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domingo, 19 de outubro de 2014

NOMES NO BRASIL: LADY GAGA VIROU NEYDE GAGÁ

Convido meus leitores a degustar uma reflexão bem simples que venho fazendo a partir dos nomes mais comuns no Brasil. Durante muitos anos foram José, João, Manuel, Antônio e Pedro, para os meninos; e Maria, Ana, Antônia, Cecília e Isabel, para as meninas. Após a Segunda Guerra Mundial, depois de dividirem o mundo entre os quatro vencedores, na Conferência de Yalta – Churchill, Roosevelt, Stálin e De Gaulle -, coube aos EUA a América Latina, um novo mercado para músicas, filmes, histórias em quadrinhos etc. A partir da década de 1980, entretanto, com as defesas da cultura nacional seriamente avariadas, o que era influência passou a dominação. E predominaram nomes do Inglês, mas em estranha grafia, pois nem os pais, nem os escrivães, dado o rebaixamento do ensino que acompanhou a invasão, sabiam o Inglês. Assim, surgiram Uóxynton, Máycon, Xuarzenéguer e Jéquysson, para os meninos; e Madona, Jéssyca, Byoncy, Jennyfer e Neyde Gagá (era para ser Lady Gaga), para as meninas. A letra Y tornou-se obrigatória! Pois agora mudou de novo. Prevalece a força da televisão, não mais a da “folhinha” com o santo do dia, manifestada nos nomes de personagens tirados de telenovelas e de homilias dos novos pastores, que evitam o Novo testamento, preferindo personagens do Antigo Testamento, onde Jesus, São Pedro e São Paulo, entre outros, não são encontrados! Assim, temos entre os escolhidos nomes de reis bíblicos, como Daví, Saul e Salomão, e dos profetas Ezequiel, Isaías e Zacarias, para os meninos. Para as meninas predominam nomes de atrizes ou das personagens que elas representam nas novelas, como Giovana, Sofia, Débora e Viviane . Estou lendo uma biografia de Dionisius, 6º rei de Portugal, mais conhecido pelo apelido de Dinis, como eu o sou por Deo. Um dia o rei pescou um soalho, peixe hoje extinto, de 17,5 arrobas ou 262,5 quilos. Foi documentado pelo tabelião real. E vocês, o que pescaram da minha coluninha? (Escrevam para deonisio@terra.com.br). º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

LADY GAGA VIROU NEYDE GAGÁ, MAS COM Y

Convido meus leitores a degustar uma reflexão bem simples que venho fazendo a partir dos nomes mais comuns no Brasil. Durante muitos anos foram José, João, Manuel, Antônio e Pedro, para os meninos; e Maria, Ana, Antônia, Cecília e Isabel, para as meninas. Após a Segunda Guerra Mundial, depois de dividirem o mundo entre os quatro vencedores, na Conferência de Yalta – Churchill, Roosevelt, Stálin e De Gaulle -, coube aos EUA a América Latina, um novo mercado para músicas, filmes, histórias em quadrinhos etc. A partir da década de 1980, entretanto, com as defesas da cultura nacional seriamente avariadas, o que era influência passou a dominação. E predominaram nomes do Inglês, mas em estranha grafia, pois nem os pais, nem os escrivães, dado o rebaixamento do ensino que acompanhou a invasão, sabiam o Inglês.
Assim, surgiram Uóxynton, Máycon, Xuarzenéguer e Jéquysson, para os meninos; e Madona, Jéssyca, Byoncy, Jennyfer e Neyde Gagá (era para ser Lady Gaga), para as meninas. A letra Y tornou-se obrigatória! Pois agora mudou de novo. Prevalece a força da televisão, não mais a da “folhinha” com o santo do dia, manifestada nos nomes de personagens tirados de telenovelas e de homilias dos novos pastores, que evitam o Novo testamento, preferindo personagens do Antigo Testamento, onde Jesus, São Pedro e São Paulo, entre outros, não são encontrados! Assim, temos entre os escolhidos nomes de reis bíblicos, como Daví, Saul e Salomão, e dos profetas Ezequiel, Isaías e Zacarias, para os meninos. Para as meninas predominam nomes de atrizes ou das personagens que elas representam nas novelas, como Giovana, Sofia, Débora e Viviane . Estou lendo uma biografia de Dionisius, 6º rei de Portugal, mais conhecido pelo apelido de Dinis, como eu o sou por Deo. Um dia o rei pescou um soalho, peixe hoje extinto, de 17,5 arrobas ou 262,5 quilos. Foi documentado pelo tabelião real. E vocês, o que pescaram da minha coluninha? (Escrevam para deonisio@terra.com.br). º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

O BRASIL ÀS VEZES NOS SURPREENDE

https://www.youtube.com/watch?v=ipcwiQwa0JM Eles conhecem as músicas de Nelson Mandela. Não andariam ao lado de transeuntes porque sempre andam pela calçada. Não casariam com alguém do sexo oposto. Acham que na família deles não existe nenhum heterossexual. Acham bom Nelson Mandela vir cantar em Campina Grande, embora já tenham dançado alguma música ao som dele.

domingo, 12 de outubro de 2014

SEGUNDO TURNO: A OUTRA VOLTA DOS PARAFUSOS

O pavor do homem medieval era chegar tarde da noite e encontrar fechadas as portas da cidade. Seus habitantes tinham medo até do vilão, o morador da vila, sem muralhas, e por isso vilão virou sinônimo de covarde, trapaceiro. Hoje o grande medo é morar nas cidades. Quanto maior a cidade, maiores os perigos. E segurança tornou-se tema forte de campanhas políticas em todos os níveis. A segurança foi um dos temas do debate entre os candidatos a governador do Rio que chegaram ao segundo turno: o “bispo” Marcelo Crivella, “da Igreja Universal do Reino Deus, e Luiz Fernando Pezão, atual governador e ex-prefeito de Piraí, de apenas 20 mil habitantes. Pezão calça 47,5. Esta é a origem do apelido. No debate que a Bandnews promoveu entre os dois na quinta-feira passada, coube-me sentar ao lado do professor e economista Carlos Lessa, que foi presidente do BNDES nos governos Lula. Lessa me falou com entusiasmo de outra candidatura que ele está promovendo: a canonização do Padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço. E me convidou para ajudá-lo. Propus-lhe um mutirão para canonizar Padim Ciço e também a catarinense Albertina Berkenbrock e o Padre Teixeira, nome de rua em São Carlos, cujos processos de santidade estão emperrados. Concordando, ele lembrou entretanto um papel importante dos evangélicos. Migrantes de todo o Brasil, principalmente do Nordeste, sentem-se sozinhos, longe da família, nas grandes cidades onde chegam. O templo passa a ser, então, a família deles. Enquanto a Igreja se recusa a canonizar o Padim Ciço, os pastores evangélicos utilizam a fama dele para atrair novos fiéis a seus templos. Muita coisa precisa mudar no Brasil. E no Vaticano também. Não canoniza o Padim Ciço, Albertina, o Padre Teixeira e tantos outros. Quem perde com isso? O povo, claro, e aqueles que com ele trabalham. Como os governos, também a Igreja tem que ouvir o povo. (*) da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ACORDO ORTOGRÁFICO: DEONÍSIO RESPONDE TUDO A THAÍS NICOLETI DE CAMARGO

