítulos de “Avante, soldados: para trás”, que recebeu em Cuba o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em 1992. Alguns dias depois, na UFSCar, um colega me disse no cafezinho: “Por que será que te premiaram?”. Repliquei: “Você leu o romance?”. “Não”. “Então”. Penso que não sabe até hoje que a equipe presidida por José Saramago estava enganada. Talvez a tenham fascinado as epígrafes. º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor de videoaulas à distância na Estácio (RJ), colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

BOMBÁSTICO, CARTEIRA E CARTEIRAÇO

Este programa, da Rádio BandNews FM, é ouvido até em Siderópolis (SC), minha terra natal. Foi postado pela cantora e compositora Isis Bez Birolo. Ontem, quinta-feira, demos a etimologia de CARTEIRA, CARTEIRAÇO E BOMBÁSTICO, entre outras palavras da semana, a propósito do entrevero entre o juiz, que abusou da autoridade, e Luciana Tamburini, funcionária do Detran, que cumpriu a lei e foi punida! E justamente por um juiz, valha-nos, Deus, que recusou - e conseguiu! - ser "mais igual" do que os outros diante da Lei Seca. Maíra Gama Martins também participou, como sempre, principalmente nos bastidores. https://www.youtube.com/watch?v=MVwnkoGc9P0&feature=youtu.be

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

ACENDER UMA VELA A DEUS, OUTRA AO DIABO

Descobri o quanto o azeite foi importante para Santo Agostinho escrever seus livros depois de integrar uma banca de tese de uma cantora lírica, Ria Fucci Amato, que fez uma pesquisa abordando o que famoso santo e filósofo tinha escrito sobre MÚSICA. No estudo descobri também que Nero foi acusado de ter posto fogo em Roma porque tinha feito a Reforma Agrária na África e contrariado poderosos chefes militares que tinham ficado latifundiários com as conquistas. Mas nosso assunto de hoje foi uma expressão curiosa, invocada quando a pessoa quer agradar lados contrários entre si: ACENDER UMA VELA A DEUS, OUTRA AO DIABO. A expressão veio da França para Portugal, e daí ao Brasil, mas os personagens foram trocados: na França, diz-se acender uma vela a São Miguel, outra à sua Serpente.
O Diabo tomou a forma de serpente ainda no Paraíso quando tentou Adão e Eva. Satanás, seu outro nome, não conseguiu nada com Adão, mas com Eva, sim! Quem mais profundamente escreveu sobre esta e outras questões teológicas foi Santo Agostinho. Ele nasceu em Tagaste, ma África, e foi bispo de Hipona, também na África. Na época em que ele, voltando de Milão e de Roma, foi viver no continente em que nascera, a África produzia muito azeite e por isso ele pôde ler, estudar e escrever muito à noite, porque todos podiam manter acesas as lamparinas de azeite. Era ele quem rezava assim: "Senhor, dai-me a castidade, mas não já", porque teve muitas namoradas, e teve um filho com uma delas, a que chamou Adeodato,que significa "A Deus dado".

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

A MACAXEIRA DA PETROBRÁS E O TCU

Os doutores do Tribunal de Contas da União (TCU) gastaram horas discutindo se os trabalhadores das refinarias da Petrobrás no Nordeste deveriam comer 120 ou 220 gramas de macaxeira (mandioca ) no café da manhã. E questionaram o preço pago pela empresa: R$ 2,78 pela ração. Argumentaram que no mercado é R$ 0,39 por 220g. Está no relatório que lavraram.
Pergunto : quantas toneladas de macaxeira ( mandioca ) poderiam ser compradas com o dinheiro que custaram a reunião e o relatório? Os ordenadores das despesas deixaram de fazer o que estavam fazendo e foram explicar-se aos doutores. Ainda bem que foram objetivos neste caso : "a convenção coletiva dos trabalhadores da indústria da construção pesada exige que o café da manhã respeite os regionalismos ". Só no Brasil!
Onde estavam os mesmos doutores do Tribunal de Contas da União (TCU) quando deixaram passar os 175 milhões que as equipes do juiz Sérgio Moro estão conseguindo trazer de volta para os cofres públicos, roubados na maciota pelos criminosos, agora arrependidos, da rubrica "delação premiada "? Só no Brasil!

