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domingo, 26 de junho de 2016

NOME DE POBRE NO BRASIL

NOME DE POBRE NO BRASIL Certa vez recebi do saudoso Moacir Japiassu, nosso querido amigo Japi, grande jornalista e romancista altaneiro, cujas luzes literárias brilham no céu da pátria a todo instante, esse inventário fabuloso sobre os nomes que os pobres dão aos filhos. Aumento uns pontos, pois quem conta um conto... 1)Primeiras sílabas dos nomes do pai, da mãe ou dos avós. Exemplo Claudemarioneide. 2) O pai (a mãe está em casa, de resguardo, cumprindo a quarentena) olha o mapa-múndi e tasca nomes de capitais, mas tal como pronunciados diante do escrivão: Uoxinton Alves; Uelinton da Silva; Sidinei dos Santos; Liverpul Pereira etc. Mas, atenção: tem que ser do primeiro mundo. Nada de Bogotá, La Paz, Montevidéu. Brasília pode. 3) O show business: Máicon Jéquisson Chuarzenéguer Farias; Valdisnei, que é como o pai pronunciou Walt Disney diante do escrivão; Neide Gaga (era para ser Lady Gaga). 4) Sofrendo com a falta de recursos, o pobre dá nomes em abundância para um único filho, afinal é uma das poucas coisas que ele pode dar ao rebento, chamado também nascituro. Fica assim: Jénifer Géssica Maiúscula Antrópode Correia dos Santos. Tem que ser nome proparoxítono. 5) Pobre adora incluir consoantes estranhas. As preferidas parecem ser H e Y. Veja o caso do craque brasileiro agora revelado: Hyuri. Nem os russos ousaram tanto: pôr H antes de Y. 6) Homenagem a jogadores de futebol: Amarildo, Rivelino, às vezes juntos. Fica assim: Gylmar Amaryldo Ryvelyno Barbosa (tem que pôr y). 7) Marcas famosas: Simcar Levis, misturando o nome do escritor Sinclair Lewis, também conhecido como São Cler das Ilhas, e o carro Simca. E Simca Chambord Frigidér: neste caso, mesclando o carro e a geladeira. 8) Nomes gerados por confusões, como Odvan. A mãe queria perpetuar a música O Divã. Saiu isso, que foi como o pai pronunciou e o escrivão entendeu. Outro exemplo: "Como é o nome do menino?" "É pra ser Dino". E saiu registrado Pracedino. 9) Nomes de eventos: Udistoque (Woodstock) Ráley (o cometa de Halley) e Tisunami. 10) Nomes tirados das primeiras coisas que o pai leu ao abrir um livro: Sumário, Índice, Prefácio.

domingo, 19 de junho de 2016

TERMAS E FILÓSOFAS

Na coluna de Etimologia da CARAS que está a bancas.
Atacar: provavelmente do Italiano attaccare, a partir de staccare, remover, tirar algo do lugar, como um botão da farda ou uma orelha do inimigo, com troca de prefixo para o étimo tacca, do Gótico taikn, sinal feito em forma de “v”, com dois talhos convergentes sobre objeto de madeira ou de pedra, e mais tarde provavelmente sobre a própria pessoa, marcada como inimiga. Por isso, passou a designar ação ofensiva, passando depois, por comparação, a indicar injúrias que causassem danos semelhantes àqueles dos ataques físicos. O verbo ganhou com o tempo muitos outros significados: atacar a ração a ser devorada, atacar o prato de comida, atacar a pessoa ou objeto a ser agredidos (atacou o turista, atacou o carro, atacou o ônibus). É curioso que esteja perdendo o “a” inicial e voltando ao antigo étimo, às vezes com o significado de tocar: taca-lhe pau, tacou tomate no orador, tacou fogo no prédio e, por metáfora, tacou fogo no debate. Bordo: do Frâncico bord, barco, pelo Francês bord, cada lado do navio, cujo feminino, borda, significa beirada, dividido em bombordo, do Holandês bakboord, de bak, atrás, e boord, a partir do ponto de vista da cabine do piloto, que ficava na parte da frente do navio. Olhando-se de trás, o bombordo fica à esquerda, e o estibordo à direita. Diário de bordo é um tipo de gênero literário que guarda semelhança com livros semelhantes do comércio e da navegação. Caçarola: do Francês casserole, provavelmente de casse, recipiente, utensílio de cozinha semelhante à frigideira, conhecido também por panela, mas de forma circular, menos profundo do que a panela, usado para frigir, fritar. A semelhança no étimo do Latim frigere, ter frio, cujo particípio é frigatum ou frigidus, e frigere, grelhar, cujo particípio é frictum ou frixum, levou à aparente ambiguidade de frigideira ser utensílio para levar ao fogo, ao calor, e não à geladeira, ao frio. Diário: do Latim diarium, inicialmente registro de pagamentos e despesas feitos num dia, depois acrescidos de outras anotações em livro comercial e mais tarde caderno, transformado em livro, de fatos e acontecimentos relatados pelo autor de maneira cronológica, aos quais são acrescentados seus comentários, como impressões, opiniões e confissões. O livro deste gênero mais famoso do mundo é o Diário de Anne Frank, escrito entre junho de 1942 e agosto de 1944 pela adolescente judia Annelies Marie Frank (1929-1945), então com 13 anos, enquanto vivia num esconderijo com a família em Amsterdam, durante a invasão nazista. A autora morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, na Alemanha, aos 15 anos. Traduzido para mais de 70 línguas, em 60 países, já vendeu 30 milhões de exemplares. A autoria foi posta em dúvida, mas, depois de diversas perícias em que foi o manuscrito foi comparado com a caligrafia da menina nos cadernos escolares, em 2007, restou definitivamente comprovado que foi ela mesma quem o escreveu. Filósofa: de filósofo, do Grego philósophos, amigo do saber, pela junção de phílos, amigo, e sophós, saber, pelo Latim philosophus. O criador da palavra foi o pensador e matemático grego Pitágoras (570-495 a.C.), mas quem a usou num texto pela primeira com tal sentido foi o pensador pré-socrático grego Heráclito (535-475 a.C.), que vivia em Éfeso, na atual Turquia: “Os homens que amam a sabedoria precisam saber muitas coisas”. Para expressar “os homens que amam a sabedoria”, ele usou a palavra “philósophos”. Cícero (106-43 a.C.), ao trazer a palavra para o Latim, explicou que Pitágoras considerou ambicioso demais chamar-se sophós, sábio, e por isso cunhou o vocábulo novo. Havia também filósofas na Grécia antiga. A última delas, a matemática, astrônoma e pensadora grega Hipátia (351-415), que vivia no Egito romano, morreu assassinada em Alexandria, acusada de bruxaria. Depois de arrastada nua pelas ruas da cidade, foi torturada e morta diante de um altar, dentro de uma igreja. Sobre o tema há um bonito quadro do pintor inglês Charles William Mitchell (1854-1903). Terma: do Grego thermós, quente, pelo Latim thermae, local, como balneários, usado pelos romanos para banhos públicos com água morna, uso que eles trouxeram dos caldeus. Tinham fins higiênicos e terapêuticos. Eram frequentados pelas mulheres de manhã, e à tarde pelos homens. Casas ricas tinham estes recursos também, de forma privada, e contavam com o apoditério, onde eram lavados e tratados os pés; o tepidário, para banhos mornos; o caldário, para banhos quentes; o frigidário, para banhos frios; o sudatório, para suar, local que mudou de nome no mundo atual para o Finlandês sauna.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