http://thaisnicoleti.blogfolha.uol.com.br/2014/10/06/lingua-e-patrimonio-do-povo-brasileiro-leia-entrevista-com-o-filologo-deonisio-da-silva/ Meus amigos, Thaís Nicoleti de Camargo fez uma entrevista como há tempos eu não via: preparou-se, formulou perguntas pertinentes, completou-as com outras mais tarde. O resultado está abaixo. Avaliem vocês mesmos, eu já lhe dei nota dez, que ela bem a merece! "A mulher é a melhor parte da natureza humana", diz um personagem de meu romance "Avante, soldados: para trás", já pôster em várias línguas. E, como pôster, saudava as leitoras, todos os anos, quando vinha maio, e eram diretores editoriais da Siciliano a Lígia Siciliano Novazzi e o Pedro Paulo de Sena Madureira, que lançaram o romance, hoje em 10a edição. Thaís Nicoleti PerfilThaís Nicoleti de Camargo é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL. PERFIL COMPLETO “Língua é patrimônio do povo brasileiro”; leia entrevista com o filólogo Deonísio da Silva POR THAÍS NICOLETI 06/10/14 18:51 Ouvir o texto Ultimamente, a ortografia tem ocupado na mídia espaço maior que o esperado, o que talvez se explique não por ser um tema apaixonante, mas pelo fato de, no Brasil, ser objeto de lei. A perspectiva de haver novas mudanças na grafia das palavras cria certo alvoroço tanto no meio editorial como na imprensa e nas escolas, enfim, entre aqueles que mais diretamente estão comprometidos com o tema, seja porque publicam obras, seja porque ensinam a escrever. O fato de existir no Senado um grupo técnico de trabalho encarregado de rever o último Acordo, que, embora date de 1990, entrou em vigor em 2009, cria alguma apreensão e, de certa forma, desestimula os esforços que têm sido feitos em direção à adaptação às novas regras. De início, muitas foram as vozes que o criticaram, afinal, a necessidade de unificação da grafia do português nos países lusófonos não parecia ser algo tão urgente. Além disso, antes da publicação do Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), havia muita dúvida sobre as novas regras e, consequentemente, proliferaram não só as criticas como também os equívocos. Depois da publicação do Vocabulário (e de uma errata com substituições, correções e aditamentos) e, sobretudo, depois de ser o corpus posto gratuitamente à disposição para consulta no site da ABL (www.academia.org.br), os ânimos se acalmaram e o processo de adaptação parecia seguir seu rumo. Eis que a divulgação de uma proposta de ortografia fonética, que imporia grandes mudanças à ortografia vigente (em nada comparáveis à supressão de alguns acentos e à alteração nas regras do hífen), vem novamente trazer à tona o tema da ortografia. Hoje quem conversa com o blog a respeito do assunto é o professor Deonísio da Silva, que é membro da Academia Brasileira de Filologia, professor universitário, escritor e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo. Respeitado nos círculos acadêmicos, Deonísio é também muito conhecido fora deles – e não é à toa, pois sua página de etimologia na revista “Caras” é sucesso há 20 anos. Além desse trabalho, Deonísio tem uma coluna na Rádio Bandnews Fluminense e vem publicando, ao longo de sua vida, títulos de grande interesse, entre os quais está o best-seller “De Onde Vêm as Palavras”, já na 17ª edição. É autor de 34 livros, em meio aos quais se destacam outras obras voltadas à etimologia (“A Vida Íntima das Frases” e “Palavras de Direito”) e os romances “Lotte & Zweig” (2012), baseado na vida do escritor, poeta e dramaturgo austríaco Stefan Zweig, “Teresa d’Avila” (1997) e “Avante, Soldados: para trás” (2005), romance que recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por nada menos que José Saramago – e o Nobel de Literatura não lhe poupou elogios. Leia, a seguir, a entrevista com o professor Deonísio da Silva: Thaís Nicoleti – O senhor esteve no Simpósio Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, realizado recentemente em Brasília (nos dias 10, 11 e 12 de setembro)? portugues em pautaO senhor apresentou uma proposta de revisão do Acordo Ortográfico de 1990? Em que ela consiste? Deonísio da Silva – Sim, estive no simpósio, que teve seu herói, o escritor José Carlos Gentili, que do nada tirou aquele evento. Para fazer jus ao convite, preparei um “paper”. O título foi “A Extinção do Hífen”, mas não o apresentei porque notei certo enfado dos presentes com a repetição de questões de complexas sutilezas, cuja explicação é inútil, apesar da alta qualificação dos conferencistas. Fiz, então, da etimologia a referência solar de minha intervenção, ilustrando com exemplos concretos o quanto perderíamos se adotássemos uma escrita fonética, de resto impossível de ser sequer formulada, quanto mais aplicada. Copo é copo, e leite é leite, mas “copo de leite” designa um copo com leite, porém “copo-de-leite” [com hifens] designa a açucena, uma planta ornamental. “Copo” e “leite” vieram ambos do latim, respectivamente de “cuppa” e de “lacte”; açucena veio do árabe “as-susana”, designando o que o grego conhecia por “leírion”, que deu “lilium” em latim e “lírio” em português. Essas questões etimológicas tornam-se ainda mais esclarecedoras no caso dos fármacos, em que a mudança de uma letra, não apenas da dosagem, pode designar remédio ou veneno. Além do mais, sou de Santa Catarina e lá se pronuncia “leite” de um modo diferente do que ouvi por longos anos no Rio Grande do Sul, no Paraná e em São Paulo, estados onde morei por vários anos. E no Rio, onde vivo há 11 anos, a pronúncia tem outras variações. Minha crítica foi esta: o Acordo ouviu muito pouca gente! Não me refiro a plebiscitos, mas acredito que profissionais da língua, como aqueles que, como eu, a estudam e a explicam a alunos ou a leitores, devam ser ouvidos. Essa foi a minha proposta. Como é que pode o nosso amigo Evanildo Bechara ser o executor das medidas de emergência do Acordo? Ele é altamente qualificado, é uma honra ser colega dele na Academia Brasileira de Filologia, mas ele precisa consultar, por exemplo, os colegas das duas Academias: da ABL e da ABRAFIL! Pelo menos esses! TN – Há alguma proposta de revisão do Acordo formalizada, além da sua, em condições de ser discutida no âmbito do Senado? DS – Creio que ainda não, mas achei bom o Senado estar envolvido nisso. TN – A quem caberá liderar essa discussão no Senado e como exatamente se definirão as novas regras, na hipótese de isso vir a acontecer? Há um conselho de pessoas especializadas? DS – Se houver uma