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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

ANEDOTA É O QUE NÃO FOI PUBLICADO

Compro muitos livros pelas internet, mas nada substitui a livraria, onde você pode procurar novidades nas estantes, não nos “sites”, onde jazem escondidas em profundos sepulcros. Semana passada, visitava a Manu, minha filha, que me trouxe um filho, o Rodrigo, pois filha traz um filho, e o filho abandona os pais, e na Livraria Cultura, sem procurar, encontrei uma obra deliciosa. É “Enciclopedia degli aneddoti”, do italiano Fernando Palazzi, falecido em 1962, aos 78 anos. O autor escrevia para o “Resto del Carlino”, jornal de Bolonha, cujo nome faz referência a uma antiga moeda, dos tempos do estado pontifício, cunhada entre os séculos XIII e XVIII, conhecida como “carlino”, em referência à efígie de Carlos I (Carlo D’Angiò, na Itália; Charles D’ Anjou, na França). Ficou presente na expressão popular “dare il resto del carlino” a alguém, isto é, dar pouco, quando ela valia em torno de dez centavos da lira. Depois evoluiu para “dare ad ognuno il so avere” (dar a cada um o que lhe pertence, isto é, pouco ou menos do que deseja). No Português do Brasil é “dar a cada um o que merece”, mas num sentido vingativo. Outras são “regolare i conti” (acertar as contas), não em sentido matemático, e “pungolare i potenti i fustigare i prepotenti” (aguilhoar os fortes e açoitar os prepotentes). Em Português popular, “descer o cacete”. Eis algumas amostras destas anedotas. Quando menino, Beethoven, cansado de repetir as mesmas músicas ao violino, mudava as notas, desapontando o pai. “Não te agrada esta variação?”. “Agrada, mas primeiro aprende e depois inventa”. De Carlos IX, logo após o massacre dos protestantes em 24/8/1572, contemplando o cadáver de um almirante: “ como é agradável o fedor do inimigo assassinado”. Mecenas de escritores e de artistas, o mesmo rei francês disse deles: “são como cavalos de raça: devem ser bem alimentados, mas sem engordá-los, senão não correm direito”. O tirano Dionísio, depois de saquear vários templos, navegava de volta a Siracusa, sob ventos favoráveis e disse: “os deuses providenciam bons ventos para os sacrilégios”. Reclamaram de Bismarck que suas tropas tinham destruído animais empalhados do Instituto dos Cegos, na invasão da Itália. Ele reclamou: “Vocês fizeram pior: dispararam sobre nossos soldados, todos jovens, fortes e sãos”. O étimo de anedotas é o Grego “anékdota”, não publicado. Mas, quando publicadas, se a redação é boa, guardam os sabores deliciosos de como são contadas na fala. (xx)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

CARTAS COMPROVAM QUE AS CIGANAS MENTEM

Scone é um tipo de doce de farinha de trigo. O nome veio do médio Alemão schoon (bonito, puro) brood (pão). O presidente dos EUA (Einsenhower) e sua esposa gostaram tanto dos scones servidos pela rainha Elizabeth II, que pediram a receita. Ela a enviou por carta. “Ingredientes de scones para 16 pessoas: “bata os ovos (2) o açúcar (4 colheres grandes) e 50% do leite (2 xícaras); acrescente a farinha (4 xícaras), misture bem, adicionando o restante do leite, o bicarbonato (2 colheres pequenas) e o creme de tártaro (3 colheres pequenas); junte a manteiga derretida (2 colheres grandes) e misture tudo”. Esta e outras cartas estão no livro “Cartas extraordinárias: a correspondência inesquecível de pessoas notáveis” (Companhia das Letras). Há outras igualmente curiosas. Groucho Marx escreve a Woody Allen, que estava magoado porque GM demorava já dezesseis anos para responder. Charles Dickens escreve ao “Times” propondo que a pena de morte seja aplicada em privado, não em público, como ele, horrorizado, tinha assistido. Fidel Castro, então com 12 anos, escreve ao presidente dos EUA (Roosevelt), pedindo “uma nota verde americana de dez dólares”. Elvis Presley, que colecionava distintivos policiais, pede mais um a Nixon: do Departamento de Narcóticos e Drogas Perigosas, oferecendo-se para ser dedo-duro Há ardentes cartas de amor e frios memorandos presidenciais. Num deles, Nixon é preparado sobre o que dizer em caso de desastre da Apolo 11 na Lua: “Neil Armstrong e Edwin Aldrin sabem que não há esperança de resgatá-los”. Beethoven escreve a seus irmãos revelando que sofre de surdez desde os 26 anos. Tem 32 e pensa em suicidar-se. Não o faz e duas décadas depois compõe a 9ª Sinfonia. Mário Puzo escreveu a Marlon Brando informando que terminara “O poderoso chefão”. A Paramount não quer MB no filme. Coppola faz apenas uma tomada e a exibe aos executivos. Eles mudam de ideia. Depois MB recusou o Oscar que ganhou pelo filme. Estas cartas mostram que viver é travar lutas. Umas, agradáveis. Outras, terríveis! (xx)

VIDA MISTERIOSA DO FUNDADOR DA NEWSWEEK

Meu artigo de hoje, 13/2/2015, no jornal O Globo.
Há poucos anos, um vídeo de apenas cinco minutos, feito pelo brasileiro Edson Bruno e exibido pela CNN, falado em inglês, mostrava que o fundador da famosa revista Newsweek está enterrado em Agrolândia, pequena localidade de apenas 9.323 habitantes, no interior de Santa Catarina, a 274 km de Florianópolis.
Em janeiro de 2015, estive lá, com o fim de pesquisar este novo mistério catarinense. Sou um detalhista apaixonado por minúcias. Nas biografias que leio, já nas primeiras páginas vou desconfiando de ninharias desprezadas pelos autores. Foi assim quando escrevia o romance Lotte & Zweig, cujas personagens solares são o escritor judeu-austríaco StefanZweig e sua esposa, a judia-polonesa Elizabeth Altmann. Donald Prater, o biógrafo inglês de Stefan Zweig, deu pouca importância ao diabo das pequenas coisas, presente na vida do casal. O jornalismo atual exagera no uso do telefone e da internet, ignorando fontes preciosas, só acessíveis aos olhos e aos ouvidos de quem vê e ouve para depois narrar. Quando estava na Espanha para escrever outro romance, Teresa d´Ávila, perguntei a um de meus interlocutores por que razão o túmulo de um dos Herodes estava no caminho para Ávila. Ele me disse: “Homem, a pessoa é enterrada onde morre”. Pois o fundador da Newswek, o aviador inglês Thomas John Cardell Martyn, derrubado pelos alemães na Primeira Guerra, está enterrado no cemitério de Agrolândia (SC). Ele está enterrado ali, mas sua perna direita, não! Ele a perdeu na queda e usava uma prótese mecânica. A Newsweek, fundada em 1933, tornou-se uma das maiores revistas de informação do mundo e chegou a circular em 132 países, com edições de 3,2 milhões de exemplares (agora, está apenas na internet). Thomas Martyn conheceu Irmgard Stahnke no Rio, onde ela trabalhava de doméstica, indicada por soldado de Agrolândia recrutado para a guarda presidencial. O certo é que se casaram em São Paulo, em 8/4/1961. Ela estava com quarenta, ele com 65 anos. Muitos anos depois foram morar em Agrolândia para que, quando o marido morresse, a esposa tivesse o amparo dos familiares. Mas ela morreu primeiro, em 1973, aos 53 anos, de câncer no útero, segundo a certidão de óbito. O irmão dela, o alfaiate Afonso Stahnke, atualmente com 79 anos, diz que o câncer foi no ânus e ela sofreu muito com um tratamento à base de cauterizações, feito nas semanas finais de sua existência. O marido, que tinha acrescentado Mary ao nome da mulher, declarou ao cartório, “por respeito”, que ela falecera de complicações cardíacas por causa de um câncer no útero. Mas pediu que o declarante fosse o cunhado. Martyn morreu em 1979, aos 84 aos, também de câncer, uma das maiores causas de morte na região. Talvez em decorrência de tantos inseticidas nas plantações de fumo. A maioria dos documentos foi queimada, como se faz com o fumo. Mas por quê? Este é apenas mais um dos mistérios na vida deste homem invulgar. (xx)