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

ASSASSINETE: NOVA PALAVRA NO PORTUGUÊS DO BRASIL

A LIBERDADE NÃO É OBRIGATÓRIA. E SURGE UMA NOVA PALAVRA NO PORTUGUÊS: ASSASSINETE, MISTURA DE ASSASSINA COM PERIGUETE. Como sempre faço, levantei cedo e e fui tratar de minhas calopsitas. A gaiola está aberta na varanda, elas dão uma voltinha por ali e voltam para beber água, comer, dormir. Preferem a gaiola! Estava lendo os jornais e vi que o casamento de Suzane von Richthofen com Sandra Gomes, ambas presidiárias, é notícia no mundo inteiro, com alguns detalhes muito curiosos:
1) Suzane, depois de cumprir 12 anos dos 38 aos quais foi condenada, obteve o direito de cumprir a pena em casa, mas renunciou para casar com Sandra, que ainda não tem o benefício. 2) Suzane matou os pais, coma ajuda do namorado e de um amigo do casal; Sandra integrou o grupo que sequestrou uma empresária e matou o filho dela porque o regaste não foi pago. 3) Para casar com Suzane, Sandra desfez os laços amorosos que mantinha com Elize Matsunaga, que matou e esquartejou o marido. E os romancistas somos nós?

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A LEVIANA, A SIRIGAITA, O FOGUETE E O FOGUETÃO

Na semana passada, Ana de Hollanda e Edwaldo Arantes estavam presentes à mesa quando eu disse em palestra em Guaxupé (MG), nos 50 anos do Unifeg, cujo reitor é nosso amigo Reginaldo Arthus, que Aécio Neves, ao chamar Dilma Rousseff de "leviana", ignorara que a palavra pode ser entendida como prostituta no Nordeste, e que, portanto, representara ofensa que o Lula rapidamente soube explorar, ao amplificá-la e recriminar seu uso. Imediatamente a mídia passou a mostrar trechos de debates em que o ex-presidente chamava o opositor de leviano. MAS NO MASCULINO! E isso fazia toda a diferença. Estes detalhes são decisivos para quem usa a língua portuguesa como ferramenta de trabalho, como é o caso de quem atua na política.
Muitas pessoas gostam de saber da viagem que as palavras fazem ao longo da história. E o feminino "leviana" tomou este tom pejorativo naquela região do Brasil. Leviano é sinônimo de inconstante, precipitado, irresponsável. Jazem aí as razões profundas de aplicar-se o feminino como equivalente ou próximo de sirigaita. Hoje leio no jornal "O Público", de Portugal, a manchete que utiliza palavra que no Brasil não é usual para designar o foguete espacial: FOGUETÃO. Como se chegou a esse significado? O latim vulgar CODA virou COET no catalão, depois COHETE no português e, por influência de FOGO, do latim "focus", que designa também a luz que você deve seguir num debate ou num projeto, na escuridão de muitas palavras, virou FOGUETE. Mas o aumentativo FOGUETÃO designou originalmente um cabo lançado a embarcações ameaçadas de naufrágio e aos náufragos. Com o advento da conquista do espaço sideral, a palavra veio a designar o gigantesco artefato que lança a nave espacial. http://www.publico.pt/mundo/noticia/foguetao-antares-de-empresa-orbital-explode-apos-lancamento-1674463