proposta, ela deverá ser formulada por quem entende do riscado. O brasileiro tem uma habilidade verbal impressionante, mas estuda pouco a sua língua. É bom que seus representantes no Senado examinem esta questão. Alguns dos que têm determinado como devemos escrever deveriam usar tornozeleiras eletrônicas para sabermos por onde andam e por que formulam tantas impropriedades. Não é o caso de Ernani Pimentel. Ele detectou certa hostilidade em minhas críticas, mas eu não critico pessoas. Critico instituições. E elas, apesar de conduzidas por pessoas, também moldam aqueles que as conduzem. TN – A quem exatamente o senhor se refere? DS – Por exemplo: recentemente, o dinheiro público financiou uma edição de 600 mil exemplares de “O Alienista”, de Machado de Assis, em que, em vez de serem explicadas as palavras que ampliavam e melhoravam o vocabulário dos leitores, principalmente alunos, elas eram substituídas por outras, tidas por mais fáceis, resultando em edição falsificada de nosso maior escritor, paga com dinheiro público! Ora, todos sabemos que o autor é modelo de escrever bem. TN – Novamente a ideia de que é preciso “simplificar” as coisas. Penso que seria mais produtivo ensinar mais e melhor, fomentar a leitura e despertar o interesse pela nossa literatura. Mas, ainda sobre as possíveis mudanças ortográficas, o senhor acredita que um GTT [grupo de trabalho técnico, criado pela Comissão de Educação do Senado] coordenado por alguém que está fora do meio acadêmico vai conseguir congregar professores e estudiosos das universidades para debater o tema? DS – Não vai. O meio acadêmico trabalha sobre credenciais, vitae, competência, desempenho, aferidos trienalmente por suas publicações, palestras, conferências etc., de acordo com a Plataforma Lattes, do CNPQ. TN – O senhor percebeu alguma intenção desse GTT de levar o debate aos especialistas que estão nas universidades? O Senado, ao criar o GTT, não deveria ter buscado a universidade? DS - “Pau que nasce torto, nunca se endireita”, como diz o Melô do Tchan, e “menina que requebra… mãe, pega na cabeça”. O GTT – ele existe? – começou mal e pode terminar pior. “Depois de nove meses você vê o resultado”. Vai nascer um monstrinho. TN – O senhor acha que o GTT vai realmente propor alguma mudança ou o papel desse grupo é apenas levantar a questão? DS – Soube que o Senado vai fazer uma audiência pública sobre o tema. Parece uma boa coisa, mas eu tenho minhas dúvidas sobre se vale a pena e se este é o melhor caminho. Temo que entre os interessados haja gente interessada em outra coisa. Por exemplo: ganhar dinheiro com publicações apressadas, incluindo fazer dicionários com verbetes errados, como fizeram quando da “decretação” do Acordo. TN – O senhor acredita que haja intenção por parte da própria ABL de propor algum tipo de alteração no Acordo ou no Volp [Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa]? DS – Eu me esforço para acreditar que haja, mas estou muito desconfiado de que não seja assim! Ademais, a ABL não é sequer a instituição mais indicada para fazer isso. Examinemos os “vitae” de cada um dos acadêmicos. Quem ali pode fazer isso? Poucos. Acho que há excluídos até mesmo no interior da ABL, quanto mais fora! Os responsáveis pelo Acordo não podem desprezar os centros universitários de excelência onde a língua portuguesa é pesquisada e ensinada. TN – Que críticas o senhor faz ao texto do Acordo Ortográfico e/ou à interpretação que a ABL fez dele? DS – A principal é não terem consultado mais gente. “In medio virtus”, como ensinaram os sábios romanos. Não era necessário fazer plebiscito sobre os temas, mas tampouco era necessário tratar o Acordo como obra de “illuminati”. Ainda mais que pesam tantas controvérsias sobre se são tão “illuminati” assim. TN – O senhor acredita que qualquer pessoa, independentemente da formação acadêmica, possa propor um novo sistema ortográfico? DS – Não! Se eu não acreditasse na relação bunda-cadeira-hora, não teria estudado tanto! Quando um técnico de informática vem resolver um problema em meu computador, não lhe pergunto se ele sabe quais as mais de 21 mil palavras com hífen que sofreram alterações no português com o Acordo. E espero que ele não me pergunte se eu sei as sutis diferenças entre um “software” e um “hardware”. Dele espero que entenda de computador. Se as pessoas que inventaram computadores, celulares e “smartphones” escrevessem como seus usuários escrevem nesses utensílios, estaríamos na idade do “chip” lascado… TN – Na sua avaliação, o Acordo Ortográfico de 1990 era necessário? Fazer a reforma desse Acordo vale a pena? DS – Se você está passando mal e não sabe o que tem, é melhor procurar um médico no qual confie. O português estava passando bem e, ainda assim, resolveram medicá-lo e, mais do que isso, submetê-lo a intervenções cirúrgicas dispensáveis. A verdade é que não precisávamos deste Acordo. Unificar modos de escrever, como fez o árabe, que tinha 14 grafias e agora tem uma apenas, para efeito internacional, respeitando a variação de cada país, tudo bem. Mas impor, não! Fala-se em Acordo com as outras nações lusófonas. Certo! Mas antes é preciso fazer o Acordo com os brasileiros. Esta proposta de refazê-lo é pior ainda. Este coelho não saiu do mato. Saiu de alguma cartola. TN – O professor Ernani Pimentel, coordenador do GTT, apresenta em seu site uma proposta de ortografia fonética que chegou a ser divulgada por vários veículos de comunicação. Após a divulgação, as reportagens foram desmentidas pela Agência Senado, mas o desmentido foi baseado apenas no fato de que tal proposta não estaria “formalizada”. O senhor acha que os senadores que criaram o GTT conhecem, de fato, essa proposta? Cristóvão Buarque aparece no site do prof. Ernani Pimentel ao lado de declaração favorável a ela. DS – Tenho grande apreço pelo senador Cristóvão Buarque, aliás, um bom romancista, mas esta parte de sua biografia é sempre esquecida. E sempre tenho sido um defensor intransigente de parlamentos, por piores que sejam, pois nos representam. Se o jabuti está no galho da árvore, alguém o pôs lá. Então, se são aqueles os nossos representantes, foi o povo quem os pôs lá. E livremente. Mas senadores podem ser enganados por espertos, por desavisados, por quem não tem maldade, mas prejudica mais do que se tivesse… Sem contar que os senadores não são santos. Enfim, todo cuidado é pouco quando se mexe no patrimônio público. E a língua é isso: um patrimônio do povo brasileiro.