sábado, 7 de fevereiro de 2015

TELEFONE CELULAR VIROU PRAGA

(versão impressa desta crônica, amanhã, no PRIMEIRA PÁGINA)
“A praga tem este nome porque todos os telefones estão ligados por células fixadas em antenas postas em torres de tantos em tantos quilômetros, eu estava pensando nisso quando sentei ao lado da minha mulher, ela já dedilhava o seu celular, temos dois vasos, um ao lado do outro no mesmo recinto, daí levantei sacudi bem o dito cujo, coisa que as mulheres não precisam porque nelas nada é dependurado, lavei as mãos, escovei os dentes, ela continuava no celular, fiquei pelado, pendurei o pijama, abri o chuveiro, minha mulher continuava no celular, tomei um longo banho, me enxuguei, ela continuava no celular, eu lhe disse ’vou me vestir, tomar café e ir pro trabalho, hoje o dia vai ser difícil, veja como está começando’, ela disse ‘ok, bom trabalho’, mas eu só fui ver isso porque ao entrar no quarto o meu celular estava apitando, que coisa, ela preferiu me mandar uma mensagem pelo whatsapp a falar comigo, as relações, mesmo entre marido e mulher, estão deste jeito, me vesti, tomei café, saí e encontrei a vizinha que voltava da rua puxando dois cachorros, o pirralho caminhava ao lado, mãe e filho dedilhavam cada qual o seu celular, o porteiro estava dedilhando o dele também, desci para a garagem, meu vizinho estava saindo em seu carro, nem me olhou, estava falando ao celular aos berros, com o carro todo fechado, só percebi pela mímica raivosa, pensei em cometer algum ato que tirasse a todos daquele torpor, nisso se aproxima uma linda mulher com um shortinho feito de um guardanapo, uma blusa que apertava peitos e bunda siliconados, ela estava com um celular na mão e foi logo dizendo ‘poderia fazer uma foto minha para eu mandar pro meu marido?’, eu disse ‘só se for para a senhora mandar pro seu amante’, ela me disse ‘o senhor é vidente?’, eu disse ‘sou, a senhora quer de frente ou de costas?’, ‘de costas, claro’, ela disse, ‘meu marido ficou lá no banheiro dedilhando o celular e vai adorar receber uma foto minha’, eu só pensei ‘não há mais gente, estou cercado de repolhos neste condomínio”.

sábado, 31 de janeiro de 2015

67 PESSOAS SÃO DONAS DE MEIO MUNDO

Vi o filme “A Toupeira”, em Lisboa, quando ele foi lançado, em 2011. O romance em que foi baseado é “Funileiro Alfaiate Soldado Espião”. Publicado em 1974, é da autoria do escritor britânico John Le Carré, um professor universitário e diplomata que trabalhou no MI6, o serviço secreto inglês, cuja sigla quer dizer “Military Inteligence, section 6”. Lá pelas tantas, o ator Gary Oldman, na pele do espião George Smiley, o mais emblemático dos personagens de Le Carré, diz que o fanático tem um ponto fraco: ele sabe que está enganado, mas não reconhece isso. O conceito aparece quando Smiley conta a um colega que um espião russo seu amigo foi torturado por americanos, perdeu as unhas de todos os dedos e voltou para a URSS com fama de traidor, sabendo que ao chegar sofreria muito mais e provavelmente acabaria fuzilado. Corta para hoje. O livro mais lido do mundo atualmente é “O capitalismo do século XXI”, uma obra de economia e política, do autor francês Thomas Piketty. (No Brasil, perde apenas para o de Edir Macedo). A tese central é: o mundo deu uma virada. O capital rende muito mais do que o trabalho. Estão ficando incomensuravelmente mais ricos aqueles que vivem de rendimentos do capital. Nem sempre foi assim. Desde o pós-guerra até a década de 1980, o crescimento da economia, produzido pelo trabalho, rendia mais do que o capital. O mundo virou de tal modo que hoje 67 pessoas têm 1,72 trilhão de dólares, a mesma quantia que têm 3,5 bilhões de pessoas, isto é, metade da Humanidade. É aí que entra o fanático. Neste janeiro de 2015, os gregos tornaram vitoriosa uma coligação de extrema esquerda e com isso colocaram um cavalo de troia em frente aos portões da zona do euro. É um presente de grego. Resta saber quem são os fanáticos. Eles ou os europeus dominados pelos alemães! Na guerra em que os gregos venceram os troianos, o cavalo estava cheio de soldados. E agora? Não sabemos. Muitos dizem que no Brasil a toupeira é a presidente Dilma! Marta Suplicy já pulou fora. Outros indicam que vão fazer o mesmo. (xx)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