COLUNA DE SÉRGIO NOGUEIRA NO WWW.G1.GLOBO.COM: SEMPRE IMPERDÍVEL

http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/post/qual-o-plural-de-mico-leao-saiba-mais-sobre-palavras-compostas.html Qual o plural de mico-leão? Saiba mais sobre palavras compostas VOCÊ SABE... ...qual é a origem da palavra baderna? Há controvérsias. 1. O professor Deonísio da Silva, no seu livro De onde vêm as palavras, afirma que baderna vem “do latim baderna, que no francês deu baderne e no italiano baderna, todos os vocábulos com o significado de desordem, bagunça”. 2. No dicionário Michaelis, encontramos: “baderna sf (de Baderna, np)”. Isso significa que baderna é um substantivo feminino (sf) e deriva de Baderna, nome próprio (np). Esse nome próprio está explicado no dicionário Aurélio: “baderna [Do antropônimo Baderna, de uma dançarina que esteve no Rio em 1851.]” Segundo o mesmo dicionário Aurélio, a palavra baderna que vem do latim baderna ou do francês baderne é um tipo de botão usado na Marinharia. Pelo visto, é bastante forte a tese de que baderna (=bagunça, desordem) vem mesmo da dançarina Maria Baderna, que teria feito muito sucesso entre nós e levados seus fãs ao delírio. Devido às manifestações exageradas, eram chamados de badernistas: fãs de Maria Baderna e desordeiros. O fato de um nome próprio tornar-se comum não é impossível, muito menos “proibido”. Há outros exemplos, como é o caso da palavra carrasco (=executor de pena de morte, algoz, verdugo). Segundo o dicionário Aurélio e o professor Deonísio da Silva, carrasco deriva do antropônimo Carrasco, de Belchior Nunes Carrasco, célebre algoz que teria vivido em Lisboa no século XVII. É o que, na prática, já está acontecendo com a palavra “aurélio” quando é usada como sinônimo de “dicionário”. DICA Formação do plural – Parte 3 Plural das palavras COMPOSTAS 1) Quando o substantivo composto é constituído de palavras que se escrevem ligadamente, sem hífen, somente o último elemento vai para o plural: aguardentes, pontapés, vaivéns... 2) Quando a palavra composta, com HÍFEN, é constituída de substantivos que têm plural, o normal é os dois irem para o plural: abelhas-mestras, amigos-ursos, capitães-tenentes, capitães-aviadores, cartas-bilhetes, cirurgiões-dentistas, couves-flores, decretos-leis, micos-leões, pesos-galos, porcos-espinhos, sacis-pererês, tamanduás-bandeiras, tenentes-coronéis... 3) Quando a palavra composta, com HÍFEN, é constituída de substantivos e o segundo faz papel de adjetivo (especifica o primeiro), os dois elementos poderiam ir para o plural, mas a forma preferencial é só o primeiro ir para o plural: bombas-relógio, canetas-tinteiro, carros-bomba, decretos-lei, elementos-chave, homens-macaco, homens-rã, licenças-prêmio, livros-caixa, mangas-rosa, navios-escola, operários-padrão, papéis-moeda, peixes-boi, pombos-correio, salários-família, tatus-bola... A diferença é a seguinte: em TENENTE-CORONEL, o segundo substantivo NÃO faz papel de adjetivo (= tenente-coronel NÃO é um tipo de tenente). O plural é TENENTES-CORONÉIS; em OPERÁRIO-PADRÃO, o segundo substantivo faz o papel de adjetivo (= operário-padrão é um tipo de operário). O plural é OPERÁRIOS-PADRÃO. Observe que algumas palavras aceitam as duas formas de plural: DECRETOS-LEIS ou DECRETOS-LEI. Observe também que muitas palavras NÃO seguem a regra: CIDADES-SATÉLITES, MICOS-LEÕES, TAMANDUÁS-BANDEIRAS... A tendência atual é pôr os dois substantivos no plural. DESAFIO Que é antropônimo? a) nome de lugares; b) nome próprio de pessoa; c) nome igual. Resposta do DESAFIO: Letra (b) = antropo (=ser humano) + ônimo (=nome). O nome de lugares é topônimo, e nome igual é homônimo. DÚVIDAS 1ª) Leitor quer saber se a frase “Autor desmistificou o herói” está correta? Como a intenção era dizer que o herói deixou de ser um mito, o correto seria dizer “Autor desmitifica o herói”. Desmitificar vem de mito, e significa “desfazer o mito, acabar com o mito”. Desmistificar vem de mística, e significa “acabar com a mística, desfazer a farsa, o engano”. 2ª) Qual é a diferença entre DESTRATAR e DISTRATAR? a) DESTRATAR é “tratar mal”; b) DISTRATAR é “romper um contrato”.

LEITURA, ILUSTRAÇÃO E ANALFABETISMO

Humberto de Campos fundou a revista "A Maçã", que circulou no Rio de Janeiro, entre 1922 e 1929. Quem lia, só lia coisas ilustradas. Até os livros eram ilustrados. E se escrevia bem! Vejam o soneto de Nelson Tangerini, poeta e compositor. E vejam a ousadia da ilustração! Um século antes, convidado a fundar uma revista para circular no Brasil, Eça de Queiroz recomendou a Martinho Botelho que a publicação fosse ilustrada porque o analfabetismo era ainda muito grande, em Portugal como no Brasil. Consultei e pesquisei a coleção completa na Fazenda Pinhal, então da família de Modesto Carvalhosa e Helena Carvalhosa, pais de Sofia Carvalhosa, nos arredores de São Carlos (SP). Não sei se a coleção ainda está lá.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA: UMA COISA ENGRAÇADA ACONTECEU

Meus cabelos começaram a embranquecer no Outono da Existência, isto é, hoje. Ontem eram ainda mais claros. Já fazia dois anos que eu não bebia. Depois aguentei mais 18. Foram 20 anos sem beber quase nada. Na adolescência, bebia apenas o que sobrava de vinho das galhetas da missa, pois era coroinha, fazendo dupla com Eloi Semprebom. Ele me cochichava: " não derrama tudo no cálice do padre (Herval Fontanella), Deonísio: assim não sobra nada para nós ". E os fiéis pensavam que estávamos rezando baixinho com o padre, em Latim! Foi em Jacinto Machado (SC). Década de 50. Mas a foto foi tirada em Siderópolis (SC).

quinta-feira, 2 de junho de 2016

ALELUIA, ANO SABÁTICO, JUBILEU, PENTATEUCO etc: de onde vieram estas palavras e expressões?