sábado, 4 de outubro de 2014

O FUTURO NÃO ABRE A PORTA ANTES DA HORA

Por que eu perderia para um bêbado, um cotó e um aleijado?”. Fevereiro de 1942. Adolf Hitler, então com 52 anos, era vegetariano, não fumava, estava com saúde de ferro e se referia aos líderes das três grandes potências que enfrentavam a Alemanha na Segunda Guerra Mundial. O bêbado era Winston Leonard Spencer-Churchill, de 68 anos, primeiro-ministro inglês, carnívoro que bebia, fumava e posava para fotos de charuto aceso.
Com o braço esquerdo mais curto do que o direito por causa de um ferimento ocorrido em seus verdes anos, comendo, bebendo e fumando muito, o cotó era o georgiano Iossif Vissarionovitch Djugatchvli, mais conhecido por Josef Stalin, de 63 anos, supremo comandante da Rússia, depois União Soviética. O aleijado era o presidente dos EUA, o norte-americano Franklin Delano Roosevelt, de 60 anos, que usava cadeira de rodas ou era carregado por assessores por causa de uma poliomielite contraída aos 39 anos
Quando a famosa frase foi proferida, já fazia três anos que Hitler assustava o mundo inteiro com suas vitórias retumbantes. Naquele mesmo mês, aliás, vivendo refugiado em Petrópolis, no Rio, o escritor judeu-austríaco Stefan Zweig morria em companhia de sua amada Lotte, num duplo suicídio que sempre me pareceu duplo assassinato. Hoje é dia de eleições presidenciais. Os institutos de pesquisa anunciam um dom que não têm, o da profecia. Já erraram feio outras vezes. No dia da eleição de Harry Truman, o presidente dos EUA que acabou com a Segunda Guerra Mundial, a manchete de alguns jornais foi: “Dewey defeats Truman” (Dewey derrota Truman).
Ora, direis, isso foi em 1948 e nos EUA. Mas no Brasil de 2014 estão no poder vários governadores que, segundo pesquisas feitas às vésperas de sua eleição, em 2010, nem iriam para o segundo turno. Portanto, neste domingo, votemos. E aguardemos. Como no futebol, o jogo só termina quando o juiz dá o apito final. Sim, este jogo cívico também tem juiz! º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

ORIGEM DA EXPRESSÃO PAPAGAIO DE PIRATA E ELEIÇÕES

Hoje, 01/10/2014,na Rádio BandNews FM, no SEM PAPAS NA LÍNGUA, com Ricardo Boechat, Rodolfo Schneider e Maíra Gama Martins, lembramos que nosso presidente Boechat ganhou mais uma vez o Prêmio Comunique-se de Jornalismo (é decampeão nas categorias disputadas). Tratamos da origem da expressão "papagaio de pirata", inspirada em garrafa de rum, o "Ron Montilla", que mostra um pirata com um papagaio no ombro.
Demos a origem de candidato (candidatus, que vestia uma toga branca na antiga Roma, simbolizando pureza, ausência de mácula, mancha), voto (do Latim votum, promessa), urna (do Latim urna, vaso), e de ostracismo, palavra que tem origem na concha de ostra, que servia de cédula na Grécia antiga para banir alguém indesejado. E mais umas coisinhas, que serão postadas depois no Youtube, como a famosa historinha entre Jânio Quadros, já exilado em Paris, conversando com um transeunte que lhe perguntou se o ex-presidente sabia quem era ele, e Jânio respondeu assim: " Ora, meu caro, se você, que é você, não sabe quem você é, como iria eu sabê-lo?". E Boechat contou outra: "Que você faz, meu caro eleitor?". "Sou funcionário dos correios, presidente". "E gosta de sê-lo?". "Não. Não coleciono, presidente". Ele entendeu "selo".