ETIMOLOGIA DE AFUNDAR,CÁTARO,GLIFO, LOBO MAU, PIRÂMIDE, TRUFA

Afundar: do mesmo étimo do Latim fundus, fundo, seja de mar, lagoa, rio, buraco, bolsa, bolso, recipiente etc., aplicando-se também a ordenações financeiras, como fundo de investimento, a fundo perdido e a sinônimo de realidade escondida (“no fundo, ele é uma boa pessoa”). Precedido de “a”, e com a terminação em “ar”, faz este verbo que designa ir para baixo, como acontece no mar em casos de naufrágios. Em 1943, já eram 36 os navios mercantes brasileiros afundados por submarinos alemães perto da costa catarinense durante a Segunda Guerra Mundial. Aliás, um destes submarinos, o U-513, foi recentemente localizado pelo velejador Vilfredo Schurmann. Foi levado a pique por um hidroavião americano no dia 19 de julho de 1943. O almirante Friedrich Guggenberger (1915-1988) e diversos outros oficiais foram salvos pelos próprios americanos, mas os corpos de 47 nazistas ainda estão no fundo do mar. Outro submarino alemão, o U-199, está no fundo do mar, nas proximidades da cidade do Rio de Janeiro. Cátaro: do Grego katharós, sem mancha, puro, pelo Latim tardio catharus, designando uma seita surgida no séculoi XI na Panônia, na Hungria atual, composta de cristãos que precederam São Francisco de Assis (1881-1226) na defesa e na prática da pobreza. Eles habitavam a região de Albiga, hoje Albi, na França, e por isso foram chamados cátaros abigenses. Depois de sofrerem perseguições das mais cruéis da História, foram exterminados no século XIII. A denominação “cátaro” foi propositalmente misturada ao Alemão Ketzer, feiticeiro, adorador de gato, herege. Os cátaros eram muito ricos e, segundo narrativas medievais – históricas, umas; lendárias, outras - boa parte dos imensos tesouros que guardaram foram levados à Itália. Glifo: do Grego glyphé, pictograma gravado em pedra, gravura, entalhe. Veio a designar sinais. É uma figura que dá um tipo de característica particular a uma figura. Neste sentido, são glifos os indicadores ordinais em forma circular postos ao ao lado dos números, à direita, no alto de cada um deles. Exemplos: 1º (primeiro, 2ª etc. São glifos também a arroba (@), as apas (“ “), o chevron (< >), a cerquilha, também chamada tralha e jogo da velha (#), o apóstrofo (‘), o asterisco (*), o ampersand (&), os dois pontos (, as reticências (...), o til (~), a barra (q), a barra invertida (\), o asterisco (*) etc. Lobo Mau: do Latim lupus, lobo, e malus, mau, designando animal real ou lendário, presente em numerosos contos de fada, fábulas e outras narrativas muito populares. O mais popular é Lobo Mau da história Chapeuzinho Vermelho, cuja estreia literária dá-se em 1697 no livro do funcionário público francês aposentado Charles Perrault (1628-1703), Contos da mamãe gansa. O autor baseou-se em fato real: um lobo de 65 quilos que havia matado várias crianças e adolescentes no interior da França. E os lobos reais ainda continuaram o terror dos pequenos em muitas localidades, até que, uma vez dizimados, foram confinados às páginas dos contos de fada. Pirâmide: do Egípcio pi-mar, pelo Grego pyramís, torta, bolo, de pyrós, grão. Desde os primeiros registros, esses famosos monumentos em forma de poliedros têm sido designados por comparação com gigantescos pães, tortas ou bolos. As pirâmides são o ponto mais alto dos cuidados dos antigos com os mortos. Certamente, as primeiras sepulturas tiveram duas funções: registrar o local onde foi enterrado o morto e proteger o cadáver da investida de ladrões, chacais e outros carniceiros. Foi o faraó Djoser (2670-2649 a.C.) o primeiro a erguer um sepulcro em forma de pirâmide com uma escada externa para que o morto possa subir até ao céu, para ficar junto ao deus Rá. No Vale de Gizé, a cerca de 25 km do Cairo, estão as pirâmides egípcias mais famosas: as que serviram de túmulo aos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, todos do 3º milênio a.C.. Mas este tipo de construção foi encontrado também em muitos outros países, como também o Peru e o México. Trufa: do Latim clássico tuber, tubérculo, pelo Latim vulgar tufera, depois truffa no Provençal e truffe no Francês. Designa fungo subterrâneo, de sabor e aroma agradáveis, e um bombom feito inteiramente de chocolate. Tem também o sentido de zombaria e troça, porque é em forma de trufa a bolinha que o palhaço põe na ponta do nariz com o fim de parecer engraçado. Pode ter havido associação com a dificuldade de encontrá-las, para cuja tarefa eram usados porcos (atualmente, os cachorros substituem os porcos porque os suínos comiam a maior parte do que encontravam), pois eles fuçam à procura delas, principalmente ao pé de carvalhos, álamos, aveleiras e salgueiros. As trufas podem ser brancas ou pretas, e provêm da Itália, da Itália, da Croácia, da Sérvia e da Eslovênia, os principais países exportadores. Como tempero, a trufa deixa o prato muito caro. Um simples risoto à parmigiana, se tiver frutas, chega a cerca de R$ 500 em restaurantes brasileiros. DE

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

ALGARISMO, CONTAR, DÍGITO, ROMANO: DE ONDE VIERAM ESTAS PALAVRAS?

Algarismo: do Árabe alkharizm, do nome do célebre matemático e astrônomo Abu Jafar Muhammad Ibn Musa Al-Khwarizm (780-850), natural da localidade de Kharizm, designando cada um dos caracteres que representam os números de zero a nove. Ele foi para Bagdá, no atual Iraque, a convite do califa Abû al-`Abbâs al-Ma'mûn `Abd Allah ben Hârûn ar-Rachîd, mais conhecido por Al-Mamum (786-833), que em árabe quer dizer "aquele em quem se tem confiança, que é leal”. Esse califa queria reunir os sábios do mundo inteiro na capital de seu império, com vistas a fazer de seu reino um centro que contemplasse todos os saberes. Contar: do Latim computare, cum, com, putare, julgar, relatar, considerar, donde reputação, de putus ou putum, de que são exemplos argentum putum, expressão aplicada ao dinheiro em prata pura, e putus, menino em Latim e ainda com o mesmo significado no Português de Portugal. Quando uma nova forma de contar e calcular chegou ao Ocidente, vinda do Árabe alkharizm, o Latim medieval adaptou a nova palavra para algorismus. Nas denominações da técnica e da arte de contar, não no sentido de narrar, mas no de fazer contas, houve influência das palavras gregas mathemátos, conhecimento, do verbo manthán, aprender, e de aritmós, número, donde aritmética. Dígito: do Latim digitus, dedo, seja da mão, seja do pé, quer de homens, quer de animais. Como o homem usou o corpo para medir o mundo - dedo, mão, palmo, braço, braça, pé, passo etc – o dedo pode ter sido a base do sistema decimal. Os dedos tiveram e têm também nomes: pollex, polegar; index, indicador; medius, médio, o maior de todos os dedos da mão, mas chamado de médio por estar no meio dos cinco: era chamado também summus (mais alto) impudicus (impudico, obsceno), infamis (infame, isto é, de má fama); quartus (quarto dedo) honestus (honesto), anularis (anular, porque ali era posto o anel de noivado, representando a aliança) e minimus, mínimo, mindinho. Esquina: provavelmente do Germânico skina, barrinha de madeira, metal ou osso, servindo de comparação com o Latim angulus. Assim, no encontro de uma rua com outra, dá-se uma esquina ou ângulo, semelhando encontro de ossos, de madeiras ou de metais em construções. Um exame atento aos algarismos indo-arábicos, assim chamados porque foram inventados na Índia e trazidos ao Ocidente pelos árabes, detecta nas formas originais com que foram escritos o número de esquinas ou ângulos em cada um deles. Assim, o número 1 tem um ângulo; o 2, dois; o 3, três, e assim sucessivamente, com exceção do zero, sem ângulo algum. Galho: provavelmente do Latim galleus, isto é, à maneira de galla, galha, excrescência de algumas árvores, para designar as extensões das quais saem os ramos, onde, por sua vez, estão presos folhas, flores e frutos. É palavra de múltiplos significados, ensejando muitos sentidos, de que são exemplos: galho como chifre, daí migrando para designar o marido traído, pois galho ou corno não deveria estar na cabeça do marido e, sim, na cabeça do boi; galho como amor ilícito ou relação extraconjugal; afluente de rio; briga e confusão, pois nelas, à falta de armas ou pedaços de pau, um galho servia: donde quebrar um galho, isto é, resolver um problema, que pode ser também literal, pois na mata, para abrir picada ou caminho, é preciso quebrar galhos; pôr o galho dentro, isto é, retirar-se da confusão, da discórdia ou da polêmica, aceitando decisão contrária: neste caso o galho é posto dentro de casa, sentido que migrou também para outros significados, como aceitar uma relação que era galho da árvore do casamento, trazendo a moça para dentro de casa; balançar o galho da roseira, proferida com ironia para designar o ato de eliminar gazes, soltar uns traques, naturalmente de cheiro desagradável, sem o odor das rosas desprendidas do galho com a sacudida; um galho de arruda sob o travesseiro atrás da orelha para dar sorte. Romano: do Latim romanus, de Roma, provavelmente adaptação do gótico hrôms, glória. Identifica algarismo em forma de letra e também um determinado tipo de caractere, além de ser referir a tudo que diz respeito a Roma e a seu famoso império, dono de quase todo o mundo conhecido até o século XV. Os algarismos romanos representavam os números com letras: I, V, X, L, C, D e M correspondiam a 1, 5, 10, 50, 100, 500, 1000. Os romanos não precisavam do zero porque não estavam interessados em cálculos e, sim, em determinar quantidades, contando animais, armas, objetos, soldados, pessoas. E durante muitos séculos toda a Europa, ignorando o zero, viveu muito bem sem ele. Mas a numeração romana persistiu nos nomes de papas, de reis, de séculos, de ruas, das horas nos relógios, dos capítulos de livros etc.