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

MORREU O JORNALISTA E ESCRITOR GAÚCHO JANER CRISTALDO

Gaúcho de Santana do Livramento, onde nasceu em 1947, o jornalista, escritor, professor e tradutor Janer Cristaldo, Doutor em Letras pela Sorbonne, partiu para a eternidade na noite passada. Minha filha Manuela e eu o visitamos há alguns dias no Hospital Samaritano, em São Paulo. Sem voz, falou apenas por gestos, meneios da cabeça e palavras proferidas com o movimento dos lábios. Pareceu muito contente com nossa visita, apertou nossas mãos e nos ouviu com atenção, entendendo tudo o que lhe dizíamos. Seu blogue era visitado por cerca de 1,5 milhão de leitores. No último post, em 5/9/2014, ele recomendou a leitura de um livro do professor americano Mark C. Taylor, da Universidade de Columbia: "Crise no Campus: um plano arrojado para reforma das nossas Faculdades e Universidades (Knopf, 2010)". Destacou que o autor considera insustentável o sistema de doutorado, nos Estados Unidos e em muitos outros países, e que precisa de mudanças urgentes. Porque, do modo como estão os doutorados, interessam apenas ao corpo docente, em prejuízo dos estudantes. E conclui: "a realidade é que existem poucos empregos para as pessoas que gastaram até doze anos em sua formação". Grande Janer! Foi sempre um intelectual inquieto, culto, de vastas leituras, autor de livros muito bem escritos, tradutor de Ernesto Sabato, de autores suecos, franceses etc. Vão fazer falta suas pertinentes e polêmicas intervenções.

domingo, 26 de outubro de 2014

É HOJE O DIA D Deonísio da Silva º Os eleitores brasileiros escolhem hoje o próximo presidente da República. E ao cair da noite vão saber a quem escolheram. Se reelegeram a presidente Dilma Rousseff ou se resolveram mudar, entregando a presidência a Aécio Neves. Tenho amigos que declararam o voto no PT e tenho amigos que declararam o voto no PSDB. Não gosto de declarar o voto. O voto é secreto. Esta é uma garantia adicional para o eleitor. E desconfio que os institutos de pesquisa estão errando bastante porque muitos brasileiros andam escaldados e acham que se falarem o que pensam, vão sofrer represálias. Já escrevi e reafirmo que o PT abriga setores nazifascistas que já prejudicaram até mesmo seus próprios companheiros. Quanto mais os adversários! De outro lado, uma das marcas principais do PSDB quando no poder foi a entrega do patrimônio do Estado a preço de banana a poderosos grupos internacionais. Sem contar que abandonou as universidades federais a uma situação de penúria raramente vista em outros quadriênios. No caso, um octoênio, pois inventou também a praga da reeleição. Bem, o povo vai escolher a quem quiser. E é soberano. Os intelectuais deixem de ser arrogantes, como o são tantos que conhecemos, e reconheçam que em 2015 vai exercer a presidência aquela pessoa que o povo vai escolher hoje. Fim º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