https://www.youtube.com/watch?v=GXCkQqkdLr4&feature=youtu.be O nome do feriado de CORPUS CHRISTI é evidência da presença de palavras e expressões vindas para o Português do Latim Eclesiástico ou Latim da Igreja. Antes, porém, sofreram influências de quatro fontes: o Hebraico, o Grego, o Latim Clássico e o Latim Vulgar. São de difícil ou impossível tradução, como ocorreu com o Latim Clássico quando veio para o Direito: Habeas Corpus, Habeas Data, Data Venia, Pacta sunt servanda, Pro tempore, Et Caetera (etc), Stricto Sensu, Lato Sensu, Ipsis Litteris, Quorum, Per capita, Statu quo, In memoriam, Carpe Diem, Curriculum Vitae, Apud, Ad hoc, Honoris Causa, Persona non grata, Sine die, Sine qua non, Sine die. E as expressões: Ano Sabático, Mea Culpa, Via Crucis, Madalena arrependida, Saecula Saeculorum, Ex Cathedra, Ora pro nobis, Fiat lux, Ai Jesus, Ai meu Jesus Cristinho, Virgem, Meu Deus etc. Há outros exemplos: a) ALELUIA: alegria, em Hebraico); palavra composta de allelu (louvar) + Javeh (Javé, Deus); b) PENTATEUCO, cinco livros: do Grego penta ( cinco) + téuchos (objetos fabricados), livros); são os cinco primeiros livros da Bíblia: - Gênesis (começo, nascimento), - Êxodo ex, fora, do odos, caminho, distância percorrida, do mesmo étimo do hodômetro que marca a distância percorrida nos automóveis); - Levítico (de Levi, o primeiro da tribo dos sacerdotes: o nome Levi vem do Hebraico Levah, união: a mãe dá este nome ao filho na esperança de que a criança a uma ainda mais ao seu marido, pai da criança); - Números: do Latim numerus; em Grego é arithmós, que deu aritmética) e - Deuteronômio: do Grego deutos, segundo, de acordo, com a nomos, a ordem, a lei; c) PENTECOSTES, festa em que se celebra a descida do Espírito Santo no cenáculo, onde estavam escondidos os apóstolos, com medo; ele desce em forma de pombinha ; quer dizer cinco períodos= 50 dias depois da Páscoa; do Grego pente, cinco + kostes, período; d) PARÁCLITO, consolador, o que vem para ajudar; do Grego para, ao lado, junto + kalêin, ajudar, socorrer. e) EUCARISTIA, comunhão, hóstia; do Grego eu, boa, bela + cháris, graça, dom, coisa recebida; f) BISPO, a maior autoridade da Igreja (o Papa é bispo de Roma), embora arcebispo e cardeal estejam acima dele; do Grego epíscopos, vigia, protetor; de epi, sobre + kopêin, proteger, guardar, vigiar; do mesmo étimo de epiderme (parte de cima da pele), epicentro (sobre o centro); g) EPISCOPADO, sede de um bispado: do mesmo étimo de bispo; h) DIOCESE, reunião de paróquias; do Grego dioíkesis, de dioí, através, por toda a, + kesis, de oikos, casa: administração da casa; governo de uma região ou província; i) PARÓQUIA: está para a diocese, como o bairro para o município; do Grego para, ao lado, perto + oikos, casa: casa vizinha; j) IGREJA, local de reuniões, de cultos. Do Grego ekklesía, assembleia; k) ECLESIÁSTICO:mesmo étimo de igreja; l) JUBILEU, celebração de 50 anos, com perdão de dívidas; do Hebraico yobel, corneta. m) ANO SABÁTICO (hebraico). n) CREDO (admiração), VIA CRUCIS (sofrimento), MEA CULPA (foi minha culpa), ADVOGADO DO DIABO, CAPÍTULO (no sentido de cabildo, conjunto de cônegos numa catedral), EX CATHEDRA (fala ex cathedra, fala com autoridade), o canto gregoriano do papa Gregório I (séc. VI) e o calendário gregoriano do papa Gregório XIII (séc. XVI), MATER DOLOROSA. o) Expressões do Latim eclesiástico que se tornaram interjeições: MEU DEUS, NOSSA SENHORA, AI JESUS, MEU JESUS MISERICÓRDIA, MISERICÓRDIA, POR CARIDADE, MARIA VIRGEM, JESUS MARIA JOSÉ, MEU JESUS CRISTINHO, SANTA MARIA, AVE MARIA, PER SAECULA SAECULORUM, ORA PRO NOBIS. SEM PAPAS NA LÍNGUA da semana passada, com Maíra Gama Martins e Rodolfo Schneider: o Boechat faltou, mas o trio saiu-se à altura, como se verá - isto é, se ouvirá - aqui! Ou então: ver-se-á e ouvir-se-á, segundo as mesóclises em moda. Quem editou e postou foi Isis Bez Birolo, cantora e compositora, fã do programa e minha prima querida pelo lado dos Daboit de minha mãe. Deonísio da Silva, no SEM PAPAS NA LÍNGUA, com Maíra Gama e Pablo Ribeiro Programa exibido: 26/05/2016. YOUTUBE.

sexta-feira, 11 de março de 2016

ACERVO DE PROGRAMAS DE RÁDIO: BANDNEWS

http://toptenmp3.net/Deon%C3%ADsio-da-Silva-na-R%C3%A1dio-BandNews-FM-no-SEM-PAPAS-NA-L%C3%8DNGUA-com-Pollyanna-Br%C3%AAtas-e-Leno-Falk(447dksovcBc)

domingo, 20 de setembro de 2015

ESCREVER BEM É ESCREVER DIFÍCIL? Publicado no Jornal do Brasil, 28/7/02, lembrando uma entrevista que dei a Jô Soares.
“Alunos da UFSCar me pediram para rever, na companhia deles, entrevista que dei a Jô Soares. Queriam comentar, me perguntar coisas, saber dos bastidores. Sim, naquele dia Rita Cadillac, que dá shows em penitenciárias, para entreter a população ali confinada, desamarrou a blusa e mostrou os seios ao maquiador. Emerson Fittipaldi me falava de coisas tristes. ?Ah, você mora em São Carlos, perto de Araraquara? Caí de ultraleve ali perto. Eu e meu filho. A perna começou a sangrar, eu estava imobilizado, não demorou muito e os urubus sentiram o cheiro do sangue e começaram a voar bem baixinho, ao nosso redor. Pedi a meu filho que sacudisse os braços para espantá-los.? Dizia tudo isso em voz calma, fininha, a sua voz habitual. Rita Cadillac, não. Fez o maior fuzuê. E no final da entrevista ofereceu o bumbum para ser beijado por alguém da platéia, como cortesia. Jô disse que podia subir um só da platéia. Subiram cinco.
Eu estava ali para tratar do livro De onde vêm as palavras. O que as Letras faziam naquele meio? Jô, porém, é mestre em conciliar paradoxos, em parcerias impossíveis, em dosar seu programa, oferecendo temas sérios em linguagem bem-humorada. Naquele programa, conversamos sobre escrever bem. Disse em síntese o que tenho escrito sobre esse tema. Que os bacharéis precederam os economistas na arte de escrever mal, de nos enrolar, de nos encher a paciência, de abusar da boa vontade do leitor, condição prévia para dar atenção a quem escreve. Paradoxalmente, foi nos cursos de Direito que vicejaram alguns de nossos melhores prosadores e poetas. Uma visita ao Largo São Francisco, em São Paulo, onde está nossa mais antiga Faculdade de Direito, é também uma aula de literatura. As paredes lembram, orgulhosas, seus alunos de outrora, entre os quais Castro Alves, José de Alencar e, mais recentemente, Lygia Fagundes Telles. Fora dali, dois de nossos melhores escritores cursaram Direito. Rubem Fonseca, no Rio. Dalton Trevisan, em Curitiba. Os dois estão entre os melhores contistas do mundo. Mas escrevem em português e têm contra si o complexo diuturnamente martelado nos ouvidos e nos olhos dos brasileiros: são mestres na periferia do capitalismo, quem sabe. E ainda não morreram. Como se sabe, morrer é condição sine qua non para receberem a atenção que fazem por merecer. A extrema concisão é a marca dos dois. Rubem Fonseca escreve contos como quem faz roteiro de filmes de ação. Dalton é capaz de contar uma história inteira em três linhas: ?O amor é uma corruíra no jardim. De repente ela canta e muda toda a paisagem?. O que, aliás, não o livrou de alguns críticos atentos que jamais escreverão uma única linha desfavorável ao amigo, mas que gastaram boas horas de insólita tertúlia ponderando que a corruíra não canta, trina. ?Você errou, Dalton?, disse um dos mais rigorosos, não sem uma ponta de verve. ?Você precisa pesquisar mais para escrever sobre pássaros?, disse outro. Dalton concede a graça da convivência para poucos, escaldado com o provincianismo atroz de arrivistas que buscariam proximidade com ele apenas para tirar algum proveito imediato. E Rubem Fonseca impôs-se um silêncio obsequioso desde as primeiras calúnias de que foi vítima nos anos 70. Caso-síntese da perseguição a escritores, vítima da insânia de censores a serviço de um governo ditatorial, de vez em quando tem o desprazer de ser assunto de quem, não tendo luz própria, quer roubar um pouco de seu brilho. Esses ficcionistas jamais serão exemplo de correção textual em cursos de Direito. Lá os modelos ainda são outros e é raro que a verborragia não impere. O modelo? Rui Barbosa. Mas se em Rui havia o lampejo do gênio, que leva o leitor a perder boas páginas em trevas de leitura para de repente ter a satisfação de ver sua inteligência faiscar, o mesmo não se pode dizer de seus imitadores. É verdade que o famoso jurisconsulto exagerava. Faria bom par com o professor Astromar.”