sábado, 24 de janeiro de 2015

BOI NA LINHA: A VACA TOSSIU E VAI PRO BREJO

A presidente Dilma garantiu que não mexeria em Férias, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, nem em hora extra: “Eu não mudo nem que a vaca tussa”. A promessa foi feita em 10 preciosos segundos: https://www.youtube.com/watch?v=J73sH0EI1Ig A dupla Tião Carreiro e Pardinho faz divertidos comentários cantados sobre expressões nas quais aparecem bichos, de que é exemplo “matar a cobra e mostrar o pau”. São 22 segundos: https://www.youtube.com/watch?v=tz3Scg7NBpE “Nem que a vaca tussa” designa impossibilidade. Mas a vaca tosse, dizem os veterinários! Orientada pelo marqueteiro João Santana, a presidente, então candidata, usou palavras e expressões que todo mundo entende. Os animais aparecem com frequência nas conversas. Outros exemplos são: “A vaca foi pro brejo”. Brejo é terra úmida, pantanosa, a vaca pode atolar-se, isto é, ir para o atol, lamaçal, de onde é difícil tirá-la. E lá ela mantém um “olhar de vaca atolada”. Parece de admiração, é que ela não pode fazer nada para sair dali. Outra: “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás”. Não é verdade. Não é o boi, que já é animal castrado. É o touro.
Outra: “Chutar o balde” é ainda pior do que “chutar o pau da barraca”. No primeiro caso, derrama o leite ou, se o sujeito vai ser enforcado, enforca-se o cara de uma vez. Outra: “Pensando na morte da bezerra”. Esta é de origem hebraica: bezerros e bezerras eram oferecidos em sacrifício; havia casos em que as crianças eram apegadas a eles e choravam. Mas de nada adiantava.
Mais uma. “Tem boi na linha”. Designa atrapalho, obstáculo, dificuldade. Boi na linha era sério problema no Brasil quando Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, construiu, no Rio, a primeira estrada de ferro, inaugurada no dia 30 de abril de 1854. Não foram colocadas cercas nas laterais dos trilhos e por isso era comum que os bovinos atravessassem a linha ou até deitassem sobre os trilhos. A expressão passou a ser aplicada também a escutas indevidas na linha do telefone. Quer dizer, os animais são eternos em nossas conversas. (xx)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

LEITE DA MULHER AMADA OU DA MÃE AMADA?

No Brasil, deu-se tradução libidinosa a um vinho branco, meio doce, de garrafa azul, importado da Alemanha. É o “Liebfraumilch” (leite da mulher amada). O nome é referência à “Liebfrauenstift Kirche” (Igreja de Nossa Senhora). “Milch”, em alemão antigo, é variante de “Minch” e “Monck”, monge. “Frau” é Senhora. E “Lieb” pode ser amada, bondosa, querida. Como se vê, o que era sagrado na Alemanha, virou profano no Brasil. Leites impossíveis aparecem em outras expressões, de que é exemplo “beber leite de galinha”, antiga forma de designar coisa rara e preciosa, mas impossível de ser obtida. Foi registrada nas comédias “Os pássaros” e “As vespas”, peças do grego Aristófanes ( entre séc. V e IV a.C.). Autores latinos, como Luciano e Petrônio, também mencionaram a raridade, mas Plínio, que cochilava e mentia mais do que Homero, atestou ter bebido leite de galinha, dizendo-o de gosto bom. Nas literaturas francesa, italiana e polonesa também encontramos essas impossibilidades. No Brasil, vindo de Portugal, chegou outro leite impossível, o leite de pato. Trabalhar a leite de pato é fazer o serviço de graça, e jogar a leite de pato é jogar sem envolver dinheiro. E o leite batizado? Antigos entregadores, aproveitando-se que o leite era gordo, misturavam-lhe água, fraudando aqueles a quem deveriam entregar leite puro. A expressão nasceu do gesto do padre, que, no batismo, derrama água sobre a cabeça da criança quando lhe administra o sacramento. Uma coisa santificada ajudou a designar atividade ilícita. O leite está também no pedido “me dá um pingado”, em que há elipse da palavra “leite”. O que se quer é um café no qual seja pingado um pouco de leite, isto é, que tenha mais café do que leite. Já esconder o leite é ocultar alguma coisa, como fazem as vacas durante a ordenha manual. Mãe amorosa, a vaca esconde o leite, que depois libera para o bezerro, condenado a ficar só com o apojo. Leite da mulher amada é libidinoso. Mas da mãe amada, como sugere o original em alemão, não! (xx)