domingo, 19 de outubro de 2014

NOMES NO BRASIL: LADY GAGA VIROU NEYDE GAGÁ

Convido meus leitores a degustar uma reflexão bem simples que venho fazendo a partir dos nomes mais comuns no Brasil. Durante muitos anos foram José, João, Manuel, Antônio e Pedro, para os meninos; e Maria, Ana, Antônia, Cecília e Isabel, para as meninas. Após a Segunda Guerra Mundial, depois de dividirem o mundo entre os quatro vencedores, na Conferência de Yalta – Churchill, Roosevelt, Stálin e De Gaulle -, coube aos EUA a América Latina, um novo mercado para músicas, filmes, histórias em quadrinhos etc. A partir da década de 1980, entretanto, com as defesas da cultura nacional seriamente avariadas, o que era influência passou a dominação. E predominaram nomes do Inglês, mas em estranha grafia, pois nem os pais, nem os escrivães, dado o rebaixamento do ensino que acompanhou a invasão, sabiam o Inglês. Assim, surgiram Uóxynton, Máycon, Xuarzenéguer e Jéquysson, para os meninos; e Madona, Jéssyca, Byoncy, Jennyfer e Neyde Gagá (era para ser Lady Gaga), para as meninas. A letra Y tornou-se obrigatória! Pois agora mudou de novo. Prevalece a força da televisão, não mais a da “folhinha” com o santo do dia, manifestada nos nomes de personagens tirados de telenovelas e de homilias dos novos pastores, que evitam o Novo testamento, preferindo personagens do Antigo Testamento, onde Jesus, São Pedro e São Paulo, entre outros, não são encontrados! Assim, temos entre os escolhidos nomes de reis bíblicos, como Daví, Saul e Salomão, e dos profetas Ezequiel, Isaías e Zacarias, para os meninos. Para as meninas predominam nomes de atrizes ou das personagens que elas representam nas novelas, como Giovana, Sofia, Débora e Viviane . Estou lendo uma biografia de Dionisius, 6º rei de Portugal, mais conhecido pelo apelido de Dinis, como eu o sou por Deo. Um dia o rei pescou um soalho, peixe hoje extinto, de 17,5 arrobas ou 262,5 quilos. Foi documentado pelo tabelião real. E vocês, o que pescaram da minha coluninha? (Escrevam para deonisio@terra.com.br). º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

LADY GAGA VIROU NEYDE GAGÁ, MAS COM Y

Convido meus leitores a degustar uma reflexão bem simples que venho fazendo a partir dos nomes mais comuns no Brasil. Durante muitos anos foram José, João, Manuel, Antônio e Pedro, para os meninos; e Maria, Ana, Antônia, Cecília e Isabel, para as meninas. Após a Segunda Guerra Mundial, depois de dividirem o mundo entre os quatro vencedores, na Conferência de Yalta – Churchill, Roosevelt, Stálin e De Gaulle -, coube aos EUA a América Latina, um novo mercado para músicas, filmes, histórias em quadrinhos etc. A partir da década de 1980, entretanto, com as defesas da cultura nacional seriamente avariadas, o que era influência passou a dominação. E predominaram nomes do Inglês, mas em estranha grafia, pois nem os pais, nem os escrivães, dado o rebaixamento do ensino que acompanhou a invasão, sabiam o Inglês.
Assim, surgiram Uóxynton, Máycon, Xuarzenéguer e Jéquysson, para os meninos; e Madona, Jéssyca, Byoncy, Jennyfer e Neyde Gagá (era para ser Lady Gaga), para as meninas. A letra Y tornou-se obrigatória! Pois agora mudou de novo. Prevalece a força da televisão, não mais a da “folhinha” com o santo do dia, manifestada nos nomes de personagens tirados de telenovelas e de homilias dos novos pastores, que evitam o Novo testamento, preferindo personagens do Antigo Testamento, onde Jesus, São Pedro e São Paulo, entre outros, não são encontrados! Assim, temos entre os escolhidos nomes de reis bíblicos, como Daví, Saul e Salomão, e dos profetas Ezequiel, Isaías e Zacarias, para os meninos. Para as meninas predominam nomes de atrizes ou das personagens que elas representam nas novelas, como Giovana, Sofia, Débora e Viviane . Estou lendo uma biografia de Dionisius, 6º rei de Portugal, mais conhecido pelo apelido de Dinis, como eu o sou por Deo. Um dia o rei pescou um soalho, peixe hoje extinto, de 17,5 arrobas ou 262,5 quilos. Foi documentado pelo tabelião real. E vocês, o que pescaram da minha coluninha? (Escrevam para deonisio@terra.com.br). º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

O BRASIL ÀS VEZES NOS SURPREENDE

https://www.youtube.com/watch?v=ipcwiQwa0JM Eles conhecem as músicas de Nelson Mandela. Não andariam ao lado de transeuntes porque sempre andam pela calçada. Não casariam com alguém do sexo oposto. Acham que na família deles não existe nenhum heterossexual. Acham bom Nelson Mandela vir cantar em Campina Grande, embora já tenham dançado alguma música ao som dele.