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

106 ANOS DA MORTE DE MACHADO DE ASSIS NA RÁDIO BANDNEWS FM 94,90

Com Pollyanna Bretas, hoje na Rádio Bandnews FM 94,90, no PITADAS DO DEONÍSIO Há 106 anos, nesse dia, 29/9/1908, às 3h30 da madrugada morria, de câncer na boca, na Rua Cosme Velho, 18, o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Joaquim Maria Machado de Assis. Preto (num país escravocrata!), pobre, órfão, gago, epiléptico, sem curso superior e sem jamais ter-se formado em coisa nenhuma, casado com uma portuguesa mais velha do que ele, que partira quatro anos antes, Machado morreu sem filhos para não transmitir a epilepsia. 2) Sua grande figura de linguagem foi a ironia, palavra de origem grega, que veio do Latim para o Português, e significa "perguntar fingindo ignorância, mostrar o avesso para que se veja o direito, dizer o contrário do que se está pensando". 3) Eis belo exemplo da IRONIA de Machado ao tratar da Abolição da Escravatura em crônica publicada alguns dias depois: "Houve sol, e grande sol, naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que a regente ( a princesa Isabel) sancionou, e todos saímos à rua. Sim, também eu saí à rua, eu o mais encolhido dos caramujos, também eu entrei no préstito, em carruagem aberta (...) Verdadeiramente, foi o único dia de delírio que me lembra ter visto." Se fosse hoje, a lei não seria votada. Os parlamentares trabalham de terça a quinta-feira... 4) Depois, em outra crônica, ele conta a história de um patrão que alforria seu escravo, um moleque chamado Pancrácio, ANTES da ABOLIÇÃO. E faz um jantar para entregar-lhe a Carta de Alforria. No outro dia, pergunta se o escravo, agora liberto, quer ir embora ou ficar. Oferece seis contos por ano e ele fica. Mas sem casa, comida e sem roupa lavada. Isto é, vai ganhar menos do que antes. E no dia seguinte apanha do patrão, com o fim de não ser abolido o costume... 5) Outros escritores também debocharam da Lei. Aluísio Azevedo, no final de O Cortiço, mostra João Romão recebendo uma comissão de abolicionistas que vêm homenageá-lo em casa. Momentos antes, sua escrava e amante, Bertoleza, se sucidara na cozinha, ao saber que a carta de alforria pela qual pagara com o trabalho gratuito de muitos anos, era falsa!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O PRIMEIRO JORNAL DO MUNDO

“Uma briga num bar é mais importante do que uma revolução no Chile”, dizia o fundador do Jornal do Poste, ainda hoje afixado nos muros de São João del Rey, uma espécie de Macondo das Minas Gerais. O Jornal do Poste ainda existe e chega a ter três edições diárias. Seu fundador foi João Lobosque Neto, o Joanino, fiscal da Receita e proprietário de um boteco. Nas sextas-feiras, quando o pessoal do interior vinha fazer compras, o texto era mais simples. A briga, não de bar, mas de taverna, não era importante para os antigos romanos. Importantes eram as batalhas travadas por Júlio César na Gália, atual França, de onde voltou com retumbantes vitórias, o rei Vercingetórix preso numa gaiola e uma obra literária referencial, “De Bello Gallico”, A Guerra Gaulesa. E ainda atravessou a rio Rubicão pronunciando a frase famosa “Alea jacta est” (A sorte foi lançada). Foi obra dos antigos romanos o primeiro jornal do mundo, o ACTA DIURNA POPULI ROMANI (atos diários do povo de Roma). Eram afixados diariamente no Fórum para que as pessoas pudessem saber o que estava acontecendo. No começo eram publicados apenas editais, mas depois começaram a ser noticiados também casamentos, nascimentos, avisos fúnebres e outras notícias. Além das “Acta Diurna”, havia também os “Annales” (anais), com o registro das grandes batalhas e das conquistas de novos territórios, e as “Acta Publica”, cujo tema era o comércio. As três publicações romanas estavam sob controle republicano. O que mudou? Patrícia Poeta foi demitida do Jornal Nacional, depois de pôr o dedo na cara da presidente da República! “Isso não se faz, Arnesta, nós não se importa, mas você você devia ter deixado recado na porta”, não na cara da presidente que é de todos nós, afinal o povo a elegeu. E talvez a eleja de novo. E aí, como fica? A mídia mudou pouco nesses dois milênios. O que mais mudou foi a tecnologia. º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

ARQUIDUQUESA DA ÁUSTRIA MORREU POBRE NO SUL

A arquiduquesa Maria Antonia da Áustria, da mesma estirpe da princesa Leopoldina, esposa de Dom Pedro I, e de Sissi, a imperatriz, vivia de recolher sobras de restaurantes do Mercado Público, em Porto Alegre (RS), quando morreu, aos 78 anos, em 1977. Sua vida começara em Zagreb, hoje capital da Croácia, onde nascera em 1899. Quando eu fazia o mestrado na UFGRS, encontrava vários amigos nos mesmos lugares por onde andava a arquiduquesa, nos arredores da Rua da Praia, cujo nome guarda a memória das águas do Rio Guaíba que um dia a banharam: o promotor de Justiça e poeta Carlos Verzoni Nejar, hoje da Academia Brasileira de Letras; o poeta Mário Quintana; o romancista Josué Guimarães; os professores Guilhermino César, Sergius Gonzaga, Voltaire Schilling, Joaquim José Felizardo. Nós nada sabíamos dela. Mas havia alguém que sabia e tinha sido seu colega de pensão na década de 50. Era um menino que tinha vindo de Antônio Prado (RS) para estudar no prestigioso Colégio Júlio de Castilhos. O menino tornou-se piloto da VARIG, depois formou-se em Medicina e hoje é também um escritor dos bons. Seu nome: Franklin Cunha. Na pensão de Abel e Júlia Rubinatto, no número 980 da Avenida Independência, onde hoje está um Banco, teve como vizinhos de quarto a arquiduquesa da Áustria e seu último marido, Don Luis Fernando Perez Sucre. Ela o desposara em 1942, no Uruguai, para onde, já viúva, emigrara com os cinco filhos de sobrenomes Orlandis (do pai) y Habsburgo (da mãe). Há aqueles que pensam que a riqueza, a fortuna e o dinheiro não têm fim. O viés etimológico de Fortuna, que era uma das deusas da antiga Roma, presidindo ao bem e ao mal, já nos deixa desconfiados de que as fronteiras da sorte e do azar são móveis. Fortuna tem o mesmo étimo de forte, conforto, desconforto, fortuito e infortúnio, entre outras palavras. PS. Mais no livro de Franklin Cunha, Uma arquiduquesa imperial entre nós. Porto Alegre, Editora Pradense, 2013. º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