FUNDADOR DA NEWSWEEK TRABALHOU PARA A CIA NO BRASIL

Thomas John Cardell Martyn trabalhou para a CIA, na operação Mockingbird, cujo objetivo era influenciar a mídia no mundo inteiro. Ele morreu em 1979 e está enterrado em Agrolândia (SC), localidade de apenas 9.000 habitantes. Foi o fundador da revista Newsweek, como está escrito em letras de metal no seu túmulo, ao lado da esposa catarinense Irmagard Stahanke. O número um circulou no dia 17 de fevereiro de 1933.
Com apenas sete fotografias, vendeu 50.000 exemplares. Mais tarde venderia 3,2 milhões, em 192 países. Hoje suas edições impressas saem em Japonês, Coreano, Polonês, Árabe e Turco. Tem também uma edição internacional em Inglês, mas a edição americana é eletrônica.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

NEWSWEEK E UM MISTÉRIO NO CEMITÉRIO DE AGROLÂNDIA (SC)

Cemitério de Agrolândia (SC). Vida misteriosa do fundador da revista Newsweek, que morreu na cidade natal de sua segunda esposa, a agrolandense com quem ele se casou em São Paulo, em 1969, quando ela estava com 28 e ele com 53 anos. É só uma palhinha que dou aos meus amigos do Facebook. Antes de fundar a revista famosa, em 1933, ele era piloto e foi abatido na Primeira Guerra Mundial, quando perdeu a perna direita. Soube dele por matéria da CNN, feita pelo brasileiro Edson Bruno, em inglês. Está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=aCwOFB8F3XU

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O BRASIL NÃO É MONOTEÍSTA, É HENOTEÍSTA

O Brasil integra a civilização ocidental cristã, que se diz monoteísta, mas acho interessante destacar esta miudeza: não somos monoteístas, pois temos muitos personagens ou pessoas tratados como deuses. Então, somos henoteístas. As palavras “henoteísmo” e “henoteísta”, até então desconhecidas da maioria de nossos ouvintes da Bandnews, apareceram no dia 1º de janeiro de 2015, no programa SEM PAPAS NA LÍNGUA, criado pelo jornalista Ricardo Boechat, depois de uma entrevista que fez comigo nos idos de março de 2011. Se alguém quiser o áudio, é preciso baixá-lo no Google Drive: https://drive.google.com/file/d/0B_onW3GxIVpMdlRxV2paaFBIX3c/view?usp=sharing Estas palavras, “henoteísmo” e “henoteísta” foram criadas pelo orientalista alemão Max Müller, falecido em 1900, aos 77 anos, quando estudava as três religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Elas têm um único deus, tido por supremo, mas não negam a existência de outros deuses. Na linha dos saberes históricos e religiosos do professor alemão, voltou recentemente ao assunto a professora inglesa Francesca Stavrakopoulou, de 39 anos. Na série de televisão da BBC, “Os Segredos Enterrados da Bíblia”, apresentada em 2011, ela comprovou que Jeová era casado com uma deusa chamada Asherath, abandonada depois do cativeiro da Babilônia, quando também o episódio da expulsão de Adão e Eva foi deslocado do meio da Bíblia para o livro de abertura, o Gênesis. Era preciso fazer uma releitura, mostrando que era a mulher (Eva) quem tinha errado, não o homem (Adão). Anjos, santos, santas e divindades afro-brasileiras evidenciam que somos henoteístas e não monoteístas, pois tais entidades são tratadas como deuses e deusas. Temos boas amostras desses cultos nos festejos de fim e de começo de cada ano. Não se pede a intercessão deles, pede-se a graça diretamente. Ou Iemanjá, mulher de Oxalá, mãe de Ogum e de Oxóssi, é intermediária de algum deus? (xx)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

FOLHINHA COM DIAS PRETOS E VERMELHOS. POR QUÊ?

SEM PAPAS NA LÍNGUA DE 1/1/2015 https://www.youtube.com/watch?v=a23945btJYw ETIMOLOGIA E CURIOSIDADES DOS CALENDÁRIOS Nada de Michel Teló e assemelhados! Nosso primeiro programa do ano na Bandnews FM 94,9 começou música de Beethoven e letra de F. Schiller,a companhia de Ricardo Boechat e Maíra Gama, que me acham onde quer que eu esteja. A "folhinha" remete às sibilas que escreviam em folhas de árvores as profecias do ano que começava. Feriados, domingos, e dias santificados têm a cor vermelha, remetendo ao Latim vermiculus, originalmente um verme de fornecia o pigmento para tingir as roupas dos nobres: civis religiosos, militares. Outro fornecedor era a púrpura, molusco de difícil captura. A caça e a pesca dos dois era proibida para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor. O cartão vermelho nos campos de futebol (proibição), o rubor nas faces (indicador de vergonha na cara, sentimento nobre-, os outros amarelam de medo...) e outros símbolos com essa cores nasceram aí.
O homem sempre olhou para cima, para o céu, de noite ou de dia, não apenas pelos fenômenos atmosféricos, mas porque foi originalmente coletor (de frutas: precisava saber as estações em que elas davam...), caçador (caçava à noite: noites claras, de Lua iluminando a mata, eram observadas com cuidado), agricultor, pecuarista. Precisava conhecer, medir, contar o tempo, pois a vida de todos era finita! Plantas, animais, pessoas envelheciam e morriam, cumprindo prazos para amadurecer, procriar, morrer.... Surgiram os calendários. Durante milênios, valeram outros, como os calendários egípcio, chinês, babilônico etc. Desde outubro de 1582, vale o GREGORIANO.
As formas de contar e medir o tempo sempre tiveram vinculações religiosas, mesmo depois que anos e meses foram cientificamente fixados. Ainda hoje notamos isso nas cores dos dias da folhinha, que marcam feriados (religiosos e civis). O arcebispo irlandês James Usher (1581-1656) exagerou: baseado em estudos bíblicos, disse que o mundo foi criado no dia 23/10, uma sexta-feira, de 4004 a.C., às 9h da manhã. O estudioso hebreu Dr. John Lightfoot (1602-1675), vice-chanceler da Universidade de Cambridge, construiu uma cronologia da história de genealogias bíblicas. Ele calculou que o mundo foi criado ao equinócio em setembro de 3298 A.C., à terceira hora do dia (9 da manhã). Tivemos que esperar o século XX, quando Rutherford e Boltwood determinaram a idade de pedras e minerais a partir de medidas de decaimento radioativo. Eles encontraram idades de 500 milhões de anos a 1.64 bilhões anos. Trabalho subsequente encontrou amostras de pedra tão antigas quanto 4.3 bilhões anos.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A SABEDORIA PAI D'ÉGUA DOS ALMANAQUES