domingo, 12 de outubro de 2014

SEGUNDO TURNO: A OUTRA VOLTA DOS PARAFUSOS

O pavor do homem medieval era chegar tarde da noite e encontrar fechadas as portas da cidade. Seus habitantes tinham medo até do vilão, o morador da vila, sem muralhas, e por isso vilão virou sinônimo de covarde, trapaceiro. Hoje o grande medo é morar nas cidades. Quanto maior a cidade, maiores os perigos. E segurança tornou-se tema forte de campanhas políticas em todos os níveis. A segurança foi um dos temas do debate entre os candidatos a governador do Rio que chegaram ao segundo turno: o “bispo” Marcelo Crivella, “da Igreja Universal do Reino Deus, e Luiz Fernando Pezão, atual governador e ex-prefeito de Piraí, de apenas 20 mil habitantes. Pezão calça 47,5. Esta é a origem do apelido. No debate que a Bandnews promoveu entre os dois na quinta-feira passada, coube-me sentar ao lado do professor e economista Carlos Lessa, que foi presidente do BNDES nos governos Lula. Lessa me falou com entusiasmo de outra candidatura que ele está promovendo: a canonização do Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço. E me convidou para ajudá-lo. Propus-lhe um mutirão para canonizar Padim Ciço e também a catarinense Albertina Berkenbrock e o Padre Teixeira, nome de rua em São Carlos, cujos processos de santidade estão emperrados. Concordando, ele lembrou entretanto um papel importante dos evangélicos. Migrantes de todo o Brasil, principalmente do Nordeste, sentem-se sozinhos, longe da família, nas grandes cidades onde chegam. O templo passa a ser, então, a família deles. Enquanto a Igreja se recusa a canonizar o Padim Ciço, os pastores evangélicos utilizam a fama dele para atrair novos fiéis a seus templos. Muita coisa precisa mudar no Brasil. E no Vaticano também. Não canoniza o Padim Ciço, Albertina, o Padre Teixeira e tantos outros. Quem perde com isso? O povo, claro, e aqueles que com ele trabalham. Como os governos, também a Igreja tem que ouvir o povo. (*) da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ACORDO ORTOGRÁFICO: DEONÍSIO RESPONDE TUDO A THAÍS NICOLETI DE CAMARGO