segunda-feira, 25 de maio de 2015

ERA UMA VEZ NO SUDOESTE

http://www.bpp.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=360 Notícias
19/07/2013 Helena #2: Era uma vez no Sudoeste De minha vivência no Sudoeste do Paraná resultaram alguns livros de contos. Hoje podem ser lidos em Contos reunidos (2010). Algumas daquelas histórias se passam na cidade inventada de Sanga da Amizade, inspirada em minhas vivências no Sudoeste, especialmente em Francisco Beltrão. Inventei Sanga da Amizade — Manoel Carlos Karam e Dante Mendonça, que conheci como diretor e ator de Doce Primavera, respectivamente, no Teatro Paiol, em Curitiba, gostavam muito deste recurso narrativo — para que fosse o cenário de várias das histórias de meu livro de estreia, lançado por Walmor Marcelino, com o título de Estudo sobre a carne humana (1975), com prefácio de Sylvio Back, com quem eu trabalhava de roteirista de cinema — a obra, com outros contos novos, seria reeditada com o título Exposição de motivos (1976). Dois dos contos do pequeno Estudo sobre a carne humana foram adaptados para a televisão por Antunes Filho, recebendo o título de Relatório confidencial. Ilustração: André DucciEnredo kafkiano Eu já não vivia mais no Sudoeste do Paraná e sentia os rigores da Lei de Imprensa e da Lei de Segurança Nacional em Ijuí (RS), para onde me transferira e estreava como professor universitário. Ali, comecei a cumprir a pena de dois anos de prisão, convertida em sursis (liberdade condicional), por obra da eficiente defesa de meu advogado Geraldo C. S. Bond. Fui denunciado em Francisco Beltrão (PR) pelo Promotor de Justiça Substituto, Alberto Luiz Cassou, por pressão do major Jorge Baptista Ribeiro, comandante do 2º Grupamento de Fronteira, 2ª. Companhia de Infantaria, da 5ª. Região Militar, do III Exército, apoiado em recorte de um texto, publicado por engano, no lugar da crônica habitual que eu fazia semanalmente no jornal Tribuna do Sudoeste. Soube que quem levou o texto aos militares foi Natalino Faust, presidente da Associação de Pais e Professores. O comandante militar tomou providências no dia 8 de julho de 1974. No dia 9, o Promotor Substituto fez a denúncia. No dia seguinte, o juiz substituto, Darcy Gonçalves Bartapelli, a aceitou. No dia 19 de setembro, fiquei frente a frente com o Promotor, com meu advogado e com o juiz substituto e fui devidamente qualificado. No dia 27 de maio de 1975, meu advogado requereu que fosse feito meu interrogatório, diante do juiz Raul da Costa Pinto e do escrivão Clementino Petla. Eu já tinha a esse tempo — tudo corria muito rápido — prestado depoimento também na Polícia Federal, em Curitiba. Fui interrogado pelo General Alcindo Pereira Gonçalves, então Secretário de Segurança Pública. Saí dali e, instruído pelo General, fui ao DOPS buscar certidão negativa para integrar o processo de alocação de aulas no Ginásio Estadual Nova Concórdia. Durante todo o tempo, minha esposa, a professora Soeli Maria Schreiber da Silva, então com 21 anos, ficou ao meu lado e combinamos que não contaríamos nada às respectivas famílias. Nós tínhamos nos casado na Igreja das Mercês, em Curitiba, dois anos antes, quando ela estava com 19 anos e eu com 23. O mundo amigo e inimigo Não faltou quem prestasse bons serviços ao comandante militar, mas houve exceções. Os três diretores das escolas onde eu ensinava, Irmã Bárbara Zimmerman, do Colégio Estadual Mário de Andrade; Maria de Lourdes de A. da Silveira, da Escola Normal Estadual Regina Mundi; e Antenor Pezente, do Ginásio Estadual Nova Concórdia, todos deram atestados e declarações de que eu desempenhava com eficiência e assiduidade as funções de professor nos três estabelecimentos. Antenor Pezente acrescentou no atestado: “Declaro mais, que o seu relacionamento com a direção desse estabelecimento, com os colegas de Magistério e com os seus alunos é o melhor possível.” Também a Inspetora do Ensino Médio, Ivete K. Accioly R. da Costa, esposa de um dos homens mais justos que eu conheci, que era juiz em Francisco Beltrão (RS), atestou que eu era bom professor. Fui afastado dos dois estabelecimentos (menos do Ginásio Estadual Nova Concórdia) por pressões vindas de pessoas cujos nomes as diretoras, com o olhar espantado daqueles tempos, não ousavam declinar. Nem eu lhes perguntei. Porque sabia tanto quanto elas quais eram os integrantes da alcateia que então se formara. Esclareço que soube de tudo e com atraso, pois eu fazia em Ijuí (RS) o Curso de Letras, ministrado nas férias escolares do ensino médio. Às vezes estava em Curitiba, onde estudava Inglês no Centro Cultural Brasil-EUA, cujas diretoras, Laila Cury e Úrsula Neufeld, deram atestados de que eu estudava Inglês e que minhas médias finais eram 90 e 94, respectivamente, numa escala de 100. Memória revisitada Também não vou esquecer o nome de Maria Bond, Inspetora de Ensino, esposa de Geraldo C. S. Bond! O nome de quem nos defendeu, a gente nunca esquece. Não esquece também os nomes daqueles que acusaram e, principalmente, daqueles que se omitiram na luta. Mas talvez seja ainda cedo para tratar de temas tão complexos que envolvem a memória de vivos e mortos! Na defesa, meu advogado juntou uma declaração que hoje soa curiosa e passível de complexas interpretações. Antes de lecionar naqueles estabelecimentos educacionais, eu tinha formado comunidades eclesiais de base no sudoeste, em trabalhos mantidos pela Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural (Assessoar) e feito um curso de Teologia, intensivo, em 1970, que durou apenas um ano, em Curitiba. Nessa época, morei no Convento dos Padres Saletinos, no Jardim Social, em Curitiba. O documento dizia que na Assessoar eu integrava a diretoria, ao lado de Deni Lineu Schwartz, Euclides Scalco, Jorge Camilotti, José Emanuelli e Maria Salete Pereira. No dia 10 de novembro de 1975, o juiz Raul da Costa Pinto me condenou a três meses de prisão por aquele texto, que tantos dissabores me causou, que tantas lições me deu e que me afastou dos meus alunos e dos meus colegas-professores de dois colégios que eu muito admirava e aos quais prestava o melhor ensino que eu podia, com assiduidade e pontualidade, como reconhecido pelas autoridades, mesmo naquele contexto adverso. Mas o juiz converteu a pena em sursis (liberdade condicional), mediante algumas condições, entre as quais a de “não tornar a delinquir” (sim, leitores, houve um tempo no Brasil em que escrever era delinquir), “fixar residência e dela não se ausentar por mais de oito dias a não ser com autorização expressa deste Juízo” e “encaminhar a este Juízo exemplar dos escritos publicados durante o período de suspensão da pena, imediatamente após a sua publicação“. Dali por diante, durante alguns anos, escrevi com o pseudônimo de Kate Morel, por sugestão do jornalista Jefferson Barros. Guerra sem testemunhas Meu advogado em vão apelou ao Tribunal de Alçada, em Curitiba. O primeiro relator foi Jayme Munhoz Gonçalves, que negou provimento à apelação. O documento final da apelação 445/75, consolidando a negativa, é assinado no Acórdão 2566, pelos desembargadores João Cid Portugal (presidente), Schiavon Puppi (relator) e José Merger. Aqui concluo este doloroso relato. Eu o fiz porque os leitores merecem que sejam levantados pelo menos alguns dos sete véus que ainda cobrem aqueles trágicos eventos. Em alguns casos foi uma guerra sem testemunhas. É verdade que está tudo resumido e anotado em diários que coleciono desde meus verdes anos! Registro que me serviram de conforto memorável os apoios que recebi do médico Walter Alberto Pécoits, líder naquela região, vários anos antes, da única revolta social por terras em que os pobres venceram, e de sua esposa, dona Manuela, que viviam em Francisco Beltrão naqueles anos. Mais tarde René Dotti obteria da União memorável indenização porque seu cliente, Dr. Walter, perdera um olho durante as torturas que lhe foram infligidas. Há muito mais a contar, mas sempre que mexo nessas feridas ainda dói muito. Doeu de novo, agora! Deonísio da Silva é autor de 34 livros, entre eles O assassinato do presidente (1994) e Contos reunidos (2010). É professor universitário e vice-reitor de extensão da Universidade Estácio de Sá. Ilustração: André Ducci Todas as edições da revista Helena estão disponíveis online em: http://issuu.com/revistahelena