Fim de 2014. Rotação e translação. A Terra vai enfim completar mais uma volta em torno do Sol, depois de 365 dias e algumas horas. Em torno de si mesma, ela faz o percurso todos os dias. O “quando” tem muito a ver com o “onde”. O tempo e o espaço são irmãos gêmeos. Júpiter leva 11 anos e 314 dias para dar uma volta completa ao redor do Sol. Você descobre a sua idade em Júpiter dividindo-a por 11,3. Este colunista tem 66 anos. Se vivesse em Júpiter (teria 66:11,3=) 5,8. O ano de Plutão é 248,09 vezes maior do que o da Terra. Parece paradoxal, mas se eu vivesse lá, ainda não teria nascido. Como se vê, a volta ao passado não é impossível. A sabedoria dos almanaques é, além do mais, divertida. E onde entram os bichos, as narrativas ficam ainda melhores. O chimpanzé (não é “chipanzé”, como tantos escrevem) adora formigas. E, para caçá-las, mete um galho seco no formigueiro. Os insetos atacam o inimigo, grudando no graveto. E ele se banqueteia com o espeto corrido. Já formigas africanas, ditas caçadoras, atacam um búfalo ferido e de lasquinha em lasquinha, em apenas dez horas, levam os 400 quilos do animal para o formigueiro. Em Jerusalém descobriram um tipo de barata atleta, capaz de correr um metro por segundo. Se jogasse futebol, seria um Garrincha: é capaz de mudar de rumo 25 vezes por segundo durante a corrida. A abelha não morre quando ataca outro inseto. Mas quando pica uma pessoa, a pele dos humanos não lhe permite retirar as pequenas hastes do ferrão: sai junto o abdome, e a abelha morre. Na Idade Média, por superstição, faziam armadilhas para matar gatos. Curiosos, eles iam verificar as arapucas, gerando o ditado: a curiosidade matou o gato. A maioria dos gatos mortos era de cor preta. Desde então é má sorte encontrá-los. Almanaque designa no Árabe o descanso das caravanas de camelos. É quando se contam histórias de todos os gêneros. Afinal, Xerazade ensina: narrar é adiar a morte. (*) Escritor e professor, da Academia Brasileira de Filologia, autor de De onde vêm as palavras (17ª edição) e de Avante, soldados: para trás (publicado também em outros países).

domingo, 21 de dezembro de 2014

O QUARTO REI MAGO

O QUARTO REI MAGO DEONÍSIO DA SILVA º Para Arlinda Volpato, artista plástica Recente manuscrito, encontrado em cavernas próximas de Quram, na região do Mar Morto, traz novas e surpreendentes informações sobre a vida de Jesus. A começar pelo título, que, diferentemente dos anteriores, aparece em letras grandes, encimando a narrativa, e não se chama Evangelho de Fulano, Beltrano, Sicrano ou Outro, mas simplesmente A Vida do Menino Jesus.
Escrito em sânscrito e de autoria feminina, é obra de uma donzela vinda da Índia, acompanhando Jesus, que lá esteve dos doze aos trinta anos, isto é, desde o episódio em que se perde propositalmente dos pais na visita ao templo de Jerusalém, quando então desaparece de todas as narrativas, até sua volta para a Galileia, onde começa a pregar, aos trinta anos. Um dos parágrafos mais desconcertantes é a visita dos magos ao menino, narrada até agora exclusivamente pelo Evangelho de Mateus, uma vez que todos os outros evangelistas o ignoravam ou o omitiram, por razões que desconhecemos. Afinal, os textos sobre o que se entende por A Vida de Jesus, isto é, sua biografia, principalmente os quatro canônicos ou oficiais, mais do que os apócrifos, estão repletos de insólitas contradições, de complexas sutilezas e de mistérios mirabolantes que já duram mais de dois milênios. Mas o que diz Mateus neste parágrafo que todos os outros omitiram? Não sabemos. O original perdeu-se e talvez um dia seja encontrado em outra caverna, preservado por bibliotecário ou bibliotecária anônima – sabemos que mulheres gostam muito de guardar tudo, começando por guardar o sêmen que recolhem dos homens para gerar outros homens, do contrário a espécie desapareceria. Guardar é, pois, prosseguir. Esta é a concepção que elas têm da vida. O que sabíamos da visita dos magos até agora estava exclusivamente nas traduções do texto de Mateus, que fez uma longa viagem, cheia de escalas em muitos portos e portas, fossem de entrada, fossem de saída. Partiu do aramaico, passou pelo hebraico, pelo grego, pelo latim e dali seguiu para muitas outras línguas, incluindo o português, trazido da Europa para o Brasil pelos primeiros navegadores que aqui aportaram entre os séculos XV e XVI. Diz Mateus em alguns poucos versículos do capítulo dois que “nascido Jesus em Belém da Judeia nos dias do rei Herodes, magos vieram do Oriente a Jerusalém para adorá-lo”. Mateus não disse que eram três, nem que eram reis. Não disse também o que nos informa Pradusta – só sabemos o nome da autora no final, pois ela data e assina o documento -, que entre os magos havia uma mulher chamada Asherath, que também estava grávida, e que não trouxe nem ouro, nem incenso, nem mirra, mas um jarro com água fresca. Mulher é assim: pode dar atenção a metais, unguentos e essências que melhorem o ambiente, mas jamais se esquece do essencial. Terminada a adoração, Pradusta diz que os outros magos deixaram a gruta, mas Asherath, não! Ficou conversando mais um pouquinho com o casal e com o menino. Entre as revelações surpreendentes estão estas: José e o menino também falaram. Sabemos que nenhuma criança nasce falando, língua é preciso aprendê-la, qualquer que seja ela, e que José jamais disse coisa alguma em nenhum dos evangelhos. Ele apenas faz o que é necessário para proteger e criar o menino. Desconfia, mas faz. Desconfia que não é o pai do menino, mas fica com Maria, por conselho recebido de um anjo em sonhos. Desconfia que Herodes quer matar o menino e, a conselho do mesmo anjo, de novo em sonhos, foge com a sagrada família para o Egito. Na História da Salvação, foi necessário que José morresse antes do Filho, do contrário teria impedido que ele fosse crucificado. O manuscrito está incompleto, mas vai fazer uma reviravolta na biografia de Jesus. Um comentarista já escreveu que o baralho foi o primeiro documento a reconhecer Asherath na rainha, mas Carlos Magno determinou que ela fosse representada no coringa. O manuscrito continua em exames, pois, sendo apócrifo, pode ser falso. (xx) º Da Academia Brasileira de Filologia, é escritor e professor. Seus livros mais recentes são De onde vêm as palavras (17ª edição) e o romance Lotte & Zweig, já publicado também em outros países.

