NOME DE POBRE NO BRASIL

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O BUCENTAURO DA DOGARESSA

Em Portugal, algumas palavras que aqui não são palavrões, lá são. E outras que aqui são, lá não são. Certa vez fui comprar um casaco para a Soila em Lisboa e a vendedora ofereceu-se para experimentá-lo, perguntando se seu corpo era parecido com o de minha então esposa. Concordei. Ela ainda perguntou: “de bóias também somos parecidas?”. Devo ter dado ares de ignorar a palavra. Ela esclareceu: “como sua esposa é de catarinas?”. A dona resolveu ajudar: ”as tetinas de sua esposa são menores, maiores ou mais pequenas do que as da rapariga que está a experimentar o cabedal?”. Arregalei os olhos e a simpática atendente ainda disse: “As maminhas dela são mais ou menos assim?” – e tomou os próprios seios nas mãos para explicar.
Assenti e balbuciei um duplo “sim”, já meio envergonhado. Ela vestiu o casaco, olhou-se de perfil no espelho e, virando a cabeça para mim, puxou a parte de trás da veste e deu o fecho final no diálogo: “Este lhe cairá bem, pois cobre-lhe bem o rabo”. Este diálogo seria impossível sem risos no Brasil. Mas eis que, para ilustrar palavras de uso frequente no Português e outras de uso raro, numa das aulas que gravei na Universidade Estácio de Sá recentemente, recorri a dois escritores e jornalistas que sempre tiveram notável domínio de nossa língua. Um deles é Carlos Menezes, já falecido, autor de “Elesbão, o bleso”, que escrevia em "O Globo". "Elesbão sofria de ofíase e criava em casa um gimnuro". Outro é Carlos Heitor Cony, que escreve na "Folha". Cheio de verve, em 14 de março passado chegou aos 89 anos. Dele estou lendo “O harém das bananeiras”, de crônicas.
A uma delas comparecem um doge e uma dogaressa que, recém-casados, navegam pelo mar Adriático num bucentauro. Pois é. Dogaressa é feminino de doge. E o bucentauro é semelhante ao centauro, com a diferença de que a metade do corpo é de boi, não de cavalo. Dá nome a embarcação luxuosa ainda existente em Veneza. “Boûs” é boi ou touro em Grego. Viram? Nenhuma das palavras desta crônica é palavrão! (xx)