http://thaisnicoleti.blogfolha.uol.com.br/2014/10/06/lingua-e-patrimonio-do-povo-brasileiro-leia-entrevista-com-o-filologo-deonisio-da-silva/ Meus amigos, Thaís Nicoleti de Camargo fez uma entrevista como há tempos eu não via: preparou-se, formulou perguntas pertinentes, completou-as com outras mais tarde. O resultado está abaixo. Avaliem vocês mesmos, eu já lhe dei nota dez, que ela bem a merece! "A mulher é a melhor parte da natureza humana", diz um personagem de meu romance "Avante, soldados: para trás", já pôster em várias línguas. E, como pôster, saudava as leitoras, todos os anos, quando vinha maio, e eram diretores editoriais da Siciliano a Lígia Siciliano Novazzi e o Pedro Paulo de Sena Madureira, que lançaram o romance, hoje em 10a edição. Thaís Nicoleti PerfilThaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL. PERFIL COMPLETO “Língua é patrimônio do povo brasileiro”; leia entrevista com o filólogo Deonísio da Silva POR THAÍS NICOLETI 06/10/14 18:51 Ouvir o texto Ultimamente, a ortografia tem ocupado na mídia espaço maior que o esperado, o que talvez se explique não por ser um tema apaixonante, mas pelo fato de, no Brasil, ser objeto de lei. A perspectiva de haver novas mudanças na grafia das palavras cria certo alvoroço tanto no meio editorial como na imprensa e nas escolas, enfim, entre aqueles que mais diretamente estão comprometidos com o tema, seja porque publicam obras, seja porque ensinam a escrever. O fato de existir no Senado um grupo técnico de trabalho encarregado de rever o último Acordo, que, embora date de 1990, entrou em vigor em 2009, cria alguma apreensão e, de certa forma, desestimula os esforços que têm sido feitos em direção à adaptação às novas regras. De início, muitas foram as vozes que o criticaram, afinal, a necessidade de unificação da grafia do português nos países lusófonos não parecia ser algo tão urgente. Além disso, antes da publicação do Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), havia muita dúvida sobre as novas regras e, consequentemente, proliferaram não só as criticas como também os equívocos. Depois da publicação do Vocabulário (e de uma errata com substituições, correções e aditamentos) e, sobretudo, depois de ser o corpus posto gratuitamente à disposição para consulta no site da ABL (www.academia.org.br), os ânimos se acalmaram e o processo de adaptação parecia seguir seu rumo. Eis que a divulgação de uma proposta de ortografia fonética, que imporia grandes mudanças à ortografia vigente (em nada comparáveis à supressão de alguns acentos e à alteração nas regras do hífen), vem novamente trazer à tona o tema da ortografia. Hoje quem conversa com o blog a respeito do assunto é o professor Deonísio da Silva, que é membro da Academia Brasileira de Filologia, professor universitário, escritor e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Respeitado nos círculos acadêmicos, Deonísio é também muito conhecido fora deles – e não é à toa, pois sua página de etimologia na revista “Caras” é sucesso há 20 anos. Além desse trabalho, Deonísio tem uma coluna na Rádio Bandnews Fluminense e vem publicando, ao longo de sua vida, títulos de grande interesse, entre os quais está o best-seller “De Onde Vêm as Palavras”, já na 17ª edição. É autor de 34 livros, em meio aos quais se destacam outras obras voltadas à etimologia (“A Vida Íntima das Frases” e “Palavras de Direito”) e os romances “Lotte & Zweig” (2012), baseado na vida do escritor, poeta e dramaturgo austríaco Stefan Zweig, “Teresa d’Avila” (1997) e “Avante, Soldados: para trás” (2005), romance que recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por nada menos que José Saramago – e o Nobel de Literatura não lhe poupou elogios. Leia, a seguir, a entrevista com o professor Deonísio da Silva: Thaís Nicoleti – O senhor esteve no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, realizado recentemente em Brasília (nos dias 10, 11 e 12 de setembro)? portugues em pautaO senhor apresentou uma proposta de revisão do Acordo Ortográfico de 1990? Em que ela consiste? Deonísio da Silva – Sim, estive no simpósio, que teve seu herói, o escritor José Carlos Gentili, que do nada tirou aquele evento. Para fazer jus ao convite, preparei um “paper”. O título foi “A Extinção do Hífen”, mas não o apresentei porque notei certo