MUDANÇAS NA LÍNGUA PORTUGUESA

Na semana passada, realizou-se em Brasília o Simpósio Internacional Linguístico-ortográfico da língua Portuguesa, para o qual foram enviados representantes das oito nações lusófonas, isto é, que têm como oficial o idioma português. São elas: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé & Príncipe, Guiné-Bissau e Timor Leste. A língua portuguesa, a 5ª mais falada hoje no mundo, é o idioma oficial de países onde vivem 260 milhões de pessoas. Mas que escrevem de dois modos diferentes, um caso único no mundo. Foram tomadas iniciativas para unificar em 1911, 1943, 1945, 1971 e 1990. Ora, o Acordo Ortográfico de 1990 já tem 24 anos e ainda não foi implementado em todas essas nações. No Brasil, este novo modo de escrever está sendo aplicado desde 2009, mas com autorização para conviver com a antiga forma até 2016, a pedido de Portugal, depois de negociações entre o Senado brasileiro e a presidente Dilma Rousseff. Não faz tanto tempo assim que pharmacia, theatro, chlorophylla, exgottar, phosphoro, sciencia, football, maillot, soutien, rheumatismo, aucthor e damno, depois simplificados para farmácia, teatro, clorofila, esgotar, fósforo, ciência, futebol, maiô, sutiã, reumatismo, autor e dano. A língua portuguesa estava em uso há quase meio milênio quando Duarte Nunes de Leão, em 1576, propôs a primeira tentativa de conciliar a etimologia e a fonética para fixar a “Orthographia da Lingoa Portugueza”. Do século XIII ao século XVI predominara uma ortografia fonética, isto é, o objetivo era escrever o mais próximo do modo como se fala. Do século XVI ao século XX, houve uma conciliação entre a fonética e a etimologia, o que também se tenta fazer agora, mas com várias mudanças, principalmente no hífen. O título de minha conferência foi “A Extinção do Hífen”. Na semana que vem, contarei mais. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

A INDEPENDÊNCIA E O IDIOMA

http://oglobo.globo.com/opiniao/a-independencia-o-idioma-13897201 Se não abrir o site do Globo, eis o artigo aqui: A INDEPENDÊNCIA E O IDIOMA Deonísio da Silva * Foi de Pombal o discernimento de dotar o Brasil de uma língua comum, uma vez que os padres ensinavam outras, de acordo com a nacionalidade das ordens religiosas Quando, no dia 7 de setembro de 1822, por volta das quatro horas da tarde, dom Pedro I proclamou em São Paulo, às margens do Riacho Ipiranga, a independência do Brasil, a jovem nação já tinha uma língua, a portuguesa. Esta questão não é irrelevante. Uma nação se faz mais por sua língua do que por seu território. Estão aí de exemplo os judeus, sem pátria durante milênios, mas não sem língua. O hebraico, em que foi escrito o Pentateuco (a Torá), foi a língua que conservou unido o povo do livro. Dom Pedro, nascido em 1798, não conheceu o Marquês de Pombal, falecido em 1782, aos 83 anos. Mas deve muito a ele. Foi ele quem modernizou Portugal e seus domínios de além-mar no século anterior ao da Independência. E foi de Pombal o discernimento de dotar o Brasil de uma língua comum, a portuguesa, uma vez que os padres letrados usavam e ensinavam outras, de acordo com a nacionalidade das respectivas ordens religiosas. Dom João VI, pai de Dom Pedro I, tinha 15 anos quando Pombal morreu. Deve ter aprendido alguma coisa com o poderoso ministro do vovô, dom José I, pois foi o único que enganou Napoleão, quando, príncipe regente, fugiu com toda a Família Real para o Brasil, em 1807. Dali a 15 anos, Dom Pedro I, ao proclamar a Independência, seguiu o sábio conselho do pai, dado na manhã de 26 de abril de 1821, abraçado ao filho, já embarcado para voltar a contragosto para Portugal. Muito inteligente, o pai antevia a independência e disse ao filho: “Pedro, põe a coroa na tua cabeça antes que algum aventureiro lance mão dela.” O português, falado por 260 milhões, dos quais 200 milhões são brasileiros, é hoje a quinta língua mais falada no mundo, atrás do hindu, do mandarim, do inglês e do espanhol. Já temos a língua falada, falta conquistarmos a língua escrita para consolidarmos nossa independência. E esta questão é tão ou mais importante do que outras, como a econômica, a política e a social. Deonísio da Silva é escritor e professor A Independência e o idioma Foi de Pombal o discernimento de dotar o Brasil de uma língua comum, uma vez que os padres ensinavam outras, de acordo com a nacionalidade das ordens religiosas OGLOBO.GLOBO.COM

sábado, 23 de agosto de 2014

FAZ 60 ANOS QUE GETÚLIO VARGAS SE MATOU

Amanhã faz 60 anos que Getúlio Vargas se matou! Antecipo a crônica que sai no Primeira Página, como de hábito.
O jornal “Última Hora”, que hoje não existe mais, estampou em primeira página há exatos sessenta anos, no dia 24 de agosto de 2014: “‘Última Hora’ havia adiantado ontem o trágico propósito”. E mais abaixo: “Matou-se Vargas”. De colorido, em azul claro, só o nome do jornal. O preto no branco acentuava o luto nas chamadas seguintes, todas ainda na primeira página: “O presidente cumpriu a palavra: ‘só morto sairei do Catete”. As informações continuavam, todas ainda na primeira página: “A mensagem que Vargas deixou pouco antes de desfechar contra o peito o tiro fatal: À sanha de meus inimigos deixo o legado de minha morte. Levo o pezar (sic) de não ter podido fazer pelos humildes tudo aquilo que eu desejava”. Todo esse bombardeio foi feito em letras garrafais. E à esquerda, do meio da página para baixo, vinha o seguinte: “Às 8,30 hs da manhã de hoje o maior líder popular que o povo brasileiro já conheceu encerrou de modo dramático a sua grande vida. Um tiro no coração. O general Caiado ainda encontrou com vida o presidente. Desolação no Catete”. Ao longo daquele dia, outros jornais, em sucessivas edições extras, ilustravam um dos maiores acontecimentos do século. Vinham fotos do presidente com um pano branco comprimindo o queixo, com um nó bem em cima da cabeça. Para não aparecer de boca aberta? Sem a camisa do pijama, ainda hoje exposta no Catete, ou aberta para mostrar o lugar exato do tiro, as fotos diziam mais do que as palavras. Getúlio Vargas tinha sido deposto em 29 de outubro de 1945. Voltara ao poder em 1951. Nem antes, nem depois, jamais um presidente se suicidou. Não foram encontradas provas de corrupção. De outros presidentes depois dele, foram encontradas montanhas de provas de corrupção, mas nenhum deles se suicidou. Ao mergulhar no mistério indevassável da pós-vida, por vontade própria, a vida misteriosa do suicida deixa-nos um mistério a mais. º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

POR QUE O DIA DA FOTOGRAFIA É UM, E O DO FOTÓGRAFO É OUTRO?