domingo, 24 de maio de 2015

ARQUIVO ABERTO Rio de Janeiro, 1974 No prédio da Light

ARQUIVO ABERTO Rio de Janeiro, 1974 No prédio da Light DEONÍSIO DA SILVA "Nada temos a temer, exceto as palavras". Este bordão, reiterado ao longo do romance como um aviso, me desconcertou ao folhear "O Caso Morel", primeiro livro de Rubem Fonseca que eu li. Era aluno do curso de letras num campus do Brasil meridional e recebi a tarefa de fazer um trabalho sobre o adultério mais comprovado do mundo. Mas desde que a americana Helen Caldwell inventara uma suposta ambiguidade em "Dom Casmurro", só se podia ler o romance de Machado de Assis com vocação para corno: diante de todas as evidências, nem sequer desconfiar. Ex-seminarista e gato de bibliotecas (não gosto da metáfora do rato), eu já tinha lido todo o Machado. Propus Rubem Fonseca, cuja obra o professor também desconhecia. E vieram o acaso e suas leis, entretanto desconhecidas, como dizem os surrealistas. Entusiasmado, o professor ordenou-me que enviasse o pequeno ensaio ao editor. Rubem Fonseca apreciou aquela heresia e me convidou para visitá-lo no Rio, dando-me o endereço: av. Presidente Vargas, 642. Ao chegar, nova surpresa. Ali era a sede da Light, templo resplandecente do capitalismo. O autor, o sumo sacerdote de uma religião que seus personagens combatiam, não se parecia em nada com eles. Mas sua extrema cordialidade me desarmou. Em poucos minutos fluía uma conversa de doidos mansos. Eu também o surpreendera. "Pensei que você tivesse uns 50 anos. Pela maturidade do que escreveu", ele me disse. O escritor tinha 49 anos; eu, 25. Era o dia 30 de julho de 1974. Quais duas rádios em serenos solilóquios, dávamos os respectivos prefixos, procurando a sintonia mútua. O aprendiz logo percebeu que o mestre era muito ardiloso, com uma sabedoria que só têm os grandes autores. Quem escolhe o autor é o leitor. E era isso que tinha acontecido. Ele nada sabia de mim, mas eu estava em desvantagem. Ele me perguntou se eu lera seus outros livros. "Não, nenhum, só este sobre o qual fiz o trabalho". Estreara havia onze anos, com "Os Prisioneiros" (1963), e tinha publicado também "A Coleira do Cão" (1965) e "Lúcia McCartney" (1967). "O Caso Morel" (1973) era seu primeiro romance. Quando autografou "A Coleira do Cão", escreveu abaixo de meu nome "crítico e ficcionista". Ponderei que não tinha publicado nenhum livro, era rigorosamente inédito. E ele: "Você é ficcionista, é crítico. Só que ainda não publicou". Por suas mãos, dali a dois anos, eu estreava com um livro de contos na mesma editora que o publicava. Às vezes, desarruma meus sentimentos a advertência que Clarice Lispector lhe fez num de nossos encontros, em 1974, depois tão frequentes: "Zé Rubem, você está ficando muito lido, isto não é um bom sinal, você preste atenção ao que eu estou dizendo". E ele, com humildade: "Eu dou muita atenção a tudo o que você me diz, Clarice". Vieram outras águas, que moveram outros moinhos. Contra a censura, recorreu ao Judiciário. O processo durou de 1976 a 1989. Venceu, mas por 2 x 1, no TRF do Rio. Por pouco, "Feliz Ano Novo" não continuou proibido. Meus trabalhos sobre a obra de Rubem Fonseca devem muito a professores que não a conheciam, como Guilhermino César, louvado num poema de Drummond. Formaram um aluno que trouxe milhares de leitores para a obra fonsequiana. Em autor de tantas complexas sutilezas, alguns livros têm mais qualidade do que outros, mas todos estão bem acima da média, sejam contos ou romances. Sartre disse: "Os críticos são guardiães de cemitérios". Talvez porque mortos não reclamem de nada. No Brasil, poucos dedicam-se a descobrir autores vivos. Esperam que cheguem a seus pés, se possível contritos, pedindo favores. O trato justo e a conversa clara são evitados. No mundo literário, predomina a confraria do elogio mútuo. A regra é apagar quem discrepa ou simplesmente desconcerta. A obra de Rubem Fonseca fez dele um autor imortal. Certo dia, um leitor distante dos centros de difusão literária descobriu seus livros por acaso, como alguns devem estar fazendo agora com outros autores.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