enfado dos presentes com a repetição de questões de complexas sutilezas, cuja explicação é inútil, apesar da alta qualificação dos conferencistas. Fiz, então, da etimologia a referência solar de minha intervenção, ilustrando com exemplos concretos o quanto perderíamos se adotássemos uma escrita fonética, de resto impossível de ser sequer formulada, quanto mais aplicada. Copo é copo, e leite é leite, mas “copo de leite” designa um copo com leite, porém “copo-de-leite” [com hifens] designa a açucena, uma planta ornamental. “Copo” e “leite” vieram ambos do latim, respectivamente de “cuppa” e de “lacte”; açucena veio do árabe “as-susana”, designando o que o grego conhecia por “leírion”, que deu “lilium” em latim e “lírio” em português. Essas questões etimológicas tornam-se ainda mais esclarecedoras no caso dos fármacos, em que a mudança de uma letra, não apenas da dosagem, pode designar remédio ou veneno. Além do mais, sou de Santa Catarina e lá se pronuncia “leite” de um modo diferente do que ouvi por longos anos no Rio Grande do Sul, no Paraná e em São Paulo, estados onde morei por vários anos. E no Rio, onde vivo há 11 anos, a pronúncia tem outras variações. Minha crítica foi esta: o Acordo ouviu muito pouca gente! Não me refiro a plebiscitos, mas acredito que profissionais da língua, como aqueles que, como eu, a estudam e a explicam a alunos ou a leitores, devam ser ouvidos. Essa foi a minha proposta. Como é que pode o nosso amigo Evanildo Bechara ser o executor das medidas de emergência do Acordo? Ele é altamente qualificado, é uma honra ser colega dele na Academia Brasileira de Filologia, mas ele precisa consultar, por exemplo, os colegas das duas Academias: da ABL e da ABRAFIL! Pelo menos esses! TN – Há alguma proposta de revisão do Acordo formalizada, além da sua, em condições de ser discutida no âmbito do Senado? DS – Creio que ainda não, mas achei bom o Senado estar envolvido nisso. TN – A quem caberá liderar essa discussão no Senado e como exatamente se definirão as novas regras, na hipótese de isso vir a acontecer? Há um conselho de pessoas especializadas? DS – Se houver uma proposta, ela deverá ser formulada por quem entende do riscado. O brasileiro tem uma habilidade verbal impressionante, mas estuda pouco a sua língua. É bom que seus representantes no Senado examinem esta questão. Alguns dos que têm determinado como devemos escrever deveriam usar tornozeleiras eletrônicas para sabermos por onde andam e por que formulam tantas impropriedades. Não é o caso de Ernani Pimentel. Ele detectou certa hostilidade em minhas críticas, mas eu não critico pessoas. Critico instituições. E elas, apesar de conduzidas por pessoas, também moldam aqueles que as conduzem. TN – A quem exatamente o senhor se refere? DS – Por exemplo: recentemente, o dinheiro público financiou uma edição de 600 mil exemplares de “O Alienista”, de Machado de Assis, em que, em vez de serem explicadas as palavras que ampliavam e melhoravam o vocabulário dos leitores, principalmente alunos, elas eram substituídas por outras, tidas por mais fáceis, resultando em edição falsificada de nosso maior escritor, paga com dinheiro público! Ora, todos sabemos que o autor é modelo de escrever bem. TN – Novamente a ideia de que é preciso “simplificar” as coisas. Penso que seria mais produtivo ensinar mais e melhor, fomentar a leitura e despertar o interesse pela nossa literatura. Mas, ainda sobre as possíveis mudanças ortográficas, o senhor acredita que um GTT [grupo de trabalho técnico, criado pela Comissão de Educação do Senado] coordenado por alguém que está fora do meio acadêmico vai conseguir congregar professores e estudiosos das universidades para debater o tema? DS – Não vai. O meio acadêmico trabalha sobre credenciais, vitae, competência, desempenho, aferidos trienalmente por suas publicações, palestras, conferências etc., de acordo com a Plataforma Lattes, do CNPQ. TN – O senhor percebeu alguma intenção desse GTT de levar o debate aos especialistas que estão nas universidades? O Senado, ao criar o GTT, não deveria ter buscado a universidade? DS - “Pau que nasce torto, nunca se endireita”, como diz o Melô do Tchan, e “menina que requebra… mãe, pega na cabeça”. O GTT – ele existe? – começou mal e pode terminar pior. “Depois de nove meses você vê o resultado”. Vai