O áudio do programa PITADAS DO DEONÍSIO, que faço com Pollyanna Brêtas na Bandews Fluminense, FM 94,90, às 2as. feiras, às 20h30, será postado oportunamente aqui e no Youtube. Por enquanto, segue o resumo do que foi levado ao ar hoje, 18 de agosto. Há controvérsias sobre o dia Dia Mundial da Fotografia. De modo geral é comemorado no dia 19 de agosto porque nesse dia, em 1839, o governo francês anunciou o invento. Já o dia do fotografo é comemorado no dia 8 de janeiro de 1840 porque nesse dia um abade francês chegou ao Rio e deu um aparelho de fazer fotografia ao primeiro fotógrafo do Brasil: Dom Pedro II. A palavra "photographie", de onde veio fotografia, foi inventada pelo francês Hércules Florence (1804-1879), que trabalhava em Campinas, no interior de São Paulo, e em 1832 (no dia 15 de agosto) inventou esta nova tecnologia. Isso entretanto só foi reconhecido pelas pesquisas do professor da USP, Boris Kossoy, publicadas em 1976. Estão presentes na palavra dois étimos do Grego: "photos", luz; e "graphé", escrita, do verbo "graphein", escrever, com o sentido de inscrever, fixar. Outro francês, chamado Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833), inventou processo semelhante, mas chamou heliografia, também uma palavra com dois étimos gregos: ("Hélios", Sol) e "graphé" (escrita)

sábado, 16 de agosto de 2014

EDUARDO CAMPOS: O DESTINO ESCOLHE A TUA HORA

Às vezes, gosto de viajar sozinho de carro. Já tomei graves decisões ao volante, ao som de boa música. Assim, quarta-feira passada, 13 de agosto, voltava de São Carlos, onde jantara com queridos amigos, fizera uma escala em São Paulo para uns afagos na minha filha e genro, beber um copo de vinho e celebrar a vida, e estava na Via Dutra, a caminho do Rio.V ia é redução de rodovia, palavra inventada por Washington Luís para designar estrada para veículos motorizados. No Brasil, morrem cerca de 50.000 pessoas por ano no trânsito. Por isso ia cuidadoso pela estrada afora. Mas, utilizando o “bluetooth” (dente azul), atendia ao telefone, sem tirar as mãos do volante. "Bluetooth” tem este nome porque o engenheiro dinamarquês que inventou o recurso de pôr em comunicação aparelhos de transmissão de voz próximos um do outro em até 150 metros, quis homenagear um rei dinamarquês chamado Harald, que tinha os dentes azuis e morreu lutando para unificar territórios de tribos próximas e formar seu país! A viagem seguia tranquila, a estrada estava livre. Almocei num Frango Assado (deviam mudar para Frango Assalto, as refeições são caras nesses estabelecimentos), e, depois de abastecer, o posto me brindou com um enorme pão de semolina. Descia a Serra das Araras, já perto do Rio, quando meu querido amigo e companheiro de trabalho na Bandnewws, o Ricardo Boechat, irrompeu num plantão no rádio contando que um avião caíra em Santos matando os sete ocupantes, entre os quais Eduardo Campos, candidato a presidente da República. Às 20h30, como de costume, entrei ao vivo com a querida Pollyanna Bretas para o “Pitadas do Deonísio” na mesma Bandnews. Falamos de esquerdo, canhoto e sinistro. A pauta tinha sido feita na manhã daquela quarta-feira. Acontecem muitas coisas em apenas 24 horas. E uma delas pode ser a sua hora. E a de Eduardo Campos chegara pela manhã. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

ADONIRAM BARBOSA

Hhttps://www.youtube.com/watch?v=5QtHqKbQ2RQ&list=UU_EWQWi4gHr3xVhnVKyIQ6w Dia 4 de agosto foi dia do PADRE, palavra que veio do Latim PATER, cujo étimo está em PATERNIDADE, PATERNAL, PATERNO, PADRASTO, PÁTRIA, PATRONO, PÁTRIA, PADRINHO, COMPADRE, PADROEIRO etc. Mas é sinônimo de SACERDOTE e esta palavra tem outra etimologia. O Latim SACERDOS, designando quem cuida do sagrado, é ofício criado ainda no Antigo Testamento, por Melquisedec. Por isso, ainda hoje nas ordenações a fórmula é: tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melquisedec (Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec). O padroeiro dos padres seculares é São João Maria Vianney, que tem uma biografia muito interessante. Ele foi um ANACORETA, não no sentido absoluto, mas passou quase toda a vida numa cidade de pouco mais de 200 habitantes. Anacoreta veio do Grego ANAKHORETES, pessoa que vive retirada, quase sozinha, distante de todos. O Brasil tem pouco mais de 18.000 padres. Teria 26 mil, se 8.000 não tivessem saído para casar. Na Itália há um padre para cada mil habitantes. Na Argentina, um para cada 6 mil. No Brasil, um para cada 11.000 pessoas, mais ou menos. (Postado pela atriz e compositora Isis Bez Birolo, minha prima mui querida). Pitadas do DEONÍSIO DA SILVA - na Bandnews (04-08-2014) Hoje é dia do PADRE, palavra que veio do Latim PATER, cujo étimo está em PATERNIDADE, PATERNAL, PATERNO, PADRASTO, PÁTRIA, PATRONO, PÁTRIA, PADRINHO, COMPADR... YOUTUBE.COM