MÃO INGLESA E MÃO FRANCESA

Na mão francesa, os automóveis circulam pela direita e têm o volante e os pedais do freio e da embreagem no lado esquerdo, e a alavanca de troca de marchas à direita. Na mão inglesa, dá-se o contrário: dirige-se pela esquerda, os comandos estão no lado direito, e a alavanca fica à esquerda. Quem fez os primeiros caminhos foram os bichos. Muitas estradas foram construídas sobre seus rastros na costa de mares, lagos, lagoas e rios, nossos primeiros e naturais caminhos. Quando o homem domesticou os primeiros bichos – isto é, trouxe-os para conviver com ele, dentro ou perto da domus, casa – uma das preocupações foram os caminhos. Engenheiro que se tornou jornalista e escritor, Euclides da Cunha escreveu em “Os Sertões” um dos mais belos parágrafos sobre a relação entre o homem e o cavalo: “O sertanejo é antes de tudo um forte (...). Que lhe antolhem quebradas, acervos de pedras, coivaras, matas de espinhos ou barrancas de ribeirões, nada lhe impede de encalçar o garrote desgarrado, porque, por onde passa o boi, passa o cavaleiro com o seu cavalo.” O engenheiro descreveu uma cena em que boi, cavalo e cavaleiro dispensam a estrada, mas estradas e ruas, e o modo de circular por elas, sempre foram indicadores de civilização. Os antigos romanos construíram a “via”, de terra, depois “via strata”, isto é, calçada de pedras. Muitas delas ainda existem, inclusive a maior, de 3.000 km, ligando a Bélgica à Rússia. Quando se encontravam, cada qual escolhia o lado esquerdo, pois a maioria era de destros e assim podiam manejar melhor a espada. O cavalo, a espada e Napoleão estão na origem do costume de se andar à direita ou à esquerda. O imperador dos franceses era canhoto! E mudou de mão ruas e estradas. França e Inglaterra estavam, como sempre, em guerra. Os ingleses desenhavam um dedo indicador numa tabuleta, ou recortado em madeira, para indicar o sentido da rua. No mundo inteiro predominou a mão francesa, andar pelo lado direito. A Inglaterra é teimosa e continua à esquerda. (xx) • Escritor e professor aposentado da UFSCar, é autor de 34 livros, alguns publicados também em outros países. Trabalha nas universidades Estácio de Sá e Unisul.

domingo, 3 de maio de 2015

BICHOS QUE SE TORNARAM SOBRENOMES

http://www.jornalpp.com.br/…/95531-significados-de-nomes-e-… Os bichos não estão apenas ao redor da casa ou no pasto, estão também nos sobrenomes lusófonos, costume vinculado a crenças em totens, de que são exemplos Lobo, Tigre, Coelho, Carneiro, Raposo, Passarinho, Cordeiro, Bezerra, Cavalo, Vaca, Barata, Leão, Gato, Cão (Diogo Cão, navegador). Os antigos romanos tinham Fabius (de faba, legume) e Catulo (catus, gato). Os escandinavos deram origem a Bernardo (do Sueco baer, urso). Os índios brasileiros tinham Jaguar (onça), Piragibe (espinha de peixe), Poty (camarão). Também as árvores exemplificam a presença de totens em sobrenomes como Albuquerque e Carvalho (o étimo do Latim quercus, carvalho), Oliveira, Pinheiro, Nogueira etc. Exemplo curioso é o nome Raquel, ovelha em Hebraico, a palavra tornou-se nome próprio feminino, a comparação foi com a beleza, a delicadeza e a mansidão da ovelha. Camões, a referência solar da literatura portuguesa, fez um lindo soneto sobre a paixão de Jacó por Raquel, fechando os 14 versos com uma declaração de amor: “Mais servira, se não fora, para tão longo amor, tão curta a vida”. É que Labão, o sogro, quando Jacó lhe pediu Raquel em casamento, impôs como condição que o futuro genro trabalhasse sete anos em troca da filha. E o enganou ao final do período, entregando-lhe, não a bela Raquel, mas a feia Lia, que tinha “remela nos olhos” e cujo nome tem o significado de vaca selvagem e cansada. Jacó foi fiel à etimologia do próprio nome. Gêmeo de Esaú, mais tarde enganaria o irmão, com um prato de ervilhas. E, aconselhado pela mãe, Rebeca, cujo nome quer dizer animal atado com laço, vestiu-se de couro de cabrito para enganar o pai, Isaac, que, já cego, sabendo que Esaú tinha os braços cabeludos, quis conferir se era mesmo o primogênito que vinha buscar a bênção. Ele já andava desconfiado de Jacó, cujo nome quer dizer trapaceiro. Esaú quer dizer riso: sua mãe Sara riu quando o anjo disse que ela, aos 80 anos, engravidaria e daria luz àquele menino. (*) Escritor e professor aposentado da UFSCar, é autor de 34 livros, alguns publicados também em outros países. Trabalha nas universidades Estácio de Sá e Unisul.

sábado, 25 de abril de 2015

ETIMOLOGIA, COLUNA Nº 1.120, CARAS, 24 de abril de 2015

Arabesco: do Italiano arabésco, designando estilo de decoração das manifestações artísticas árabes, marcadas pelo entrecruzamento de linhas, ramagens e flores, sejam entalhados em pedra ou madeira, pintados, desenhados ou impressos, sem a figura humana, porque a arte islâmica não admite sua representação. Tornou-se também sinônimo de rascunho e rabisco. Canônico: do Grego kanonikós, pelo Latim canonicus, derivados, respectivamente, de kánon, originalmente haste de junco utilizada para medir, depois régua usada nas construções, consolidando-se como regra e modelo, significados mantidos no Latim canon, conjunto de coisas aceitas, como é o caso de cristãos santificados oficialmente e por isso ditos canonizados, isto é, postos no cânone. Como aconteceu com tantas outras palavras, cânone e canônico tiveram significado e sentido alterados por influência do cristianismo, de que são exemplos os quatro evangelhos canônicos – de Mateus, de Marcos, de Lucas e de João -, escolhidos dentre os cerca de quarenta existentes, impostos a partir do século IV, pela aliança então criada entre o império romano e os bispos, as mais altas autoridades cristãs do período. Entardecer: de tarde, do Latim tarde, lentamente, do mesmo étimo de tardare, demorar, e de retardatus retardado, aquele que demorou a crescer ou a desenvolver-se, sobretudo mentalmente. Entardecer designa os momentos que antecedem o pôr do sol, por volta das 18h, a hora do ângelus, assim chamada porque os sinos tocam as ave-marias, badaladas que lembram o início da gravidez de Maria, resumida em começo de frase extraída do Evangelho de Lucas, contando o diálogo entre o arcanjo Gabriel e a adolescente Maria, no entardecer do dia 25 de março do ano I de nossa era, na Galileia: “Angelus Domini nuntiavit Mariae” (O anjo do Senhor anunciou a Maria). O jornalista, romancista e poeta paraibano José Nêumanne Pinto (63), cujo estilo, na prosa como na poesia, é marcado por extrema correção com a língua portuguesa, tratou de outro viés do entardecer no poema Às cinco da tarde: “Entre o toureiro e a praça/ Firmam um pacto / Os patos e os tontos./ Entre o toureiro e a areia/ Tocam os sinos/ O dobre dos santos./ Entre o touro e a praça/ Dançam os sãos /A dança dos doidos”. Sumo: com o significado de suco, vem do Grego zomós, pelo Latim sucus e daí ao Latim vulgar hispânico zumu, de onde chegou ao Português. Já com o significado de supremo, o mais elevado, procede o Latim summus, como em sumo sacerdote e sumo pontífice, duas expressões surgidas nas narrativas cristãs, alterando, no segundo caso, a designação pontifex maximus, o cargo mais elevado entre os sacerdotes romanos pagãos, designando aquele que ia à frente do colegiado religioso nos desfiles e cerimônias públicas, cabendo-lhe a fiscalização para que os ritos fossem realizados conforme prescritos. Também os judeus tinham seu sumo sacerdote, que se chamava Caifás (século I) e presidiu a sessão do sinédrio, o supremo tribunal religioso, cujos poderes eram imensos, que condenou Jesus (? 6 a.C. – 27) por blasfêmia e o entregou ao governador da Judeia, Pôncio Pilatos (século I), que o condenou à morte por sedição. Um: do Latim unus, designando apenas o numeral no primeiro milênio, e com sentido artístico a partir do segundo milênio. Os antigos romanos representavam os números numa forma que ainda hoje prevalece, mas restrita a algumas funções, como em século I, capitulo II, seção III etc., mas depois que os árabes trouxeram os algarismos hindus para o Ocidente, predominaram os números árabes ou arábicos, cuja representação foi feita originalmente na Índia a partir dos ângulos que continham e só depois foram estilizados na forma com a qual se consolidaram: 1, 2, 3 etc., respectivamente com um ângulo, dois ângulos, três ângulos. Quem trouxe os números hindus para os países árabes, de onde se espalharam por toda a Europa, foi o sábio persa Abu Jafar Moahmed Ibn Musa (século IX), natural de Al-Kharizm, localidade do Ubezquistão, que, ainda criança, emigrou para Bagdá, no atual Iraque, acompanhando os pais. Xingamento: de xingar, do Quimbundo xinga, blasfemar, insultar, ofender, designando agressão verbal, em que frequentemente os animais são igualmente ofendidos quando invocados para ilustrar o que se quer criticar: anta, toupeira e burro, dirigidos a quem é falto de inteligência; gambá, para o bêbado; gato e rato, para ladrões; cobra, especialmente cascavéis e jararacas, para pessoas malévolas.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O BUCENTAURO DA DOGARESSA