MISTÉRIOS E SEGREDOS DO CALENDÁRIO

O ano de 2014 envelheceu e vai morrer no dia 31. No dia seguinte, vai nascer um bebezão que já tem nome: 2015. O calendário é irmão da agricultura e da pecuária, surgidas no Neolítico, quer dizer pedra nova (10 mil anos a.C.). Os homens tinham aprendido a fazer ferramentas e passaram a viver em povoações ou aldeias próximas aos rios, de modo a terem água para si mesmos e para os animais que tinham domesticado, como a vaca, a camela e a cabra, que davam leite para eles e para as crianças; e o boi, o camelo e o cavalo, nos quais eles montavam ou aos quais adaptavam carroças e arados, para irem de um lugar a outro, transportarem mercadorias e lavrar a terra para o plantio.
Tal como hoje, eles já precisavam de autoridades para dirimir rivalidades, palavra do mesmo étimo de “rio”. As primeiras autoridades foram os mais velhos. Tais resquícios ainda permanecem em modernos sistemas de poder. Senado tem o mesmo étimo de senex, velho, ancião. E as crianças sabem que podem recorrer aos avós, o STF delas. Os primeiros homens olharam para o Céu para organizar a vida na Terra. A agricultura, a pecuária e o calendário estão ligados ao poder, dado como de origem divina, a teocracia, em que a política é exercida por sacerdotes, intermediários da vontade dos deuses. Dois vestígios deste tempo quase imemorial são o papa e o calendário, chamado gregoriano, porque foi o papa Gregório XIII que, em 24/02/1582, decretou que naquele ano o dia seguinte a 4 de outubro fosse o dia 15. Aqueles dez dias foram para as calendas gregas. Calendário veio de calendae, o primeiro dia de cada mês, palavra do mesmo étimo de calare, convocar. Autoridades religiosas e jurídicas convocavam a todos para nesse dia pagar as contas.
No calendário, o dia e a noite são as medições mais antigas. Em segundo lugar vêm a semana e o mês, medidos pelas quatro fases da Lua. Em último, o ano, que mede o tempo (52 semanas, 12 meses) que a Terra leva para dar uma volta ao redor do Sol. O primeiro dia de nossas vidas é o aniversário. O último é um mistério. (xx) (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor federal aposentado, dá videoaulas à distância na Estácio (RJ), é colunista da Caras (SP) e da Bandnews (RJ), e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

ALGARISMOS ROMANOS. MAS, ALGARISMOS?

Este foi um dos programas mais ouvidos no ano de 2014! Foi sobre ALGARISMOS ROMANOS. MAS, ALGARISMOS? Por que razão os números têm a forma atual: o número 1 tem um ângulo; o número 2 tem porque tem dois; e assim por diante. ZERO, em árabe, tem o significado de VAZIO. Os romanos entretanto tinham apenas letras; I (um), V (5), X (10), L (50), C (100), D (500), M (1.000). O ano de 2014 é escrito assim: MMXIV De 1 a 10: I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X. De 20 a 100: XX, XXX, XL, L, LX, LXX, LXXX, XC, C. De 200 a 3000: CC, CCC, CD, D, DC, DCC, DCCC, CM, M, MM (2.000), MMM (3.000). Deonísio tem LXVI anos (66). Nasceu em MCMXLVIII (1948). Os algarismos arábicos na verdade são indo-arábicos, pois houve contribuição dos hindus na pesquisa que levou à invenção dos algarismos pelo matemático e astrônomo Abu Jafar Muhammad Ibn Musa Al-Khwarizm (nascido em 780; morto m 850), natural da localidade de Kharizm. Ele foi para Bagdá, no atual Iraque, a convite do califa Abû al-`Abbâs al-Ma'mûn `Abd Allah ben Hârûn ar-Rachîd, mais conhecido por Al-Mamum (nascido em 786; morto em 833). Esse califa (lugar-tenente de Deus na Terra, vigário, mesmo título do Papa) queria reunir os sábios do mundo inteiro na capital de seu império, com vistas a fazer de seu reino um centro que contemplasse todos os saberes. Os romanos não precisavam do zero porque não estavam interessados em cálculos e, sim, em determinar quantidades, contando animais, armas, objetos, soldados, pessoas. E durante muitos séculos toda a Europa, ignorando o zero, viveu muito bem sem ele. Mas a numeração romana persistiu nos nomes de papas, de reis, de séculos, de ruas, das horas nos relógios, dos capítulos de livros etc. números e ângulos.jpg

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

SETE COISAS QUE EU SEI SOBRE GAÚCHOS

SETE COISAS QUE EU SEI SOBRE GAÚCHO.
Morei muito tempo no Brasil meridional e aprendi o seguinte: 1) O Rio Grande é o único estado da federação que faz divisas com três países: Uruguai, Argentina e Brasil. 2) Os gaúchos acham que o Atlântico tem água salgada porque a indiada batia os espetos do churrasco perto de sangas, riachos e rios, que, claro, levaram toda essa água salobra para o mar. 3) Eles acham que o Sol é um fogo de chão que alastrou e ficou fora de controle e ninguém mais pôde apagar; de repente fica fraquinho, quando desce lá pelos lados de Uruguaiana, porque bate o minuano ou uma brisa vinda de Alegrete e ele diminui bastante; 4) Ensinam ciência errado nas escolas: a extinção dos dinossauros deu-se em razão de uma churrascada muito do exagerada que se fez; 5) O Saara antigamente era uma floresta com madeira muito apropriada para canzil, canga e... espeto; navegadores que saíram da Lagoa dos Patos em busca de lenha, trouxeram uns galhos de lá e desde então sempre voltaram para buscar mais; 6) Gaúchos vão pro céu: O Coiso não quer saber de pelear com eles na eternidade; 7) Gaúchas vão pro céu também porque lá o capataz é São Pedro: ele gosta de organizar uns fandangos aos quais até o Patrão comparece com Muié, Filho e Espírito Santo.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