domingo, 3 de agosto de 2014

SUA EXCELÊNCIA O CELULAR

http://www.jornalpp.com.br/colunista/item/66742-o-sucessor-do-radio-da-tv-do-computador O rádio não aboliu a leitura nem o hábito da boa prosa entre familiares e amigos, que se visitavam muito. Mas a televisão, sim. Pouco mais do que uma máquina de escrever no começo, o computador, depois da internet, fez parecer mais interessante quem estava mais longe. E o celular acabou de vez com o convívio. As visitas eram recebidas na sala, onde, antes de virem poltronas e sofás, havia uma mesa com bancos e poucas cadeiras, em geral de palha, com um furo no meio. Elas ensejaram a historinha contada por nosso avô, libidinoso e irreverente. Uma viúva se acomodara numa delas, e um gato passou por baixo, de rabo erguido, roçando naquele furo. E ela exclamou no meio da conversa: “Ai que saudade do falecido!”. Talvez este avô tenha feito de mim o escritor que sou. E talvez tenha me tornado também professor por outro motivo: ensinar aos interessados como apreciar uma boa história e para isso dominar a ferramenta de trabalho, a nossa saborosa língua portuguesa, repleta de palavras misteriosas, atraentes, e de frases tão significativas quanto nosso cancioneiro. Nos quartos, só os habitantes da casa entravam.E a parteira no quarto da mãe, onde dormia também o pai, é claro, do contrário não nasceriam bebês. Mas o quarto era da mãe. Nos quartos dos filhos, nas paredes ou em portas dos armários havia recortes de revistas com imagens dos artistas de quem os adolescentes eram fãs. Na cozinha, fogão a lenha, salames dependurados num arame, queijos sobre uma tábua. Num armário, chás, remédios simples. E latas com mantimentos. Eram latas semelhantes a bonecas russas. Vinham sete latas, uma dentro da outra, parecia que a pessoa tinha comprado apenas a maior. Conviviam com os locais as vacas e seus bezerros, o touro, os cavalos, os porcos, o galináceo. E árvores davam sombras e frutos. Este Brasil quase desapareceu. O povo produzia quase tudo o que precisava e ia muito pouco sofrer nos hospitais. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, professor e escritor, autor de romances e contos.

domingo, 20 de julho de 2014

FILME INÉDITO DE WOODY ALLEN, DE GRAÇA, NA REDE

Filme inédito de Woody Allen, de 26 minutos, inédito (uma sátira deliciosa), feito para uma TV que nunca o transmitiu, está disponível de graça na rede, narrado em Inglês, com legendas em Italiano. http://www.youtube.com/watch?v=1fnm7LVB3mY

sábado, 19 de julho de 2014

O QUE CONTAM AS MOEDAS: DO TOSTÃO AO REAL

Para muitos, o real não tem plural. Dizem “dois real, cinco real, dez real” etc. Mas o plural do real antigo, que existiu de Dom Manuel a Getúlio Vargas, que o substituiu pelo cruzeiro, era pronunciado direitinho: réis. Em 1994, depois de mudar de nome seis vezes, o cruzeiro voltou a ser real, no governo de Fernando Henrique Cardoso, mas o plural “réis” desapareceu A moeda mais popular, porém, foi o tostão, presente em numerosas expressões para designar pouco dinheiro, ao lado do vintém, e no lema da campanha do presidente Jânio Quadros, “o homem do tostão contra o milhão”. Tostão deriva da palavra italiana “testone”, cabeça grande. O primeiro “testone” era de prata e trazia a efígie do príncipe Galeazzo Maria Sforza, Duque de Milão. Sforza era um mecenas, mas também um homem devasso e cruel. Trazia moças para desvirginá-las em seu palácio, mandou matar de fome um padre que previu para ele um reinado curto, e ameaçou matar um caçador se não engolisse inteiras, com couro, patas e tudo, as lebres que havia caçado. Por que um sujeito violento, desumano e tarado tinha interesse em financiar o trabalho de um artista e cientista como Leonardo Da Vinci, então? A família Sforza enriqueceu com o comércio, tornou-se burguesa e viu no mecenato o caminho mais curto para alcançar o status de nobre. Alguns restos de contas a pagar, porém, poderiam resultar em vinganças inauditas. E o primeiro poderoso a aparecer no “testone” morreu assassinado aos 32 anos. Quem o matou não foi Visconti, cuja irmã ele desvirginara; nem o republicano Olgiati, cujo ódio era ideológico; foi Lampugnani, que tinha disputas de terra com a vítima. Ele ajoelhou-se diante do príncipe e, depois de algumas palavras, levantou-se e deu-lhe punhaladas mortais na virilha e nas costas. As moedas falam. Mas para isso é preciso pesquisar sua história. (xx) º escritor e professor, da Academia Brasileira de Filologia, diretor da Editora da Unisul.

terça-feira, 15 de julho de 2014

POR QUE NÃO TE CALAS, FELIPÃO?

Publicado no Diário Catarinense,12 de julho de 2014
Prest' atenção, Felipão! Dinheiro e anúncios não melhoram a educação de ninguém, se a pessoa não estuda! Ao menos, então, dê-nos o conforto de seu silêncio, se você não tem explicação para o desastre. Pois, exceto a CBF, todos sabemos que de futebol você entende cada vez menos. Com a demissão anunciada pelo catarinense Delfim Peixoto, novo vice-presidente da CBF, o treinador, que acumula um fracasso atrás do outro no último lustro, culminando com a tragédia da seleção na Copa de 2014, ignorou que Santa Catarina tem cinco taças nacionais e disse: “Santa Catarina nunca ganhou nada”. Com a exceção de que ganhou, sim, alguma coisa, mas porque ele a obrou! Cuspindo no prato que comeu, em vez de agradecer aos catarinenses e com eles celebrar a vitória memorável de 1991, quando o Criciúma foi campeão nacional e ele era o técnico, depois de receber um clube organizado, que lhe pagou regiamente pelos serviços prestado, e de herdar um time bem montado, ele agora, confiando na falta de memória de todos, diz que fez tudo sozinho. Quando ele vence com um time de Santa Catarina, é porque fez tudo sozinho. Quando fracassa com a seleção, como agora, é porque dá apagão em todos, menos nele! Além do cacófato - aqui no Rio se diz que "falou "m**da" - e da arrogância habituais, ao brigar com um cartola, não precisava atacar o Estado e ainda revelar sua ignorância das coisas nacionais. Santa Catarina tem três clubes na Série A, dois na Série B, dois na Série D e cinco na Copa do Brasil. Tudo obra de Felipão, certamente, que no princípio fez um dos estados mais bonitos do Brasil, com bons indicadores na economia, na cultura, na educação etc. E vendo que tudo isso era bom, depois de ter criado também o céu e a terra, enterrou a seleção brasileira a 7 palmos de fundura e descansou no 7º dia. Mas nós não descansamos dele. A cada dia, diz novas bobagens. (xx) º Escritor e professor universitário catarinense, Prêmio Internacional casa de Las Américas, autor de 34 livros, alguns publicados também no exterior.