nascer um monstrinho. TN – O senhor acha que o GTT vai realmente propor alguma mudança ou o papel desse grupo é apenas levantar a questão? DS – Soube que o Senado vai fazer uma audiência pública sobre o tema. Parece uma boa coisa, mas eu tenho minhas dúvidas sobre se vale a pena e se este é o melhor caminho. Temo que entre os interessados haja gente interessada em outra coisa. Por exemplo: ganhar dinheiro com publicações apressadas, incluindo fazer dicionários com verbetes errados, como fizeram quando da “decretação” do Acordo. TN – O senhor acredita que haja intenção por parte da própria ABL de propor algum tipo de alteração no Acordo ou no Volp [Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa]? DS – Eu me esforço para acreditar que haja, mas estou muito desconfiado de que não seja assim! Ademais, a ABL não é sequer a instituição mais indicada para fazer isso. Examinemos os “vitae” de cada um dos acadêmicos. Quem ali pode fazer isso? Poucos. Acho que há excluídos até mesmo no interior da ABL, quanto mais fora! Os responsáveis pelo Acordo não podem desprezar os centros universitários de excelência onde a língua portuguesa é pesquisada e ensinada. TN – Que críticas o senhor faz ao texto do Acordo Ortográfico e/ou à interpretação que a ABL fez dele? DS – A principal é não terem consultado mais gente. “In medio virtus”, como ensinaram os sábios romanos. Não era necessário fazer plebiscito sobre os temas, mas tampouco era necessário tratar o Acordo como obra de “illuminati”. Ainda mais que pesam tantas controvérsias sobre se são tão “illuminati” assim. TN – O senhor acredita que qualquer pessoa, independentemente da formação acadêmica, possa propor um novo sistema ortográfico? DS – Não! Se eu não acreditasse na relação bunda-cadeira-hora, não teria estudado tanto! Quando um técnico de informática vem resolver um problema em meu computador, não lhe pergunto se ele sabe quais as mais de 21 mil palavras com hífen que sofreram alterações no português com o Acordo. E espero que ele não me pergunte se eu sei as sutis diferenças entre um “software” e um “hardware”. Dele espero que entenda de computador. Se as pessoas que inventaram computadores, celulares e “smartphones” escrevessem como seus usuários escrevem nesses utensílios, estaríamos na idade do “chip” lascado… TN – Na sua avaliação, o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário? Fazer a reforma desse Acordo vale a pena? DS – Se você está passando mal e não sabe o que tem, é melhor procurar um médico no qual confie. O português estava passando bem e, ainda assim, resolveram medicá-lo e, mais do que isso, submetê-lo a intervenções cirúrgicas dispensáveis. A verdade é que não precisávamos deste Acordo. Unificar modos de escrever, como fez o árabe, que tinha 14 grafias e agora tem uma apenas, para efeito internacional, respeitando a variação de cada país, tudo bem. Mas impor, não! Fala-se em Acordo com as outras nações lusófonas. Certo! Mas antes é preciso fazer o Acordo com os brasileiros. Esta proposta de refazê-lo é pior ainda. Este coelho não saiu do mato. Saiu de alguma cartola. TN – O professor Ernani Pimentel, coordenador do GTT, apresenta em seu site uma proposta de ortografia fonética que chegou a ser divulgada por vários veículos de comunicação. Após a divulgação, as reportagens foram desmentidas pela Agência Senado, mas o desmentido foi baseado apenas no fato de que tal proposta não estaria “formalizada”. O senhor acha que os senadores que criaram o GTT conhecem, de fato, essa proposta? Cristóvão Buarque aparece no site do prof. Ernani Pimentel ao lado de declaração favorável a ela. DS – Tenho grande apreço pelo senador Cristóvão Buarque, aliás, um bom romancista, mas esta parte de sua biografia é sempre esquecida. E sempre tenho sido um defensor intransigente de parlamentos, por piores que sejam, pois nos representam. Se o jabuti está no galho da árvore, alguém o pôs lá. Então, se são aqueles os nossos representantes, foi o povo quem os pôs lá. E livremente. Mas senadores podem ser enganados por espertos, por desavisados, por quem não tem maldade, mas prejudica mais do que se tivesse… Sem contar que os senadores não são santos. Enfim, todo cuidado é pouco quando se mexe no patrimônio público. E a língua é isso: um patrimônio do povo brasileiro.