Em Portugal, algumas palavras que aqui não são palavrões, lá são. E outras que aqui são, lá não são. Certa vez fui comprar um casaco para a Soila em Lisboa e a vendedora ofereceu-se para experimentá-lo, perguntando se seu corpo era parecido com o de minha então esposa. Concordei. Ela ainda perguntou: “de bóias também somos parecidas?”. Devo ter dado ares de ignorar a palavra. Ela esclareceu: “como sua esposa é de catarinas?”. A dona resolveu ajudar: ”as tetinas de sua esposa são menores, maiores ou mais pequenas do que as da rapariga que está a experimentar o cabedal?”. Arregalei os olhos e a simpática atendente ainda disse: “As maminhas dela são mais ou menos assim?” – e tomou os próprios seios nas mãos para explicar.
Assenti e balbuciei um duplo “sim”, já meio envergonhado. Ela vestiu o casaco, olhou-se de perfil no espelho e, virando a cabeça para mim, puxou a parte de trás da veste e deu o fecho final no diálogo: “Este lhe cairá bem, pois cobre-lhe bem o rabo”. Este diálogo seria impossível sem risos no Brasil. Mas eis que, para ilustrar palavras de uso frequente no Português e outras de uso raro, numa das aulas que gravei na Universidade Estácio de Sá recentemente, recorri a dois escritores e jornalistas que sempre tiveram notável domínio de nossa língua. Um deles é Carlos Menezes, já falecido, autor de “Elesbão, o bleso”, que escrevia em "O Globo". "Elesbão sofria de ofíase e criava em casa um gimnuro". Outro é Carlos Heitor Cony, que escreve na "Folha". Cheio de verve, em 14 de março passado chegou aos 89 anos. Dele estou lendo “O harém das bananeiras”, de crônicas.
A uma delas comparecem um doge e uma dogaressa que, recém-casados, navegam pelo mar Adriático num bucentauro. Pois é. Dogaressa é feminino de doge. E o bucentauro é semelhante ao centauro, com a diferença de que a metade do corpo é de boi, não de cavalo. Dá nome a embarcação luxuosa ainda existente em Veneza. “Boûs” é boi ou touro em Grego. Viram? Nenhuma das palavras desta crônica é palavrão! (xx)

sábado, 11 de abril de 2015

O CORNO, O PADRE DEVASSO E OUTRAS HISTÓRIAS

A história me foi resumida pela escritora Anna Maria Ribeiro, que vem a ser – adoro este “vem a ser” de nossa delicada língua portuguesa – sobrinha de Lúcia Miguel Pereira, uma das mais qualificadas estudiosas da obra de Machado de Assis, de quem foi biógrafa, e do historiador Octávio Tarquínio de Souza, marido de Lúcia. Seus tios morreram em famoso desastre de avião, ocorrido no dia 22 de dezembro de 1959, às 13h40, em Ramos, um bairro da zona norte do Rio, por erro de Eduardo da Silva Pereira, piloto da FAB, que tinha apenas 19 horas de voo. Ele descia em parafuso num Fokker quando atingiu um Viscount da VASP, que se preparava para pousar no Aeroporto do Galeão. Desgovernado, o avião da FAB, já sem o comandante, que saltara de paraquedas, caiu sobre uma casa no Morro do Alemão, causando apenas ferimentos leves numa dona de casa. Estavam no avião da VASP 32 pessoas, das quais morreram 31, salvando-se apenas um dos tripulantes. O total de mortos foi, porém, 42, pois dez morreram em terra. Morreu neste voo trágico, além dos tios de Anna Maria Ribeiro, também o repórter da revista O Cruzeiro, Luciano Coutinho, que voltava de Brasília, para onde viajara com a missão de cobrir o primeiro baile de debutantes da nova capital federal. Ele morreu no desastre, mas os negativos e as anotações da reportagem foram salvos, e a matéria foi publicada na edição de 15/01/1960 da famosa revista.
Anna Maria Ribeiro, antes da história do padre devasso, me contou também a crônica “Segura o corno!”, inusitada história de um general da repressão pós-64 que exigiu a presença de insólitas testemunhas para flagrar o adultério de sua jovem mulher. Conta a escritora, hoje com 85 anos, que Padre Antônio Feijó, regente do Brasil imperial, costumava fazer retiros espirituais numa fazenda. Por coincidência, ali morava uma prima jovem, bonita e solteira, que ganhava um nenê exatos nove meses depois de cada um destes retiros. E foram vários esses recolhimentos. Narrar é viver e reviver. (xx)

sábado, 4 de abril de 2015

POR QUE É SANTA ESTA SEMANA?

http://www.jornalpp.com.br/colunista/item/91970-por-que-e-santa-esta-semana
POR QUE É SANTA ESTA SEMANA? Deonísio da Silva º Semana não foi originalmente o período que vai do primeiro dia (o domingo) ao último (o sábado). Veio do Latim “septimana”, feminino de “septimanus”, que marcava a “nona”, o 9º dia antes dos “idus” de cada mês, que caíam no dia 15 ou no dia 13, conforme o mês. Mês veio do Latim “mensis”, ligado a “mensus”, palavra que servia para medir as quatro fases da Lua. E também o ciclo da mulher, chamado por isso “menstruação” (+ ou – 4 luas). A Lua e o Sol ajudam-nos a contar o tempo, que, para os homens, tem como lema a doce recomendação bíblica: “em tua existência fugaz, goza a vida com tua amada companheira porque esta é a parte que te cabe dos trabalhos que suportas”. Ano, do Latim annus, círculo, tem este nome porque designa o período que a Terra demora para dar uma volta ao redor do Sol. A volta que ela dá ao redor de si mesma chama-se dia, do Latim “dies”, designando o espaço entre o nascer e o pôr do Sol, inicialmente. A parte escura em Latim é “nox”, noite. O Sol está em solene e solenidade... Calendário, do Latim “calendarium” veio de “calendae”, do verbo “calare”, convocar, designando o primeiro dia de cada mês, dia de pagar as contas, inclusive os impostos! Mas a semana santa começou de fato na quinta-feira, uma vez que ninguém chama os três dias anteriores de santos. Só os três últimos (quinta, sexta e sábado). Também a quaresma, que termina hoje, domingo, começou na quarta-feira de cinzas (18/2). Teve 45 dias. Ou no domingo de ramos (15/2), segundo alguns livros de referência, totalizando 48 dias. Mas quaresma veio do Latim “quadragesima”, aludindo ao número “quadraginta”, quarenta. Jesus marca o tempo (a.C. e d.C.) porque 4 dos 40 evangelhos escritos entre os séculos I e III contaram sua biografia. Como diz o narrador de “Avante, soldados: para trás”, não fossem os evangelistas, Jesus teria existido, mas ninguém saberia Dele! Donde este caráter sagrado da escrita, que é mais sacerdócio do que profissão. De resto, escritor é profeta, não porque diz o futuro, mas porque o interpreta ao narrar presente e passado! (xx)