DEONÍSIO DA SILVA: ENTREVISTA A BRUNA FÜCHTER NOS 130 ANOS DA HOEPCKE

Confira a entrevista com Deonísio da Silva, etimologista da revista CARAS 09/12/2014 Isto se chama etimologia, uma atividade fascinante em busca da origem das palavras. Ninguém melhor que ele, professor, etimologista brasileiro e autor de diversos livros premiados para falar conosco sobre o assunto: DEONÍSIO DA SILVA. Deo, como gosta de ser chamado pelos amigos, escreve há 20 anos uma coluna semanal de etimologia na revista CARAS, onde traz curiosidades sobre a origem das palavras. Conversamos com ele sobre seu trabalho e de onde vêm suas inspirações. Confira esta entrevista exclusiva abaixo (Bruna Füchter)
1- Você assina uma coluna na revista Caras sobre etimologia, ou seja, sobre a origem e o significado das palavras. Como você faz para escolher as palavras que serão abordadas? As palavras são escolhidas por vários critérios, mas damos atenção especial àquelas que estão na ordem do dia. Se os leitores repararem bem, as palavras que se destacam no dia a dia estão na revista CARAS. E de seis delas, toda semana, os assinantes e os leitores eventuais sabem a origem, de onde vieram, que escalas fizeram em outras línguas, o que significavam anteriormente e o que hoje significam. 2- O que “palavra” significa para você? Tudo! Com ela amamos, trabalhamos, lutamos, vivemos. Gente de palavra é gente séria. Os vários significados de "palavra", de que é exemplo a expressão "ser pessoa de palavra", isto é, honesta, faz coincidir o que diz com o que é e com o que faz. Mas "palavra" tem suas complexas sutilezas. Ela é meio estranha, provém de uma adaptação feita pela Igreja, que dominou o império romano do século IV ao XV: sua origem é o Hebraico "párehál", que passou ao Grego como "parabolé", virou "parabola" no Latim e "palavra" no Português. "No princípio era o Verbo". "In principio erat Verbum", na tradução do Grego ou do Aramaico, feita por São Jerônimo, para a versão Vulgata, da bíblia, diz o Evangelho de São João, o mais culto dos quatro narradores oficiais. O Alemão prefere "Wort", sempre com inicial maiúscula, mesmo no meio das frases, porque é um substantivo. E mesmo as palavras cruzadas os alemães chamam "Kreuzworträtsel" (eles nunca mexeram no trema!), em que o étimo de "Wort" está ali no meio. O Inglês prefere "word", que, aliás dá nome a um programa de informática para escrever. Mas línguas neolatinas, muito influenciadas pelo Latim eclesiástico, mantiveram o étimo vindo do Hebraico, do Grego e do Latim. "Parola", em Italiano; "parole", em Francês; "palabra", em Espanhol. Veja que, quando os Ingleses inventaram o sistema dos aristocratas consultarem também a burguesia urbana e os produtores rurais para as decisões de governo, eles trouxeram uma palavra de origem francesa, o "parliament", do Latim "parabolare", que deu "parlare" em Italiano e "parler" em Francês. Até o Alemão respeitou este étimo, aceitando "Parlament" em lugar de "Bundeshaus". 3- Qual o poder da palavra no dia a dia? Respondo com um trecho do romance "Avalovara", do escritor Osman Lins, professor da USP, que sei de cor, pois acho memorável: "A palavra sagra os reis, exorciza os possessos, efetiva os encantamentos. Capaz de muitos usos, é também a bala dos desarmados e o bicho que corrói as carcaças podres". Ou com Carlos Drummond de Andrade: "Lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos, mal rompe a manhã". Quanto a mim, me defino como "botânico e jardineiro das palavras". Botânico, porque as pesquiso e as ensino aos alunos e aos leitores. "Jardineiro", porque nos romances e contos, eu as trato como flores, para fazer buquês que, espero, levem bons aromas, novos significados, mensagens, entretenimento e segredos embutidos, como as flores. Não sou "gigolô das palavras", como se autodefiniu Luís Fernando Veríssimo. Eu as trato com amor! Aliás, não sou o único a fazer isso, claro. Sérgio da Costa Ramos, para mim o maior cronista do Brasil, faz isso tão bem ou melhor do que eu. 4- Você vem da literatura, já publicou diversos romances e contos. Como é para você escrever para uma revista? Quanto à linguagem, é preciso adaptar-se. O estilo não é o mesmo dos contos e dos romances, não pode ser o mesmo dos "papers" acadêmicos, senão meus textos não seriam entendidos pelo grande público, nem sequer lidos. Quanto a tamanhos e prazos, eu aprendi desde os meus verdes anos a ter disciplina no trabalho e em tudo o que eu faço, ou em quase tudo. Nunca atrasei uma coluna. 5- Há alguma palavra com significado especial pra você? Sim, muitas. Gosto muito de "açucena", uma planta ornamental, que veio do Árabe "as-susana", cujo étimo foi parar em nomes femininos em várias línguas, e que significa lírio, o tal copo-de-leite, como é mais conhecido no Brasil meridional. O "sim" é muito bonito, não apenas nos casamentos, mas nas concessões, nas ajudas, na solidariedade. João Cabral de Melo Neto tem um verso que diz "é tão belo como um sim numa sala negativa", em canção que o Chico Buarque gravou. "Não" também é bonito, ainda mais que tem este xibolete que só o Português, a língua do "ão", tem. 6- O que você gosta de fazer nos momentos de lazer? Ouvir música, principalmente clássica, ler, conversar com amigos, principalmente à beira de pratos e copos, comendo e bebendo, vinho principalmente, pois "in vino veritas" (no vinho, a verdade), e minha maior paixão, inclusive diante das pessoas, é pelo conhecimento, que, como sabemos, desde os tempos míticos do Paraíso traz a morte, pois morreremos disso desde a velha praga divina: "No dia em que comerdes do fruto da árvore do conhecimento, morrereis". Era o fruto proibido! 7- Atualmente mora onde? Vem com frequência vem a Florianópolis? Moro no Rio de Janeiro há doze anos! Desde que, pelo romance "Teresa D´Ávila", já adaptado para teatro, meus ex-colegas da infância e da adolescência me redescobriram, venho com muita frequência a Florianópolis para encontrá-los, principalmente ao Wilson Volpato, seus familiares e amigos comuns. Eu adoro a prosa catarinauta, tão rara em minha vida de expatriado do estado. Os catarinenses têm uma melodia na voz, falam cantadinho, um diapasão que eu perdi no rude sotaque de gaúchos e parananenses, nas palatais retroflexas fortes de paulistas e paulistanos, no chiado de cariocas e fluminenses. E desde há alguns anos, passo uma semana por mês em Florianópolis para desenvolver com Laudelino Sardá um projeto editorial na Unisul, a convite do reitor Salésio Herdt.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

PANDORA, LILI, EVA: TRÊS MULHERES COMPLICADAS

Os antigos gregos consideraram a esperança um dos males que afligiam o mundo. Por isso a colocaram lá no fundo da caixa de Pandora. Mas a caixa foi aberta e os males se espalharam. A esperança era um dos males porque poderia enganar os homens sobre o futuro, fazendo-os acreditar em coisas que jamais aconteceriam.
A doutrina da Igreja pensou diferentemente. Elaborada por sábios, homens experimentados, quase todos anciães, trouxe a esperança ao lado da fé e da caridade para que o trio formasse as três virtudes teologais. Se não foram velhos que as elaboraram, foram velhos que as sancionaram. A Igreja sempre deu preferência aos velhos em seus quadros dirigentes. Ainda hoje é dirigida por um colégio de cardeais, quase todos sessentões ou setentões, presididos por um deles, eleito por seus pares.
Depois, para alcançar o mágico número sete, vieram as quatro virtudes cardeais: temperança, justiça, fortaleza, prudência. Pandora, para os gregos; Lili, para os judeus; Eva para os cristãos. Três versões da criação da primeira mulher. Pandora foi encomenda de Zeus a dois outros deuses: Hefesto e Atena. Ela tem todos os dons, como o nome indica. Cada um dos deuses lhe deu uma qualidade: graça, beleza, persuasão, inteligência, paciência, meiguice, habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Prometeu avisou a Epimeteu, seu irmão, que não recebesse nenhum presente dos deuses. Mas ele se esqueceu da advertência e casou-se com Pandora.
A caixa que ela abriu era dele. Tinha ganhado de outros deuses de presente de casamento, mas deveria permanecer fechada. Nas três versões, a mulher leva o homem para maus caminhos. Esses mitos nascem na passagem do matriarcado para a patriarcado. Bom domingo para todos, na companhia de suas Pandoras, Lilis, Evas ou outros nomes. A essência feminina está em todas elas. (xx) º da Academia Brasileira de Filologia, escritor, professor de videoaulas à distância na Estácio (RJ), colunista da Rádio Bandnews (RJ) e diretor-adjunto da Editora da Unisul (SC).