sábado, 7 de março de 2015

NA ESTÁCIO, UM NOVO MODO DE ENSINAR PORTUGUÊS

Conheça mais sobre Deonísio da Silva: http://globosatplay.globo.com/gnt/v/1976630/ Deonísio da Silva recebeu da Universidade Estácio de Sá a missão de ser o guardião da Língua Portuguesa na Casa. Seu trabalho começa por coordenar a elaboração e organização de novos conteúdos, outras bibliografias e formas inovadoras de ministrar a disciplina nos cursos de graduação que a Estácio mantém em vinte estados da federação onde a instituição tem câmpus ou polos, presencialmente ou à distância. A ideia é valorizar a leitura, orientada durante as aulas e em domicílio, como recurso de ensino em novas modalidades, principalmente eletrônicas, em textos, áudios e imagens. Para isso, professores e alunos recorrerão a obras referenciais em domínio público, mas também àquelas que demandam cessão do devido copyright. ___________________________________________________
O escritor e professor Deonísio da Silva, Doutor em Letras pela USP, com vínculos na UFScar (pela qual aposentou-se como professor federal), na Estácio de Sá e na Unisul, onde desenvolve e coordena importantes projetos ligados ao livro, é mais conhecido como autor de contos e romances, tendo recebido prestigiosos reconhecimentos, como os prêmios da Biblioteca Nacional e o Prêmio Internacional Casa de las Américas, este último com o Nobel José Saramago na comissão julgadora. Mas ele é também autor de livros referenciais para o ensino do Português, como a "De onde vêm as palavras", "Palavras de Direito: o verdadeiro significado leva à clareza", " A língua nossa de cada dia" e "A vida íntima das frases". Ele faz há décadas trabalhos relevantes para apoio do ensino do Português e suas literaturas: em jornais, em revistas (como a de Etimologia, na revista Caras), na televisão, no rádio e em blogues. Seu programa "Sem papas na língua" que apresenta na companhia de Ricardo Boechat na Rádio Bandeirantes, às 5as. feiras, 10h, e na de Pollyanna Brêtas, às 2as. e 4as. feiras, às 20h30, tem enorme audiência e boa repercussão em todos os públicos, de diferentes faixas etárias e diferentes níveis de instrução. Entre os atuais trabalhos de Deonísio da Silva está a coordenação editorial da História da Literatura Brasileira de Carlos Nejar, ora publicada pela Unisul. Conheça mais sobre Deonísio da Silva: http://globosatplay.globo.com/gnt/v/1976630/

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

ANEDOTA É O QUE NÃO FOI PUBLICADO

Compro muitos livros pelas internet, mas nada substitui a livraria, onde você pode procurar novidades nas estantes, não nos “sites”, onde jazem escondidas em profundos sepulcros. Semana passada, visitava a Manu, minha filha, que me trouxe um filho, o Rodrigo, pois filha traz um filho, e o filho abandona os pais, e na Livraria Cultura, sem procurar, encontrei uma obra deliciosa. É “Enciclopedia degli aneddoti”, do italiano Fernando Palazzi, falecido em 1962, aos 78 anos. O autor escrevia para o “Resto del Carlino”, jornal de Bolonha, cujo nome faz referência a uma antiga moeda, dos tempos do estado pontifício, cunhada entre os séculos XIII e XVIII, conhecida como “carlino”, em referência à efígie de Carlos I (Carlo D’Angiò, na Itália; Charles D’ Anjou, na França). Ficou presente na expressão popular “dare il resto del carlino” a alguém, isto é, dar pouco, quando ela valia em torno de dez centavos da lira. Depois evoluiu para “dare ad ognuno il so avere” (dar a cada um o que lhe pertence, isto é, pouco ou menos do que deseja). No Português do Brasil é “dar a cada um o que merece”, mas num sentido vingativo. Outras são “regolare i conti” (acertar as contas), não em sentido matemático, e “pungolare i potenti i fustigare i prepotenti” (aguilhoar os fortes e açoitar os prepotentes). Em Português popular, “descer o cacete”. Eis algumas amostras destas anedotas. Quando menino, Beethoven, cansado de repetir as mesmas músicas ao violino, mudava as notas, desapontando o pai. “Não te agrada esta variação?”. “Agrada, mas primeiro aprende e depois inventa”. De Carlos IX, logo após o massacre dos protestantes em 24/8/1572, contemplando o cadáver de um almirante: “ como é agradável o fedor do inimigo assassinado”. Mecenas de escritores e de artistas, o mesmo rei francês disse deles: “são como cavalos de raça: devem ser bem alimentados, mas sem engordá-los, senão não correm direito”. O tirano Dionísio, depois de saquear vários templos, navegava de volta a Siracusa, sob ventos favoráveis e disse: “os deuses providenciam bons ventos para os sacrilégios”. Reclamaram de Bismarck que suas tropas tinham destruído animais empalhados do Instituto dos Cegos, na invasão da Itália. Ele reclamou: “Vocês fizeram pior: dispararam sobre nossos soldados, todos jovens, fortes e sãos”. O étimo de anedotas é o Grego “anékdota”, não publicado. Mas, quando publicadas, se a redação é boa, guardam os sabores deliciosos de como são contadas na fala. (xx)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

CARTAS COMPROVAM QUE AS CIGANAS MENTEM

Scone é um tipo de doce de farinha de trigo. O nome veio do médio Alemão schoon (bonito, puro) brood (pão). O presidente dos EUA (Einsenhower) e sua esposa gostaram tanto dos scones servidos pela rainha Elizabeth II, que pediram a receita. Ela a enviou por carta. “Ingredientes de scones para 16 pessoas: “bata os ovos (2) o açúcar (4 colheres grandes) e 50% do leite (2 xícaras); acrescente a farinha (4 xícaras), misture bem, adicionando o restante do leite, o bicarbonato (2 colheres pequenas) e o creme de tártaro (3 colheres pequenas); junte a manteiga derretida (2 colheres grandes) e misture tudo”. Esta e outras cartas estão no livro “Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis” (Companhia das Letras). Há outras igualmente curiosas. Groucho Marx escreve a Woody Allen, que estava magoado porque GM demorava já dezesseis anos para responder. Charles Dickens escreve ao “Times” propondo que a pena de morte seja aplicada em privado, não em público, como ele, horrorizado, tinha assistido. Fidel Castro, então com 12 anos, escreve ao presidente dos EUA (Roosevelt), pedindo “uma nota verde americana de dez dólares”. Elvis Presley, que colecionava distintivos policiais, pede mais um a Nixon: do Departamento de Narcóticos e Drogas Perigosas, oferecendo-se para ser dedo-duro Há ardentes cartas de amor e frios memorandos presidenciais. Num deles, Nixon é preparado sobre o que dizer em caso de desastre da Apolo 11 na Lua: “Neil Armstrong e Edwin Aldrin sabem que não há esperança de resgatá-los”. Beethoven escreve a seus irmãos revelando que sofre de surdez desde os 26 anos. Tem 32 e pensa em suicidar-se. Não o faz e duas décadas depois compõe a 9ª Sinfonia. Mário Puzo escreveu a Marlon Brando informando que terminara “O poderoso chefão”. A Paramount não quer MB no filme. Coppola faz apenas uma tomada e a exibe aos executivos. Eles mudam de ideia. Depois MB recusou o Oscar que ganhou pelo filme. Estas cartas mostram que viver é travar lutas. Umas, agradáveis. Outras, terríveis! (xx)